Por que o cristianismo ficou tão bundão ultimamente?

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O leitor “Guest” postou a seguinte pergunta neste blog:

Tem mais um problema, que o Craig chegou a comentar: os cristãos de hoje em dia não foram ‘treinados’ a defender sua fé. Não se vê isso nas igrejas, em quase lugar nenhum. Estranho que na Patrística temos diversos exemplos de escritos para refutar muito do gnosticismo e do neo-ateísmo de hoje em dia. É só pegar pra ler um Tomás de Aquino ou um Luis de Molina, ou quem sabe um Hugo Grocius (mais recente), que tem muito dessa dita ‘defesa da fé’. Afinal, tu que estuda mais isso, Luciano: sabe por que o Cristianismo ficou tão bundão ultimamente?

Para explicar isso, temos que considerar vários fatores atuando em conjunto:

  • Estratégia Gramsciana, e sua extensiva campanha anti-religião

Não é possível haver um “boom” de crentes na religião política, enquanto tantos são crentes na religião tradicional. O religioso tradicional é em sua maioria um conservador, que não crê em coisas como estado inchado, governos totalitários e ditaduras que alegam “transferir no futuro” o poder ao povo. Por isso, os adeptos da doutrinação escolar cuidaram com afinco da lavagem cerebral em anti-cristianismo nas escolas, desde a mais tenra idade. Exatamente como Antonio Gramsci pediu.

  • Por causa da Estratégia Gramsciana, os religiosos estão na espiral do silêncio, ao passo que os anti-religiosos estão na espiral da bobagem

Isso nos leva a seguinte conclusão. Os anti-religiosos falam, enquanto os religiosos (em sua maioria) calam. Quando o grupo que está na espiral do silêncio se cala, há um mecanismo psicológico fazendo com que muitos que estão nesse grupo pensem “Será que realmente eu devo falar? Será que eu mereço ter a chance de me expressar?”. Por isso, enquanto muitos neo ateus falam o que quiserem, ofendendo o quanto quiserem, muitos cristãos ainda pensam se devem ou não revidar.

  • Devido aos dois fatores acima, um excesso de cristãos entre os populares

Sendo que falei da espiral do silêncio, na qual os cristãos se encontram, e também da estratégia gramsciana, deve-se constatar que hoje há uma grande quantidade de letrados e militantes doutrinados em anti-religião. E por causa disso mesmo, os letrados e militantes que possuem religião cristã estão em minoria. É por isso que William Lane Craig tem sido útil com a distribuição de um material a ser usado em debates acadêmicos, mas a mudança leva tempo, e ainda existem os pontos que tratei mostrando que apenas o estilo de Craig para debates não é suficiente.

  • Cristãos pensando com as categorias criadas pelos oponente

Com muitos intelectuais orgânicos anti-religiosos falando o tempo todo, muitos cristãos (populares) se acostumaram a pensar com as categorias do oponente. Isso significa ser um cristão mas ficar totalmente indignado se um padre católico não dá hóstia a um gay, por exemplo. Esse cristão continuará mantendo algumas de suas crenças fundamentais, como a crença na ressurreição de Cristo, mas em vários momentos pensará conforme os esquerdistas lhe programaram para pensar. Um exemplo claro disso é a horda dos seguidores de Edir Macedo, que hoje pensam em categorias totalmente marxistas.

  • O advento dos cristãos mansos

Eu defino como “popular”, aquela pessoa que não tem capacidade intelectual para debates. Alguns até podem ter curso universitário, mas em sua maioria não são treinados para debates. A maioria dos cristãos mansos se encontram nesse nicho, o dos populares. Não é o cristianismo que ficou bundão, mas sim que os cristãos mansos são bundões por natureza. Por sua visão simplória de mundo e entendimento da Bíblia apenas na versão literal da frase “dar a outra face”. Esse entendimento é fruto de uma visão popularesca da religião cristã, e, automaticamente, torna a pessoa que quis entender dessa forma um bundão.

RESUMO

Hoje temos muitos populares cristãos participando de debates, e dentre eles muitos assumem o perfil de cristão manso. Isso é uma consequência direta da estratégia gramsciana, que cuidou de doutrinar a maioria dos intelectuais em ideologias da esquerda, resultando na maioria deles sendo anti-religiosos. Se um lado (esquerda) produz muitos militantes raivosos, e o outro (direita) produz muitos pacatos e mansos, isso pode dar a impressão de que o cristianismo estaria muito “bundão”. Mas o fato é que alguns cristãos intelectualizados, que não foram vítimas da estratégia gramsciana, tem mostrado que o cristianismo mantém as características que você apontou, que incluem ir para o debate intelectual de forma firme, sem aceitar as injúrias do adversário. Exemplos incluem sites como Quebrando Encanto do Neo Ateísmo e Deus Lo Vult!, dentre outros.

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3 COMMENTS

  1. Decerto, mas não é só por causa disto. O clero também está ficando impregnado de agentes esquerdistas, e de padres moles. E muitas vezes as pessoas costumam dar crédito ao cara só porque ele é padre, e engolem todos os seus ensinamentos errados. Mas quem dera se fossem só padres, existem bispos assim, e sabe-se lá até onde esses caras chegam, só pra espalharem as suas idéias mirabolantes.

    Mas mesmo assim, a maioria dos padres ainda são certos. Mas aí entra outro problema: dentre os padres que seguem corretamente a doutrina cristã, apenas uma fração deles sabe transmitir seus ensinamentos ao “povão”. Aí fica difícil manter as coisas explicadas, e mais difícil ainda o cristão se explicar pra outra pessoa que fizer alguma objeção a ele.

    Mas ainda não acabou: criancinhas com pais cristãos desde pequenas vão para a catequese, e na catequese, os catequistas não ensinam às crianças nem o básico da apologia cristã, ou porque não sabem/não tem vontade de transmitir o ensinamento, ou porque os próprios catequistas não sabem defender o cristianismo. Ao contrário disso, eles ensinam apenas os 10 mandamentos, pai-nosso e ave-maria, e acabou. O outro lado do problema é que eu percebo (ao menos na minha cidade) a falta de incentivo para crianças e adultos participarem de catequeses, o primeiro porque os pais já não se interessam mais em mandar seus filhos pra catequese, e o segundo porque mesmo havendo o incentivo, as catequeses parecem chatas só de ouvir o modo como as pessoas da liturgia, no final da missa, dão a notícia de que vai haver uma.

    E existe ainda muito mais pra falar, mas vou me ater a isto. O que eu penso é que a Igreja católica está sendo destruída por dentro e por fora, e é necessário fazer algo a respeito.

    Aliás, faz pouco tempo que começei a ler o seu blog e o Teísmo.Net, e gostei muito. Que você e todos os blogueiros que exercem a mesma função continuem o bom trabalho que fazem.

    • É isso mesmo PedroFBA, eu tratei um pouco disso no item “Cristãos pensando com as categorias criadas pelos oponente”, que é exatamente o objetivo de coisas como a teologia da libertação. É por isso alias que os marxistas estão todos contra o Pe. Paulo Ricardo.

      Ah, e obrigado pelas palavras.

      Abs,

      LH

  2. Bem Luciano, creio que vou acabar dizendo o mesmo que você disse de certa forma, mas de forma diferente. Eu vejo quatro motivos para esse “amolecimento comportamental” da cristandade de uma forma geral.

    1°) O Cristianismo se dividiu muito: desde a Reforma protestante, não só o Catolicismo perdeu a soberania factual que mantinha à duras penas na Idade Média como no próprio protestantismo em geral houveram MUITAS divisões. Só quero, antes de prosseguir, deixar claro que eu NÃO ESTOU FAZENDO UMA ACUSAÇÃO AO PROTESTANTISMO E À REFORMA, NEM ESTOU DE SAUDOSISMO PELOS “tempos dourados de outrora” DA IGREJA CATÓLICA. O que eu quero dizer é que essa divisão provocou uma ruptura e “divisão de poder”, para o bem e para o mal.

    2°) Propaganda anti-cristã bem-sucedida ao longo dos séculos recentes: já antes do Iluminismo, houve muita crítica anti-cristã por certos pensadores “protoiluministas” (Spinoza em seus primórdios, por exemplo) como até, pasme, de certos protestantes mais “racionalistas” (Pierre Bayle, por exemplo). Pegue ainda o controle da imprensa nos primórdios por protestantes anti-clericais que propagavam, por exemplo, horrores sobre a Inquisição e as guerras religiosas do século 16. Pegando tudo isso e levando mais adiante, os iluministas (em especial os franceses) e outros propagaram variadas e influentes críticas anti-religiosas de lá até hoje, algumas verídicas, a maioria falsidade pura e muito apelo emocional à “felicidade” ou mesmo à “criação de um novo homem”, o que chamou a atenção no mínimo de camadas populares à elites em muitos momentos dessa propaganda constante. No mínimo, muitos cristãos mal-informados – e os que não se interessam em maiores informações – acreditam em coisas como “a Inquisição matou milhões”…

    4°) Irracionalização proposital da fé cristã: você, Luciano, já deve ter visto isso muitas vezes no seu amigo que está se formando pastor. Algo como “a fé não se explica”. Com a ênfase de Lutero na fé e com a filosofia de Kierkegaard, por exemplo, é difícil hoje ver muitos cristãos no mínimo se esforçarem e dar uma base lógica à sua aderência à fé cristã. É comum, por exemplo, ver protestante dizendo serem “contra a igreja e a religião”, sendo porém “fiéis só a Cristo”…

    O oposto disso são “racionalizações” bizarramente gnósticas, como a teologia de Teilhard du Chardin – mas isso é outra questão. Algo mais “elitizado”

    3°) massificação da doutrina cristã: Convenhamos: o Cristianismo ficou, de uns tempos pra cá, muito “povão” – em especial com os cultos neoprotestantes que são fundados a cada dia (a “igreja” Bola de Neve, por exemplo…) MAS também no próprio catolicismo (Canção Nova, por exemplo – tá, eu sei que muitos católicos tradicionais não vêem essa “coisa” como um culto católico de fato, e eu até concordo com isso. Mas tem tanta influência sobre as massas e, para complicar, ninguém menos de Padre Paulo Ricardo é parte dessa igreja). São cultos que, no fundo, não estão glorificando puramente à Deus, mas sim atendendo à demanda dos “fregueses. Isso leva ao quarto motivo

    4°) A mundanização da cristandade: convenhamos de novo: tem muito cristão que só se intitula “cristão” por conveniência social. É tão fácil se dizer ser um… E muitos desse, para dizer de uma forma “bíblica”, querem mais ser do mundo terreno que do Reino dos Céus. Se importam mais por dinheiro, sucesso, segurança social… A Teologia da Prosperidade (que pode ser considerada uma heresia calvinista) de gente como Silas Malafaia ou, mais acuradamente, Pedir Mai$cedo, é uma amostra cabal disso. Concordo francamente com Kierkegaard quando este diz que “ser um verdadeiro cristão é estar em oposição” à tudo isso…

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