Estratégia: Futuro Inexorável

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Essa estratégia tem uma função essencial: gerar força de vontade no adepto da esquerda em lutar pelo seu ideal. A idéia é meter na cabeça do crente (seja em Marx, Comte ou Dawkins, tanto faz) que o futuro pelo qual ele luta vai acontecer DE QUALQUER FORMA.

Nós sabemos que existem duas certezas: a morte e os impostos. O esquerdista tem uma terceira: que o futuro idealizado vai acontecer. Claro que nenhum deles tem a menor idéia sequer a respeito de como esse futuro será viabilizado (por causa da estratégia Situação Futura Projetada Intencionalmente Vaga). A única certeza é que não há outra opção a não ser o futuro idealizado. É o tal “fim da história”, que os hegelianos adoram de paixão.

Diga-se de passagem, qualquer esquerdista irá fazer uso desta estratégia (se for beneficiário) ou ao menos ser vítima dela (se for funcional).

Olavo Carvalho abordou o tema da seguinte forma, ao falar da mentalidade revolucionária:

As pessoas normais consideram que o passado é algo imutável e que o futuro é algo de contingente ― “o passado está enterrado e o futuro a Deus pertence”, diz o senso-comum. A mente revolucionária não raciocina desta forma: para ela, o futuro utópico é um objetivo que será inexoravelmente atingido ― o futuro utópico é uma certeza; não pode ser mudado. Por outro lado, a mente revolucionária considera que o passado pode ser mudado (e ferozmente denunciado!) através da reinterpretação da História por via do desconstrucionismo ideológico (Nietzsche → Gramsci → Heidegger → Sartre → Foucault → Derrida → Habermas). Em suma: o futuro é uma certeza, e o passado uma contingência ― isto é, o reviralho total.

O padrão de como a implementação ocorre é facilmente identificável. Basicamente a coisa funciona como se fosse um pequeno framework:

  1. Entende-se um pequeno detalhe da realidade, que poderá dar um ânimo em relação a um futuro projetado
  2. Avalia-se esse pequeno detalhe como a evidência de que o futuro realmente ocorrerá
  3. Assume-se como verdade que esse futuro é inevitável
  4. Afirma-se em público que a ocorrência deste futuro é um “caminho sem volta”

Vamos aplicar o framework, com o exemplo da crise de 1929:

  1. Ocorreu a crise de 1929, uma crise essencialmente capitalista
  2. Isso seria uma evidência de que o capitalismo está com os dias contados
  3. O esquerdista passa a contar os dias para ver o capitalismo no caixão
  4. Ele sai afirmando (e se for funcional, acredita nisso) que a morte do capitalismo são favas contadas

Como se nota, falar é fácil, mas o duro é que a realidade nunca valida as idéias dos esquerdistas. Mesmo com a crise de 1929, o capitalismo segue muito bem, obrigado. Aliás, a crise da Europa ocorreu por inserção de idéias socialistas, em detrimento das capitalistas.

O framework também pode ser aplicado para simular o uso da existência da empatia para fingir que o poder pode ser dado a pessoas, de forma totalitária, para cuidar dos outros (estratégia Crença no homem). Por exemplo:

  1. Há um vídeo mostrando que as pessoas cometem gentilezas sem esperar nada em troca
  2. Isso é uma evidência de que no futuro as pessoas serão tão empáticas a ponto de “se ver nos outros”, e a maldade não será mais um fato
  3. O esquerdista considera que é só esperar os dias passarem, para que ele já possa dar poder absoluto aos seus líderes (pela empatia, eles cuidarão bem do resto do povo)
  4. Ele sai propagando que hoje a empatia nos permite acreditar em um estado inchadíssimo ou mesmo totalitário

Certo. É preciso de uma alta dose de interpretação delirante para que esse auto-engano funcione, mas todo esquerdista está sempre alerta para reforçar sua crença com estimulação constante, seja pela leitura de Lukacs, Adorno, Marcuse ou qualquer outro dessa linhagem de autores.

Contudo, ainda precisamos entender qual o benefício desta estratégia.

Imagine que você vai fazer uma prova, e não tem a mínima noção de que pode passar. Agora imagine que você acredita que VAI PASSAR, bastando não cometer deslizes. A motivação para o estudo será muito maior no segundo caso, pois você estará lutando por algo que possui grandes chances de ocorrer. Agora, imagine se você tivesse CERTEZA de que isso vai ocorrer. A motivação seria ainda maior. Claro que muitas vezes é preciso tomar cuidado para não relaxar, no caso de um time que comemora antes da hora.

Este é um dos benefícios.

Outro benefício é que a estratégia poderá aumentar a taxa de CONVENCIMENTO dos neutros. A tese de Elisabeth Noelle-Neuman, A Espiral do Silêncio, fala de grupos que disputam a opinião pública. Entre os detalhes da teoria, está o fato de que o grupo mais convencido da validade de suas idéias tende a convencer com maior facilidade os neutros.

Um terceiro benefício é que até o lado oponente poderá desistir. Note que a confiança de um dos lados em uma luta pode ter como objetivo (e geralmente tem) abalar a confiança do outro lado. Basta ver como funcionam as prévias de lutas de boxe, com um lutador afirmando algo como “no sábado, te farei em pedacinhos”.

Em resumo, os 3 benefícios da estratégia:

  1. Motivar as pessoas do próprio grupo para a luta
  2. Convencer os neutros a irem para seu grupo
  3. Abalar a confiança do lado adversário

Se agora entendemos como funciona a estratégia, e os benefícios que ela gera, basta exigir evidências de que o futuro ocorrerá de forma estritamente cética.

E daí é só esperar o esquerdista partir para o “veja bem”.

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4 COMMENTS

  1. “É o tal “fim da história”, que os hegelianos adoram de paixão.”
    Hegel tinha em mente pressupostos crsitãos para tal afirmação, isso não se pode negar. Foi um erro mais teológico do que filosófico.Quanto fato de colocar Sartre e Habermas entre aqueles que defendem que um futuro sem contingências está em marcha, isso me parece desconhecimento quanto ao que foi dito por estes filósofos. Nenhum dos dois escreveu nada que pudesse sustentar tal classificação. Nada, nem uma linha. Pelo contrário, em Sartre vemos a impossibilidade de tal.

      • Esta é uma das polêmicas sartreanas contra os marxistas. Sartre foi um fã da antropologia marxista, da abertura de compreensão da história aberta por Marx. Dos Manuscritos Políticos Filosóficos. Um fã do materialismo histórico enquanto chave de compreensão e de significação para vários fenômenos sociais. A questão do trabalho alienado, da mais-valia, da economia política são os pontos de leitura da história que Sartre mais admirou. Mas, por outro lado, sua ontologia não permitirá jamais a superação das diferenças individuais, como ele mesmo cansou de expor em debates contra marxistas. Nenhuma consciência jamais parará de pensar, de abstrair, e, portanto, a história jamais cessará, as contradições jamais serão suprimidas. Sartre tinha em mente o futuro distante, idealizado no imaginário marxista através de uma leitura invertida da dialética hegeliana. Quanto a este futuro, na obra o Ser e o Nada, Sartre rechaça a possibilidade de pensá-lo em termos definitivos. Ele está em aberto e sempre estará, isto porque nehuma consciência poderá pensar o absoluto, pois metafísica já morreu. Seu rompimento com o partido comunista e suas inúmeras intervenções públicas repudiando “o partidão” dão testemunho disto. Sartre concordou com Marx apenas em alguns aspectos. Em síntese é isto. Prometo citações mais tarde, quando eu chegar em casa! Abração e obrigado pelo espaço!

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