Rótulo: Cético universal

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Última atualização: 21 de dezembro de 2011 – [Índice de Técnicas][Página Principal]

Essa técnica é executada através do recurso de verbos não-especificados e tem objetivo único de colocar alguém em uma situação em que a pessoa somente questiona, mas não é questionada.

Parece absurdo? Mas é exatamente isso o que ocorre principalmente com leitores de Carl Sagan e Bertrand Russell. Ambos os autores eram mestres nesse truque. Seus leitores provavelmente executam este recurso em altíssima quantidade.

Para imaginar o potencial de controle de frame dessa técnica, tente visualizar hipoteticamente você em um cargo gerencial em uma organização, obtendo o direito de jamais ser questionado. Ou seja, não será jamais julgado por nada. Em contrapartida, um outro gerente rival sempre será questionado por você. Logo, automaticamente você está em vantagem.

Por não ser jamais questionado, erros teus não poderão ser identificados. Já com o outro gerente rival, basta que ele dê uma pisada na bola que seus erros aparecerão. Pois ele é questionado. A partir daí, você conseguirá, se quiser, demitir esse rival em questão de semanas.

E como isso ocorreria? Muito simples. Bastaria que você executasse um truque psicológico convencendo que sua única função é “questionar”, ao passo que o outro está plenamente passível de ser questionado.

Em debates políticos, esse estratagema é executado pelo convencimento de que um grupo é o “questionador”, enquanto que o oponente está no grupo a ser questionado. Caso esse recurso psicológico seja aceito, o grupo a ser questionado perante um “questionador” (que não seria questionado) já perdeu o debate.

Vejam uma demonstração lógica: Imagine que o grupo 1 faça 5 alegações. E o grupo 2 também faça 5 alegações.

O grupo 1 só questiona, portanto as alegações deles não precisam ser questionadas (tecnicamente podem, mas imagine que a platéia psicologicamente vê o grupo 1 como questionador, e não como questionado). Já o grupo 2 é questionado, portanto suas alegações podem (e devem) ser questionadas.

Sendo que nenhuma das alegações do grupo 1 será questionada, este grupo já conseguirá implementar suas idéias, enquanto o grupo 2 terá que fazer esforço para implementar as suas.

A jogada é mais simples do que parece. Basta ter demarcado um território na mente da platéia, na qual você é visto como o questionador, pura e simplesmente (e para o qual não devem ser feitos questionamentos), e que a outra parte serve para ser questionada. Esse é o ponto em que a vitória estará garantida no debate.

Agora veja a implementação do truque.

Imagine que alguém substitui a expressão “Eu vou para São Paulo” por “Eu vou”. No primeiro caso, o efeito psicológico seria de alguém que vai para a cidade de São Paulo. Outro poderia até perguntar a ele: “Quando você vai?”. No caso da expressão “Eu vou”, pode-se passar a impressão de alguém em constante movimento. É claro que alguém poderia perguntar a ele “Você vai para onde?”, mas em caso de ninguém perguntar há uma diferença muito grande entre “ir” ou “ir para São Paulo”.

Esse é o recurso do verbo não especificado. Retira-se praticamente tudo após o verbo, e as afirmações ficam mais “amplas”.

Existem outros exemplos ainda mais interessantes. Veja a expressão “Eu ajo com energia sempre que o sistema CRM é invadido”. Agora deixe o verbo não especificado e troque pela expressão “Eu ajo”. Se ninguém perguntar, essa auto-rotulação pode definir alguém como uma pessoa sempre em ação, e portanto há um efeito psicológico positivo e que transcende em muito a expressão original.

No duelo político, temos um exemplo explícito: os ateus, céticos em relação à existência de Deus (e acreditam na inexistência de Deus), enquanto que os teístas são céticos em relação aos argumentos ateístas (e acreditam na existência de Deus). Note que o ateu pode ser crédulo em relação a muitas outras coisas, como humanismo.

Assim, um ateu raivoso do tipo neo ateu poderia ser questionado por um teísta em relação a seus argumentos para a inexistência de Deus. Assim como ele poderia questionar um teísta em relação a seus argumentos para a existência de Deus.

Eis então que o truque é finalizado, com o uso do verbo não especificado. O ateu passaria, neste caso, a afirmar  “sou cético” ao invés de “sou cético quanto a existência de Deus”.

Para que isso funcione, este ateu irá atribuir a si mesmo o rótulo “cético”, e portanto, aquele que duvida, ao passo que os outros teriam que serem validados por ele. Seriam os “crédulos”.

Observe que o truque tem efeito puramente psicológico, e pode ser quebrado com várias afirmações e ridicularizações da posição dele.

Por exemplo, imagine que ele afirma: “Eu sou cético, me demonstre”. Responda: “Você é cético quanto a que?”. Ele poderia dizer: “Eu sou cético quanto a tudo”. Responda: “Eu sou cético quanto a tudo que você está afirmando”.

Lembre que o objetivo é mostrar à platéia que o outro não é um “Cético”, mas sim alguém “Cético em relação a algo”, assim como alguém não é um “Fazedor”, mas sim um “Fazedor de alguma coisa”. Expressões como “fazedor”, “cético”, “comprador”, “atualizador”, sozinhas, não significam absolutamente nada. Ora, se alguém “atualiza”, está “atualizando alguma coisa”, se alguém “compra” está “comprando alguma coisa”. Da mesma forma, ser alguém está sendo “cético”, está sendo “cético quanto alguma coisa”.

Se a platéia não tiver consciência de que o uso dos verbos não especificados é um truque desonesto, pode ser difícil para você sair da armadilha criada por ele.

Atenção para o fato de que existem várias formas de questionamento além das que citei. Pode ser recomendável também explicar para a platéia com exemplos.

Sempre o objetivo deve ser mostrar o quão ridícula é a execução do truque que defino como “Cético Universal”, ou seja, a criação de um efeito psicológico na platéia visando que o sujeito seja visto como o “questionador, contra questionados” ou “cético, contra crédulos”. A partir disso, por não ter mais idéias a serem avaliadas (pois ele só avalia), ele ganha o debate.

A técnica pode ser maximizada se for praticada com outra similar, “Auto-Cético”, que tem como principal difusor Bertrand Russell. Essa já é uma técnica na qual a pessoa diz, também por repetição ad nauseam, que todas as suas idéias automaticamente são questionadas.

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7 COMMENTS

  1. “Eu sou cético, me demonstre”. Responda: “Você é cético quanto a que?”. Ele poderia dizer: “Eu sou cético quanto a tudo”. Responda: “Eu sou cético quanto a tudo que você está afirmando”.

    Hehehehe…

  2. Eu já conhecia essa estratégia dos esquerdistas. Quando algum deles me diz: “Sou cético”, respondo: “Não, você é um incrédulo tendencioso e acha que isso é apenas um método criterioso de expressar dúvidas. A dúvida busca testar um argumento para descartá-lo ou estabelecê-lo. A incredulidade, ao contrário, é uma recusa sistemática e obstinada ao argumento, tão mais inamovível aquela quanto mais consistente este. Se a dúvida é saudável, a incredulidade é patológica – um dos resultados mais extremos da dissonância cognitiva.”

  3. Buenas Luciano!
    Tranquilo?

    É uma técnica interessante, mas ela só funciona totalmente quando você tem o “controle” sobre a platéia, leitores, ouvintes, etc., e pode convencê-los de que você é o questionador.
    Digo controle não somente no sentido de “poder sobre”, mas também quando as pessoas (platéia) estão alinhadas com o teu discurso. Isso acontece facilmente quando o ambiente é favorável com o teu discurso, por exemplo:
    Em uma conferência atéia, onde um ateu e um cristão estão debatendo, o ateu facilmente assume o papel de questionador perante a platéia pois ela está alinhada com o discurso dele. O inverso ocorre numa conferência cristã, obviamente. É muito difícil, quase impossível, o dono da casa sair derrotado desse debate (pelo menos na visão da platéia presente).

    Há tempos tu já utiliza com sucesso essa técnica aqui no blog, em diversos debates travados nos comentários dos teus posts tu assume o papel de questionador e a maioria dos leitores te aceita como tal. Quando tu recebe questionamentos, às vezes responde com clareza (ou não), outras responde com outro questionamento ou até nem responde, sem que isso denigra de alguma forma a tua imagem.

    Não estou fazendo uma crítica negativa ao teu trabalho desenvolvido aqui, é somente uma análise minha.
    Aliás, nem poderia ser uma critíca negativa, pois eu não considero essa técnica um truque sujo, somente um truque que pode e deve ser utilizado.

    Ah! Estou falando da técnica de assumir o papel do questionador, não a de utilizar verbos não-especificados. Essa última eu acredito que tu não tenha utilizado.

    Abraços e parabéns pelo post!

  4. Luciano,

    Ando explorando esta série sobre Controle de Frame e fico imaginando o uso dessa técnica com a Rotina Esquerdista “Obtenção de Autoridade Moral”. É uma combinação poderosa: o esquerdista, que já obteve (perante a platéia) a autoridade moral, controla o frame na condição de questionador, de inquisidor do adversário, que consome todo o seu tempo e sua energia respondendo ao esquerdista. Sendo que nenhuma dessas respostas, ao fim, adiantará de muita coisa, uma vez que o esquerdista, moralmente superior, “can do no wrong”.

    Seria interessante você fazer estudos de caso acerca dessa combinação quando dos debates de campanha do período eleitoral… pensando bem, me parece que desde 2002 os petistas sempre controlaram o frame, mesmo quando (eventualmente) não venceram as disputas municipais e estaduais.

    A disputa em SP, por exemplo, com a imprensa ajudando em diversos níveis a campanha de Haddad, com a atuação direta e pessoal de Lula… que mega-estudo de caso, hein? rsrsrs

    Abraço!

  5. Luciano, esse link para o post “Auto-Cético” e outros em outros posts estão errados por conterem um “.br” na url deles. Conserte os links! Várias vezes não consegui abri-los, mas só hoje descobri o porquê.

    Boa sorte.

  6. Olá Luciano !

    Uma das coisa que mais me intriga é falar sobre o dragão da garagem (Sou agnóstico e de centro direita).

    Uma pergunta que eu gostara de fazer aos neo-ateus, seria essa: Qual a importância desse dragão na garagem, com o início do universo, e com a criação do mundo e tudo que há dentro do nosso universo ?

    Vi também em um vídeo de neo-ateus falam que o dragão cospe fogo “atérmico”, como seria as propriedades físicas e químicas desse fogo ?

    Abraço Luciano, belo site.

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