Estratégia de Esquerda: Crença no homem

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De todas as estratégias da esquerda, essa é a que mais gera confusão. Pois geralmente podemos falar que esquerdistas quase sempre não acreditam em Deus, mas possuem crença no homem. Ao passo que religiosos acreditam em Deus (obviamente) mas raramente possuem crença no homem.  E isso sempre requer uma explicação adicional.

O termo “crença no homem” não foi criado por mim. Vários autores como Chesterton e John Gray já falaram disso.

Antes de tudo, deve-se entender que “crença no homem” é diferente de “crença na existência do homem”. Considerando este último caso, seria estúpido dizer que homens não existem. Eu sei que existem mais de 6 bilhões de homens (entenda por humanos, portanto não faço diferenciação entre homens e mulheres) no planeta Terra. Portanto, que fique bem claro: praticamente todos, com exceção dos delirantes absolutos, acreditam que seres humanos existem.

Desta forma, sigamos com a análise da “crença no homem”. (E não da “crença na existência do homem”, que está fora de cogitação)

O termo “crença no homem”, por sua vez, deve ser ampliado para explicar o que ele realmente significa: Crença na idéia de que o homem, poderá por sua ação, através da razão, empatia e/ou ciência (ou qualquer outro atributo usado para simular âncoras positivas) eliminar as contingências humanas, como luta por auto-preservação, territorialismo, gregarismo e busca pelo poder, para então criar um cenário na Terra em que um grupo específico de homens (estes “iluminados”) protegeriam a humanidade como um todo, com justiça para todos e amplificação da felicidade global.

Quer dizer, estes “iluminados” (seriam os anjos em Terra) que comandariam esse processo, em direção a “novo mundo”, já não teriam mais as contingências humanas. Eles não estariam lá por poder e manutenção de sua auto-preservação, mas sim olhando pelo “bem maior”.

O curioso é que se observarmos a espécie humana, sabemos que aqueles que se dedicaram desta forma 100% altruísta pelos outros dificilmente são os principais lutadores pelo poder. Exemplos incluem pessoas como Madre Teresa de Calcutá e Jesus Cristo, que optaram pela vida simples. E, antes de tudo, sabemos que pessoas que chegam nesse nível de auto-doação são exceções à regra dos seres humanos. São pontos fora da curva.

Entre os lutadores pelo poder, os líderes das principais nações, não temos tais demonstrações de “altruísmo 100%”. Temos, por todas as evidências até o momento, a noção de que para eles o que importa é o poder, o que é explicado, como já disse, pelo darwinismo.

Os fatos nos mostram o seguinte: se dermos poder a grupos, para que estes CONDUZAM a sociedade para o “mundo melhor”, o que teremos na verdade é a presença de totalitarismos, que, após implementados, irão ignorar as promessas feitas, pois a conquista de poder já foi obtida.

Este tipo de constatação é uma coisa óbvia para todas as pessoas não doutrinadas em qualquer uma das formas de esquerdismo. É algo que lembramos quando povoamos nossa mente com as frases que nossas mães nos diziam, na infância: “Filho, não confie em estranhos”. Pessoas normais tendem a ter isso em mente com bastante facilidade. (Note que eu não disse que APENAS os esquerdistas podem cair nessa confiança. Na verdade alguns de direita também podem cair. Mas, pelo fato do pensamento de direita ser bastante cético em termos políticos, a chance diminui. Já este tipo de crença é essencial para todo tipo de esquerdista funcional)

Como eu já abordei a questão no passado, farei uma auto-citação:

Imagine um sujeito que quer sair com uma garota que é apaixonada por histórias de vampiros. Ela conhece decor e salteado todos os livros da série Crepúsculo. Ele tem a seguinte idéia: “que tal fingir que sou um vampiro, e convencê-la de que tenho mais poder que os outros homens, sendo capaz até de entrar na mente dela e viver para sempre?” Mas temos um problema. Se ele disser isso a ela, provavelmente ele será motivo de chacota, e o truque não vai funcionar. Ele pode resolver isso com uma estratégia. Pedir para 2 amigos se relacionarem com a garota, e trocarem informações com ela sobre a EXISTÊNCIA DE FATO de vampiros. Obviamente, terão que usar truques de sugestão, engodos, retórica, etc. O objetivo é fazê-la acreditar que VAMPIROS EXISTEM. Depois desse trabalho feito (e é um árduo trabalho), ele agora chega e vai tentar conquistá-la, aí com uma possibilidade factual, simulando ser um vampiro. Nesse caso também temos duas alegações: (1) eu sou um vampiro, e por isso tenho mais poder que os outros homens que você conhece, e sou capaz de te proteger mais, (2) vampiros existem. Novamente, (2) é a alegação de suporte para que talvez seja possível implementar a alegação (1).

Levando isso para a questão da Dinâmica Social política no uso do discurso de esquerda:

Para que esquerdistas beneficiários obtenham o poder, através de estados inchados, é preciso de uma sequência de alegações também. Observem: (1) Eu, como líder [pode ser Chavez, Lula, Mao, Pol Pot, Obama] cuidarei de todos vocês, e criarei a justiça social, através da ação do estado, eliminando vários sofrimentos, (2) Alguns seres humanos realmente não estão interessados em poder, e se dedicam, como se fossem cópias da Madre Teresa de Calcutá, de forma totalmente altruísta ao tomar conta desses estados, (3) Isso é cada vez mais possível, pois o ser humano está ficando cada vez mais “altruísta/empático”. A sequência de alegações é bem lógica: (3) dá sustentação para (2), que por sua vez dá sustentação para (1). Caso a sequência reversa de aceite, de (3) para (1), não tenha sido questionada, o líder de esquerda que for mais esperto e de boa retórica vai obter o poder tranquilamente, pois já obteve a autoridade moral.

Ou seja, a estratégia de “crença no homem” serve para a manutenção, na mente de todos os esquerdistas funcionais, de que o ser humano PODE criar esse cenário de “correção da sociedade” ou “correção da humanidade”, pois é possível que alguns humanos (especialmente os “iluminados”) tenham esse tipo de comportamento.

Toda a crença no homem é, portanto, uma CRENÇA DE SUPORTE, para que a implementação de sistemas baseados em estados totalitários e/ou inchados seja feita com maior facilidade.

De todos os perfis da esquerda, o humanista é aquele com maior foco na implantação da crença no homem (mas não podemos deixar de lado outras formas como progressismo e marxismo, é claro). Já forneci um exemplo recente no caso do texto de Steven Pinker, com a rotina da “Nova Empatia” (farei um verbete para ela em breve), que visa justamente implementar uma forma de crença no homem, o que não passa de uma variação das trucagens de Rousseau e Hegel no passado.

Livros como “Cachorros de Palha”, de John Gray, ajudam a desmontar tal tipo de crença no homem, mas sempre devemos ter muito cuidado, pois é uma das crenças mais propagadas atualmente. E, caso aceita, permitirá que as crenças seguintes sejam implantadas mais facilmente.

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9 COMMENTS

  1. Bem embasado o texto, embora não concorde totalmente com suas alegações, creio porem que tenha um pequeno equivoco na linha narrativa, não existe em termos praticos o neo-ateu, e sim o ateu que não acredita em Deus ou deuses, assim como não há o neo-cristão, somente o cristão. A busca pelo poder pode vir de qualquer lado, religioso ou não. pode ser pela religião ou por uma ideologia, como a comunista muitas vezes. em todo caso seu artigo é muito bom e eu sou cristão, tenho a imagem de Cristo como uma filosofia. parabens pelo trabalho

    • Olá Carlos,

      Obrigado pelas palavras. Eu concordo com você. A busca pelo poder pode vir de qualquer lado, mas no caso da esquerda ela é amplificada pois o discurso é todo construído para a obtenção de autoridade moral. O discurso conservador não tem esse potencial.

      Em relação aos neo ateus, aos poucos tenho me referido mais aos humanistas do que os neo ateus, pois o movimento neo ateísta é basicamente uma consequência do humanismo secular.

      Mas existe uma diferença. O ateu apenas não acredita em Deus. Existem outros que acreditam que a religião deveria ser extinta. Há uma diferença disso para “apenas um ateu”. É por isso que se usa o termo neo ateísmo para estes.

      Victor Stenger lançou um livro com o título “New Atheism”. E ele é um defensor das idéias de Dawkins.

      Abs,

      LH

  2. Apenas sugerindo uma explicação mais sucinta para a expressão “crença no homem”:

    *excesso de confiança no ser humano*

    O velho adágio romano “Homo homini lupus”, infelizmente, não impediu que surgissem primeiro a Renascença, e mais tarde, o Iluminismo 🙁

  3. Lembro me d’um video do Prof. Orlando Fedeli, sobre a existência de Deus, em que ele falava dessa diferença entre acreditar na existência de Deus e crer em Deus, ter fé em Deus. Muita gente acha que é a mesma coisa mas não é.

  4. Não entendi a relação entre Steve Pinkler e Hegel. Qual é a trucagem hegeliana no que se refere a ilusão de que o homem poderá ser um deus na terra? Quanto a Rousseau, já sabemos de sua idéia sobre o bom selvagem, mas em Hegel eu desconheço qualquer idéia deste tipo. Abraço

    • Juliano,

      Hegel “inovou” com sua noção de fim da história. E a idéia de que o motor da História seria a razão humana, e que POR ISSO o caminho do homem em direção à liberdade era inevitável.

      Tecnicamente, são trucagens semelhantes à de Rousseau e, agora, de Pinker.

      Abs,

      LH

      • De fato. No entanto esta liberdade seria possível apenas em função de seu caráter teológico, na medida em que ele estaria presente em todos os âmbitos tanto da relação social quanto da subjetividade dos indivíduos. A afirmação de “fim da história” é bem controversa, principalmente entre os estudiosos de Hegel. Eu concordo com Hegel em que se há uma história humana e se há algo tal como um motor, então ele só pode ser a razão humana. Motor no sentido de que a razão torna consciente em sua dinâmica o que antes era tido como natural ou misterioso. No entanto não acredito na teleologia “infalível” de Hegel. Abraço

  5. Ver se o meu comentário entrará:

    Sobre evolução humana e aprendizado com o passado.

    Ao longo da história, nós dizimamos povos, exterminamos culturas, banimos espécies animais da face da terra e aprendemos com isso e com a primeira e segunda guerra, os perigos em permitir que uma nação tenha o poder bélico de exterminar nações, as dores e marcas e resquícios que ficam de um ataque nuclear e os perigos de permitir q um povo persiga um outro com base em supremacia e normativa, nivelando o mundo por um ideal de pureza … exemplo o nazismo e os seus campos de concentração.

    Em função disso, buscamos depois desses episódios, criar leis que promovam a inibição de tais ações, montamos conselhos mundiais para tentar evitar esses excessos, pq de fato, ser territorial, ávido por poder e gregário é característica humana, assim como colaborar visando um objetivo comum e desenvolver empatia, se colocando em muitos momentos no lugar de um igual. A colaboração para a sobrevivência é fator fundamental do nosso sucesso.

    Nossa evolução social é evidente, no fato de não mais eliminar os descendentes com deficiências ou anomalias.
    O nosso modo de vida atual, nos permite incluir diferentes indivíduos, buscando extrair deles o melhor resultado e capacidades que contribua com o meio.

    Se todo deficiente físico ou mental fosse atirado no rio ou deixado para ser comido por animais nas florestas e todo homossexual ou descrente fosse queimado em fogueiras, impediríamos que esses indivíduos convivessem conosco e agregassem as nossas vidas, contribuindo com a nossa sociedade e com as nossas vidas.

    Então, realmente o que não procede é dizer que a humanidade não evolui e se modifica.

    Aquilo que vc coloca como imutável, é o instinto primitivo do homem, e esse instinto primitivo é presente nos animais domesticados, … a minha poodle vive de ração, é cor de rosinha do pelinho branco e minuscula, mas se as unhas ficam grandes, ela gasta essas unhas no rejunte da parede ou onde possa lixá-las, se eu atirasse ela no meio de um ambiente selvagem, ela voltaria a caçar para se alimentar e se uniria a um bando para se proteger, formando uma matilha, o que não quer dizer que hj, vivendo com minha família em um apartamento, comendo ração, e tendo banho e tosa, ela eliminou seus instintos de sobrevivência e fortalecimento no bando.

  6. Essa crença no homem não precisa ser necessariamente voltada ao altruísmo do homem, não? Se pegarmos a visão libertária de uma sociedade onde a não agressão é absoluta e o homem pode e deve ser tão egoísta quanto puder, desde que não viole o princípio da não agressão. E daí, dá para chamar isso de crença no homem? Ou seria uma crença na razão do homem, que pensa e conclui que uma sociedade sem agressão é melhor para ele (estou ciente do absurdo de escrever “crença na razão”, não me julgue por isso hehe).

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