O ceticismo que não morde

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O ceticismo mainstream, que talvez muitos conheceram na infância ou na escola, ao assistir o programa “Cosmos” de Carl Sagan ou aos vídeos James Randi no Fantástico, não nos serve mais.

Ele é ineficaz na maioria dos casos pois serve para nos proteger APENAS de alegações que tenham ênfase no sobrenatural.

Na verdade, o ceticismo deveria nos defender de TODOS os que fazem alegações com base em obtenção da autoridade.

O ceticismo anti-religioso e anti-sobrenatural toma por base uma premissa que beira o patético: só é possível obter autoridade através de uma alegação SE ESTA ALEGAÇÃO for baseada em aspectos religiosos e/ou sobrenaturais, o que obviamente não é verdade.

Não estou dizendo que o ceticismo em relação ao sobrenatural deva ser abandonado, pelo contrário. Mas sim que o ceticismo deve ENGLOBAR toda e qualquer alegação com ênfase na obtenção de autoridade, seja esta alegação vinda através do uso do sobrenatural como também de qualquer ideologia.

Quando alguém afirma que é um vampiro, e que por isso tem o poder de ler a mente das pessoas (e aí ser mais sedutor para uma garota, por poder orientá-la melhor e salvá-la dos “males do mundo”), esta é uma alegação que faz uso do sobrenatural e por sua aceitação, o sujeito que a implementa obtém AUTORIDADE sobre alguém.

Só que quando alguém afirma que venceu os instintos humanos de luta pelo poder e estabelecimento de seu território, e portanto pode receber o poder para implantar a justiça social, este alguém também está obtendo AUTORIDADE sobre os outros. E não há nada de sobrenatural nesta alegação. (Se bem que em tese, podemos dizer que se alguém nega tudo o que a ciência nos diz sobre a natureza da espécie humana, está com uma alegação mais frágil do que aquelas pertencentes ao terreno do sobrenatural)

O ceticismo de Carl Sagan e James Randi nos provê mecanismos para escapar da obtenção de autoridade moral feita por aquele que finge ser um vampiro, mas não nos dá proteção alguma contra as alegações feitas por aqueles que dizem que podem implantar a “justiça social”.

E, como já disse antes, as alegações com ênfase no sobrenatural podem ser políticas ou não, mas as alegações de ideólogos da religião política são SEMPRE políticas. O que significa que, se aceitas, estas alegações darão vantagem a uma pessoa ou grupo em relação a outras pessoas ou grupos.

Ao estudar a Dinâmica Social dos embates políticos, comecei a perceber uma nuance: muitos dos conservadores são religiosos, e por isso em muitos casos podem apresentar desconforto diante da expressão “ceticismo”.

Faça um teste. Chegue para um religioso e afirme que é um cético. Em muitos casos, você será visto como um “ateu”. Eu fiz o teste e perguntei para 3 amigos em uma mesa de bar.

O diálogo começou comigo afirmando: “Eu sou cético. Diante disso, me diga qual a sua percepção sobre minhas crenças.” Todos eles afirmaram, em uníssono: “Significa que você não acredita em Deus”.

Eu afirmei: “Não necessariamente, eu sou cético não só em relação a Deus, mas principalmente em relação ao homem. Por exemplo, em relação à idéia de que o homem é bom e portanto pode controlar a sociedade de forma a dar ‘justiça para todos'”.

Um amigo me disse: “É, entendi, você é realmente cético”.

Foi quando o questionei do motivo pelo qual ele me rotulou como “ateu” imediatamente após eu ter me definido como cético. Ele não sabia explicar, mas aos poucos entendi que ele foi vítima da rotina de controle de frame “Cético universal”, implementada há muitos anos com sucesso pelos humanistas.

Por isso, a mente dele aprendeu a identificar o cético como um oponente, especificamente do sobrenatural e da religião.

Pode demorar um pouco para explicarmos a ele que o ceticismo não tem uma agenda contra a religião, e que na verdade o ceticismo NÃO REQUER que a pessoa tenha esse tipo de agenda. Podemos inclusive dizer a ele que, ao acreditar em Deus, ele está sendo cético em relação aos argumentos ateístas. Logo, é um jogo de ceticismo. Ele é tanto cético em relação aos ateus quanto os ateus são céticos em relação a ele.

Mas reconheço que isso não será suficiente para quebrar a programação mental inserida pelos humanistas, e portanto talvez seja necessário usar de outros expedientes.

Um deles pode ser: “Há um amigo meu que sabe cuidar muito bem das contas das pessoas e fazer ótimos investimentos, e para isso ele pede todas as senhas e dados bancários das pessoas que ele ajudará. Ele quer te ajudar. Você pode me passar todas as suas senhas e informações?”. A resposta tende a ser algo do tipo: “Luciano, você está maluco?”. A sequência pode ser: “Ah, você não tem fé…”.

A partir disso, basta dizer: “Está vendo? Você foi cético. E nem doeu…”

Depois, é possível fazer uma explicação didática mostrando que o cético só seria alguém que “não acredita em Deus e no sobrenatural” se estas fossem as ÚNICAS CRENÇAS POSSÍVEIS. Como não são, o termo “cético” precisa deixar de ser definido como “aquele que não crê em Deus e no sobrenatural”.

Somente a partir disso, será possível incutir na mente do conservador cristão que o ceticismo é uma ARMA FUNDAMENTAL que ele deverá utilizar para se defender de todas as alegações, especialmente as alegações políticas.

Mas nada disso funcionará se a mente dele estiver ainda bloqueada pela idéia de que “ceticismo é coisa dos oponentes dele”.

As vezes é preciso de uma estimulação forte, e quem já viu o filme “A Origem” sabe como funciona. Provavelmente será preciso registrar lá no sistema límbico profundo (área cerebral responsável pelas emoções) que o ceticismo não é algo feito para atacá-lo, mas uma ferramenta para sua vida intelectual, de qualquer tipo e para qualquer tipo de alegação vinda dos outros. Isso poderá ser feito por um sem número de exemplos e, se necessário, desafios.

Em resumo, precisamos mostrar a ele que o ceticismo não morde.

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