Enfim, a esquerda como um todo

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Bruno Almeida, com quem tive entreveros recentemente, me surpreendeu com um questionamento bem razoável a respeito do framework da esquerda, abordado por mim aqui. Segundo ele, haveria ambiguidades nesse framework, e ele poderia servir tanto à esquerda como à direita.

Em sua postagem na comunidade “Área Radioativa”, Bruno comentava sobre problemas da sociedade que DEVERIAM ser resolvidos, e argumenta que tanto pessoas da esquerda como da direita se posicionam a respeito desses problemas. Segue abaixo:

Mas em última instância, cabe a ALGUÉM resolver. Governos inchados ou governos mínimos auxiliados por voluntários, ALGUÉM tem que botar a mão na massa. Em qualquer cenário traçado, haverão pessoas identificando problemas e os corrigindo ou dando sugestões. Sendo assim, o mero fato de uma pessoa identificar problemas/buscar soluções, não podem ser encaradas como esquerdismo em si, mas sim a forma como almejam isso. O maior problema que vejo no seu framework é que ele não distingue a forma, mas o mero ato identificar/buscar soluções.

Entendi. Acho que a crítica é válida, mas não é um problema tanto com o framework, mas na forma que o apresentei.

No texto “Como a mente Esquerdista Funciona – I – A Apologia ao Crime” , eu citei o framework.

Lembro também que escrevi: “Não vou me dar ao trabalho, por enquanto de lhe incomodar em citar todas as 21 estratégias e nem as técnicas que compõem essas estratégias. Deixarei isso para futuros posts.”

Reconheço minha culpa em não ter abordado isso por completo, e deixado um pouco vaga a coisa.
Vou dar uma explicada aqui bem breve em relação ao que estou falando.

Se alguém me perguntar o que é a esquerda, eu definiria como um sistema que se baseia em uma arquitetura muito bem orquestrada. E essa arquitetura se compõe de algumas camadas, assim como se fosse uma arquitetura corporativa.

No nível 1, temos o objetivo estratégico da esquerda. O objetivo é aquisição de poder absoluto para as pessoas/grupos que conseguirem se aproveitar desse discurso padrão, das estratégias, e das técnicas. Esses são os beneficiários.

Alguém poderia dizer: “mas a direita também não tem o objetivo de adquirir o poder absoluto?”. Nem tanto. Pode até ser que alguns empresários adquiram MUITO poder. Mas não o poder absoluto que é previsto pela esquerda. Um estado inchado abre portas para um poder praticamente ABSOLUTO. O orçamento de um estado inchado, como no Brasil, Estados Unidos, ou qualquer país europeu grande, é maior do que qualquer empresa que há por lá. Há um nível de poder ACIMA do nível das empresas, onde existe a concorrência. É contra este nível de poder (absoluto) que os adeptos da direita lutam.

No nível 2, temos o discurso padrão. ESTE é o que chamei de framework. Relembremos:

  • 1) Projeção de paraíso em Terra
  • 2) Simulação de que se pertence ao grupo que criará este paraíso
  • 3) Definição de bodes expiatórios (que seriam aqueles que não deixam o paraíso ocorrer)

Ele se compõe de 3 itens básicos. Note que os itens 2 e 3 podem ser atribuídos a qualquer grupo político. O diferencial está no primeiro item, que é a projeção de um paraíso em Terra.  É importante notar que aplicar (2) e (3), sem aplicar o (1), torna a questão bem diferente do que aplicar (1), (2) e (3) simultaneamente.

O discurso padrão da esquerda identifica uma situação na Terra em que o ser humano sai de sua contingência natural, explicada darwinisticamente (luta por território, luta pelo poder, onde alguns sofrem, e outros se dão bem, etc.). Enfim, um paraíso em Terra, em que a contingência humana é superada. Não seríamos mais como as outras espécies, cujos indivíduos sofrem, morrem, são abandonados, etc.

Dá para pensar em “consertar” a espécie humana? Esquerdistas parecem achar que dá. Pessoas da direita acreditam que não dá. O máximo que podemos fazer é “remendos”, e sabendo que em alguns casos a emenda ficará pior que o soneto.

Na questão do “por que estamos lutando” (a projeção do paraíso), há uma distinção bem grande entre esquerda e direita. Quando vamos para o item (2), temos um grupo esquerdista que está acreditando (no caso do funcional) em um “futuro brilhante”, ao passo que o grupo de direita está apenas “vivendo e aprendendo”. As ambições do direitista são mais modestas. Por isso, o apelo de participação (que é o item 2) de alguém da direita é diferente do apelo de participação de alguém da esquerda. O item 3, da definição de bodes expiatórios, também tem apelos diferentes em ambos os casos. No caso da esquerda, é a definição de pessoas que “não deixam o mundo maravilhoso ocorrer”, mas no caso da direita é a definição de pessoas que “estão enchendo o saco com suas crenças de mundo maravilhoso, e atrapalhando nosso dia-a-dia”.

Depois disso, temos o nível 3, que é o nível das estratégias. As estratégias seriam desenhadas pelos beneficiários, especialmente. Mas é até possível que alguém seja funcional e participe disso. Até hoje não sei se Gramsci era funcional ou beneficiário. A diferença entre beneficiário e funcional está aqui no artigo “Os dois tipos de esquerdistas: Beneficiários e Funcionais”.

Há uma dessas estratégias que chamo de estratégia NÚMERO 1: “obtenção de autoridade moral”. Note que isso não é uma técnica (como nos artigos de técnicas que fiz), mas sim algo que poderá ser implementado através do uso de uma ou mais técnicas.

Outras estratégias incluem: Retórica do Ódio, Julgamento Pelo Futuro, Uso do Discurso Politicamente Correto. Existem várias outras. Estas são apenas exemplos.

Estratégias podem ser combinadas. Assim como nas organizações, as estratégias tem o objetivo de CONECTAR todas as ações com “a estratégia” da organização, que aqui eu defini como “o objetivo” (até para não confundir o leitor).

Note que até aqui temos um objetivo para os beneficiários, que é obter o poder (se for de forma totalitária, por força, melhor ainda, como Mao, Stalin, etc., já que é um poder absoluto, mas se for por pressão psicológica, ok, não é o melhor dos mundos, mas dá para ir levando, como Lula e Obama, mas aí é um poder quase absoluto). Há um discurso padrão, que todos os ideólogos executam, e em seguida uma série de estratégias.

Por fim, caímos no nível 4, onde são executadas as técnicas, que são os argumentos, ações, etc. que devem atender às estratégias. Como a Anti-Religião é uma estratégia, existem truques verbais (aos quais chamei de estratagemas) que permitem a execução desta estratégia. Essa é a função de Richard Dawkins e Carl Sagan, por exemplo.

Mas existem outras estratégias além da Anti-Religião. É possível até criar variações da religião, como a Teologia da Libertação, que permite a execução das estratégias de esquerda. E sempre amparado pelo framework (que está no nível 2).

Aproveito para já mudar a definição e não mais usar o termo “técnica” ou “estratagema”, mas sim “rotinas”, para alinhar bastante com a terminologia da Dinâmica Social.

Quando alguém chega em uma balada e diz para uma garota “O seu nariz se mexe quando você dá risada”, ela provavelmente vai rir. Em seguida, o sujeito diz de novo: “Está vendo? Aconteceu de novo”. E ela vai rir com mais intensidade ainda. A descarga de dopamina ocorrida aí pode servir como um efeito relaxante para que você entre no grupo mais fácil. Ou seja, isso é uma ROTINA.

Ok, vamos lá. Vamos usar a terminologia que alterei (e já vinha pensando em fazer isso há tempos no blog, e só não fiz pois tinha muitos textos escritos com a expressão “técnica”)” .

No caso da esquerda, existem rotinas que são discursos abertos, geralmente argumentativos. Vamos a um exemplo:

  • Sem a religião, as pessoas não se dividiriam
  • Sem a divisão entre as pessoas, guerras não aconteceriam
  • Logo, o fim da religião irá trazer paz

Isso está no livro “Deus, Um Delírio”, de Richard Dawkins, e tem um caráter argumentativo. Podemos chamar essa rotina de “Fim do Gregarismo com o Fim da Religião”. É uma rotina adequada à estratégia da Anti-Religião.

E por que a estratégia Anti-Religião é importante para a esquerda? Não é só este motivo, claro, mas o principal pode ser o fato de que muitos conservadores tem influência religiosa. Logo, atacando-se a religião, se retira autoridade moral de muitos conservadores por tabela. Lembremos que a estratégia número 1 da esquerda é a obtenção de autoridade moral.

Se eu falei de rotinas, há outras que não são argumentos de fato, mas pequenas ações, tanto em forma de “afirmações” como até de linguagem não verbal. Ou até o uso de uma postura. Essas tem a função de atuar especialmente no psicológico. Exemplos são as 3 que coloquei recentemente:

Em nenhuma das 3 há argumentos complexos. São coisas que podem ser ditas com uma frase. Mas possuem um efeito psicológico poderoso. A essas, eu atribuí o rótulo de ROTINAS DE FRAME.

São rotinas como as outras que eu tratava anteriormente, mas tem o objetivo específico de não gastar muito tempo com argumentação, e ao mesmo tempo com o foco de obter um efeito psicológico nos ouvintes, abrindo território para a aceitação das outras rotinas de forma mais fácil.

Uma objeção do Bruno seria o fato de que cairia sobre mim um “pesado ônus de demonstrar o Estado Psicológico das ações dos esquerdistas.”

Eu já vejo de uma forma diferente. O objetivo de obter poder de forma absoluta já está claro. O exemplo dos estados totalitários na Rússia e na China é uma conseqüência lógica dessa abordagem que faço sobre a esquerda. O grande poder que os Democratas possuem nos Estados Unidos, assim como os socialistas possuem no Brasil e na Argentina, também. É também totalmente previsível o fato de que meta-capitalistas como George Soros e Eike Batista apóiem extensivamente os regimes de esquerda.

Mas por que meta-capitalistas apoiariam a esquerda? Ué. Simples. Para obterem poder, estando do lado daqueles que tem o poder absoluto. É exatamente assim que funcionava a aristocracia no tempo da monarquia. Os monarcas tinham o poder absoluto e os aristocratas se aliavam aos que tinham poder absoluto.

Hoje em dia, no mundo, o discurso de esquerda nunca esteve tão em voga. É uma religião política, e como tal possui todas as suas facetas. O cristianismo possui vertentes como catolicismo, protestantismo, etc. A esquerda possui vertentes como marxismo, humanismo, etc.

Se o discurso de esquerda realmente fosse para “tirar poder dos poderosos, e ajudar aos oprimidos” por que é que nos países onde a cultura de esquerda está implantada as organizações estão CADA VEZ MAIS poderosas? Não seria um contrasenso em relação ao discurso aberto da esquerda? Conforme minha análise, é uma consequência natural.

Agora, creio que deve ter ficado claro que não há só um framework, mas sim um SISTEMA. A esquerda pode ser definida como um sistema para obtenção do poder (pelos grupos beneficiários), sustentado por um discurso padrão, que chamo de framework (composto de 3 itens, dos quais o item 1 é o sustentáculo principal do discurso), com um conjunto de estratégias (das quais a principal é a obtenção da autoridade moral), implementadas através de uma série de rotinas, sejam elas rotinas de argumentação padrão, sejam elas rotinas para habilitar o controle de frame (ou seja, atuar em nível psicológico profundo).

Se a estratégia número 1 da esquerda é a obtenção da autoridade moral, não há outra forma de tratarmos eles que não pelo uso do ceticismo. Como falei no texto Os Novos Pajés e os Novos Hereges, há mais de um ano, o ceticismo foi criado exatamente para isso: questionar a autoridade, especialmente aquela auto-imposta.

P.S.: Só para evitar mais confusões. Imaginem que um conservador minta no debate, e o esquerdista diga enfaticamente que a pessoa mentiu, extensivamente. Isso é uma ação para controlar o frame. E não é necessariamente desonesta. Não há juízo de valor sobre o controle de frame. Aqui eu só avalio as rotinas pela sua validade ou não. 

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6 COMMENTS

    • Olá Snowball. Nesse programa eu usei o Power Point. Se quiser, quando falarmos no MSN, eu te mando a versão original para você dar uma olhada. Um abraço e feliz natal, LH. (Ainda entro no MSN sim, mas voltarei com mais frequência nos fins de semana depois das festas de natal e de fim de ano)

  1. caro luciano, como agnóstico teísta (na perspectiva de que argumentos lógicos dedutivos, testemunhos e tradição histórica bíblica apontam para o teísmo mas são incapazes de criar um “conhecimento de Deus”, mas uma plausibilidade de crença), compreendo sua guinada de posicionamento na nova abordagem do teu blog.
    ele me foi muito útil no uso de armas estratégicas no embate intelectual (assim como o snowball, tb). Mas venho notado uma perspectiva agnóstica calcada na psicologia evolucionista.
    Estou interessado no porquê do seu convecimento de que essa seara do conhecimento é válida. Desconfio dela, na medida em que me parece tentar responder por uma via científica restrita, toda a realidade circundante. Assim, a ciência de escopo totalizante, me parece, vira ideologia.
    Quais são suas evidências, por exemplo, para o altruísmo fora dos limites dos parentes próximos e grupo gregário circundante. Porque morrer por desconhecidos? Porque adotar desconhecidos? Porque ser celibatário?
    Vc mesmo colocava essas impugnações antes. O que mudou no seu pensamento?
    Por fim, o que me chamou atenção no seu texto, foi a expressão marxismo/esquerdismo como religião política que me parece uma ressignificação ( talvez não intencional) do que realmente é religião.

    Pelo menos na ótica cristã, as coisas não casam. Dá a César o que é dele e a Deus o que lhe pertence. “Meu Reino não é deste mundo”. E a doutrina do pecado original… tudo como alicerce para igualdade de homens perante Deus, depoisdo Estado Laico. E o ceticismo de que o homem está aqui de passagem e não vai construir nenhum paraíso aqui. Quando muito, pode salvar sua alma.

    O ceticismo que o darwinismo coloca em relação ao homem já está no pecado original.
    abrande abraço!

    • Alexandre,

      Entendo algumas de suas observações.

      A pergunta central seria a seguinte, pelo que entendi: “por que Luciano mudou de escopo e hoje adota o darwinismo como praticamente explicação para todo o comportamento humano?”. (Aliás, eu adoto o darwinismo pura e simplesmente para explicação do comportamento animal e para a biodiversidade, e não com escopos bizarros como darwinismo aplicado fora da biologia)

      Minha mudança para o aceite pleno do darwinismo veio por EXPERIÊNCIA PESSOAL, particularmente em estudos de Dinâmica Social. Isso envolve estudos como PNL, Linguagem Corporal e outros fatores. Estudamos, por exemplo, como funciona o ser humano no nível do hardware, ou seja, os instintos que surgem pré-programados a partir de seu nascimento. E rastreamos esses instintos e entendemos a FUNCIONALIDADE deles. A explicação darwinista, especialmente na análise dos chimps, é bastante convincente.

      Por essa perspectiva, o altruísmo fora dos parentes próximos e grupos gregários circundantes é um item pré-programado no ser humano que, se existente, aumenta o seu valor para o grupo. Seres que são capazes de se sacrificar pelos outros aumentam o valor de sobrevivência dos demais. Logo, esse componente presente em seres humanos (em alguns casos, outros menos), é um fator importante para a seleção de grpuo.

      A adoção de desconhecidos não tem uma explicação evolutiva forte, mas pode servir para preencher lacunas, como no caso de um casal não ter filhos. Não há passagem de genes, mas o valor social do casal é diminuído por não ter filhos. A adoção ajuda nisso.

      O celibato é contraprodutivo do ponto de vista darwinista. É uma opção pessoal. A meu ver, é um perigo, pois o celibato diminui a produção de testosterona (em comparação com alguém sexualmente ativo). Pessoas com menor produção de testosterona são menos incentivadas a lutar pelo poder. Isso explica por que padres não conseguem se defender de acusações. Eles tem baixa produção de testosterona. O que pode ser perigosíssimo para a religião cristã do perfil católico em longo prazo. (Já está sendo)

      O termo religião política foi intencional, mas não fiz o uso do termo “religião” em sua acepção original. No original, religião normalmente tem rituais, deuses, etc. Na religião política, é preciso que ela seja seguida no mesmo princípio que a religião tradicional.

      Essa definição tem a ver com um preparo nosso para combater o esquerdismo. O religioso não vai largar de seus princípios só por argumentação. Há um componente de fé muito forte, além dos fatos. O mesmo vale para o esquerdismo. Esquerdistas dificilmente deixariam sua religião política pelo argumento. A “conversão” de um religioso, ou religioso político, será um acidente. Mas não deve ser um objetivo. Mas assim como a religião tradicional, a religião política (todas as variações do esquerdismo) devem ser submetidas ao mesmo nível do escrutínio cético.

      Por fim, concordo plenamente com o que você disse: “O ceticismo que o darwinismo coloca em relação ao homem já está no pecado original.”

      Por isso, minha simpatia com o cristianismo, mesmo que eu não seja cristão.

      Abs,

      LH

  2. Mas Quanto aos frankfurtianos, que são esquerdistas mas não projetam um paraíso na Terra? Penso que as suas observações são muito generalistas, e por isso imprecisas, quanto ao que você chama de esquerda. Não esqueça que há divergencias dentro da esquerda, pensada historicamente. Você não pode colocar no mesmo time Lenin e Sartre, por exemplo. Tampouco Marcuse se encaixa no que você colocou. Os três pilares do discurso esquerdista que você colocou se submetem mais aos ateus humanistas do século XIX do que aos esquerdistas atuais. Abraço

    • Juliano, os frankfurtianos serão abordados como uma das estratégias da esquerda. Na verdade, nesta estratégia, há o uso de linguagem empoladas para dar um ar de ciência ou “filosofia” ao marxismo, mas também o uso de uma abordagem as vezes moderada. É, como podemos dizer, um ataque por vários flancos, para dar algum “amaciamento” e gerar menos rejeição. Mas mesmo essas versões moderadas dependem de crenças em que o ser humano irá transcender as suas contingências naturais. Sem essas coisas o esquerdismo, como um todo, é inviável. Ou seja, o discurso de projeção de paraíso na Terra (em que as contingências humanas estariam vencidas), é mantido em todas as escolas da esquerda, inclusive de frankfurt, apenas mais dissimulado. Tratarei disso nos próximos posts, quando abordarei as estratégias. Abs, LH.

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