Rótulo: Auto-cético

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Última atualização: 22 de dezembro de 2011 – [Índice de Técnicas][Página Principal]

Imagine uma idílica cena em uma cidade do interior. Todas as laranjas do pomar são roubadas, e os suspeitos são os dois filhos menores do casal. A mãe pensa em repreendê-los, e vai observar se há indícios de laranjas furtadas entre os pertences dos garotos.

Um deles se chama Milton e outro é Juliano. Juliano está apreensivo, pois se a mãe investigar seu quarto vai achar várias laranjas lá.

Juliano, então, resolve executar uma técnica. Ele diz para a mãe: “Mãe, não precisa averiguar meu quarto, pois eu já o fiz. Todas minhas ações são checadas por mim”.

Ela acaba não investigando Juliano, culpado pelo roubo das laranjas, e não encontra nada com o Milton. Aí ela pensa: “é, provavelmente tenha sido alguém de fora”.

Mas o que ocorreu para que Juliano não fosse investigado? Simples. Ele disse, de forma convincente e confiante, que já “investigava a si próprio”. Ora, se alguém investiga a si próprio, os outros não precisariam investigá-lo, certo?

Imagine agora que Juliano cresceu na vida, e como gerente começou a executar o mesmo recurso para JAMAIS ser vitima de uma auditoria. Ele apenas diria, enfaticamente, “eu já audito a mim mesmo, não precisa me auditar”.

Seria um poder quase ilimitado, certo?

Pois bem. No mundo dos debates, essa técnica é executada com talento faz bastante tempo, e tem como um de seus principais adeptos Bertrand Russell.

O truque é bem simples e é exatamente como a implementação de Juliano. Basicamente, o sujeito afirma algo do tipo: “Eu questiono tudo. Tudo mesmo. Questiono tanto, que qualquer idéia que eu aceite já é validada por esse questionamento”.

Note que isso não prova que a pessoa “questiona tudo”, pois é apenas uma declaração. Afirmar “questiono tudo” é o mesmo que afirmar “venço todos” ou “ganhei tudo”. Não passam de alegações.

Mas, se aceita, alguém pode cair na armadilha de achar que a pessoa “já se questionou” de fato. E, a partir disso, conferir a ela o poder de não ser questionado.

Importante: é possível que alguém execute este truque sem ter ciência de ser um truque de apelo político. Pode ser que alguém até faça isso por achar “bonitinho” ser visualizado como alguém que tem automaticamente melhores idéias que os outros (pois já se questionou).

Mesmo assim, não se deve deixar esse tipo de estratagema passar barato em qualquer ambiente de debate político.

Minha recomendação especial é sempre retrucar, como por exemplo:

  • AUTO CÉTICO: Eu sou muito cético. Questiono a mim mesmo. Por isso, minhas idéias já foram filtradas.
  • REFUTADOR: Como você prova que se questiona em quantidade maior do que eu me questiono?
  • AUTO CÉTICO: É por que a dúvida é boa. Eu vivo com dúvidas. Meus oponentes vivem por fé.
  • REFUTADOR: Entendi. Mas onde está a prova que você se questiona em maior quantidade que seus oponentes?
  • AUTO CÉTICO: …

É assim mesmo!

Na maioria das vezes, ele ficará sem resposta. Em algumas vezes, poderá te xingar. Mas não deixe passar o truque e sempre exija dele evidências que ele REALMENTE se questiona mais que seus oponentes.

Esse recurso é utilizado muitas vezes em conjunto com a técnica “Cético Universal”.

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12 COMMENTS

  1. E tem tbém um forte apelo de marketing (tem a mesma essência do self-seling) para intimidar a audiência ou o interlocutor. O efeito psicológico disso pode criar uma tradição e futuramente uma cultura, onde determinado grupo não possa ser criticado. Este artigo é útil para desmascarar falsos céticos mas tbém serve como defesa conservadora para evitar q aflorem futuros ditadores psicopatas, como no caso dos anti-religião e dos boiolas auto-santificados q criam leis anti-homofóbicas para impedir críticas externas.

  2. Eu noto que umas certas pessoas que se dizem céticas têm tendências de aceitar qualquer bobagem sem o menor questionamento se ela cumprir um requisito…Ser contra a religião.Pode reparar, eles nunca aplicam ceticismo, por exemplo, às alegações de que o Papa Pio XII era cúmplice do nazismo, ou que a idade média é a “idade das trevas”, ou que a igreja apoiava a escravidão, tudo já amplamente refutado por historiadores.

    Nós podemos perceber que não há amor pela verdade, há um filtro ideológico aí.

    • Ou algo que um cientista falou. Cientista falou que comer merda é bom, tão lá tudo comendo bosta. Pode não ter nenhuma comprovação, mas tema a palavra do cientista, então é verdade.

      • Pois é… Hoje, por acaso, fiquei sabendo da morte da “última pessoa” que falava um idioma que “surgiu há 65000 anos” 😀 Incrível, o *achismo puro* de certos “experts”, agora virou um relógio de carbono-14 para as linguagens humanas 😛

  3. Eu ainda sou novato no conceito de “controle de frame”, mas essa palestra aqui (http://www.youtube.com/watch?v=sYGVPdGH74o) me parece um belo exemplo: o cara erra em TODOS os argumentos “científicos”, invoca uma relação custo x benefício sem definir nem o custo nem o benefício, mas convence a plateia.

    Sei que não é bem o seu estilo, mas acho que uma refutação direta desse vídeo seria um belo “exercício de fixação” pros seus leitores.

    • Olá, concordo que ali realmente tem algo de controle de frame. E o sujeito é extremamente desonesto. Essa do “custo X benefício” foi de doer. Um abraço, LH.

  4. É nessas horas que se percebe que, de fato, a esquerda e o neo-ateísmo estão ligados. Neo-ateu adora dizer que “os outros(religiosos) só acreditam por fé, mas eu já fui cético com tudinho e já vi que é tudo mentira”… Depois de dizer isso, você manda: “Ah, é? Prove que Deus não existe… Estou um pouco cético quanto a essa alegação…”. Resposta do neo-ateu? Ou algum truque tosco já previsto, mas em geral a primeira tentativa é dizer que ele não tem o ônus da prova(já tá nas técnicas previstas também, mas essa aqui é extremamente frequente, na minha experiência).

    Luciano, você melhorou MUITO minhas habilidades em debate. Aprender sobre o controle de frame já me ajudou muito esses últimos dias! Antes eu me preocupava só em ter razão, hoje percebo que isso não é nem de longe suficiente.

    Abraço.

    • Olá CatolicoResp, esse tipo de feedback é um grande MOTIVADOR para o trabalho que tenho feito. Fico feliz em ter podido ajudar. Agora, eu vou priorizar a publicação das estratégias da esquerda, e já coloquei 2 posts aqui: http://lucianoayan.com.br/arquitetura-da-esquerda/.
      Em seguida, voltarei às rotinas (argumentativas, e de frame), para aumentar mais esse escopo. Eu publiquei 3 rotinas de frame, mas já tenho previstas no mínimo mais umas 20. Um abraço, LH.

  5. Eu não acredito em deus e acho extremamente paradoxal quem diz que “duvida do que lideres religiosos falam” pq eles estão “alienando” e aceitam toda e qualquer coisa dita por alguém que use uma plaquinha de “cientista”. Principalmente quando a ideia passada pelo livro, vídeo, fala da pessoa, agradam. Isso não seria uma alienação ainda pior?

    Por exemplo, propagar conteúdo do Zeitgeist,que contém mistura de verdade com mentiras. Sabemos que práticas culturais no geral recebem influências de outras culturas, entretanto, as coisas ditas no vídeo são “boas demais p/ serem verdade”, demasiadamente agradáveis a quem queira falar do cristianismo. Justamente nesse “agradável” mora o perigo. Se fosse algo que a pessoa discordasse prontamente iria atrás de descobrir se é realmente verdade, mas como é algo agradável pode haver maior resistência.
    P/ refutar o vídeo bastou que eu fosse no wikipedia (ou seja, nesse caso nem é algo tão difícil p/ justificar a preguiça que muitos têm de ir atrás).

    Eu tento ser cética e tento questionar sempre, mas sei que nem sempre esse questionamento é suficiente p/ abranger tudo que está envolvido, há falhas. justamente por isso suas postagens ajudam quem tá começando. obrigada!

  6. Quaquaquakkk… quando a gente lê de novo um mesmo artigo, aparecem novas perspectivas. Lendo o texto, parece que o Bertrand Russel roubava laranjas quando era pequeno. Rsrs…

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