O islamismo não inventou o que hoje nos apavora

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Fonte: Estadão

No momento em que o terrorismo islâmico torna-se uma ameaça crescente, é fácil esquecer que ao longo do século 20 o terror foi usado, em vasta escala, por regimes seculares. Os ataques suicidas de hoje são automaticamente associados a uma crença no martírio, seguido pelo paraíso no além. Mas, atentados suicidas do tipo que estamos enfrentando agora remetem-nos a uma técnica de coerção e entimidamento que foi desenvolvida por pessoas sem nenhuma crença do gênero. Embora afirmem rejeitar todas as coisas modernas e ocidentais, os terroristas islâmicos dão continuidade à tradição ocidental moderna de usar a violência sistemática para transformar a sociedade. As raízes do terrorismo contemporâneo estão muito mais na ideologia ocidental radical – especialmente no leninismo, como explico a seguir – do que na religião.

Lenin via-se como parte de uma tradição revolucionária européia que começou com os jacobinos franceses, cujo uso do terror ele próprio só criticou por acreditar que não havia sido suficientemente impiedoso. Para Lenin, como também para Robespierre, o terror era não só um meio de defender a revolução contra inimigos, mas também uma ferramenta fundamental de engenharia social. Juntamente com Trotsky, Lenin criou campos de concentração, instituiu um sistema de reféns para assegurar a obediência de grupos suspeitos e executou cerca de 200 mil pessoas entre 1917 e 1923. (Por comparação, durante o final do período czarista, de 1866 a 1917, houve cerca de 14 mil execuções.) Embora uma parte do custo humano do início do período soviético possa ser atribuído às condições de um tempo de guerra, os líderes bolcheviques julgavam que o terror de Estado era indispensável para se alcançar uma sociedade comunista em que o Estado – juntamente com a guerra, pobreza e religião – não existiria mais. Foram Lenin e Trotsky, e não Stalin, os pioneiros do terror de Estado na Rússia, e eles o exerceram para realizar uma visão utópica.

Ao usar o terror para tentar alcançar objetivos utópicos, os líderes bolcheviques fizeram parte de uma longa tradição que continua até hoje. Na Rússia do final do século 19, havia os niilistas – intelectuais revolucionários para quem os atos espetaculares de terror individual podiam abalar a ordem existente em suas fundações e ajudar a inaugurar um novo mundo. Uma figura seminal foi Sergei Netchaiev, autor de Catecismo de um Revolucionário (1869), no qual defendia a chantagem e o assassinato como estratégias políticas legítimas, e que matou um de seus camaradas por deixar de cumprir ordens. Costumamos pensar em um niilista como alguém que despreza todos os ideais humanos, mas Netchaiev e seus pares acreditavam apaixonadamente em ciência, progresso social e bondade humana. Em termos de estratégia revolucionária, eles diferiam de Lenin, que condenava como ineficazes os atos de terror individuais; era o terror de Estado altamente organizado que ele privilegiava. Mas Lenin e os niilistas estavam juntos em sua fé de que o terror era necessário para avançar os ideais iluministas de progresso humano.

Seria de se pensar que com a ascensão do islamismo, o terrorismo secular morreu. Isso está longe da verdade. O atentado suicida pode ser a técnica islâmica do momento, contudo foram os Tigres de Tamil – um grupo marxista-leninista que recruta principalmente na população hindu de Sri Lanka, mas que, como outros grupos do mesmo gênero, é militantemente hostil a toda forma de religião – que o idealizaram. Foram os Tigres de Tamil que desenvolveram o cinturão explosivo usado por terroristas suicidas do Hamas e da Jihad Islâmica, uma versão do qual o jornalista Alan Johnston, então seqüestrado, vestia quando foi mostrado num vídeo recente; e até a guerra do Iraque, os Tigres haviam cometido mais desses ataques do que qualquer outra organização do mundo. A primeira onda de ataques suicidas no Líbano nos anos 1980 também foi obra, em grande parte, de grupos seculares. De 41 ataques entre 1982 e 1986, incluindo o ataque em 1983 que matou mais de uma centena de marines americanos e resultou na brusca retirada das forças americanas pelo presidente Reagan, 27 foram realizados por membros de grupos esquerdistas como o partido comunista libanês e a União Socialista Árabe. Somente oito eram islâmicosn – e três eram cristãos (incluindo uma professora de colégio).

O terrorismo secular teve uma influência formativa na ameaça que enfrentamos hoje. Pensadores islâmicos retiraram de Lenin uma fé moderna que não é encontrada nem no Islã tradicional, nem no cristianismo – a idéia de que mediante o uso sistemático da violência um novo mundo, uma nova humanidade até, pode ser criado. A Europa medieval foi um local de guerras e perseguições religiosas quase contínuas, enquanto o Islã tem se dividido, às vezes com violência, praticamente desde sua origem. Mesmo assim, antes dos tempos modernos, nunca se imaginou que o uso da violência poderia iniciar uma sociedade perfeita, ou livrar o mundo de males imemoriais. Essa é uma bobagem que surgiu somente com os jacobinos, para ser herdada por Marx e expoentes posteriores da parte utópica radical no pensamento iluminista. É odiosamente desumano torturar e aterrorizar pessoas para salvar suas almas, mas fazê-lo para estabelecer a liberdade universal é um absurdo supremo.

A fé é perigosa, como não cansam de nos lembrar ateus evangélicos como Richard Dawkins e Christopher Hitchens. Mas o fanatismo surge sob muitos disfarces. Faríamos bem em lembrar que foi a fé secular que inspirou boa parte do terror no século passado. A fantasia de que uma sociedade pode ser progressivamente transformada pela violência inspirou alguns dos piores crimes da humanidade. E ainda lança um feitiço venenoso nos dias atuais.

John Gray (17 de julho de 2007)

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