A verdade nua e crua – I:1 – Dinâmica Social, uma Introdução

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Augusto Comte usava o termo sociologia para estudar as leis fundamentais dos fenômenos sociais. Ele dividiu a sociologia em duas partes: estática social e dinâmica social. A primeira falava das manutenção das tradições, e a segunda da busca do “progresso”. Segundo Comte, a estática social era o conformismo ao passado e a dinâmica social a busca de sociedades cada vez mais perfeitas.

A abordagem de Comte não faz muito sentido se não formos crentes políticos como ele (e este é um dos temas que tratarei neste ensaio, como tenho feito também em outros textos do blog). Para Comte, a história tinha um sentido, e nós caminhávamos neste sentido. (ver estratégia Futuro Inexorável)

Portanto, que fique claro: quando eu tratar do termo Dinâmica Social abordado aqui, ele é QUALQUER COISA menos a abordagem positivista de Comte. Na verdade, a Dinâmica Social pode estudar até os motivos pelos quais Comte desenvolveu sua forma de religião política e por que muitos aceitaram sua idéia.

Sendo Comte carta fora do baralho em nossa análise, vamos a um outro nome: Kurt Lewin, um psicólogo que viveu entre 1890 e 1947 e chegou a colaborar com os pioneiros da terapia Gestalt. Mesmo com sua colaboração na terapia Gestalt, ele seguiu um rumo diferente, tomando como seu principal conceito o espaço vital. Para Lewin, este é o espaço que determina o comportamento de um indivíduo em um certo momento, o que significa que passamos a ter uma abordagem estruturalista dos problemas humanos, assim como na antropologia e na futura psicologia evolutiva.

A maior expectativa de Lewin era que um dia fosse possível esclarecer e tornar inteligível a psicologia dos macro-fenômenos de grupo. Como vou mostrar aqui nos próximos capítulos, podemos dizer que a ambição não era desmedida.

Se havia um tempo no qual Freud se preocupava com o foco no íntimo do ser humano, Lewin focou no aspecto comportamental, sem ignorar o aspecto íntimo. O importante para Lewin era, nas palavras de Edward Tolman, “apreender as leis dinâmicas segundo as quais os indivíduos se comportam em relação ao meio”.

Quero definir aqui a Dinâmica Social de uma forma mais simples, e facilmente compreensível para a maior parte dos leitores. Minha definição permite que eu não contradiga as afirmações de Lewin, embora possa ampliar seu paradigma em cima do que ele construiu. Aqui vai:

Estudo de como funciona a interação de um indivíduo em relação a outro indivíduo, um indivíduo em relação a grupos, e grupos em relação a grupos, considerando todo o espaço vital relacionado a essas entidades.

E quando falo de espaço vital, falo de praticamente tudo: todas as ações, motivações, eventos e aspectos gerais (inclusive biológicos) relacionados ao meio que envolve o indivíduo ou os grupos sob análise.

Para trazermos algo que está nas nuvens para o chão, vamos estudos de caso.

Um gerente chega em uma organização e é visto pelos gerentes sêniores, inclusive seu chefe, como alguém inovador. Aos poucos várias pessoas o reconhecem por suas idéias e os diálogos no corredor mencionam seu talento. Ele lê em um livro de PNL que deve sempre ser assertivo ao defender suas idéias. Seu chefe, após 4 meses, resolve colocá-lo na equipe de “projetos especiais”. Ele não é mais “percebido” pela organização como um talento, mesmo que continue gerando resultados para a organização.

À primeira vista pode parecer que o novo gerente cometeu algum erro ao expor suas idéias, ou não foi muito claro, mas pela Dinâmica Social temos que observar todos os aspectos envolvidos. Alguns deles:

  • o chefe do gerente, que queria manter sua posição e não ser ofuscado
  • vários dos gerentes sêniores com quem o novo gerente interagiu tinham fidelidade ao chefe dele
  • o seu chefe estava sendo contestado por ser pouco arrojado
  • a presença de alguém com novas idéias poderia afetar o status do chefe

Note que todos os pontos devem ser considerados e avaliados, e a coisa se complica ainda mais quando temos o seguinte dado: Por que o chefe não armou a demissão do novo gerente e ao invés disso jogou-o para “projetos especiais”? Alguns pontos a considerar:

  • este chefe estava sendo contestado, e seria ainda mais contestado se perdesse um grande talento para o mercado
  • colocando o novo gerente talentoso em uma área de projetos especiais este poderia ainda assim ajudar o chefe a obter alguns resultados, e ao mesmo tempo não ofuscá-lo

Questionamentos poderiam surgir em relação ao fato do chefe do novo gerente não ter aproveitado o talento dele e permitido que ele se tornasse um gerente sênior. A questão pode ser respondida com um aspecto adicional, vindo da análise biológica da coisa: o chefe tinha que se preocupar com sua auto-preservação.

Pode ser dolorido notar que o que ocorreu foi completamente normal, de acordo com o estudo da natureza humana. Podemos até apontar que existiu ingenuidade do novo gerente na hora de apresentar suas idéias. Segundo o livro “Corporate Confidential”, de Cynthia Shapiro, “não é muito esperto ser muito esperto”.

Todas essas nuances só podem ser observadas quando avaliamos o indivíduo em relação a sua interação com indivíduos e grupos, considerando todo o espaço vital envolvido. E no espaço vital note que estou considerando as motivações de todos, e até os aspectos evolutivos relacionados (como o senso de auto-preservação do chefe,  que vem desde os tempos das cavernas e está presente em todos os animais).

Um outro exemplo que podemos citar é o da décima segunda edição do Big Brother Brasil.

Quem acompanha este reality show (e eu comecei a assistir essa edição depois que criei o verbete para a estratégia Sensibilidade Artificial Histérica, citando um caso ocorrido no BBB12), pode notar que há um relacionamento entre Yuri e Laisa. (Aliás, reality shows podem ser interessantes como estudos de Dinâmica Social, e até vídeos como a série pornô Girls Gone Wild podem servir para isso)

O curioso deste relacionamento é que Yuri, de postura agressiva-dominante, torna-se totalmente passivo diante de Laisa. Aos poucos, Laisa demonstra dominar a situação, sendo a “mandona” da relação. Alguns fatores envolvidos:

  • Yuri, mesmo que de natureza agressiva, torna-se totalmente passivo diante de Laisa
  • Laisa parece notar que o domínio que ela exerce é justificável, pois ela tem uma estética impressionante, incluindo corpo, pele e especialmente os ossos da face
  • Todas as pessoas do meio riem de Yuri e de sua passividade

Já vi pessoas comentando algo como “Esse tal de Yuri é louco, como alguém pode ser submisso deste jeito?”. Mas o fato é que Laisa gerenciou bem a situação e o seu capital estético. Em suma, ela possui tal nível de superioridade estética na relação a Yuri que, em troca, adquiriu o direito de “mandar”. (Se as feministas reclamam da Ditadura da Beleza, deviam notar que, em caso de estética muito superior a do macho, a mulher “manda” na relação mais fácil)

Assim como no exemplo anterior, elementos como “defesa do território pelo chefe” e “auto-preservação natural do ser humano” são normalmente esquecidos da análise popular e até de vertentes mais ortodoxas da psicologia, o uso do capital estético por parte de Laisa têm sido ignorado pelo público que assiste o BBB12.

Eu fiz questão de trazer um exemplo corporativo como também o de um programa popular para mostrar que as nuances do espaço vital são normalmente esquecidas da maioria das análises que fazemos a respeito dos maiores eventos, problemas e dilemas que existem. (Política corporativa e política sexual fazem parte disso)

O que defenderei aqui, na parte 1 da série “A Verdade Nua e Crua” é o uso da Dinâmica Social para avaliar todas essas questões. Ao mesmo tempo, vou a fundo em como funciona a Dinâmica Social dos seguintes itens: natureza humana, debates políticos, esquerda, direita, relacionamento sexual humano, família, religião, conservadorismo, ceticismo, razão e demais tópicos.

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5 COMMENTS

  1. O ensaio já começou empolgante e ajudou a entender melhor as nuances deste blog, nunca tinha parado para estudar dinâmica social e quero saber mais sobre o assunto.

  2. Luciano, sua explicação com os dois exemplos foi bastante clara, só q tem um problema, muitas pessoas não conseguem observar o espaço vital, eu acho que até possuem medo de observa-lo. Como vencer esse problema?

    • Ótima pergunta, estou planejando tratar o assunto ainda nesta série. É a questão do pensamento baseado em um único fator, para a modificação do pensamento para a observação de multi-fator. Quando se protegem as próprias crenças, muitos tendem a ficar no único fator que as proteja. Mas abordarei isso em mais detalhes no texto, que deve ser a sexta ou sétima parte deste ensaio. Abs, LH.

  3. Com esse leque de conhecimento, sobre causa e efeito, baseado em psicologia evolutiva e sociologia fica mais fácil entrar nessa guerra política e fazer uma leitura do q está acontecendo no quadro geral. Isso é um conhecimento útil em todas as áreas da vida.

  4. o_O… Que espetáculo esse post, cara! Teor zero de supressão de informações e, por sinal, um baita condensado delas sem faltar com clareza ou ficar maçante. Também sou fascinado por dinâmica social e com certeza reservarei tempo para ler mais em seu blog sobre isso.

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