Rótulo: Razão (dono da, defensor da)

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Última atualização: 22 de dezembro de 2012 – [Índice de Rótulos][Página Principal]

Desde que comecei a atuar em debates online, sempre notei que à partida os humanistas afirmam o seguinte: “Sou razão, ele da fé”.

O objetivo é evidente, e em termos de Dinâmica Social só pode ser avaliado de uma maneira. O ser humano reage instintivamente à grande parte das informações.

Imagine que estejamos prestes a entrar em uma embarcação marítima e o capitão da embarcação 1 afirme: “minha rota é baseada em fatos, todas as minhas ações são baeseadas em fatos”. Automaticamente, você pensaria que ele aumenta o seu valor de sobrevivência.

Imagine agora que surja o capitão da embarcação 2 e afirme: “minha rota é baseada em achismo, todas as minhas ações são baseadas nisso”. Imediatamente, você pensaria que essa embarcação tem grandes chances de naufrágio. Ele abaixaria o seu valor de sobrevivência.

A decisão seria óbvia: ignoremos o capitão 2, e, se formos viajar, que seja na embarcação do capitão 1.

A presença deste tipo de reação instintiva, favorecendo aqueles que se direcionam por fatos, é uma contingência que não pode ser mudada. Ela é um comportamento biológico que serve para proteção da espécie. Queremos estar alinhados com aqueles que AUMENTAM nossas chances de sobrevivência. Se alguém se orienta por fatos, e não por achismo, é claro que esta pessoa aumenta essas chances.

Está resolvido o grande enigma que explica por que humanistas tentam provar a todo tempo que estão do “lado da razão”, enquanto que seus oponentes, religiosos, estariam “do lado da fé”. Eles estão, a todo momento, querendo implementar um truque psicológico dizendo para a platéia “confie em mim”. Com isso implementado, não há mais debate necessário.

Sei que reduzir grande parte da proposta humanista a um mero truque psicológico que não tem nenhuma diferença técnica para uma rotina feita para atrair mulheres em uma balada possa parecer ofensivo, mas a Dinâmica Social é cruel. Se estudamos um comportamento, rastreamos seu padrão e entendemos o benefício evolutivo resultante deste comportamento, temos agora que qualificá-lo em termos de “rotina”. (Isso vale também pelo fato de que humanistas jamais provam que estão do lado da razão, apenas repetem a rotina)

Aliás, acreditar que alguém está do lado da razão SOMENTE por que esta pessoa disse que está do lado da razão, aí sim seria uma atitude irracional.

Para entender o tamanho da irracionalidade presente no aceite desta rotina, imagine uma organização que resolva eliminar os Dashboards Corporativos. A partir de um determinado momento, ninguém mais precisa ser investigado pelos resultados produzidos, mas por declaração dada. Quer dizer, se alguém disser nos corredores que “é a favor dos resultados”, em maior quantidade que um outro gerente, irá obter a melhor avaliação de desempenho. Fica claro que a empresa estaria construíndo sua própria ruína se fosse por esse caminho.

Uma da regras do ceticismo político que desenvolvi diz o seguinte: o fato de alguém atribuir a si próprio um rótulo positivo, não prova, por si só, que este rótulo positivo é aplicável a ele. Na empresa, significa dizer que o fato de um gerente dizer que “é a favor dos resultados” ou que “é de resultados” não prova, por si só, que este gerente é o que apresenta mais resultados ou que realmente ele está a favor dos resultados. Assim como o fato de um humanista dizer que “é a favor da razão” ou que “é da razão” não prova, por si só que este humanista demonstra mais razão em sua ações ou que realmente está a favor da razão.

Sendo assim, temos que investigar ainda se os humanistas estão do lado da razão, ou apenas fazem a declaração de que estão do lado da razão para obter o efeito psicológico que esta rotina pode causar. Mesmo que você os refute, eles continuarão tentando, por repetição, convencer a platéia de que estão do lado da razão.

Como já disse antes, o efeito psicológico é poderoso. A partir do momento em que a platéia reconhecer um lado como “dono da razão”, em oposição ao outro, este último automaticamente NÃO SERÁ OUVIDO, pois o ser humano é biologicamente programado para estar do lado de quem “está com a razão”.

Em minha opinião, esta é a rotina de controle de frame mais poderosa do humanismo, pois tem efeito psicológico devastador. Devíamos cada vez mais ensinarmos os não-humanistas a desafiar os oponentes TODAS AS VEZES em que tentarem este recurso.

Novamente, digo, sei que é cruel reconhecer que grande parte do discurso de Kant, Hegel, Voltaire não passa do blá blá blá de dizer “estou do lado da razão, ele não, buy me“.

Mas tenha consciência de que, colocados sob estrito questionamento, várias das crenças divulgadas por eles não passam de contos da carochinha, como “crença no homem”, futuro maravilhoso a partir de tese-antítese-síntese gradual, e daí por diante.

Mas eles só conseguiram implementar suas idéias por que usaram técnicas de controle de frame em repetição absurda. E de todas as rotinas de controle de frame, essa é uma das que menos seus oponentes percebem e talvez é a que mais possui efeito psicológico benéfico ao humanista.

Em resumo, todos devem estar cientes de que afirmar “estou do lado da razão, ao invés dele” é o mesmo que dizer “ouça apenas a mim no debate”. E, caso a rotina seja efetivada, todo seu esforço no debate estará perdido, independente dos argumentos que você tenha.

É nosso papel, portanto, demolir as crenças humanistas (assim como todas as crenças esquerdistas) e mostrar à platéia que eles jamais foram “donos da razão” ou que estiveram “do lado da razão”, mesmo que tenham afirmado que estivessem. Replay para não esquecer: se você aceitar essa rotina de controle de frame, significa que está entregando a arena do debate de bandeja para o oponente.

Há um risco adicional na identificação desta estratégia. Muitas vezes o humanista pode usar o truque de declaração sem atribuição de rótulo a si próprio, mas tentar influenciar o público fingindo luta por uma causa nobre. Novamente, em 100% dos casos, ele vai tentar te enrolar, pois ele sabe que o discurso de dizer que “está do lado da razão” é um discurso vazio.

E não podemos deixar de esquecer o básico. Acreditar em Deus é uma decisão que pode envolver aspectos não-racionais, mesmo que se usem argumentos racionais que mostrem a COERÊNCIA da crença em Deus, mais do que supostamente a não coerência da descrença em Deus (William Lane Craig é ótimo para esse tipo de argumentação). Entretanto, acreditar que o ser humano poderá, por sua ação, se livrar de suas contingências naturais (empatia combinada com instinto predatório e de auto-preservação) para criar um paraíso na Terra, é uma demonstração de irracionalidade plena. Portanto, a mera declaração de humanistas ao afirmarem que “todas decisões devem ser tomadas à luz da razão” não conferem com a crença central deles, que nada tem de racional. Aqui teríamos um exemplo de não congruência entre declaração e ação.

Vamos a um outro exemplo de tentativa de convencimento da platéia de que se possui um rótulo apenas pelo uso de “simulação de aderência à causa” ou “defesa de causa”.

Imagine um sujeito que queira virar um líder Six Sigma, mas jamais apresentou qualquer trabalho em Six Sigma e não mostrou domínio nem prática desta metodologia. Mas ele começa a afirmar frases como “Six Sigma, my master”, ou “todas as ações devem ser norteadas pelo Six Sigma”. Ou até mesmo “Six Sigma, todos devem lutar por isso”.

Psicologicamente, ele poderá até influenciar algum ingênuo e convencê-lo de que realmente ele é um Six Sigma Black Belt, por exemplo. Mas note que ele não demonstrou esse skill, apenas fez declarações que não provam sua aderência real ou competência de fato.

Esteja atento, portanto, às duas principais vias pelas quais essa rotina pode ser executada:

  1. Declarar, formalmente, que se está “do lado da razão”, para tentar convencer diretamente a platéia. Neste caso, temos um self-selling.
  2. Simular uma aderência à “causa da razão”, para tentar ser percebido pela mesma platéia como alguém mais racional.

Em qualquer um dos casos, não deixe, POR HIPÓTESE ALGUMA, a rotulagem de alguém se auto-definindo como “dono da razão” ou “representante da razão” passar batida. Gaste o tempo que for necessário para desmascará-los, pois caso a rotulagem seja implementada com sucesso, não há mais muito o que ser feito no debate.

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11 COMMENTS

    • De jeito algum. O que eu disse é que caso uma pessoa afirme que “está do lado da razão”, e esta é a única prova de que ela estaria do lado da razão, isso é apenas uma declaração, que pode muito bem ser falsa.

  1. Este principio humanista “Uso da razão, do método científico e da evidência factual em lugar de fé ou de misticismo, na busca de soluções e respostas para as questões humanas mais importantes.”

    Na sua opinião, esse é um exemplo da rotina que você mostrou aqui?

    • Com certeza. Aliás, como já mostrei o humanismo não faz uso da “razão” ou “método científico” para definir sa doutrina. Pelo contrário, coisas como “nova empatia”, uma nova rotina deles pós-Steven Pinker e Frans de Wall, não é sustentada por evidência.

  2. Post fantástico! Eu já caí muito nesse truque e dizia que os ateus ao tentarem resolver tudo pela razão não conseguiriam. Mas é como você disse, quem disse que os ateus são ‘donos da razão’? Olhando o que eles escrevem em detalhes, nota-se que são irracionais e apelam o tempo todo para chantagem emocional. Depois do que você escreveu jamais me descreverei como defensor da fé em um debate com eles. Vamos lutar para que o público decida com quem estah a razão.

  3. O que eu mais me pergunto é como podem os neoateístas se arrogarem a condição de “senhores da razão” quando o neoateísmo tem uma evidente característica de credo religioso (ainda que secular) e as argumentações (e técnicas argumentativas) que eles utilizam se parecem muito as linhas de raciocínio típicas de radicais religiosos.

    Alías, é curioso ver como os doutrinadores neoateístas fazem interpretações dos textos sagrados de todas as religiões tão, digamos, peculiares, no que acabam se igualando aos doutrinadores… dos radicalismos religiosos diversos.
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    Luciano, como já falei, acabo de descobrir seu blog e estou explorando. Ainda não me decidi se vou por temas ou sigo a ordem cronológica das postagens… olha, estou impressionado. Você merece todos os parabéns pelo conhecimento adquirido, pela iniciativa e pelo tempo dispendido em fazer isto aqui. E um “muito obrigado” constante, não só pelas coisas que aprendemos aqui, mas em outros textos aos quais chegamos por sugestão ou referência sua.

    Parabéns, também, por manter um dos poucos espaços de civilidade que restaram na internet. Aqui pode-se divergir e debater com respeito, ainda que com dureza.

    Certamente vou recomendar e espalhar seus textos por aí.

    Abraço!

  4. Novamente, digo, sei que é cruel reconhecer que grande parte do discurso de Kant, Hegel, Voltaire não passa do blá blá blá de dizer “estou do lado da razão, ele não, buy me”

    – Apresente exemplos desta declaração na obra dos referidos filósofos. Não lembro de nada parecido…

    Abraço

  5. Olá Luciano, você talvez se lembre de mim, por outros comentários em outro post, mas o caso é que depois de ler este texto, fiquei com a sensação de que pessoas precisariam destes pensamentos aqui abordados. Por que sua proposta de dar armas para qualquer pessoa não importando qual lado ela esteja é de grande valor para todos. Você deveria escrever ou transcrever para um livro esses pensamentos, pois muita gente precisa de auto-ajuda, mas não estou dizendo que seus textos são de auto-ajuda, apenas deixarias pessoas com alguns problemas, sairem de armadilhas usando desses artifícios que você propõe. Muito bom mesmo seu texto, e você deve pensar seriamente em escrever seu livro, pois aqui há uma mina de ouro para todos inclusive para mentes perversas, e pensando nisso fiquei com a impressão de que qualquer um com má intenção e com recursos para fazer, poderia pegar aqui todo seu conteúdo e modifica-lo apenas para efeito de comparação, para não dizer que plagiou seus textos, para depois publicar como autor em um possível livro, fique ligado sobre o assunto. Um abraço.

    • Estou elaborando não só um livro, como uma trilogia sobre o assunto. São 3 temas: (1) Guerra Política, (2) Neo-Iluminismo, (3) Ceticismo Político. Realmente sinto que algumas pessoas já usam conteúdo vindo daqui, o que é ótimo. Mas ainda falta uma ESTRUTURA, que dificilmente consigo fazer pela forma do blog. Nos livros, trarei essa estrutura. Até metade de 2014 terei novidades sobre essa trilogia.

      Antes disso, estou à beira de lançar um livro sobre os escravos cubanos, em formato Kindle, que trata da moral psicopática. Podemos dizer que ele é um exemplo sistemático da aplicação de meu paradigma de ceticismo político.

      Abs,

      LH

      • Bom saber disso Luciano, espero que você ao lançar os livros mande aviso por e-mail, para que eu possa comprar, por que não sei, se sempre vou estar por aqui, acompanhando o que está acontecendo, mais por e-mail, sempre estarei sabendo o que está acontecendo, sempre que me prendo em blogs interessantes como o seu também deixo meu e-mail para isso. Uma idéia que te sugiro, é lançar aqui e-books ou formatos em PDF sobre livros ou mesmo apenas resumos de analises, como já encontrei em outros blogs sobre outros assuntos. Valeu, um abraço.

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