Ceticismo, da política empresarial ao duelo ideológico

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Já falei mais de uma vez a respeito da essência do ceticismo, e como isso pode ser apreendido a partir de experiências organizacionais. Se podemos aprender como esfacelar as mentiras organizacionais, torna-se quase automático fazê-lo em relação a argumentadores/ideólogos.

Para ilustrar um exemplo do ceticismo corporativo, vou usar um exemplo de campo.

Imagine a Empresa X, que presta serviços de Gestão do Conhecimento para várias empresas de grande porte, ele elas a RKTEL (empresa fictícia). A conta da RKTEL está sob crise e vários líderes de atividades são considerados incapazes. O Gerente de Relacionamento, Maciel, que deveria defender a percepção do cliente começa a dizer que não há problemas na gestão das atividades. O Gerente Operacional, Getúlio, é colocado sob suspeita de incapacidade na gestão, mas estranhamente Maciel não o critica.

Eis que começa o questionamento sobre Maciel:

  • CONSULTOR: Maciel, estamos suspeitando de que há realmente incapacidade na equipe e isso não tem sido monitorado pelo Gerente Operacional.
  • MACIEL: Isso não existe. A equipe é totalmente capaz.
  • CONSULTOR: Podemos, então, considerar que a equipe é capaz? Interessante. Você estende esse julgamento para o líder de produção?
  • ACIEL: Completamente.
  • CONSULTOR: Soubemos que Getúlio definiu Hugo como o líder de produção ideal. Você endossa esse ponto de vista?
  • MACIEL: Sim, ele é excelente. Tem muita experiência.
  • CONSULTOR: Você sabe que para alguém se tornar líder aqui requer 6 anos de experiência na função e atuação em 3 diferentes contas, correto?
  • MACIEL: Concordo.
  • CONSULTOR: Ainda assim, você considera Hugo qualificado?
  • MACIEL: Ele é muito bom. Sim, o considero qualificado.
  • CONSULTOR: Por quantas contas o Hugo andou? E qual o tempo de experiência dele?
  • MACIEL: Eu não sei.
  • CONSULTOR: Mas você acabou de defini-lo como qualificado e aceitou os critérios para qualificação. Ok, vamos mudar de assunto. Pensamos que o Getúlio iria assumir a gestão do projeto de melhorias. Por que ele não fará?
  • MACIEL: Por que ele não tem tempo.
  • CONSULTOR: Como sabemos que o tempo dele está escasso?
  • MACIEL: Ele tem muita coisa para fazer.
  • CONSULTOR: Você já me disse isso antes. Quais são as atividades?
  • MACIEL: Ele fica o dia inteiro resolvendo problemas.
  • CONSULTOR: Quantos problemas ele resolveu essa semana? E o tempo médio utilizado?
  • MACIEL: Eu não sei quanto tempo, mas que ficou resolvendo problemas.
  • CONSULTOR: Perfeito. Temos aqui dois endossos: (1) Alegação de que Hugo é qualificado e atende os requisitos, (2) Alegação de que Getúlio não tem tempo de assumir o projeto. Posso levar as duas adiante?
  • MACIEL: Não, veja bem…
  • CONSULTOR: Aha…

Observem que duas alegações não comprovadas eram utilizadas por Maciel e serviam POLITICAMENTE aos seus objetivos, que era estabelecer uma aliança com Getúlio, mesmo que a conta da empresa estivesse em risco.

Para neutralizar o jogo político, o consultor optou por apelar ao ceticismo.

Tecnicamente, não há diferença dessa postura do consultor em relação ao que este blog defende, agora em relação aos neo ateus.

Duvidam?

Observem agora uma hipotética atuação de um neo ateu em um debate em um fórum (pode ser no Orkut), em que ele tenta usar o self-selling para cima de um religioso que optou por usar o ceticismo em relação à ele:

  • NEO ATEU: O que me diferencia é o fato de que cheguei a ser ateu por causa de muita reflexão. Então, você manteve-se teísta por ausência de reflexão.
  • REFUTADOR: Mas como você demonstra essa taxa maior de reflexão? Como ela é mensurada? E como comprovamos a mensuração?
  • NEO ATEU: O fato é que refleti mais.
  • REFUTADOR: Você já me disse isso antes. Mas ainda não demonstrou esse aumento de taxa de reflexão. Vou dar um exemplo. Alguém diz que o copo A está mais cheio que o copo B. Podemos medir o volume de água e descobrir que no copo A existem 200 ml de água, enquanto que no copo B existem 150 ml de água. Se ambos possuem a mesma capacidade, a alegação está comprovada. Como você mede e comprova essa maior “reflexão”?
  • NEO ATEU: Eu tenho mais liberdade.
  • REFUTADOR: Novamente temos uma alegação. Noto que você desistiu de seu argumento de auto-venda anterior e tentou outro. Se duas pessoas estão com correntes amarradas ao pescoço, e permitimos que ambas corram até onde a corrente os deixar, podemos medir. Por exemplo, a pessoa A pode correr 20 metros, enquanto que a pessoa B somente 3 metros. Logo, a pessoa A tem no mínimo 6 vezes mais liberdade de ação que a pessoa B. Isso é um exemplo de comprovação de liberdade. Como você comprova essa sua “maior liberdade” e como você a demonstra?
  • NEO ATEU: Eu tenho liberdade por que não preciso acreditar no sobrenatural.
  • REFUTADOR: Mas alguém poderia dizer que você perdeu a liberdade por não poder acreditar no sobrenatural. Ainda ficou faltando você demonstrar sua maior “liberdade”. Já são duas alegações não comprovadas até agora.
  • NEO ATEU: Mas como você quer que eu prove minha maior liberdade?
  • REFUTADOR: O alegador é você. Achei que você tivesse preparado um Power Point, com gráficos e estatísticas, e como confirmaríamos esses números…
  • NEO ATEU: Isso é ridículo.
  • REFUTADOR: Mas pelo menos eu não aleguei algo para tentar me vender sem ter provas para justificar essa venda.

Neste caso também tivemos duas alegações que serviriam para beneficiar o neo ateu em seu jogo político, e ambas não puderam ser levadas à frente única e exclusivamente por um fator: o questionamento.

Quando começamos a pensar ceticamente, transformamos argumentos, ideologias, propostas políticas e tudo o mais em alegações, e a partir daí somos testadores dessas mesmas alegações.

Fazemos os alegadores suarem frio durante essas extensivas sessões de questionamento? Possivelmente.

Mas conseguimos reduzir muito risco, seja organizacional ou social, somente com esta ação.

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