A Dinâmica Social explica por que o cristianismo vive problemas mais sérios do que parece

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Estava conversando com um amigo dia desses sobre religião e neo ateísmo. Ele é um religioso evangélico fervoroso e me disse o seguinte: “A nossa instrução [da Igreja dele, diga-se] é não nos envolvermos em debates, pois a fé não se discute, e se fosse razão não seria fé”.

Pela Dinâmica Social, isso pode ser traduzido dessa forma: “Ouçam apenas meus oponentes, que estão com a razão, e não me ouçam mais, pois não estou”.

Sei que muitos religiosos não adotam postura tão digna de pena, mas infelizmente tenho que reconhecer que esse é um fator que não podemos negar. A realidade é nua e crua: hoje em dia existem muitos religiosos que ou são omissos em relação aos seus oponentes ou assumem a cumplicidade de vez.

Por exemplo, quando Silas Malafaia ataca os gayzistas, existem vários cristãos em blogs que dizem que seu discurso “é de ódio, e não compactua com o espírito cristão”.

Tradução pela Dinâmica Social: “Gayzistas e demais inimigos, podem avançar mais no território político, que eu cuidarei de segurar os cristãos com psicologia inversa”.

Esse geralmente é um discurso de subserviência, que só atende aos adversários políticos.

É claro que não podemos esquecer que muitas das bases morais de nossa sociedade tem princípios no cristianismo, como o direito à liberdade, à propriedade privada, além do valor da busca pela verdade, dentre outros.

Tristemente, o modelo do cristianismo popular só estava preparado para o debate aristotélico. O ato de “não debater” se o opositor for infame, só seria válido em um cenário onde a desonestidade intelectual fosse uma raridade, não a regra.

Depois do Iluminismo, a filosofia foi substituída por discursos políticos e trucagens de marketing. Até os debatedores cristãos da elite cultural não estavam preparados para isso.

Em cima dessa premissa que aposta na honestidade humana em debates, grande parte dos cristãos (especialmente os populares) só colocam mais lenha na fogueira que os está queimando.

A grande tragédia é que fala-se muito pouco a respeito da Dinâmica Social. Estou aos poucos fazendo esse empreendimento aqui, e vamos a um pitaco do assunto.

Imagine dois gerentes que tentam liderar movimentos corporativos. Visualize um deles, que seria o Gerente X, como um líder que impõe o respeito, fala mais alto e chega a ser “temido”. Visualize agora o segundo, o Gerente Y, que sofre “bullying” corporativo, choraminga pelos cantos e só é reconhecido pelos outros como “digno de pena”.

O cérebro humano automaticamente entende que o Gerente X aumenta seu valor de sobrevivência ao passo que o Gerente Y diminui seu valor de sobrevivência. Isso não significa que não devamos sequer sermos caridosos com o Gerente Y, mas jamais deixarmos que ele nos motive, influencie nossas opiniões e SEJA OUVIDO em termos ideológicos. No caso, em termos corporativos.

Pelo mesmo motivo, a partir do momento em que um debate começa, se um adversário da religião assume a postura high profile, é arrogante e por vezes “temido”, ao passo que o seu oponente adota um ato de contrição e diz “orar pelo outro”, vemos uma liderança no primeiro, enquanto o segundo merece a categorização de “digno de pena”.

Quem é digno de pena em um debate não tem o “direito” de receber crédito algum pela platéia, conforme a Dinâmica Social.

Em uma era em que os debates são jogos onde se ganha ou se perde, a postura de “orar pelos inimigos” ou “dar a outra face” (em termos literais) está causando um colapso do cristianismo.

Hoje em dia, qualquer legislação que vá contra os interesses dos cristãos, é aprovada. Opiniões de cristãos para tentar reverter qualquer situação são motivos de ridicularização. A culpa disso tudo é que há uma ou duas décadas grande parte dos cristãos tem se limitado a PERDER DEBATES e consequentemente perder o jogo de acordo com a análise da Dinâmica Social.

A situação chegou a um estágio em que temos que apostar nos seguintes perfis:

  1. Os céticos “fora da curva” [como eu], que não possuem religião política e nem religião tradicional, e por questões de achar a religião política pior que a tradicional, ajudam cristãos em debates e ajudam a desmascarar fraudes de neo ateus e inimigos da religião
  2. Os religiosos high profile, que não caíram na armadilha do comportamento cristão manso – esses high profile entram na idéia do “bateu, levou”, e não levam desaforos de anti-religiosos para casa
  3. Pasme… os islâmicos, que, por não terem itens em sua doutrina como “dar a outra face” e “orai pelos inimigos”, sabem revidar uns ataques

Não acho que a guerra cultural esteja definitivamente perdida, mas, se dependesse dos cristãos mansos, os adversários dos conservadores já teriam criado vários holocaustos, de fazer o holocausto nazista corar de vergonha por sua modéstia.

Atenção! Usar o termo “cristão manso” não é o mesmo que dizer que “o cristão é manso”, mas sim que existem ALGUNS CRISTÃOS que, por falhas lógicas no entendimento de frases como “dar a outra face”, tornaram-se caricaturas de homens.

Abaixo um pouco mais sobre o assunto cristão manso e correlatos:

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3 COMMENTS

  1. Tem mais um problema, que o Craig chegou a comentar: os cristãos de hoje em dia não foram ‘treinados’ a defender sua fé. Não se vê isso nas igrejas, em quase lugar nenhum. Estranho que na Patrística temos diversos exemplos de escritos para refutar muito do gnosticismo e do neo-ateísmo de hoje em dia. É só pegar pra ler um Tomás de Aquino ou um Luis de Molina, ou quem sabe um Hugo Grocius (mais recente), que tem muito dessa dita ‘defesa da fé’.

    Afinal, tu que estuda mais isso, Luciano: sabe por que o Cristianismo ficou tão bundão ultimamente?

    • Segundo o escritor René Guénon, a “bundonice” do Cristianismo era observável já no século 19. Contudo, uma investigação mais “radical” detectaria as origens desse enfraquecimento no próprio pensamento do Sr. Lutero O_o
      É claro que em muitos pontos Lutero estava certo, porém os pontos mais “nebulosos” de seu ideário abriram uma caixa de Pandora que finalmente levou ao “desvio especulativo” da Maçonaria e à “pulverização” do próprio conceito de Cristianismo. 🙁

      Referência inicial: « A Reforma da Mentalidade Moderna »

      http://www.reneguenon.net/IRGETGuenonReformaMentalidadeModerna.html

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