O mito da neutralidade política

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Existem esquerdistas que entram em debates e apontam frases como “sou neutro, nem de esquerda e nem de direita”, e a partir daí começam sua interação.

Não estou dizendo que pessoas de direita não possam fazer isso. Na verdade, o ato de alguém se declarar “neutro” em termos políticos é um direito de participantes de qualquer um dos lados da contenda.

Seja vindo de um direitista como de um esquerdista, a neutralidade política é uma ilusão.

Antes de falar do por que dessa ilusão, vamos abordar a questão dos dilemas.

Em nossa vida, temos vários dilemas a serem resolvidos.

Querem ver?

Suponha que uma mulher está em uma relação amorosa. Ela investe na relação ou faz um teste? São duas opções.

Ou mesmo o sujeito decidindo que seu padrão de relacionamento é monogâmico. Ou poligâmico? Novamente, são duas alternativas.

Que tal a crença em Deus? Ou se acredita ou não se acredita. Fato.

Afirmar neutralidade em dilemas é apenas uma fuga da responsabilidade ou no mínimo desconhecimento do tema em questão. Neste último caso, perdoamos. No primeiro, temos que questionar para ver aonde está o gap.

Vamos avaliar algumas questões do debate político.

Devemos atribuir plena responsabilidade dos crimes aos bandidos ou compartilhá-la com a sociedade? Note que não há um meio termo. Ou há um compartilhamento dessa responsabilidade ou não há. E, se existir o compartilhamento, a tendência é de que as penas sejam reduzidas.

Devemos ter o estado limitado? Ou o estado deverá ter “braços” maiores? Neste caso, é até possível que alguém diga que o estado poderá ser grande DESDE QUE cumpra bem com suas responsabilidades. Sendo assim, mesmo com condições, há uma decisão importante quanto a um dilema. Ou se escolhe o estado limitado ou não se escolhe.

É importante salientar que esses dilemas não são puramente filosóficos. Eles impactam diretamente a nossa vida e a forma como sentimos esses impactos.

Por exemplo, supondo o apoio ao estado mínimo, teríamos que tolerar um máximo de 10% (ou até menos) de impostos. Ou algum valor consideravelmente maior que este? Basta que estabeleçamos um limite mínimo para o diálogo, que alguém poderá optar por querer que os impostos fiquem dentro desse limite. Ou que o superem.

Sob qualquer escolha, não há formas de escaparmos de que nossa vida fique impactada.

Imagine se você pudesse escolher ter retirado de sua renda todo mês X reais, e exista uma outra alternativa que permita que esse valor seja superado em 2 ou 3 vezes. Nesse, caso poderíamos imaginar que você teria o dobro o o triplo de dinheiro retirado de sua conta todo mês em comparação com a opção original.

Será que dá para ficar no meio termo em relação a isso?

Será que ficaríamos no meio termo entre pagar 50.000 reais em um carro ou no momento seguinte pagar 150.000 reais? É claro que não.

Devemos considerar os principais paradigmas, tanto da esquerda como da direita, e chamá-los pelo que eles realmente são: dilemas. E, como todo dilema, prescinde-se de uma escolha.

Com isso em mente, não devíamos mais aceitar que alguém, em debate, se declare NEUTRO caso esta pessoa esteja defendendo os paradigmas de um dos lados.

Como já disse, é claro que alguém poderá se declarar neutro, mas somente se este for desconhecedor dos princípios tanto da esquerda como da direita. Caso ele conheça, naturalmente um dos lados é escolhido.

Outros poderão dizer que gostam SÓ UM POUQUINHO de alguns princípios da esquerda. Talvez uns 3 ou 4 princípios. Só de levinho. E até aceite 1 ou 2 dos princípios da direita.

Tudo bem. Mas nem isso tornaria alguém neutro, mas no máximo um esquerdista MODERADO.

Alguém poderia objetar: mais que raios o Luciano está se importando tanto com o fato de identificar a inviabilidade da neutralidade em questões políticas?

Simples. Em muitos casos alguém poderá se declarar neutro APENAS para poder vencer o debate.

Se esta pessoa convence a platéia de que é NEUTRO, poderá, então, enfiar goela abaixo dos outros seus paradigmas políticos mais facilmente. A essa técnica denomino “Simulação de imparcialidade” (e para a qual farei um post muito em breve)

Para evitar esse tipo de problema, basta ter em mente os dilemas de cada um dos lados. E notar que, em cada um deles, é inviável ficar em situações como “eu sou 50% teísta, e 50% ateísta”.

Assim como alguém se declara teísta ou ateísta, alguém deve se declarar de direita ou de esquerda. Mesmo que seja moderado.

Sugiro que façamos nossa parte em debates exigindo que alguém se posicione, para identificarmos de que lado ele está: direita ou esquerda.

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8 COMMENTS

  1. Luciano eu não “lado” politico, e você falou que quem é neutro é porque não saber o que um dos lados significa, pelo contrario, eu não tenho lado politico pelo fato simples fato dos dois “lados” serem podres e uma vergonha para a humanidade. e eu estou tentando entender o que seria um esquerdista MODERADO(ou um direitista moderado), já que você afirmou que não há como uma pessoa simpatizar com as características do lado oposto ao escolhido, portanto o seu argumento é incoerente.
    Segundo ponto, na conclusão do texto você afirmou que uma pessoa apenas se declara neutra para vencer um debate, entretanto você usa da imparcialidade de um modo arrogante para argumentar, que só existe esquerda e direita .
    Bakunin era um filosofo anarquista, e anarquismo é que “lado”? porque na revolução de 1917 os anarquista foram expulsos da futura URSS, e o Nietzsche também tem algum lado politico ? eu poderia citar diversos filósofos e pessoas influentes que não declaram lado politico, mas não perderei mais tempo, portanto estude um pouco mais e deixe o moralismo de lado, as pessoas tem direito de escolher um lado politico como também elas podem não escolher nenhum e isso se chama de LIBERDADE.

    • Como o meu texto diz, a questão entre direita e esquerda é tratada por uma série de DILEMAS. E em relação a dilemas, não há opção, ou se escolhe uma ou outra. De acordo com a postura de alguém em relação a esses dilemas, se define se alguém é de esquerda ou direita.

      Anarquismo é uma filosofia de esquerda, pois é baseada em uma esperança de que o ser humano se auto-controlaria. É diferente do marxismo, claro, mas é de esquerda.

      Enfim, me mostre situações específicas, e mostrarei que não tem jeito, em relação a dilemas não tem jeito de ficar sem escolher uma opção.

      Quer ver?

      Punimos criminosos menores? Sim ou não?
      Reduzimos impostos ao mínimo possível (para manter basicamente a segurança pública e nacional)? Sim ou não?

      É a mesma coisa que se perguntar a alguém se este acredita em Deus ou não. Só se a pessoa disser uma resposta: “olha, das 8 da manhã até o meio dia, eu acredito, depois até o fim da tarde eu não acredito, e depois acredito de novo, e assim por diante”…

      • Em relação a religião você já ouviu falar de algo chamado agnosticismo?
        já o anarquismo, realmente alguns dizem que pode ser uma filosofia de esquerda(obviamente de maneira erronia), entretanto as “politicas de esquerda ou de direita” são sistemas econômicos, e o anarquismo é um sistema politico mais complexo e não um sistema econômico, já que este prega o autarquismo.
        E politicas econômicas são complexas demais para serem tratadas como dilemas, basta estudarmos um pouco de historia e economia para que posamos perceber isso, e quem dera que fosse apenas duas opções para tantos exemplos que você citou; a questão não é se punimos criminosos menores? Sim ou não?, e sim o que aconteceu na nossa sociedade e o que levou um menor a cometer um crime, e não só um menor de idade mas qualquer pessoa.

      • Há gravíssimos erros conceituais em sua análise.

        Primeiro, agnosticismo (e eu sou agnóstico) NÃO DIZ NADA em relação se ter crença ou não em Deus, mas sim se a pessoa acredita ser possível ou não ter o conhecimento a respeito de questões últimas, incluindo a existência de Deus.

        Então, um agnóstico não é alguém que fica entre “teísmo” e “ateísmo”.

        Atenção:

        Agnostico está para gnóstico, assim como ateísta está para teísta….

        Outro erro seu é achar que “esquerda” se relaciona a sistema econômico.

        Vale para questões políticas, ideológicas, etc…

        O anarquismo é UM DOS perfis da esquerda, assim como o são marxismo, humanismo, social democracia, etc….

        E não só políticas econômicas, como visões de mundo possuem DILEMAS, e neste caso, escolhe-se uma opção ou outra.

        Por exemplo, mesmo que você tenha tentado dourar a pílula, note o jeito que você escreveu: “sim o que aconteceu na nossa sociedade e o que levou um menor a cometer um crime, e não só um menor de idade mas qualquer pessoa”.

        Note que você transfere a responsabilidade do crime para a sociedade, o que é uma forma de visualizar a questão totalmente esquerdista.

        Alguém de direita notará que, independente da sociedade, ao cometer um crime violento, alguém tomou uma opção de cometer ou não o crime.

        Só essa questão, já mostrou que você escolhe a opção de esquerda (sempre pensar no criminoso, “pois o homem é bom, a sociedade o corrompe” by Rousseau), enquanto eu escolho a opão de direita (o sujeito cometeu o crime por decisão pessoal, pois mtos pobres não cometem crimes).

        Notou que até ao se defender, em um dilema você escolheu um lado oposto ao meu?

        Isso mata a sua objeção.

      • Primeiramente caso do termoé singularmente demonstrativo. Costuma-se reduzir seu sentido ao de uma simples negação: é agnóstico quem não crê, isto é, quem não professa fé religiosa alguma.
        e você mesmo escreveu “a pessoa acredita ser POSSÍVEL ou NÃO ter o conhecimento a respeito da existência de Deus”.
        o Rousseau era teórico que procurava explicar o Estado de maneira racional, ou seja, como resultado de um pacto entre homens. O poder do Estado era visto como uma conseqüência do poder que os homens lhe atribuíram e sua finalidade era colocada como sendo a realização do bem geral. Era uma visão contratualista de Estado Liberal.

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