Os quatro níveis de questionamento que todo cético político deve dominar

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Se você participa de debates e percebe que muitas vezes os perde (mesmo tendo os melhores argumentos), aqui vão algumas dicas sobre quais os questionamentos importantes que você deverá fazer em todo duelo argumentativo.

Primeiramente, classifique todas as alegações e argumentos vindos da outra parte em 2 categorias, em relação ao que está sendo vendido:

  • Auto-venda (ou self-selling, como já apresentei aqui e aqui)
  • Venda de idéias

E outra classificação, paralela, é quanto ao formato da alegação, que também pode ser de dois tipos:

  • Rotina argumentativa
  • Rotina de frame (que tratei aqui)

Note que podemos ter as seguintes combinações, na ordem de prioridade para refutação, sendo 1 a mais alta prioridade, e 4 a menor:

  1. Auto-venda, através de rotina de frame
  2. Auto-venda, através de rotina argumentativa
  3. Venda de idéias, através de rotina de frame
  4. Venda de idéias, através de rotina argumentiva

Antes, vejamos uma pequena revisão.

Exemplos de auto-venda incluem: “eu sou o melhor amante”, “meu grupo é o mais capaz”, “transar comigo gera maior prazer” (no caso de uma prostituta de rua, por exemplo, buscando clientes), “eu me questiono mais que os outros”, “sou o gerente mais apto” e “estou do lado dos pobres”. Note que está sendo feita uma “venda” de si próprio ou do seu grupo para a platéia.

Exemplos de venda de idéias incluem: “o sistema Six Sigma é o melhor para a nossa organização”, “o site em formato blog não deve ser implementado, em detrimento do site em Flash”, “o aborto pós nascimento é tão correto quanto o aborto antes do nascimento” e assim por diante. Note a diferença que existe entre a venda de idéias e a auto-venda. Aqui está sendo vendida uma idéia, não a pessoa ou o grupo em si.

E quanto às rotinas argumentativas e rotinas de frame, basta imaginar que um argumento possui premissas e uma conclusão. Para se ter certeza se estamos diante de uma rotina argumentativa, tente destrinchar o que está sendo dito em forma de silogismo. Se você conseguir, é uma rotina argumentativa. Exemplo: “O sistema capitalista está em colapso. Sistemas em colapso não prosperam. O sistema socialista é a única opção. Logo, devemos optar pelo socialismo”. Esse argumento é baseado em premissas falsas, evidentemente, mas ainda assim é um argumento. Logo, temos uma rotina argumentativa.

Já as rotinas de frame não são transcritas em termos de silogismo, mas se baseiam em simples afirmações, ou até trejeitos e comportamentos. Exemplos incluem “estou rindo muito”, “a ciência diz isso…”, e outros que já postei aqui, como “Auto-cético”, “Cético universal” e “Sou liberal”.As rotinas de frame se apresentam em pequenas frases, assim como no uso de tonalidades de voz, postura corporal e diversas outras formas de comunicação.

Abaixo, existe uma alegação, contendo várias alegações menores, em que as 4 configurações são observadas:

Sou liberal (A), e sou tão cético que minhas idéias foram aceitas por muito questionamento (B). Isso acontece por que sou cientista, e como você deve saber, a ciência é baseada em questionamentos, por isso ela é confiável – assim sendo, eu já me questiono, e por isso minhas idéias são mais confiáveis (C). Como cientista (D), eu defendo que deveríamos buscar a forma mais adequada de planejamento social, e a melhor forma é através do estado, já que aos poucos o ser humano vai se tornando empático, a ponto de que o estado inchado é confiável (E). É imperativo sanarmos as chagas sociais.(F)

Agora, para treinar a identificar os tipos de argumentação, veja o item A, que é a rotina “Sou Liberal”. Eu já dei a dica, em texto anterior, de que o certo aqui é mostrar para a platéia que o oponente nada tem de liberal. Ele é na verdade um esquerdista.

O item B é a rotina “Auto Cético”, também de fácil refutação.

Esses são 2 exemplos de alegações de auto-venda, do tipo rotina de frame.

O item C, por sua vez, segue na auto-venda, mas é uma rotina argumentativa, pois ela pode ser transcrita em um silogismo. Veja como fica:

  • A ciência é baseada em questionamentos
  • Tudo que é baseado em questionamentos é confiável
  • Eu sou um cientista
  • Por isso, eu me questiono
  • Logo, sou mais confiável

Tecnicamente, é uma extensão da rotina “Auto Cético”, mas apresentada em forma de argumento. Observe também que a premissa “Eu sou um cientista” é inconsistente com “A ciência é baseada em questionamentos”, pois uma coisa é a ciência em si, outra coisa é um cientista, uma pessoa falível e que pode ter agenda. Portanto, mesmo que aceitemos a premissa de que a ciência é feita de questionamentos, isso não significa que UM CIENTISTA seja movido a questionamentos. Alguns podem realmente sê-lo, enquanto outros podem ser movidos por agenda política.

O que importa é que você tenha percebido que ele seguiu na auto-venda, mas já usando uma rotina argumentativa. Note também que dá um pouco mais de trabalho refutar os argumentos do que as rotinas de frame.

O item D é novamente uma auto-venda, agora de volta às rotinas de frame. Ele apenas diz “sou cientista”, tentando obter o benefício psicológico que esta expressão possa causar.

O item E é onde ele deixa a auto-venda de lado e parte para a venda de idéias, em uma rotina argumentativa, que pode ser transformada em silogismo conforme abaixo:

  • Devemos buscar a forma mais adequada de planejamento social
  • A melhor forma é o estado inchado
  • Sei que alguns não confiam no estado por causa das pessoas que tomam conta dele
  • Mas a empatia está aumentando nas pessoas
  • Por empatia, as pessoas são mais confiáveis
  • Logo, o estado é confiável

O maior problema é que a premissa de que a “empatia está aumentando nas pessoas” não se sustenta, derrubando todo o argumento.

Por fim, no item F, o argumentador diria que é “imperativo” sanarmos as chagas sociais (aliás, é uma premissa dele). O uso do termo “imperativo” é uma rotina de frame, que busca o efeito psicológico na platéia. Ele tenta isso para fazer a venda de idéias.

Agora, releia o argumento e veja se consegue concordar com o mapeamento feito:

  • A -> auto-venda – rotina de frame
  • B -> auto-venda – rotina de frame
  • C -> auto-venda – rotina argumentativa
  • D -> auto-venda – rotina de frame
  • E -> venda de idéias – rotina argumentativa
  • F -> venda de idéias – rotina de frame

Se você não conseguir fazer o mapeamento, então significa que estejamos diante de uma ou mais dentre as opções:

  • você não entendeu ainda a diferença entre auto-venda e venda de idéias, assim como a diferença entre rotina de frame e rotina argumentativa
  • você entendeu a diferença, mas está com dificuldades de aplicar o modelo
  • você nao entendeu nada, pois minha explicação requer mais exemplos

No terceiro caso, basta me avisar, que trabalharei em mais exemplos no futuro.

O fato é que temos que saber a importância de entender isso, para PRIORIZAR a refutação.Vamos relembrar a ordem de prioridade:

  1. Auto-venda, através de rotina de frame
  2. Auto-venda, através de rotina argumentativa
  3. Venda de idéias, através de rotina de frame
  4. Venda de idéias, através de rotina argumentiva

A regra é clara: priorize a refutação a 1 e 2. Se você não refutar esses itens (que, no meu exemplo, são A, B, C e D), o debate estará perdido para você, mesmo que você refute o argumento central, que seria o item E.

Isso por que ele já terá marcado “espaço”, na mente da platéia cravando lá que “é liberal” e se “auto-valida”, além de ser “o cientista”. Por esses 3 itens, não importa o tamanho de sua refutação ao item E, o fato é que a platéia não vai te ouvir mais.

A única forma é usar o modelo de priorização de refutação e REFUTAR PRIORITARIAMENTE todas as alegações de auto-venda. Somente depois de tê-las refutado, refute também as seguintes.

Vou dar o exemplo de como ficaria abaixo, se o argumento que trouxe aqui tivesse sido postado em um fórum do Orkut, e a resposta:

  • Sou liberal (A)
  • Quem disse que você é liberal? Falso. Você é esquerdista…
  • e sou tão cético que minhas idéias foram aceitas por muito questionamento (B)
  • Como você prova que suas idéias foram aceitas por questionamento? Tenho que aceitar sua declaração? Eu duvido que suas idéias tenham sido aceitas por questionamento.
  • Isso acontece por que sou cientista e como você deve saber, a ciência é baseada em questionamentos, por isso ela é confiável – assim, sendo, eu já me questiono, e por isso minhas idéias são mais confiáveis (C).
  • O fato da ciência ser baseada em questionamentos não prova que você seja. Isso por que existem cientistas que possuem agendas particulares. Por isso, você alegar ser cientista não prova nada a teu favor.
  • Como cientista (D)
  • Já falei que essa “carteirada” não vai adiantar aqui. O fato de você ser cientista não prova que você é um cientista honesto…
  • … eu defendo que deveríamos buscar a forma mais adequada de planejamento social, e a melhor forma é através do estado, já que aos poucos o ser humano vai se tornando empático, a ponto de que o estado inchado é confiável (E).
  • Falta você provar que o ser humano vai se tornando mais “empático” em nível biológico. Cadê as provas?
  • É imperativo sanarmos as chagas sociais.(F)
  • “Imperativo” só se for na sua cabeça. A questão está sob discussão ainda. Aguardo as respostas para as questões anteriores que fiz.

Observe que eu fiz as refutações aos itens de A a F, mas se pudesse escolher, priorizaria os quatro primeiros, e em especialmente A, B e D (pois eram de frame). Isso por que as rotinas de frame tem efeito psicológico mais profundo, pois geralmente não estão sob discussão. A refutação a elas é bem rápida, portanto, pela lei do menor esforço, junto com o ganho psicológico obtido pela refutação, a melhor idéia é esmagá-las primeiro.

Se você fizer isso, o restante da refutação (itens E e F, neste exemplo) irá muito bem, pois no aspecto psicológico da platéia você já terá tomado a vantagem. Caso não tenha refutado os itens relacionados a auto-venda, independente de sua argumentação daí por diante, você está fora. Como diria Olavo de Carvalho: “você ganha, mas não leva”.

Esse é o estilo de questionamento cético que sempre usei nos debates de Orkut e, posso garantir, se você tiver os melhores argumentos em mãos, vai ganhar o debate. Da mesma forma que, se focar só na venda de idéias do tipo formal (item E), independente de sua argumentação, vai perder o debate.

Um adendo adicional: ao testar o modelo, tenha consciência de saber o que é uma boa argumentação, conheça os fatos que você está discutindo, domine o guia de falácias e entenda a dialética erística. Aí é só seguir o modelo e vencer o debate.

Pelo que notei em embates no Orkut, esquerdistas estão até prontos para serem questionados em seus argumentos. E vão dar sabonetadas, não se preocupe quanto a isso. Eles até possuem alguns truques na manga para tentar se livrar dos questionamentos argumentativos. Mas eles jamais estão prontos para serem questionados em sua auto-venda.

E é a partir desse momento que o debate torna-se um pesadelo para eles.

Se você dominar os quatro níveis de questionamento, não deixando passar nada, a metáfora do filme de Stallone abaixo se aplicará perfeitamente: “I´m your worst nightmare…”

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1 COMMENT

  1. Parabéns Luciano, gostaria de ver mais posts como esse. Lembro que o Craig falou que durante o período universitário dele ele frequentava escolas (ou encontros) de debate. E vendo ele debater percebe-se que é muito bom nisso. Por favor poste mais artigos dessa modalidade. Abraço!

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