Enfim, o ceticismo político

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Depois de uma semana fora por causa de uma viagem ao interior, o blog reinicia suas atividades.

E, em períodos de descanso, nada melhor do que realizar reflexões.

E foi justamente em uma dessas reflexões que encontrei o rótulo que precisava para definir o que este blog sempre defendeu: ceticismo político.

Antes de tudo, é preciso dizer o que é política nos termos definidos aqui.

Avaliação política nem de longe é apenas o ato de olhar para o que o presidente, os deputados e os governadores fazem. Estes são apenas políticos profissionais.

Política é muito mais do que isso.

Para fins de definição, vamos então descrever o que é política:

Política é um termo que engloba toda e qualquer ação, discursiva ou não, que tem o objetivo de trazer vantagem a um indivíduo ou grupo em relação a outros indivíduos/grupos.

Ainda para fecharmos nossas definições, vamos descrever o que é uma alegação política:

É toda e qualquer afirmação que tem caráter político.

Agora, este blog já pode ser redefinido de acordo com essa nova terminologia: um blog de ceticismo político criado por um conservador.

Ora, se eu sou um conservador, naturalmente executarei o ceticismo político em relação às afirmações de meus adversários políticos, que são os esquerdistas e humanistas.

Alguém poderia objetar: mas não podemos executar o ceticismo político contra os conservadores?

Claro que podem. Na verdade, o ceticismo político pode ser executado em direção a qualquer grupo que execute afirmações políticas.

E,para facilitar, vamos então diferenciar uma afirmação política de uma afirmação convencional.

Uma afirmação convencional teria o seguinte formato:

Há um fantasma em meu quintal.

Esta afirmação, naturalmente, poderia ser investigada no melhor estilo James Randi, mas não configura uma afirmação política, pois quem a proferiu não está obtendo vantagem a partir do aceite de sua afirmação.

Vamos agora a um exemplo de uma afirmação similar, de caráter político:

Há um fantasma em meu quintal, e este fantasma é um representante divino. Este fantasma me ditou algumas regras dizendo que todos devem fazer tudo o que eu mando.

Esta já é uma afirmação política, pois o mero aceite desta afirmação garantirá BENEFÍCIOS a quem a proferiu.

Uma forma bem fácil de identificar se estamos diante de uma afirmação política se baseia em realizar o questionamento: “Em relação à afirmação sob julgamento, há alguém ou um grupo que obterá benefício direto a partir do aceite da afirmação?”

Se a resposta for sim, temos uma afirmação política. Se a resposta for não, temos uma afirmação convencional.

Todo ato de questionamento em relação à afirmações políticas configura um ato de ceticismo político.

Há quem diga que Bertrand Russell iniciou o ceticismo político.

Mais ou menos.

Russell, ao contrário, usou uma máscara de ceticismo político para executar um caminhão de afirmações políticas.

Mesmo em momentos quando ele aparentava ser cético, ele mais fazia alegações políticas do que outra coisa.

Vamos a um exemplo da tonalidade que permeava todo o discurso de Russell.

Geralmente, ele começava dizendo que o não-questionamento era ruim e que todos os males do mundo se originavam do não-questionamento. Por isso, ele dizia que o cidadão mais sadio era aquele que questionava tudo, inclusive a si próprio. Ele concluía dizendo que ele vivia questionando a si próprio.

Qualquer estrutura discursiva conforme a acima já é uma afirmação política.

Vou reescrever o discurso de Russell, agora sob a forma de silogismo:

  • O mundo é ruim por causa das pessoas que não questionam (o não-questionamento é a raiz de quase todos os males)
  • Por isso, questiono tudo, inclusive a mim próprio
  • Logo, sou mais confiável e acredite no que digo

O discurso é claramente focado em obtenção de vantagem política. Russell queria simplesmente ter mais receptividade para suas idéias e portanto fingiu lutar pelo ceticismo quando na verdade fazia afirmações que não passavam pelo menor crivo cético.

Querem ver?

Faço um desafio aos leitores de Russell (isso se algum deles ainda ler este site) para que estes provem que na cabeça do autor haviam mais dúvidas do que na cabeça de seus oponentes. (Lembro que em nenhum livro ele comprovava isso)

Ora, se a afirmação dele é política, o meu questionamento a ele é o ceticismo político.

Desta maneira, o material de Russell, antes de defender o ceticismo político, fornece uma série de alegações que podem servir como EXERCÍCIO para alguém que queira executar o ceticismo político.

Revendo a estrutura de propaganda de Carl Sagan, somente para termos mais um exemplo. O discurso de Sagan era mais ou menos assim:

  • Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois todos eles tem necessidade de acreditar
  • Quem pensa cientificamente não acredita em coisas que não sejam provadas
  • Eu sou cientista que pensa cientificamente
  • Logo, sou mais confiável e acredite no que digo

Não é preciso dizer que todo o discurso de Sagan não passa de repetição ad nauseam desta alegação, obviamente política, e que pode ser facilmente questionada e esmagada.

Agora, se já ficou claro o “timing” (e este é o momento em que seu oponente faz uma afirmação política) em que devemos disparar a metralhadora do questionamento cético, o negócio é colocar as mãos à obra.

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7 COMMENTS

  1. Luciano,

    Não sei se já escreveste sobre este tópico, mas fica aqui a sugestão:

    – Eu estava a pensar em comentar a alegação ateísta que se resume com a frase “Quando usas a palavra ‘Deus’ não sei do que é que estás a falar”. Acho que isto é mais uma técnica cujo propósito é só perder tempo.

    O militante ateu sabe o que nós queremos dizer com a palavra Deus [Transcendente, Criador, Invisível, Eterno, 4xOmni (Omnipotente, Omnipresente, Omnibenevolente e Omnisciente) ] mas tenta usar essa técnica para esvaziar o entendimento que todo a gente tem.

    Vi isto num debate entre o filósofo Greg Bahsen e o ateu George Smith (a partir de 2:55 até 3:20).

    Curioso que o mesmo ateu mais tarde define Deus (3:40).

    Como disse, pensei em fazer um comentário em relação a isso, mas estou certo que podes desenvolver o tema melhor.

    Abr.

  2. Bom post, varias pessoas se dizem ser questionadores, ceticos, e que os outros devem “ser assim” também. Mas… “assim como”? Parecido com eles? hahaha’ Esse negoço de “auto se vender” é muito suspeitoso, deve-se ter muito cuidado pra não cair numa dessas. Afinal esses “apelos” só servem de propaganda mesmo.

  3. Olá, Luciano.
    Mesmo que o objetivo de Russel fosse o de atrair a atenção e a aceitação dos leitores para a sua ideologia(e eu não duvido disso), a descrição citada não implica necessariamente em tal conclusão. Primeiro, foi apresentada uma premissa, esta que, não consistindo em uma análise, nem ao menos definindo o que há de ser o mal ou o questionamento, assim como os critérios utilizados para se chegar a esta conclusão, pouca validade argumentativa apresenta. Depois, tendo-se rotulado um objeto vago como sendo o princípio do mal, foi dito que o ser que a ele evita é sadio, e que Russel, o evitando até mesmo no que diz respeito a si mesmo, é sadio. Creio que está bastante evidente que o discurso de tal filósofo é bastante inconsistente, mas, talvez pela própria inconsistência de sua abordagem, as implicâncias lógicas não recaem sobre uma questão de confiança, embora muito provavelmente assim o desejasse seu autor. Adequando o perspectivismo à nossa realidade conhecida, ainda assim os objetos de avaliação utilizados por ele continuam insuficientes e inválidos, mesmo que desconsideremos a invalidade da premissa. Ao que queremos chegar ao “questionar”? Em que consiste esta saúde? Porque a ela deve-se almejar? Assumindo-se tal discurso como cerne da mensagem do filósofo, ele nada nos apresenta exceto a ideologia política(que não possui valor algum, a não ser para aqueles que desejam vender a si mesmos em prol de uma imagem qualquer).
    Não digo, porém, que um ideólogo nada pode apresentar, mas que sua idéia, sem embasamento, nem como objeto de estudo há de servir, exceto quando o estudo em questão consiste em refutação. Colocando-se uma idéia em uma posição superior ao próprio ser, como podemos dizer que não estamos a trair o pleno desenvolvimento de nossa consciência, ou que nossas mentes encontram-se livres da presunção? Claro que toda sensação reconhecida pode ser vista como pensamento(segundo um certo ponto de vista), e que, quando encontra-se sob o nítido prisma da linguagem verbal, facilmente poderia ser definida como idéia, mas não é neste ponto que encontra-se o objeto de minha crítica.
    Devemos, antes, separar a idéia como forma da idéia como afirmação. Um ideólogo, ao utilizar-se de uma idéia, pretende colocá-la em uma posição que supostamente transcende o ser, quando a mesma consiste em sua ideologia, ou, quando não consiste, em última análise pretende mostrá-la como objeto de confirmação. Não proponho aqui que deixemos de ter constatações ou que deixemos de reconhecer fatos, mas, de certa forma, algo que implica no contrário: minha proposição é a de que nossas convicções e pensamentos deixem de ser exaltados além do ser, que livremo-nos a mente da presunção e que a política, não podendo ser salva ao empreender-se uma análise minuciosa, deixe de representar-nos. Ora, nossas convicções tornar-se-iam menos nítidas ou válidas ao serem apenas parte do fluir de nosso pensamento(embora possam ser exprimidas)? Não consigo ver como isto seria possível, a não ser que o indivíduo em questão deseje ver nisso uma crise da razão, entregando-se ao niilismo explícito. Muitas das questões que envolvem um ser humano consistem em niilismo e auto ilusão, mesmo quando apresentam-se, respectivamente, como fé religiosa ou racionalismo, sendo esses, não raramente, os casos mais comuns, embora não sejam tão facilmente reconhecíveis quanto seria o caso de um homem que entregou-se à bebida gratuitamente e alienou-se de diversas questões.
    Alguém, porém, pode dizer “mas uma ideologia pode estar correta”, ao que respondo “correta em que sentido?”, afinal, existem muitas implicâncias e fatores que circundam uma decisão, que possui natureza sempre dúbia, enquanto que transformar uma idéia em ideologia há de, não apenas agravar este já existente caráter e a ele adicionar um terrível prejuízo ,como levar a identidade daquele que a transformou a um estado absurdo. Mesmo que a ideologia em questão esteja, em um certo âmbito, correta, isto não isenta-lhe de consistir em algo completamente depauperador.
    Por que vivemos? Há, por acaso, algo que credite valor ao processo de existência de um ser que assume posição de consciência semelhante ao do ser humano? Muitos dizem que não, que a morte acaba com todo o sentido da vida humana, alguns até mesmo utilizando-se disso como argumento teísta, adicionando a tal perspectiva a ausência de um valor moral ou sentido fundamentais, enquanto alguns ateus também se utilizam da mesma idéia, com o objetivo mais comum de defender a resignação ao niilismo explícito. Isto, porém, é uma constatação completamente errônea, considerando-se que tal sentido não possui qualquer definição e que nem ao menos mostra-se necessário. Ora, se consideramos que a morte é universalmente absurda, estamos apenas a vedar-nos a visão. Todas as realizações feitas em vida são bastante frágeis, não apenas no que tange à manutenção de seu estado, mas também no que se refere à natureza das mesmas. Podemos dizer que, independente de sermos ou não imortais, de nada vale tudo que fizemos.
    Todo o valor que surge em nossas mentes deriva de um fenômeno estético, com exceção daqueles que nada significam ou cujo valor estende-se a algum fator exterior, mas que acabam por ter uma implicância estética ou pouco consistente, no último caso o mais comum sendo uma significação bastante reduzida. Ao viver-se, o que se espera da vida? Bem, aqueles que se encontram sob completo domínio do niilismo, raramente esperam algo, exceto aquilo que consiste na fuga do mesmo ou em sua resignação. Aqueles, porém, que apesar de poderem ter alguma relação com o mesmo(talvez exageradamente forte), mas não encontram-se sob seu domínio completo, certamente vivem graças à estética(que nem sempre há de aparecer como estética), a não ser que encontrem-se em alguma espécie de crise ou em uma situação especial, que geralmente envolve sacrifícios.
    Não defendo, porém, um ideal esteticista, que resuma tudo à sensação, talvez generalizando uma grande variedade emoções humanas e impedindo seu discernimento, ou até mesmo negando qualquer espécie de valor ético em uma simples resignação a um desígnio hedonista . Este objetivo está bastante longe de ser o meu, parecendo-me, em certos níveis, mais uma resignação niilista do que um processo de vida dotado de valor estético(embora certas experiências e idéias esteticistas possam ser interessantes, principalmente em uma abordagem artística). O que quero dizer aqui é que o que torna nossas existências prazerosas, em um sentido mais abrangente, é, em última análise, a estética .
    Neste ponto, retomo à minha crítica às ideologias. Uma ideologia pode exercer certo fascínio em uma certa pessoa, assim como o poder político, social ou econômico derivado da mesma também o pode, mas tal fascínio é de pouquíssimo valor, estando sempre à mercê da presunção. Ao livrar-se, porém, das ideologias, nossas constatações tornam-se, novamente, constatações, emancipando-se do cárcere da presunção, o que adiciona uma potencialidade infinita à mente humana. Tal potencialidade não pode estender-se de todas as formas, e não implica em mudanças sociais ou ao bem público(embora possam acabar por surgir), assim como pode ceder a alguma crise. Não proponho aqui algo de valor social, mas pessoal, assim como não o proponho sob uma imagem de perfeição. O que proponho é apenas a extinção de um fator que pode se mostrar como prejudicial, e que nos impede de descobrirmos melhor aqueles que realmente somos. É neste ponto que pretendo distinguir um ideólogo de um pragmático(no que se refere à consciência): um ideólogo vive pelas idéias e, em última análise, como uma idéia, enquanto que um pragmático vive como ser e, ao pensar, cresce, seja pela auto-escuta ou pelo diálogo.
    A sociedade, porém, em muito depende de decisões e, por mais ambivalente que seja a sua natureza, elas devem, neste âmbito, serem tomadas. Considerando-se, porém, que a sociedade é um conjunto bastante imperfeito e, principalmente, distinto de nós mesmos, e que a ideologia serve apenas para privar-nos da liberdade que a mente humana possui para desenvolver-se, não há um único bom motivo para que vivamos como figuras sociais, em um significado mais amplo, sendo, ao contrário, algo completamente danoso. Sugiro aqui, pois, que haja uma separação entre a identidade e a posição social.
    Devemos interagir em sociedade e, em certos momentos, tomar decisões, mas não devemos ser, em essência, um ser político e social, mas um ser humano, deixando que a sociedade e a política ocupem posições periféricas. No que tange à atuação política, creio ser um erro dividi-la em esquerda e direita, principalmente porque implicam em paradigmas ideológicos.
    Mudanças bruscas e violentas propostas por aqueles que costumam ser definidos como esquerdistas mostram-se, sim, bastante danosas, mesmo que os mesmos tenham, em alguns casos e segundo um certo ponto de vista, boas intenções, excedendo o simples anseio por poder político. Do mesmo modo, o jogo político empreendido pelos mesmos também mostra-se prejudicial e presunçoso, mas o conservadorismo pode, em seu conjunto, apresentar idéias também defeituosas, que poderiam ser rejeitadas sem que uma consequência prejudicial ocorresse. Sou bastante céptico a respeito daqueles que dizem não poder-se abandonar qualquer preceito conservador sem destruir ou danificar significantemente a ordem social, assim como daqueles que dizem possuir a chave para a perfeição social. A ordem social é bastante defeituosa, embora existente, mas preceitos que se mostram danosos não hão de originar, em sua extinção, um prejuízo considerável.
    Quando estes preceitos dizem respeito também à consciência individual, creio ser ainda mais absurdo aceitá-los, considerando-se que estaremos nos transformando em uma simples figura social, esquecendo-se daquilo que somos. Poderiam dizer, em resposta a isso, que não aceitá-los é não entender o próprio ambiente, mas trata-se de um erro fatal. A identidade de uma pessoa não deveria existir em prol da sociedade ou até mesmo da História, se a pessoa em questão deseja que suas experiências sejam dotadas de valor estético e que seu pensamento veja-se livre da presunção. Ao aceitar esta idéia absurda, o ser está vendendo-se, está deixando de ser um ser humano para ser uma simples imagem, idéia ou objeto. Ao aceitarmos que nossas consciências sejam moldadas para adequarem-se a um ambiente social idealizado, estamos cometendo o mesmo erro que os esquerdistas reacionários e violentos cemetem, em um nível que pode mostrar-se ainda mais prejudicial, sob certas perspectivas. Talvez a violência exterior dos mesmos seja maior do que a que caracteriza tal idéia conservadora, mas a violência cometida contra si mesmo neste caso é, se não maior, equiparável.
    Tal proposição de aceitação inclúi, em seu conjunto, a característica de visar um padrão social “perfeito” em relação à interação humano-ambiente, enquanto que uma ideologia esquerdista visa um corpo social perfeito. Ambas as idéias são depauperadoras e bastante inconsistentes, servindo como exemplo do quão inadequado é tal enquadramento ideológico(embora, apenas por ser ideológico, no sentido aqui abordado,já se mostrasse inadequado). Se uma pessoa é teísta ou ateísta, ela não o deveria ser para satisfazer um paradigma social, mas sê-lo por um processo de desenvolvimento pessoal.
    Este é mais um exemplo de dano causado pelo idealismo, sendo preferível expurgá-lo em um nível pessoal, substituindo-o pelo que defini como pragmatismo. Não seria apenas uma mudança de postura, mas uma transição muito mais abrangente, que poderia vir a originar um renascimento da mente, processo pelo qual a auto-confiaça poderia surgir de forma legítima, o ego e a consciência se desenvolvendo. Talvez a forma como aqui defini idealismo seja diferente do conceito que muitos poçam depreender de tal termo, creio, porém, que minha abordagem mostra-se coerente, e que tais divergências não hão de ser significantes à mensagem do texto, cujo conteúdo há de sobreviver a tais detalhes.
    Desde já, agradeço a atenção.

  4. Percebi um erro gramatical gravíssimo em minha resposta e, portanto, o corrijo, considerando-se que o mesmo me incomoda. É *possam, e não poçam. Peço desculpas.

  5. Olá!

    Juro que tentei ler o seu texto com a maior abertura possível, tentando aceitar seus argumentos mas não consegui deixar passar as falsas premissas encontradas.

    Não leve isso como uma ofensa, é apenas uma crítica.

    Forte abraço!

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