Religião política: o que isso realmente significa?

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Neste blog, o que mais tenho executado é o ceticismo em direção à religião política, a qual também é alvo de minhas principais críticas.

Entretanto, reconheço que já vi leitores questionando: “que diabos esse Luciano quer dizer por religião política?”. Em meu texto “A Esquerda como um Todo” eu coloquei todas as características da esquerda, e também a chamei de religião política. Mas faltou uma definição estrita do termo religião política em si, já que estabelecer um rótulo não é uma definição. Eu defini o pensamento de esquerda, mas não por que ele DEFINE-SE como a religião política.

No texto “Princípios e Fundamentos para o Ceticismo Político”, eu digo várias diferenças entre a religião tradicional e a religião política. Mas neste também fiquei devendo a definição.

Eis então que fiz um “mea culpa” e resolvi desafiar a mim próprio na busca por uma definição para religião política que seja condizente com os fatos, e, se isso não for possível, eu tenho que ser intelectualmente honesto e abandonar esse termo.

Uma premissa inicial que tomo, inspirado tanto pela abordagem de John Gray nos livros “Cachorros de Palha” e “Missa Negra” como pela experiência adquirida no debate com os religiosos políticos, é a de que a religião política é uma ADAPTAÇÃO do cristianismo, o qual é uma religião tradicional.

Por isso temos que analisar a religião tradicional, para entender se, nesta adaptação, o termo religião política é adequado para definir a esquerda.

Religião tradicional refere-se a um sistema que engloba cosmovisão, valores morais, crença em divindades e busca do sentido da vida. Algumas religiões tradicionais englobam narrativas, simbologias e tradições, além de ritualística. Mas é possível ter uma religião sem rituais, obviamente.

Segundo John Gray (e concordo com ele), provavelmente inspirados pelo sucesso do cristianismo, positivistas, humanistas e demais perfis revolucionários fizeram um “upgrade”, trocando a crença em Deus pela crença no homem, criando uma cosmovisão e estabelecendo novos valores. E, é claro, deram um sentido às suas vidas (na opinião deles, deram um sentido a vida de todos os homens).

O cristianismo milenarista, que defendia a vinda de Jesus em carne para a salvação terrena (não espiritual), é como um “elo perdido” entre a religião tradicional e a religião política.

Cristãos podem até se ofender com essa comparação, mas atenção: ela não nos diz nada em relação à validade ou não da crença em si. Portanto, quando estou buscando o “elo perdido” entre o cristianismo milenarista e a religião política, faço-o de forma antropológica, sem atribuir validade filosófica ou não ao sistema de crenças cristão.

Seja lá como for, temos várias semelhanças, como por exemplo a crença em um apocalipse, que é transformada por esquerdistas em coisas como “colapso do sistema capitalista”. A crença em uma salvação é transformada também em um tipo diferente de “salvação”, no caso aquela criação de um “novo mundo”, sem sofrimentos, sem injustiças e/ou sustentado pela “razão e ciência”.

Como era de se esperar, há um conjunto de valores que permite um senso de identidade no grupo, em ambos os casos.

Quando avaliamos a crença em Deus, ela pode ou não existir para os membros da religião política, dependendo de cada perfil de crença. Em alguns casos, a religião política é HOSTIL à crença em Deus, provavelmente pelo fato de que esta crença irá competir com uma de suas crenças centrais, a crença no homem:Crença na idéia de que o homem, poderá por sua ação, através da razão, empatia e/ou ciência (ou qualquer outro atributo usado para simular âncoras positivas) eliminar as contingências humanas, como luta por auto-preservação, territorialismo, gregarismo e busca pelo poder, para então criar um cenário na Terra em que um grupo específico de homens (estes “iluminados”) protegeriam a humanidade como um todo, com justiça para todos e amplificação da felicidade global.”

Justiça seja feita, existem variações da crença no homem, algumas em que tentam racionalizá-la um pouco mais, e outras em que a confiança é absoluta, e isso se reflete em coisas como crença em um estado forte (comandado, naturalmente, por homens) ou em um governo centralizado global.

Já deixei claro que as semelhanças realmente são muitas, com a diferença de que não há crença em Deus, e que não veremos religiosos políticos rezando por aí, assim como realizando novenas e procissões. Entretanto, eles adoram uma passeata para promover suas crenças.

Outra semelhança que une os dois tipos de religião é a presença de componentes de fé. Exemplos são a crença na ressurreição de Cristo e o nascimento virginal, no cristianismo, enquanto existe a crença de que o homem irá construir um paraíso em Terra por sua ação, eliminando as contingências naturais humanas (exemplo: o hardware biológico que o ser humano possui de nascença), para o “bem comum”, dentre outras.

Existem também algumas diferenças entre a religião tradicional e a religião política, mas estas, assim como a crença em Deus convertida em crença no homem, podem ser explicadas como “adaptação” da religião cristã.

Por exemplo, a religião cristã, assim como as outras, permite o uso de metáforas, mas a religão política é sempre literal. Os cristãos podem interpretar que o mundo tem 6,000 anos, como também interpretar que possui 14 bilhões. Já as interpretações da religião política são preto no branco.

O que temos aqui é uma quantidade incrível de semelhanças, e as poucas diferenças SÓ PODEM ser creditadas à “adaptação”, ou seja, o salto do cristianismo milenarista para positivismo/humanismo, que são mais que os protótipos de toda religião política atual, como também componente central de variações como social democracia, marxismo, nazismo, fascismo e outras.

Observem que neste texto, não estou me importando em atribuir juízo de valor. Eu poderia fazê-lo, mas com certeza eu me empolgaria e perderia o objetivo central que tenho aqui, o de definir a religião política, e, se não conseguir, abandonar o termo.

Como experimento, peguemos as definições do dicionário Michaelis para religião, no caso, a religião tradicional:

  1. Serviço ou culto a Deus, ou a uma divindade qualquer, expresso por meio de ritos, preces e observância do que se considera mandamento divino.
  2. Sentimento consciente de dependência ou submissão que liga a criatura humana ao Criador.
  3. Culto externo ou interno prestado à divindade.
  4. Crença ou doutrina religiosa; sistema dogmático e moral.
  5. Veneração às coisas sagradas; crença, devoção, fé, piedade.
  6. Prática dos preceitos divinos ou revelados.
  7. Temor de Deus.
  8. Tudo que é considerado obrigação moral ou dever sagrado e indeclinável.
  9. Ordem ou congregação religiosa.
  10. Ordem de cavalaria.
  11. Caráter sagrado ou virtude especial que se atribui a alguém ou a alguma coisa e pelo qual se lhe presta reverência.
  12. Conjunto de ritos e cerimônias, sacrificais ou não, ordenados para a manifestação do culto à divindade; cerimonial litúrgico.

Vamos agora a algumas definições de religião política, baseado em tudo que foi apresentado aqui:

  1. Serviço ou culto ao homem, de forma que existe a crença em que o ser humano irá eliminar sua contingência para a criação de um paraíso em Terra.
  2. Sentimento consciente de dependência ou submissão que liga a criatura humana a esses homens.
  3. Culto externo ou interno prestado a esses homens.
  4. Crença ou doutrina utópica, incluindo sistema moral e cosmovisão relacionada.
  5. Veneração aos líderes ideológicos relacionados e a seus ideais, com devoção e fé.
  6. Prática dos princípios defendidos pelos líderes ideológicos.
  7. Tudo que é considerado obrigação moral ou dever obrigatório de todo militante.
  8. Ordem ou instituição fundada para defender os princípios ideológicos defendidos.
  9. Identidade de grupo para definir o caráter ou virtude especial atribuídos ao membro do grupo.

Mas ainda reconheço que várias definições assim podem mais gerar confusão do que auxiliar-nos, de forma que, para fins práticos, tenho que encontrar UMA definição, que será usada daqui por diante no blog.

Vamos a uma tentativa final: Sistema de crenças com ênfase na crença em que o ser humano irá eliminar suas contingências humanas para a criação de um mundo melhor e/ou igualitário e/ou justo. Este sistema de crenças inclui senso de identidade de grupo, moral particular ao grupo, militância política, organização sob forma de instituições (incluem-se ONGs e fundações), fé nesses ideais, definição de bodes expiatórios e prática dos princípios do grupo.

Existem vários outros pontos que poderia incluir, mas no máximo isso deixaria as coisas mais complicadas.

Algumas perguntas ainda poderiam ser feitas, e de bate-pronto trago algumas respostas:

  • Onde fica a definição dos beneficiários e funcionais? Essa questão fica em um domínio além da definição do que é religião política. Na verdade, é uma consequência da religião política em si. Explicando melhor: se alguém confia em Deus, obviamente se este Deus existir ele não vai enganar essa pessoa. É claro que um pastor desonesto pode enrolar o fiel, mas isso é uma opção, não uma consequência direta da religião. Já na religião política, pelo fato da crença no homem, os mais espertos vão pedir o “poder” para transformar as coisas e criar o “mundo melhor”, através de estados inchados e/ou totalitários, por exemplo. Portanto, a religião política é um ambiente PERFEITO para a existência dos beneficiários e funcionais.
  • Como fica a questão das estratégias e rotinas da religião política? Essa questão também fica em um domínio além da definição do que é religião política. Considerando a aplicação prática no dia-a-dia da religião política, estratégias precisaram ser criadas ao longo do tempo para manter a dependência dos funcionais aos beneficiários, mas algumas destas estratégias também podem ser utilizadas fora da religião política. Enfim, as estratégias e rotinas são consequências naturais da PRÁTICA da religião política, para atender os beneficiários.
  • Essa definição realmente abarca todos os perfis da esquerda? Sim. Faça o experimento. Teste o comportamento de um funcional nazista, marxista, neo ateísta, humanista e vai dar tudo no mesmo. Todo esse comportamento se traduz na definição apresentada aqui.
  • Todos os religiosos políticos possuem a “crença no homem” de acordo com sua definição? Praticamente todos, a não ser aqueles que tentaram racionalizar a crença para torná-la mais aceitável e menos ridicularizável, e mesmo nesses casos eles não falam em “utopia” mas em “mundo muito melhor”. No restante dos atributos, a definição aplica-se à risca.
  • Muitos humanistas e neo ateus se declaram céticos. Eles não se incomodariam com o termo religião política? Não há motivos para incômodo, pois a religião política não implica em crença em Deus e no sobrenatural, mas sim em crença no homem. E isso todos eles possuem. Um exemplo é quando Dawkins disse que o gregarismo seria eliminado SE  as religiões fossem eliminadas. Observe que ele é um sujeito crente em uma cosmovisão incluindo crenças para “correção do mundo”. Mas de onde ele tirou a idéia de redução do gregarismo pela redução da religião senão por um salto de fé?  É como se algum guru dissesse: “tirai, tirai a religião do mundo, e confie em mim que o ser humano não mais se dividirá, e os motivos para guerras… cessarão”. Este é o tipo de credulidade que caracteriza a religião política. Outro ponto: neo ateus e humanistas são céticos em relação a Deus e o sobrenatural, mas extremamente crédulos na religião política. São crentes políticos.
  • Há um objetivo final para a esquerda (religião política) definido como “Obtenção do poder totalitário”. Como isso se encaixa na definição? Não se encaixa. Na verdade, esse é o objetivo dos BENEFICIÁRIOS da religião política.
  • A definição de religião política engloba toda a esquerda. Mas não engloba a direita também? Pois pessoas de direita também querem um mundo melhor. Não engloba, pois os direitistas não acreditam em um mundo muito diferente daquele que temos hoje. O máximo que os adeptos da direita querem é ir fazendo o que for possível, e ainda olham para o passado, tentando aprender com o que ocorreu. O ato de não confiar em um estado inchado, por exemplo, é por uma questão de ceticismo em relação aos que tomam conta deste estado. Um estado inchado significa dar muito poder ao homem. O conservador acredita que é melhor ter poderes paralelos, no caso o poder do estado, que não teria como suplantar o poder do mercado. Isso ocorre por falta de crença em relação ao homem, em oposição à crença no homem dos religiosos políticos.
  • É possível alguém viver sem religião tradicional ou religião política? Eu acho muito raro, talvez (não tenho certeza) por que o cérebro humano seja programado para ter crenças na autoridade. Raros são pontos fora da curva, como eu, que não tenho crença nem na religião tradicional como na religião política. Por isso, é esperado que alguém ao abandonar a religião tradicional seja vítima da religião política. Entende-se também por que a luta contra a religião tradicional é uma das estratégias centrais da religião política.

Enfim, acredito que com as respostas a essas hipotéticas perguntas (e sintam-se livres para fazerem outras), mostrei que a definição trazida por mim de religião política consegue compreender todo um padrão de comportamentos.

E, pelo componente de fé identificado, reitero que a forma ideal de tratarmos a religião política é com o ceticismo.

Da mesma forma que há 300 anos isso é feito para a religião tradicional.

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6 COMMENTS

  1. Luciano, acho só faltou um item dos “religiosos” politicos: Temor da Opinião Pública.
    Talvez é o único temor que os esquerdistas possuem, serem jogados “na lata de lixo da história”.

  2. LH,

    mais uma vez, parabéns pelo seu texto. Particularmente, uma passagem específica me intrigou:

    “É possível alguém viver sem religião tradicional ou religião política? Eu acho muito raro, talvez (não tenho certeza) por que o cérebro humano seja programado para ter crenças na autoridade. Raros são pontos fora da curva, como eu, que não tenho crença nem na religião tradicional como na religião política. Por isso, é esperado que alguém ao abandonar a religião tradicional seja vítima da religião política.”

    Você gostaria de compartilhar esta sua história (que, creio, é bastante pessoal)? Como exatamente você se tornou um descrente da religião tradicional (no caso, cristianismo católico) sem se tornar um crente na religião política?

    Eu imagino que você tenha se tornado descrente de uma, num primeiro momento, e depois da outra. É isso? Em relação a qual das duas a descrença veio antes? Essa primeira descrença ocorreu durante a crença na outra ou quando esta outra já havia acabado? Por fim, se houve uma ordem cronológica na perda das suas crenças, você acha que essa ordem é a única possível para que a descrença em uma das religiões não acarrete necessariamente na crença da outra?

    • Deixe-me explicar: eu já perdi a crença na religião política, talvez por nunca a ter tido, de fato. Pelas pessoas a que me expus na vida, e pela posição que elas ocupavam, eu tinha tudo para ter sido um esquerdopata de marca maior, mas nunca fui, e agora tenho é que refrear meu asco e minha intolerância com essas pessoas. Então, não sou apenas um descrente da religião política, mas me oponho a ela.

      Só que, diferentemente de você, ainda mantenho a crença na religião tradicional (apesar de minha religião específica ser pouquíssimo conhecida e compreendida). Minha fé é firme; porém, minha racionalidade é muito exacerbada.

      Por isso estou fazendo esses questionamentos todos. Eu sei que é muito pessoal, então fique à vontade para responder apenas o que quiser, ou nada mesmo.

      Abraço!

  3. Caro Luciano

    Parabéns pelo esforço em definir “religião política”. Conheço o núcleo do pensamento de J Gray, que contém contradições insolúveis: usa de recursos do humanismo para descontruir o humanismo; em contraposição a este só lhe sobra, por ABSOLUTA FALTA DE ALTERNATIVA, a contingência. Queira ou não, contingência é um determinismo implacável. Significa aceitar que estamos “condenados” à contingência.

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