Ceticismo emburrado? Não, otimista!

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Certa vez vi um filme no qual um investigador de fraudes era desafiado por um charlatão, que lhe dizia: “Deve ser muito melancólico viver a vida assim, sempre procurando por uma fraude, sempre procurando a armação.”

O investigador lhe disse, em retorno: “Talvez. Mas pensando por outro lado, sobra muito pouca coisa com o que se desapontar.”

Obviamente, uma postura como a que defendo, focada em um virulento ceticismo, especialmente quanto ao homem, pode ser encarada como uma postura “emburrada”. Alguns esquerdopatas até tentariam bradar “reacionário, reacionário”.

É importante notar a diferença, até tênue, entre o ceticismo em relação ao sobrenatural e o ceticismo em relação ao homem. Como é de graça, eu pego os dois pelo preço de 1.

De qualquer forma, o ceticismo no sobrenatural pode envolver coisas como “há um lobisomem no quintal” ou “apareceu um fantasma no banheiro”.

É difícil imaginar pessoas levando benefício político com alegações assim. É claro que o ceticismo aplica-se perfeitamente a esse tipo de afirmação.

Mas o mais crítico é a crença no homem. Não significa acreditar que o homem exista ou não. Eu acredito que o Homo Sapiens exista. O mundo está lotado deles. Não há canto da Terra onde não existam exemplares de Homo Sapiens.

Quando falo em descrença no homem, são coisas como ausência de crença na bondade inerente do ser humano, no “nobre selvagem”, no animal com “instintos bons, somente corrompido pela sociedade”. Ou, a crença mais abjeta, a de que o homem poderá, por sua ação, levar a humanidade a praticamente um paraíso em Terra. É praticamente acreditar em anjos na Terra.

É este ceticismo, aquele focado em questionar o ser humano, que tende a ser considerado mais “carrancudo” do que o ceticismo quanto à quiromancia ou leitura fria. Talvez por que muitas pessoas estejam acostumadas a achar ideologias de esquerda como se fossem coisas normais. Não são. São doutrinas que devem ser rotuladas de religião política.

Mas ainda quero tratar a questão desse tipo de ceticismo ser questionado e considerado até “desnecessário”. Vou mostrar um argumento para levantar a urgência desse tipo de ceticismo.

Para isso, tente visualizar como é sua vida HOJE com o uso de diversas aplicações na Internet. Imagine o uso de aplicações corporativas, na qual você não compartilha sua senha com ninguém. Mais ainda, note as senhas utilizadas, buscando padrões sofisticados de encriptação. Ou até mesmo os mecanismos de detecção de invasão de rede, que podem identificar acessos indevidos aos sistemas. Ou então a gravação de IPs, que pode ajudar a rastrear fraudes em compras online.

Enfim, eu poderia citar dezenas de exemplos de MECANISMOS DE CONTROLE, que são aplicados de forma metódica em relação a… lobisomens, vampiros, assombrações? Não, são aplicados exatamente em relação a seres humanos.

Quer dizer, o ceticismo é aplicado de maneira profissional por um corpo de profissionais de Segurança da Informação e Auditoria de Sistemas, além de outros Consultores com Ênfase em Proteção de Sistemas, que tem como função o CETICISMO em relação a seres humanos.

Ou seja, é a FALTA DE CONFIANÇA na idéia de que pessoas são inerentemente boas o que torna o SEU ACESSO À TECNOLOGIA muito mais seguro do que seria caso a existisse fé cega nas mesmas pessoas.

Uma crença boba e iludida em pessoas poderia afrouxar os mecanismos de segurança. E aí, com certeza, você teria muitos mais motivos para ficar preocupado.

Mas eis que algum esquerdista espertinho poderia objetar: “ei, Luciano, mas então significa que você confia em pessoas para garantir sua segurança?”

Nem isso. Eu confio em PROCEDIMENTOS especificos, que somente passam a ser seguros a partir da implementação do SEGREGATION OF DUTIES. Ou, em português bem claro, SEGREGAÇÃO DE FUNÇÕES.

É mais ou menos o seguinte. O Administrador do Banco de Dados não poderá ser o responsável pelos Testes de Liberação do Sistema em Ambiente de Produção. Já a própria Liberação do Sistema em Ambiente de Produção será auditada por uma PARTE EXTERNA. De preferência, uma consultoria independente, que não esteja na mesma folha de pagamento que os auditados.

E tem alguém no universo corporativo sério que não é auditado minuto a minuto? Sim. Os executivos sêniores, que, por sua vez, passam por outro tipo de checagem, além da possibilidade de serem punidos judicialmente por quaisquer desvios que ocorrem debaixo de seus narizes e que tenham sido originados em atos desleais contra a organização.

Como se vê, ninguém confia em ninguém.

Se há um lugar onde o ceticismo ocorre dia após dia, esse lugar é o mundo corporativo, principalmente das empresas que possuem ações na Bolsa. E não vejo ninguém reclamando.

Quer dizer, vejo sim. Mas em geral são alguns profissionais que gostariam de aplicar um “bypass” nos controles de segurança. E isso geralmente não é lá muito bom sinal…

E, novamente, somente a existência desse tipo de ceticismo, que ocorre em quantidade muito mais volumosa do que em debates, é aquilo que permite que sejamos OTIMISTA em relação à segurança dos valores entregues pelas organizações, desde bens de consumo (ex. um carro, um serviço) até o uso dos sistemas de informação disponibilizados pelas empresas (ex. Internet Banking).

A mensagem que defendo aqui é que o ceticismo não é para ser usado da boca para fora. Não é para alguém sair feito leitor de Carl Sagan saltitando, de forma peralta e serelepe, clamando: “Olha, sou cético, prestem atenção, sou cético viu!”. É um modelo SISTEMÁTICO e IMPLACÁVEL de questionamento e desmascaramento, que não deixa passar fraudes intelectuais.

Ao duvidarmos de alegações de cunho político, estamos criando uma situação onde desonestos não obtenham vantagens que não deveriam obter. Estamos evitando a carteirada e o apelo à autoridade.

Podemos nos tornar muito mais OTIMISTAS em relação à interação intelectual com outros grupos políticos com esse ceticismo.

E quando falo em otimismo em relação à interação, não significa que devemos nos tornar ingênuos e baixarmos a guarda. É o oposto.

Aliás, já sabem o que ocorre com empresas cujos sistemas de segurança são “afrouxados”, não?

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6 COMMENTS

    • Juliano, para ser cético não é preciso viver sem CRENÇA ALGUMA, até pq isso é impossível. Mas, por exemplo, quais crenças eu teria que comprovar? Dificil, pois muitas delas são fatos. Exemplo: o baixo nível de confiabilidade do ser humano. Qualquer investigação mostra que é muito mais lúcido duvidar da “bondade natural” do ser humano do que confiar nela. Mas estou interessado em quais as crenças que eu teria e que seriam de difícil defesa. Abs, LH.

      • Os métodos investigativos que você utiliza para constatar que a bondade humana deve ser posta em dúvida como sinal de lucidez, por exemplo. Você se utiliza de métodos, você pesquisa. E os fundamentos desta pesquisa são objetos de crença para você. Claro que eu percebo a diferença de postura que você adota, ficando na defensiva, se permitindo apenas minar os argumentos adversários. Mas os céticos também têm de prestar contas, pois quando você diz que algo não é do jeito que o outro pensa, então você deve ter algum parâmetro para fazê-lo. Aí é que eu digo que você tem crenças, que não é um cético genuino, como sexto empirico ou górgias. Sua postura é admirável, pois conhecer os limites das afirmações é a única maneira de consertá-las!
        Forte abraço
        Juliano

  1. Mas dizer que “o ser humano é bom, é a sociedade que o corrompe” é uma auto-contradição! Afinal, o que é a sociedade senão um conjunto de seres humanos? E se esses seres humanos são todos bons, quem foi que corrompeu a sociedade?

    • Realmente, partir desta afirmação é uma fria tremenda. Não sei se o ser humano é bom, sei apenas que ele dá mostras de bondade, assim como de maldade também. A questão é: Como nós queremos ser? Ter isto em mente ajuda na construção de estado de coisas melhor, pois vai tornar clara nossas intenções. No entanto a resposta para a pergunta é dificil, pois os pontos de partida para estas respostas são muitos, e incluem delírios acima de tudo! Bom, assumir uma postura crítica e auto-crítica já é um começo. E digo mais, este blog cumpre este papel. Forte abraço

  2. “leitor de Carl Sagan saltitando, de forma peralta e serelepe, clamando: “Olha, sou cético, prestem atenção,… viu!”. Hehehehe…

    Quer experimentar um otimismo duradouro em suas relações? A única forma é se tornando cético através de uma série de estudos.

    Obrigado Luciano!

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