O ceticismo como a “bola do jogo”

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Na série “Um Novo Ceticismo” (nesta seção do site), composta de 9 textos, que fiz entre 2010 e o inicio de 2011, falei de uma nova perspectiva do ceticismo.

Era a idéia do ceticismo político, ou, melhor, o ceticismo aplicado às alegações políticas. Para quem se lembra, uma alegação política é aquela que, se aceita, dá vantagens ao grupo ou pessoa que fez a alegação.

E voltando à metáfora do ceticismo como a “bola do jogo”. (A forma como vejo que o ceticismo deve ser executado em debates)

Tente imaginar um time de futebol, vamos dizer por exemplo o Internacional, que estaria jogando contra o Grêmio. Suponha que o técnico do Grêmio tenha enlouquecido, e em uma disputa de 10 partidas, decidiu NÃO FICAR COM A POSSE DE BOLA um segundo sequer.

Funcionaria da seguinte forma: o Grêmio, a cada momento que estivesse com a posse de bola, deveria automaticamente passá-la ao Internacional. Logo, somente o Internacional teria a posse de bola. Os resultados, obviamente, seriam apenas favoráveis ao Internacional.

Vamos supor que, nos 10 jogos, o Internacional tenha ganho metade, somando 15 pontos nesses 5 jogos. Nos outros 5 jogos, teria somado 5 pontos (1 ponto por jogo). O Grêmio teria somente 5 pontos (também 1 ponto por cada um dos 5 jogos empatados). Na soma final, Internacional com 20 pontos e o Grêmio com 5.

Isso, é claro, só pôde acontecer por que o Grêmio não teve a posse de bola. Logo, em um empate, o placar seria 0x0, pois o Grêmio jamais faria gols. Fato: sem ter a posse de bola, o Grêmio viveria em uma situaçaõ em que somente perderia perdendo.

E o que isso tem a ver com o ceticismo em debates? Praticamente tudo.

Senão vejamos.

Imagine que você esteja em um fórum da Internet e apareça um humanista afirmando o seguinte:

  • HUMANISTA: Eu sou contra a religião, estou do lado da ciência, da razão, e portanto da justiça!
  • CONSERVADOR: ….

Placar do debate acima: 3×0 para o humanista.

É importante prestar atenção nisso, pois coisas assim ocorrem o tempo todo.

Traduzindo o que o ocorre: o humanista, no diálogo acima, vendeu a idéia ao público de que ele é melhor que seu oponente em 3 aspectos: na posse da ciência, da razão e da justiça. Simplesmente, ele obteve o apelo à autoridade somente por DECLARAÇÃO.

E como reverter isso? Simples. Entendendo o ceticismo como a “bola do jogo” e os debates entre adversários políticos como uma partida.

Vamos utilizar a seguinte abstração. Existem duas formas de pontuação:

  1. Realizar uma alegação política, vantajosa para si próprio, e não ser questionado pelo oponente
  2. Ouvir uma alegação política, vantajosa para o oponente, descobrir que ela é questionável, e a partir daí questioná-la

Em relação ao item 1, caso ele aconteça, o ponto vai para quem realizou a alegação. PELO SIMPLES FATO do não questionamento da outra parte.

Já no item 2, é possível que exista um revés: imagine que a alegação feita é questionada, e descobre-se no final que a alegação era boa. Nesse caso, o alegador pontua, e o questionador fica sem pontuar. Mas, se a alegação for inválida, o questionador pontua, e o alegador, naturalmente, não pontua.

A lógica é simples, mas é preciso ter uma certa prática para NÃO DEIXAR PASSAR EM BRANCO nenhuma alegação que tenha efeito político.

Vamos a um exemplo em que um conservador deixa de praticar o ceticismo e perde:

  • ESQUERDISTA: Estou do lado dos pobres, da justiça, e você do lado dos poderosos.
  • CONSERVADOR: …

Placar: 3×0 para o esquerdista, por 3 alegações não questionadas pelo conservador. (1 – Esquerdista estaria do lado dos pobres, 2 –  Esquerdista estaria do lado da justiça, 3 – O conservador estaria do lado dos poderosos)

E agora mostrando o conservador assumindo a posse do ceticismo, como um bom time de futebol faria ao tentar recuperar a posse de bola sempre que possível.

  • ESQUERDISTA:Estou do lado dos pobres, da justiça, e você do lado dos poderosos.
  • CONSERVADOR: Como você prova que está do lado dos pobres? Eu duvido. Terá que provar, e não ficar apenas no gogó. Dizer que está do lado da justiça é afirmação sem valor algum. Não te serve. Ou prova ou não prova. E quando você diz que estou do lado dos poderosos, eu duvido. Terá que provar que estou mais do lado dos poderosos do que você. Eu já suspeito que você é que está do lado dos poderosos. Quer tentar provar?

Se o esquerdista partir pro “veja bem”, o placar é 3×0 para o conservador.

Uma regra de ouro que uso em debates é estar com a bola do jogo, ops, o ceticismo, na maior parte do tempo.

E, se você fizer uma alegação, que ela seja basicamente baseada em fatos, e não alegações que você não consiga provar. (Chamo a isso de self-assessment)

Com o tempo, executando esse modelo, comecei a ver que o uso do ceticismo em debates acabou tornando-se uma característica minha. Praticamente como um novo instinto.

É mais ou menos como dirigir. Mesmo quem não usa carro automático, normalmente nem costuma pensar coisas como “que marcha eu coloco agora?”. Em muitos casos, o  ato de dirigir já foi para o DNA.

E, inicialmente, ainda pensaríamos, “quantas vezes estou de posse do ceticismo neste debate” ou “qual minha pontuação?”.

Mas depois de um tempo, a prática se incrusta no cérebro e já nem precisamos pensar na execução do ceticismo como um duelo ou jogo sistemático.

Mas até lá, há um longo caminho de prática pela frente. Como se fossem artes marciais.

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6 COMMENTS

    • O Snowball é cristão e foca em filosofia, enquanto o Ayan é agnóstico e foca em política. Além disso, eles diferem em outros pontos específicos (ex. Ayan tem um conhecimento monstro de Administração, etc)

      • Nada é mais diferente do que duas coisas superficialmente parecidas.

        (Essa frase – incoerente – serve apenas como frase de efeito. Pensem nela xD).

  1. “Se o esquerdista partir pro “veja bem”, o placar é 3×0 para o conservador.”

    Legal! No fundo isso já quebra a máscara do esquerdista parcialmente, provando que ele é quem está do lado do mal.

    “Mas até lá, há um longo caminho de prática pela frente. Como se fossem artes marciais.”

    Exato! Na verdade é um combate, mesmo. Só q no campo das idéias. E se por acaso houver algum artista marcial aqui, ele constatará a analogia.

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