O conservadorismo como ceticismo político

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O livro “A mente conservadora”, de Russel Kirk, traz 10 princípios conservadores, conforme abaixo:

  • Primeiro, um conservador crê que existe uma ordem moral duradoura.
  • Segundo, o conservador adere ao costume, à convenção e à continuidade.
  • Terceiro, os conservadores acreditam no que se poderia chamar de princípio do preestabelecimento.
  • Quarto, os conservadores são guiados pelo princípio da prudência.
  • Quinto, os conservadores prestam atenção no princípio da variedade.
  • Sexto, os conservadores são refreados pelo princípio da imperfectibilidade.
  • Sétimo, conservadores estão convencidos que liberdade e propriedade estão intimamente ligadas.
  • Oitavo, os conservadores promovem comunidades voluntárias, assim como se opõem ao coletivismo involuntário.
  • Nono, o conservador percebe a necessidade de uma prudente contenção do poder e das paixões humanas.
  • Décimo, o pensador conservador compreende que a estabilidade e a mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas em uma sociedade robusta

A meu ver, os 10 princípios são bastante úteis e facilmente defensáveis, conforme pode ser visto no texto que publiquei há bastante tempo.

Entretanto, essa é UMA das maneiras pela qual o conservadorismo pode ser visto.

Defendo uma segunda via do conservadorismo, que chamo de conservadorismo cético. E o que seria o conservadorismo cético? Basicamente, é a postura de ceticismo em relação à todas as alegações da esquerda (religião política). Assim, um “cético político” e um “conservador cético” seriam praticamente a mesma coisa.

Para ver como esse paradigma funciona, que tal avaliarmos os 10 princípios conservadores sob a ótica do ceticismo quanto à esquerda?

Vejamos, por exemplo, o primeiro princípio, no qual o conservador acredita que existe uma ordem moral duradoura. Já o religioso político definirá novos paradigmas morais por “projeto”. Por exemplo, Peter Singer defende que uma criança poderia ser morta até o vigésimo oitavo dia DEPOIS do nascimento, e que não há problema no sexo de humanos com os animais. Em resumo, o que é “moral” ou deixa de sê-lo é definido a cada dia por eles. Obviamente, duvidamos dessa “moral” definida por projeto.

Em relação ao segundo princípio, o conservador adere aos costumes, convenções e continuidade. Por exemplo, valorização da liberdade de consciência e valorização do modelo familiar. Novamente, os religiosos políticos criam projetos nos quais a tradição é sempre criticada. Para eles, o futuro (através do qual eles julgam o presente e o passado) é o correto, e tudo que veio anteriormente é errado. A suspeita que temos em relação à essa alegação é óbvia: muito do que temos por tradicional é fruto de uma seleção natural comportamental, e que tem sido benéfica em termos sociais. E o “novo mundo” prometido por eles? Já foi testado? Claro que não. Por isso, temos que novamente ser céticos em relação aos projetos prometidos em relação aos “comportamentos que devemos ter”. Isso tem a ver também com o terceiro princípio.

O quarto princípio, da prudência, foca em tomar cuidado com “mudanças sociais” prometidas. Por exemplo, tentar estabelecer o casamento gay como um modelo no mesmo padrão em que o casamento heterossexual. Isso será útil até que ponto? Não tiraria a referência vital do conceito de família tradicional? E se os islâmicos, que não aceitarão a “nova família”, continuassem aumentando populacionalmente e posteriormente superassem de vez a população ocidental EM NOSSOS TERRITÓRIOS? Como se vê, ao duvidar dos “projetos de melhoria”, estamos focados no princípio da prudência. Eles já querem “mudar tudo”, e inventar novas regras, ignorando tudo que aprendemos no passado e assimilamos de acordo com nossa biologia. Naturalmente, temos que questionar todas as iniciativas deles.

O princípio da variedade, de número cinco, fala que várias vertentes ideológicas devem estar presentes. Não acreditamos no totalitarismo, ao contrário dos religiosos políticos, que sempre lutam por hegemonia. Quanto mais eles ficarem livres das opiniões contrárias, melhor. Somos céticos, em essência, em relação à todas essas iniciativas de “hegemonia”. É mais seguro termos vários grupos políticos se digladiando, evitando riscos de totalitarismo.

O sexto princípio, da imperfectibilidade, fala do fato de que sabemos que o ser humano não é perfeito. Isso pode ser entendido por princípios bíblicos, ou mesmo princípios darwinistas (que prefiro, por não ser religioso). Nesse último caso, somos meros frutos da seleção natural, e não seres “projetados” para sermos capazes de controlar nossos desejos (apenas algumas escolhas, básicas). As “imperfeições” do ser humano são evidentes. Ao acreditar que o ser humano poderá construir um paraíso em Terra, o religioso político está ignorando o princípio da imperfectibilidade, mas ao contrário, começa a crer que o ser humano ou é perfeito ou pode alcançar a perfeição, moralmente falando. Sei que a crença deles é ingênua e somente tolerável a adolescentes. Por isso, o questionamento que fazemos é natural.

Entendemos, de acordo com o sétimo princípio, que liberdade e propriedade estão intimamente ligadas. Isso significa que se perdemos o direito a propriedade, perdemos toda nossa base e já não podemos falar em liberdade. O excesso de controle estatal e invasão ao direito de propriedade proposto por vários religiosos políticos DEPENDE de que confiemos nos líderes que tomarão o poder. E eles já são questionados à partida.

O oitavo princípio fala do apoio às comunidades voluntárias, e ceticismo em relação ao coletivismo involuntário. Por exemplo, hoje no Brasil, 30% da população é essencialmente petista. Ora, por que esses não doam metade de sua renda e já não resolvem de vez o “problema social”? Ao contrário, eles preferem que o estado fique inchado e que a “ajuda ao povo” surja de forma MANDATÓRIA pelo governo. Mas esse governo não ficará com muito poder? Claro que ficará, e por isso suspeitamos do coletivismo involuntário. Iniciativas voluntárias (e essas até os próprios esquerdistas poderiam fazer, doando no mínimo metade de suas rendas) são muito melhores, como doações à Igrejas, participação em clubes com Lyons e Rotary, e daí por diante. Isso, novamente, surge por ceticismo em relação aos donos do poder.

O nono princípio é uma consequência óbvia do que já falamos. Temos que conter o poder e as paixões humanas. Isso significa que temos que LIMITAR o poder aos seres humanos, pelo próprio ceticismo em relação ao ser humano. Um estado inchado dará poder demais aos seres humanos que tomarem conta dele. Logo, quando menos concentração de poder, melhor, e isso também é consequência de um questionamento aos donos do poder.

Por fim, no décimo princípio, falamos que devemos valorizar estabilidade e mudança, para uma sociedade robusta. Isso não significa que os conservadores sejam contra as mudanças, mas sim contra as mudanças abruptas e projetos milabolantes, simplesmente por que questionamos “projetos de remodelação da sociedade”.

Como se nota, podemos sugerir que o conservadorismo EM ESSÊNCIA já é uma metodologia cética. Desde os tempos de Russel Kirk.

O que faço, no entanto, é focar ESPECIFICAMENTE no aspecto cético do conservadorismo. Ou seja, para ser conservador, não preciso fazer absolutamente nada a não ser colocar sob estrito questionamento as alegações da religião política.

Alguém poderá até dizer que são duas formas diferentes de se chegar ao mesmo fim (o pensamento conservador). Não discordo disso.

Minha defesa em relação ao conservadorismo cético, em comparação com o conservadorismo tradicional, é que passamos muito mais tempo METRALHANDO as crenças contrárias, e assumimos definitivamente a postura de ataque.

E em termos políticos, ficar na ofensiva é sempre uma boa decisão. O “agressor” geralmente prevalece, de acordo com os princípios da arte da guerra política, de David Horowitz.

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2 COMMENTS

  1. Luciano, só para relembrar, lembra do caso nos cânceres suspeitos aparecendo em todos os líderes esquerdistas sul americanos com uma cura “milagrosa” no fim?

    Olha só:
    O vice-presidente da Venezuela, Elías Jaua, indicou nesta quarta-feira que o líder do país, Hugo Chávez, se encontra em pleno processo de recuperação e assinalou que manteve uma conversa com ele na qual pôde sentir sua “voz firme, enérgica e vitoriosa”.
    “Está em pleno processo de recuperação e se despediu com ”viveremos e venceremos””, disse Jaua em um contato com a emissora estatal “VTV”.

    Fonte:http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5640729-EI294,00-Chavez+esta+em+pleno+processo+de+recuperacao+diz+vicepresidente.html

  2. “Iniciativas voluntárias (e essas até os próprios esquerdistas poderiam fazer, doando no mínimo metade de suas rendas) (…)”

    Taí uma iniciativa que poderia derrubar definitivamente esse argumento: que tal fazer uma campanha por uma lei que crie um “fundo social” do governo, através do qual os esquerdistas poderiam fazer doações voluntárias ao governo, já que acham isso tão importante?

    Sério, acho que isso funcionaria muito bem pra desmascará-los, não? Sempre que alguém dissesse que defende o esquerdismo, você cobraria dele: qual é o percentual da sua renda que você deposita no fundo social? Por que só isso (seja qual for a resposta =D)? Por que você foi de férias pra Nova York em vez de doar essa grana toda aos pobres? E por aí vai…

    Que tal sugerir isso ao Bolsonaro? Ou fazer uma proposta à CLP da Câmara? Ou ainda melhor: fazer uma lei de iniciativa popular?

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