“Gritos do Silêncio”, uma análise

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Esse blog retorna às atividades depois de quase uma semana de folga.

Motivo: aproveitei o final de ano para rever meus pais em Porto Alegre, e resolvi passar uns dias em uma chácara totalmente ausente do mundo.

Às vezes é preciso passar um tempo sem acessar os e-mails para alcançar esse estágio de “desconexão”.

É claro que com isso os updates para o site também tiveram que parar.

Mas deixemos isso para lá, e falemos do assunto que quero trazer aqui. Uma análise do filme “Gritos do Silêncio” (The Killing Fields, 1984), dirigido por Roland Joffé.

Na dvdteca de meu pai este DVD estava lá, escondidinho, com um encarte até mal produzido. (Acho que ele comprou em alguma promoção)

E, imperdoavelmente, até hoje eu não tinha assistido.

Problema resolvido.

Resolvi encarar os 142 minutos de projeção e não me arrependi.

A história é centrada em dois personagens, o repórter Sydney Schanberg (Sam Waterston) e o fotógrafo Dith Pran (Haing S. Ngor), ambos do The New York Times, cobrindo os dias finais da Guerra do Vietnã.

Na época, ambos estavam alocados no Cambodja, que tinha sofrido um bombardeio norte-americano recentemente.

Quando o exército do Khmer Vermelho, de Pol Pot, decidiu tomar o poder, aí é que o banho de sangue se alastrou, e todos os cambodjanos que tinham uma veia mais intelectualizada foram perseguidos.

É claro que Pran seria perseguido também.

Abaixo, segue a cena (infelizmente, em espanhol, pois foi o que encontrei no YouTube) do momento em que a embaixada americana é evacuada, antes da invasão do Khmer Rouge na capital:

Enfim, após essa sequência, Pran decide permanecer na capital junto com Schanberg.

O problema é que quando o Khmer Rouge começa a perseguir todos os cambodjanos, Pran é capturado, enquanto Schanberg consegue fugir para os Estados Unidos.

Lá, Schanberg recebe o prêmio Pulitzer por sua cobertura jornalística da guerra do Vietnã e dos conflitos cambodjanos.

Enquanto isso, Pran come o pão que o diabo amassou nos campos de trabalho forçado (campos de extermínio, principalmente) do exército vermelho.

Mesmo assim, “Os Gritos do Silêncio” não é um filme de carnificina. Também não possui ação.

É mais um drama amargo, de ritmo até lento, mas com uma direção precisa e atuações estupendas.

Dentre essas atuações, a melhor de todas é a de Haing S. Ngor, que interpreta Dith Pran.

Foi seu primeiro trabalho profissional como ator.

No passado, ele próprio foi um sobrevivente dos campos de concentração de Pol Pot, e talvez por isso a sua atuação seja tão carregada de sentimento. Ela é genuína em todos os aspectos.

Abaixo, alguns momentos do horror cambodjano, também retirados do filme:

Hoje em dia, tanto Dith Pran como Haing S. Ngor estão mortos. Ngor morreu nos Estados Unidos em 1996, assassinado por criminosos.

Pran morreu em 2008, vítima de câncer pancreático.

Alguém poderá dizer: “Luciano, você estragou a surpresa do filme entregando o final!”

Mas que surpresa, se todos sabemos que Pran foi para os Estados Unidos após fugir dos campos de concentração e morreu recentemente por lá?

Assim, não considero essa revelação como um “spoiler”, e creio que isso não deva desmotivar ninguém de assistir ao filme.

O final, obviamente, mostra Pran conseguindo fugir dos campos de concentração e se encontrando com o amigo Schanberg.

E é aí que ocorre o momento mais irônico de toda a fita.

O reencontro de Pran com Schanberg acontece ao som de “Imagine”, de John Lennon.

Para quem não se lembra, a música é um dos temas de campanha de Richard Dawkins. Sam Harris também já a usou como forma de propaganda.

Claramente, é um lema marxista. Lembremos:  “Imagine… no religion… no possessions…no need for greed… all the people sharing all the world…”

Quer dizer. Seguir o que a canção diz foi exatamente o que o governo de Pol Pot fez.

Não sei se o diretor Joffé usou a música como forma de ironia.

Se fez, foi genial. E muitos não perceberam.

Mas se a usou seriamente, como emblema “anti-Guerra”, podemos elencar o uso dessa canção como a pior escolha para servir de pano de fundo na história do cinema.

No Cambodja, tivemos 2 milhões de pessoas mortas (para um país de 7 milhões de pessoas), o que proporcionalmente qualifica o país como o campeão mundial de genocídios, superando os regimes também marxistas da União Soviética e da China.

Só que ideologias como as que Lennon pregava em sua música são o suporte que esses governos encontraram para fazer suas atrocidades. Sempre em nome do “mundo ideal, sem injustiças”.

Como conclusão, gente como John Lennon não compunha letras “contra” a guerra, mas sim dando combustível para massacres.

Tecnicamente, a música de Lennon tem a mesma função de qualquer discurso de Pol Pot.

E por isso mesmo o final de “Os Gritos do Silêncio” deixa uma dúvida: será um fecho genial para um grande filme, ou um deslize de um diretor, comprovando que mesmo pessoas que denunciam horrores de um genocídio podem ao mesmo tempo serem apoiadores (conscientes ou não) destes genocídios?

Seja lá como for, ainda assim este é um filmaço.

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3 COMMENTS

  1. Não cocnordo que a música composta por John Lennon seja combustível para algum tipo de genocidio. Penso isto da mesma forma que encaro que terroristas que matam pessoas em nome de uma religião o fazem por sua vontade própria, e não por embasamento teológico. Lennon foi um pacifista declarado, atuante. Relacioná-lo com massacres e ditaduras é no minimo leviano da sua parte. Se você aprofundar seus conhecimentos sobre a biografia deste músico verá que ele nunca incitou nada que não seja a paz. Penso que você está cometendo um erro ao fazer este tipo de comparação. Ora, combustível para massacres….essa foi boa…um abraço Luciano

    • Uma coisa é não concordar. É teu direito. Outra coisa é contra-argumentar. O que ficou faltando. Ora, se estudarmos o discurso de John Lennon veremos que ele executa todos os padrões da mentalidade revolucionária: (1) vende uma utopia, (2) cria bodes expiatórios, para dizer que estes impedem esta utopia de ocorrer; (3) finge que é parte de um grupo construindo um “novo mundo”. É claramente uma mensagem humanista nos mesmos tons de todo o discurso de Pol Pot. É claro que esquerdistas como Lennon e Pol Pot sempre tentam “florear” suas iniciativas. Lennon dizia lutar pela “paz”, e Pol Pot por um “mundo justo”. Mas como esse “belo mundo viria”? Simples. Eliminando as posses das pessoas e tirando-lhes as religiões. É claro que Lennon tinha segundas intenções com a música. Seria o mesmo que eu dissesse que o “mundo será lindo, mas somente com a eliminação dos ateus”. Aí, quando algum ateu reclamasse, alguém defendesse que eu não pudesse ser acusado de nada, apenas de “mundo lindo”. Esse estratagema (de pegar a expressão “paz” e omitir todo o resto do discurso de Lennon) foi o que você tentou fazer. O argumento é claro e continua de pé. A música de Lennon é carregada de segundas intenções, tem as mesmas intenções de todo o discurso esquerdista, que é obter poder a custo do sofrimento dos outros. Lennon não pode ser perdoado por isso. Já no caso de pessoas que matam em “nome da religião”, como você alegou, isso não existe. Para isso, elas teriam que DISTORCER a religião. Já no caso de genocídios, basta executar À RISCA o discurso humanista, como o de Lennon.

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