Crentes religiosos são mais livres pensadores?

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Quando eu li essa frase no livro “Cachorros de Palha”, de John Gray, pensei à primeira vista que ele estava brincando. Uma reflexão posterior me fez notar que ele estava certíssimo.

Não é que eu diga que os crentes religiosos (especialmente aqueles mais populares) sejam “livres pensadores” na plena acepção da palavra, mas sim que são mais livres pensadores que os crentes políticos, ou seja, os esquerdistas.

Ser um livre pensador é ter toda a autonomia mental para poder pensar e ponderar sobre tudo e qualquer coisa, escolher e/ou gostar de tudo que der na telha, sem ficar preso a dogmas.Uma das maiores características OBSERVADAS em um livre pensador é que ele está pronto para ouvir as opiniões contrárias.

Quando comecei este blog, há mais de 2 anos, comecei a perceber o seguinte: os crentes religiosos estão prontos para serem questionados, e até discutem suas idéias civilizadamente com um oponente. Claro que nem todos farão isso, mas você encontrará vários sendo solícitos. Por outro lado, os crentes políticos não admitirão nenhuma forma de questionamento às suas idéias, e tornam-se uma turba enfurecida ante qualquer questionador.

Isso pode ser explicado por um seguinte fator: o “costume” de ser questionado. Sim, é isso mesmo! Há mais de 300 anos o Iluminismo tem colocado a religião tradicional sob questionamento. Tantas décadas de extenso escrutínio só os levou a uma situação inevitável: se acostumam a serem questionados, ou então morrem de estresse, ou até mesmo destroem seus questionadores. Por escolherem a primeira opção, na maioria dos casos, isso lhes deu uma “liberdade” mental para ao menos tentar pensar nas hipóteses de seus questionadores. Lembremos também que a religião tradicional existe há milênios.

Já a religião política existe há uns 300 anos, e aparece em variações como marxismo, humanismo, positivismo, social democracia, nazismo e afins. Curiosamente, talvez por ser nova (em termos históricos, 300 anos é o mesmo que “ano passado”), ainda não existe uma “massa crítica” de questionamento a eles. Isso faz com que eles NÃO ESTEJAM ACOSTUMADOS a serem questionados, e tornam-se furiosos à menor objeção que você faça em relação aos seus dogmas.

Faça um teste com os crentes religiosos: chegue para os 10 primeiros religiosos cristãos que encontrar pela frente e diga que “não acredita em Deus” ou (se for religioso) que “não concorda com os dogmas da religião dele”. Talvez ele fique incomodado, o que é natural em termos biológicos. Mas dificilmente você ganhará um inimigo.

Faça um novo teste, agora testando os crentes políticos: chegue para os 10 primeiros crentes políticos que encontrar, e questione os dogmas dele, como “normatização do casamento gay”, “aborto tardio” e “viabilidade do governo global”. Atenção, os religiosos políticos possuem crenças variadas, portanto para este teste encontre as crenças que ELES POSSUAM, e depois questione. Você verá que ganhou um inimigo, na maioria dos casos.

Por isso hoje, ao questionarmos um religioso tradicional sobre a viabilidade de seus dogmas, o máximo que ouviremos é uma discordância amigável ou até notar um desconforto da parte dele, em casos extremos. Talvez ele queira começar uma pregação e te encher a paciência. Aliás, quando alguém começa a pregar para mim, eu já cito os parâmetros da Dinâmica Social e ele pára. Já se questionarmos um religioso político, mesmo que sejamos elegantes ao extremo, eles tentarão calar sua voz, através de processos, patrulhamento ideológico, violência psicológica, negativação de vídeos no YouTube e qualquer recurso que tenham em mãos.

A conclusão é óbvia: depois de tanto tempo de pauladas e questionamentos, o religioso tradicional se acostumou a ser questionado, e portanto pensa mais livremente a respeito das informações que recebe. O religioso político não está acostumado a ser questionado, e, ao ver como inimigo qualquer um que questione seus ideais, não consegue “pensar fora da caixa”. Para o religioso político, o comportamento aceitável é unicamente aquele que CONCORDA em gênero, número e grau com todas as suas crenças.

Bisonhamente, as crenças políticas também não foram examinadas cientificamente. Não sabemos se um governo global é a solução para os problemas, ou se a ciência vai livrar o mundo das injustiças, assim como não sabemos se a ditadura do proletariado será transferida de bom grado ao povo. Mesmo assim, o menor questionamento feito a qualquer crente político quanto a uma ou mais dessas idéias, irá gerar uma reação violenta (ao menos no nível da violência psicológica).

Será que daqui uns 300 anos, a partir de um questionamento que iniciamos há pouco tempo (John Gray é um desses autores, e eu também tenho um modelo mais assertivo ainda), eles serão tão livres pensadores quanto os religiosos tradicionais de hoje? Será que eles se acostumarão a viver de forma socialmente aceitável com aqueles que os questionam? É até capaz.

Mas não podemos nos alimentar apenas de esperanças, e sim ver os fatos como eles são hoje. E não há como negar: a postura virulenta dos religiosos políticos ante questionamento mostra que eles são totalmente opostos ao livre pensamento. Já quanto aos religiosos tradicionais, mesmo que muito sejam até raivosos e dogmáticos, há espasmos de aceite ao questionamento em constância muito maior do que a oposição violenta aos questionadores.

Hoje em dia, portanto, conclui-se que os religiosos tradicionais são mais livres pensadores que os religiosos políticos. E não estou afirmando que religião tradicional é sinônimo de livre pensamento, mas sim que a religião política está em posição diametralmente oposta ao livre pensamento. Portanto, qualquer um que não é um religioso político é mais livre pensador.

Obs.: O termo “crente religioso”, utilizado aqui, refere-se ao religioso tradicional, e o termo religioso político à qualquer forma de esquerdista.

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4 COMMENTS

  1. LH, off-topic total, para tentar encerrar minha insônia… valem a leitura.

    http://edubisotto.blogspot.com/2012/03/modus-operandi.html

    http://edubisotto.blogspot.com/2012/03/obvio-ululante.html

    Sobre o post:

    Acho que é por aí mesmo. O curioso é que, entre os religiosos tradicionais, há, como você mencionou, aqueles que agem como os crentes na religião política. Não me refiro à defesa de suas crenças e à reação aos ataques, que também é feita, infelizmente, por uma minoria. Refiro-me aos intolerantes dentre os religiosos tradicionais, que têm comportamento análogo ao dos religiosos políticos.

    Já reparou que essas pessoas são justamente as mais ignorantes dos dogmas de sua fé, e as mais inseguras em relação a suas religiões? Que são, justamente, os que têm a própria fé não tão bem sedimentada (seja emocional, seja racionalmente)? É o que eu vejo: quem se sente seguro, consciente, com entendimento e compreensão daquilo em que acredita, não perde as estribeiras num debate.

    E já reparou, também, que essas pessoas são de fácil detecção, de modo que os neo-ateístas e mesmo teístas de outros credos vão justamente em cima delas? Eu fico pensando em William Lane Craig e no Padre Paulo Ricardo (nota: não sou católico, protestante nem evangélico): eles dão trabalho! Craig deu uma canseira em Hitchens e Harris. Aí, Dawkings já refugou. O Padre, por seu turno, nunca entrou num embte direto desses, mas pisou em alguns calos; agora, se vê diante de um movimento contra si que só traz argumentos “ad hominem”, que critica a doutrina que ele defende sem a impugnar ou apresentar outra melhor, explicando porque é melhor.

    Enfim, já reparou que os religiosos tradicionais mais “fracos” costumam ser justamente os mais parecidos com e as vítimas preferenciais de religiosos políticos?

  2. Na verdade, Ayan, o cristianismo, desde o seu nascedouro, já instruía o crente a se acostumar com o questionamento: “Tenham no coração de vocês respeito por Cristo e O tratem como Senhor. Estejam sempre prontos para responder a qualquer pessoa que pedir que expliquem a esperança que vocês têm. Porém façam isso com educação e respeito. Tenham sempre a consciência limpa. (2Pe 3:15-16)”.

    E para endossar o seu texto (“ou até mesmo destroem seus questionadores”), veja como as FARCS – tão amorosamente afagadas pelo PT – tratam seus questionadores cristãos:

    http://noticias.gospelmais.com.br/forcas-armadas-revolucionarias-colombia-fecham-igrejas-assassinam-cristaos-31379.html

    As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – FARC, é a organização responsável por uma guerrilha que já dura anos na Colômbia. Considerada por alguns países e pelo próprio governo colombiano uma organização terrorista, os exército guerrilheiro das FARC já foram acusados de muitos crimes cometidos contra políticos, contra o estado e contra a própria população. A notícia mais recente sobre a atuação de guerrilheiros é de que eles estão fechando igrejas e assassinando cristãos.

    Nos últimos meses as FARC têm perdido força, há informações de que seu exército teria reduzido de mais de 20 mil, para menos de 8 mil soldados. Entretanto, isso não bloqueou as atividades do grupo, que tem investido para a retomada de território e reestruturação financeira. Com isso as igrejas passaram a ser alvo dos rebeldes, já que os cristãos são contra a guerrilha.

    Segundo o escritório da Missão Voz dos Mártires, os guerrilheiros impediram o trabalho de um missionário evangélico na região de La Macarena, onde também lhe confiscaram todos os seus materiais, como rádios, Bíblias, livros, etc. Além de estarem fechando as igrejas, o grupo tem impedido o entrada de cristãos a determinadas áreas, recentemente queimaram um ônibus para impedir o acesso à região.

    O grupo guerrilheiro possui um violento histórico de atrocidades cometidas com cristãos, só no ano passado foram cinco mortes confirmadas, e em 2012 mais uma família assassinada, um pastor e dois familiares. Mas, apesar de toda incidência de perseguição e violência contra os evangélicos no país, a igreja continua crescendo, atualmente a quantidade de evangélicos na Colômbia aproxima-se dos 5 milhões.

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