Crucifixo, chatice e intolerância

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Fonte: Estado de São Paulo

Carlos Brickmann, jornalista arguto e politicamente incorreto, decidiu entrar no vespeiro do despejo do crucifixo de todas as dependências do Poder Judiciário do Rio Grande do Sul. Vale a pena registrar o seu comentário.

“Há religiões; também há a tradição, há também a história. A Inglaterra é um estado onde há plena liberdade religiosa e a rainha é a chefe da Igreja. A Suécia tem plena liberdade religiosa e uma igreja oficial, a Luterana Sueca. A bandeira de nove países europeus onde há plena liberdade religiosa exibe a cruz.

O Brasil tem formação cristã; a tradição do país é cristã. Mexer com cruzes e crucifixos vai contra esta formação, vai contra a tradição. A propósito, este colunista não é religioso; e é judeu, não cristão. Mas vive numa cidade que tem nome de santo, fundada por padres, numa região em que boa parte das cidades tem nomes de santos, num país que já foi a Terra de Santa Cruz. Será que não há nada mais a fazer no Brasil exceto combater símbolos religiosos e tradicionais?

Se não há, vamos começar. Temos de mudar o nome de alguns Estados e cidades como Natal, Belém, São Luís e tantas outras. E declarar que a Constituição do País, promulgada ‘sob a proteção de Deus’, é inconstitucional.

Há vários símbolos da Justiça, sendo os mais conhecidos a balança e a moça de olhos vendados. A balança vem de antigas religiões caldeias. Simboliza a equivalência entre crime e castigo. A moça é Themis, uma titã grega, sempre ao lado de Zeus, o maior dos deuses. Personifica a Ordem e o Direito.

Como ambos os símbolos são religiosos, deveriam desaparecer também, como o crucifixo?”

Em São Paulo, cidade cosmopolita e multicultural, basta bater os olhos nas estações da Linha Azul do Metrô: Conceição, São Judas, Saúde, Santa Cruz, Paraíso, São Joaquim, Sé, São Bento, Luz, Santana. E aí, vamos ceder ao fervor laicista e mudar o nome de todas elas?

Carlos Brickmann foi certeiro. Mostrou a insensatez e a chatice que estão no fundo da decisão de um Judiciário ocupado com o crucifixo e despreocupado com processos que se acumulam no limbo da inoperância e do descaso com a prestação da justiça à cidadania. Na escalada da intolerância laicista, crescente e ideológica, não surpreenderia uma explosão de ira contra uma das maravilhas do mundo e o nosso mais belo e festejado cartão-postal: o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro.

O Estado brasileiro é laico. E é muito bom que seja assim. Mas a laicidade do Estado não se estende por lei, decreto ou decisão judicial a toda a sociedade. O Estado não pode abolir ou derrogar tradições profundas da sociedade, pois estaria extrapolando o seu papel e assumindo a inaceitável função de tutor totalitário de todos nós.

Como já escrevi neste espaço opinativo, o laicismo, tal como hoje se apresenta e “milita”, não é apenas uma opinião, um conjunto de ideias ou uma convicção, que se defende em legítimo e respeitoso diálogo com outras opiniões e convicções, como é próprio da cultura e da praxe democrática. Também não se identifica com a “laicidade”, que é algo positivo e justo e consiste em reconhecer a independência e a autonomia do Estado em relação a qualquer religião ou igreja concreta, e que inclui, como dado essencial, o respeito pela liberdade privada e pública dos cultos das diversas religiões, desde que não atentem contra as leis, a ordem e a moralidade pública.

O laicismo militante atual é uma “ideologia”, ou seja, uma cosmovisão – um conjunto global de ideias, fechado em si mesmo -, que pretende ser a “única verdade” racional, a única digna de ser levada em consideração na cultura, na política, na legislação, no ensino, etc. Por outras palavras, o laicismo é um dogmatismo secular, ideologicamente totalitário e fechado em sua “verdade única”, comparável às demais ideologias totalitárias, como o nazismo. Tal como as políticas nascidas dessas ideologias, o laicismo execra – sem dar audiência ao adversário nem manter respeito por ele – os pensamentos que divergem dos seus “dogmas” e não hesita em mobilizar a “Inquisição” de certos setores para achincalhar – sem o menor respeito pelo diálogo – as ideias ou posições que se opõem ao seu dogmatismo.

Alegará que são interferências do pensamento religioso ou de igrejas, quando um democrata deveria pensar apenas que são outros modos de pensar de outros cidadãos, que têm tantos direitos como eles; e sem reparar que o seu laicismo militante, dogmático, já é uma pseudorreligião materialista e secular, como o foram as ditaduras comunistas e o nazistas.

Pratica-se, então, o terrorismo ideológico, pelo sistema de atacar os que, no exercício do seu direito democrático, pensam e opinam de forma diferente da deles, acusando-os de serem – somente por opinarem de outra maneira – intransigentes, tirânicos, ditatoriais – três características das quais o laicismo, na realidade, parece querer a exclusividade.

O Brasil, não obstante o empenho dos proselitistas ideológicos, é um país tolerante. Na religião, igualmente, o Brasil tem sido um modelo de convivência. Ao contrário de muitas regiões do mundo marcadas pelo fanatismo e pelo sectarismo religioso, o Brasil é um sugestivo caso de relação independente e harmoniosa entre religião e Estado.

É preciso, sem dúvida, desenvolver o senso crítico contra os desvios da intolerância, do fanatismo e de certas manifestações de estelionato religioso tão frequentes nos dias que correm. Mas não ocultemos os estragos causados pelo fundamentalismo laicista.

Estado laico, sim. Mas articulado com o Brasil real, tolerante, aberto, miscigenado.

Carlos Alberto di Franco – O Estado de S.Paulo

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2 COMMENTS

  1. Oi, Ayan. Acho que este artigo do João Pereira Coutinho acrescenta algo ao que vem sendo tratado neste blog.

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/32234-divinas-comedias.shtml

    São Paulo, terça-feira, 20 de março de 2012

    JOÃO PEREIRA COUTINHO

    Divinas comédias

    Reduzir a ‘Divina Comédia’ a um mero catálogo de preconceitos é não entender sua natureza

    1. Mais CEDO ou mais tarde tinha de acontecer: “A Divina Comédia” é um livro racista, homofóbico, anti-islâmico e antissemita, diz um grupo defensor dos direitos humanos que aconselha as Nações Unidas em matérias de discriminação e racismo.

    O grupo dá pelo nome de Gherush 92 e não se limita a denunciar os alegados vícios da obra de Dante Alighieri (1265-1321).

    Pretende igualmente que o livro seja retirado das escolas e das universidades, para evitar a disseminação dos maus exemplos.

    Eis o velho código dos selvagens: o que não entendes, destrói. Porque reduzir a “Divina Comédia”, obra sublime de inícios do século 14, a um mero catálogo de preconceitos do século 21 não é apenas um erro grosseiro de anacronismo.

    É não entender a natureza de uma obra que, ao apresentar uma gloriosa visão mística sobre os caminhos de salvação da alma humana, retoma e aprofunda o essencial da ortodoxia cristã.

    Os Cantos 12-17 podem aterrar-nos, literária e visualmente falando, com a descrição do Sétimo Círculo do Inferno.

    Mas Dante não está a dizer nada de particularmente original ao condenar os blasfemos, os sodomitas ou os usurários a castigos. Basta consultar os textos sacros para reconhecer a fonte onde Dante bebeu.

    Por outro lado, Dante não se limitou a relembrar aos presentes o essencial da palavra cristã.

    Para quem passou parte da existência na defesa da unidade da cristandade (contra os gibelinos, partidários do Sacro Império Romano; e contra o guelfos negros, partidários de Bonifácio 8º), assim se entende o lugar que o poeta reservou no Inferno para os inimigos dessa unidade. Que tanto podiam brotar do interior da igreja -o papa Celestino 5º é um exemplo- como do exterior dela -e Maomé, logicamente, é o candidato ideal ao título de cismático número um.

    Tivesse Dante vivido no século 16, e não nos séculos 13 e 14, e seria inevitável encontrar no seu Inferno um tal de Martinho Lutero.

    As patrulhas multiculturalistas que condenaram a “Divina Comédia” desconhecem a matéria básica sobre a qual dissertam.

    E, com a arrogância própria dos ignorantes, exportam as suas patéticas categorias contemporâneas (Dante é racista, homofóbico, anti-islâmico etc.) para um mundo que apenas interpretam anacrônica e superficialmente.

    Essa atitude, que vem embrulhada na capa da “tolerância”, é na verdade a marca suprema do fanatismo literalista. Porque só um fanático adere literalmente ao texto sem considerar a dimensão metafórica, cultural e contextual dele.

    De resto, pretender que o livro seja retirado de escolas ou universidades não é para levar a sério. Se fosse para levar a sério, não haveria nenhuma razão para que a limpeza ficasse apenas pela “Divina Comédia”.

    A história da cultura ocidental é um longo cortejo de obras que ofendem sempre a sensibilidade de alguém, algures -hoje ou no futuro.

    Fazer depender a sobrevivência dessa cultura dos caprichos transitórios dos homens presentes é a melhor definição de vandalismo que conheço.

    2. Na passada semana escrevi neste espaço que o racismo não era uma doença -e que por isso não tinha cura. Alguns leitores não gostaram da colocação pessimista e escreveram de volta com acusações extremas: eu estaria a “desculpar” o racismo; ou, pelo menos, a aceitar a sua inevitabilidade.

    Nada mais falso. Admito que racistas sempre haverá. Mas o racismo, longe de ser uma patologia, parece-me um problema essencialmente ético -a atitude de considerar inferior quem se encara como diferente.

    Isso é válido para o racismo dos brancos contra os negros; dos negros contra os brancos; ou até dos negros contra os negros -os tribalismos sanguinários de África são um caso óbvio.

    Uma tal atitude não se resolve com medicação, ao contrário do que afirmava o estudo citado da universidade de Oxford.

    Aliás, se existe tentativa de desculpar o indesculpável, ela está precisamente em quem pretende transformar em doença o que é apenas uma questão de educação moral.

    E esse tipo de educação, infelizmente, não se vende na farmácia.

  2. Caro Ayan, aqui vai aquela disputa na net da qual falei em comentário anterior, sobre os crucifixos.
    Grande abraço,

    A guerra dos crucifixos:

    Oponente diz:

    -E sobre a questão do incomodo, mesmo que o crucifixo incomodasse uma unica pessoa ainda assim seria inconstitucional.

    Resposta:

    -Então a Constituição Federal é inconstitucional. Basta ler o preâmbulo. Embora não tenha força de norma, afinal não é uma regra, um dever-ser, é fonte de subsídios hermenêuticos para entender a laicidade do Estado.

    Mas sabemos que Direito é como cana, pra todo lado sai caldo. No caso, basta ver a formação, os valores, a cosmovisão, os partidos dos juízes do RS para perceber como lá o caldo é doce para a agenda gaysista, abortista, feminista, anti-religiosa e racialista.

    O velho Rio Grande dos festejados arautos da justiça avançada e “muderna”, que vão buscar o Direito achado na rua, achado na vala, achado nas suas cabecinhas, em qualquer lugar, menos onde ele legitimamente está que é na vontade do povo que, bem ou mal, está cristalizada na letra da lei.

    E o que fazem como o preâmbulo da Constituição? Ironizam, fazem pouco caso.

    Deviam declarar a Constituição inconstitucional e mandar arrancar o seu preâmbulo, haveria lugar mais público no Estado Brasileiro do que no corpo de nossa Carta Magna?

    Afinal o prêambulo da Constituição está efetivamente ferindo a falsa sensibilidade histérica dos senhores ativistas.

    Fogo na CF!

    Oponente diz:

    Sua comparação continua sem sentido algum. A retirada dos crufiixos é um ato que vem justamente valorizar o direito à liberdade religiosa. Impor o símbolo de uma única religião é que atenta contra essa liberdade.

    Resposta:

    Falácia. Onde está a norma que obriga o uso dos símbolos religiosos? Onde está a norma que impede que outros símbolos possam adornar qualquer repartição pública no país, ou mesmo, coadornar as já adornadas?

    Na verdade a imposição deriva desta decisão: ela é que tem caráter coercitivo, ela é que veda, ela que impede, ela que cerceia o uso de qualquer símbolo religioso. Retirar um símbolo religioso é, em si, um forte símbolo anti-religioso, porque um símbolo é a síntese de uma idéia, de um sentimento, no caso é um símbolo claramente político, da vitória em uma batalha de uma longa guerra política que se trava. E não ver isto é simplesmente impossível, símbolos não são apenas coisas materiais, e a imaterialidade deste símbolo é quase palpável.

    A parede vazia, com a marca do crucifixo retirado é como uma praça onde restam os pés do antigo héroi, expurgado na revolução. A parede vazia, violentando o sentimento de milhões de brasileiros, a maioria dos brasileiros, é a vitória do ateísmo de Estado.

    E isso somente é o começo.

    Oponente diz:

    Deixa sim, porque o Estado não optou por nenhuma religião, mas por respeitar a individualidade de cada um.

    Mais uma vez, cito o que o juiz escreveu na decisão: o juiz colocar um altar de jesus/oxalá/aparecida/ganesha/buda/che guevara/bandeira arco-íris/foto de chico xavier no seu gabinete é plenamente possível, porque é privado, mas colocar isso numa área pública (corredores, plenários), onde o Estado se personifica, é que não pode:

    Parece-me evidente, no entanto, que embora sejam espaços institucionais os gabinetes dos magistrados podem retratar a sua preferência pessoal, especialmente porque não se apresentam como áreas de circulação do público em geral. Não raramente se vê, em tais gabinetes, vistosos símbolos de clubes de futebol, bandeiras e distintivos, o que pode, a critério de alguns, ser algo de mau gosto, mas se revela situação juridicamente sustentável já que se está tratando de um ambiente bem mais privado.

    […]

    No entanto, à luz da Constituição, na sala de sessões de um tribunal, na sala de audiências de um foro, nos corredores de um prédio do Judiciário mostra-se ainda mais indevida a presença de um crucifixo (ou uma estrela de Davi do judaísmo, ou a Lua Crescente e Estrela do Islamismo) do que uma grande bandeira de um clube de futebol.

    Isto porque, ao passo em que a presença da bandeira de um clube de futebol na sala de sessões de um tribunal não fere o princípio da laicidade do Estado (ao contrário da presença da presença do crucifixo, que fere tal princípio), a presença de qualquer deles – bandeira de clube ou crucifixo – em espaços públicos do Judiciário [U]fere o elementar princípio constitucional da [COLOR=”Red”]impessoalidadeno exercício da administração pública. Ou seja, a presença de símbolos religiosos em tais locais viola, além do princípio da laicidade do Estado e da liberdade religiosa, também o princípio da impessoalidade que rege a administração pública.

    Imagine a bandeira do Flamengo no Superior Tribunal de Justiça Desportiva que vai julgar um jogador de lá ou algum rival?

    Só pra finalizar:

    Os símbolos oficiais da nação brasileira estão previstos na Constituição Federal, sendo eles a bandeira, o hino, as armas e o selo nacionais. São [b]símbolos do Estado do Rio Grande do Sul a bandeira rio-grandense, o hino farroupilha e as armas tradicionais. Tais são os [b]símbolos, portanto, que podem ser ostentados em ambientes formais do Poder Judiciário, abertos ao público, sem violação do princípio constitucional da impessoalidade.

    [IMG]http://oferrao.atarde.com.br/wp-content/uploads/2012/03/crucifixo_exclusivo2.jpg[/IMG]

    Já eu acho que deveria ser hasteada a bandeira de Salvador em todas as cidades da Região Metropolitana, porque é a maior cidade.

    Resposta

    Haveria muito mais a comentar, dada a grande quantidade de posts, mas vamos ao cerne.

    O meu argumento referente ao preâmbulo constitucional, fustigado por mopc, jotaferro e outros, será, no devido tempo, contra-refutado.

    Mas já vou adiantando que dizer que o prêmbulo da CF não faz parte da CF é simplesmente um absurdo, tal como dizer que o prefácio de Memorórias Póstumas não é parte integrante do livro.

    Da mesma forma, dizer que a ausência OBRIGATÓRIA de símbolos não configura uma norma coercitiva é algo também absurdo. Se antes a tradição, o gosto, a cultura, a história e a espontaneidade eram a razão dos crucifixos nas repartições não havendo NADA OBRIGANDO o símbolo de cultura X ou IMPEDINDO o símbolo de cultura Y, agora sim, á uma intervenção estatal claramente coercitiva. E a coerção é em que sentido? No sentido do interesse daqueles que não toleram nenhum símbolo religioso.

    Em nome da tolerância, nada se tolera, triunfa a intolerância a todos os símbolos!

    Quanto ao princípio da impessoalidade, no qual se baseou o senhor juiz, ele está no artigo 37 da CF, caput, juntamente com a moralidade, a eficiência, a publicidade e diz respeito aos ATOS ADMINISTRATIVOS. Ato implica em fazer algo juridicamente válido. São os atos dos administradores que estão sob o crivo do judiciário, se eivados de nulidade e se ferirem tais princípios.

    E a CF determina claramente o que significa MORALIDADE? Não, que a define é a jurisprudência e doutrina. Define IMPESSOALIDADE? Não, a construção do conceito também é jurisprudencial e doutrina.

    Significa que o ato administrativo não pode, no caso concreto, ser motivado por interesse que não o interesse público, não pode ser desviado do seu fim, não pode beneficiar certa pessoa ou grupo.

    Acaso o crucifixo na parede implica necessariamente em decisões judiciais pessoais e nulas? Se assim fosse, todas as sentenças prolatadas até hoje, neste tribunais deveriam ser anuladas! Vejam o absurdo a que chegamos.

    E o ato de apor o crucifixo, em si, é um ato jurídico administrativo passível de controle judicial? Claro que não, simplesmente porque a mesma NÃO TEM EFEITOS JURÍDICOS.

    ————————-

    Agora vamos a sutil inversão da realidade contida no cartum:

    – a idéia do anúncio é que existe hoje uma situação no Brasil onde:

    1- é obrigatório o uso do simbolo católico
    2- é exclusivo o uso do simbolo católico

    Duas grandes mentiras. Na verdade não existe norma obriando o uso exclusivo de nada, onde está a norma respectiva? Simplesmente NÃO existe.
    Agora, em nome da liberdade religiosa, se IMPEDE o uso espontâneo de QUALQUER SIMBOLO RELIGIOSO.

    Oponente diz:

    Claro! Por exemplo, o metrô de São Paulo claramente adota o ateísmo como seu dogma oficial, pois nos trens e estações não há qualquer símbolo religioso.
    Ah sim, será que vc não vê nenhuma diferença no símbolo que representa a retirada de um símbolo e a ausência de simbologia de um espaço que sempre foi vazio e nunca teve simbologia alguma?

    Resposta:
    Desculpe, mas eu passo a oferta. Não compro gato por lebre.

    Oponente diz:
    A Petrobrás também incita a opressão religiosa ao não ostentar crucifixos em seus prédios!

    Os ônibus do Brasil inteiro adotam o ateísmo de estado pois também carecem de crucifixos ou estátuas de nossa senhora! exceto o eventual santinho no retrovisor!

    Chegou meu extrato do FGTS e nele não havia nenhum santinho nem crucifixo, nem ao menos o catecismo da Igreja Católica! É um panfleto do ateísmo darwinista do capeta na verdade!

    Obrigado por abrir nossos olhos para o avanço do stalinismo e do satanismo sobre a católica apóstólica nação brasileira!

    Resposta:
    Belo efeito retórico, mas a questão básica na foi refutada acima. Repisando: a retirada de um símbolo é símbólica, uma parede eternamente vazia é neutra euquanto uma parede historicamente preenchida por um símbolo de uma civilização que se torna vazia tem um significado político que grita.

    Oponente diz:
    Pela mesma lógica, a ausência de símbolos judaicos, evangélicos, mórmons, muçulmanos, budistas e umbandistas mesmo nos tribunais é claramente uma afronta ao direito de liberdade religiosa desses grupos. Ou não? Só quem é historicamente predominante merece representação?

    Resposta:
    obviamente que não: a retirada do símbolo tradicional cristão é compulsória enquanto seu uso não era obrigatório e exclusivo, donde se extrai nenhum impedimento a outros símbolos. Logo todos os símbolos podem ser representados no Estado Laico.

    Oponente diz:
    Só a ausência do crucifixo implica opressão religiosa, a ausência dos outros símbolos religiosos não implica em nada?

    Os evangélicos e testemunhas de Jeová, que rejeitam completamente o uso do crucifixo como idolatria, o que pensam sobre a questão? São eles obrigados a prestar depoimento sob um símbolo herético e ofensivo a eles???
    A alegação de ofensividade deve partir deles, vc não a pode presumir. Aliás foram eles que ingressaram com esta ação? Não, foi um grupo laicista, de lésbicas. Contradizendo sua presunção absoluta de ofensa, existe decisão anterior de juiz protestante justamente defendendo a presença do símbolo.

    Resposta:
    Não passa em um crivo cético a objetividade dessa tal ofensa alegada por elas. É mero subterfúgio político, estratégia implementada em guerra cultural, hipersensibilidade histérica calculada, que não está ocorrendo só no Brasil, mas em todo o Ocidente a técnica se repete com poucas variantes.

    Esse tipo de sensibilidade histérica pode levar (se ainda não levou) a tentativa retirada da cruz dos países europeus, ou da estrela de David, da bandeira de Israel ou da Crescente da bandeira dos países mulçumanos.

    A existência de uma cultura nacional impregnada nos símbolos dessa nações pode implicar na idéia de que o Estado Nacional de todos esse países é necessariamente parcial? Isso é simplesmente absurdo.

    Oponente diz:
    E os próprios católicos será que não percebem que o uso do seu símbolo pelo estado representa uma tentativa de coopção de sua religião por uma aparato governamental que não segue nem necessariamente respeita sua religião?

    Resposta:
    Cooptação? Não se trata de cooptação. Não existe norma impondo símbolo algum.
    A cooptação do Estado está ocorrendo agora. Eis que agora aparece o uso do aparelho do Estado (através do judiciário) para alcançar claro fim político. A norma impositiva nasce agora na decisão judicial.

    Oponente diz:
    Será que estão tão anestesiados que não vêem que o estado quer simplesmente atrair a simpatia de um grupo usando um símbolo de uma instituição em que ele não acredita nem segue?

    Resposta:
    Personificação indevida do Estado. O Estado não tem ou deixa de ter simpatia por instituição A ou B, não coopta ninguem, simplesmente NÃO PODE crer ou descrer, simplesmente porque ele é uma abstração.

    Quem pode fazer tudo isso são os agentes humanos da Política.

    Ponderação 01:
    Vamos a querela da bandeira do flamengo e outros símbolos nos tribunais.

    Afinal, porque a cruz está lá? Porque um certo ateu centenário reservou um nicho – me corrijam arquitetos se eu estiver errado – para a cruz no plenário do STF????

    Alguém disse, e me foge o nome agora, que somos o Ocidente, filhos de Roma e seu Direito, Atenas e sua Filosofia e Jerusalém e sua Moral.

    Eis a resposta, a cruz está lá pelos mesmos motivos que estatuas de deuses pagãos, balanças e pêndulos, colunas clássicas e mulheres de mármore com o peito de fora.

    História, tradição, sentimento, cultura. É isso. Um tribunal julga e apela ao Direito e o Direito é o costume do povo e a sua moral, e nossa moral é, queiram ou não queiram, de matriz judaico-cristã.

    – atenção – lhama – lhama – lhama – não estou dizendo que quem só tem moral é quem é cristão, viu gente?

    E tem um juiz que vê na cruz a sua amada Igreja, tem aquele que pensa nela como um aviso de um certo nazareno condenado mas inocente… tem aquela juíza que acha elegante a obra do escultor X, mas o grosso dos que perambulam no tribunal nem se dão conta dele lá, de tão presente na nossa cultura, ele submergiu no inconsciente da multidão.

    Sabe o que de fato simboliza a cruz para a imensa maioria das pessoas que fazem a Justiça? NADA. Não simboliza nada.

    Agora sim, com os espírito-de-porco em orquestração concatenada globalmente ( falar em teoria da conspiração não implica em inexistêcia de conspiração, vou logo avisando…), ele volta a ser um símbolo na hora mesma em que é retirado. Simboliza a queda dos reacionários e o festim dos progressistas.

    E como já deixei dito em outro tópico sobre o mesmo tema: laissez-faire… eu tenho orgulho da cultura multifacetada do meu país, de sua tolerância religiosa, se quiserem erguer tribunais e ornar com Oxalá, terão meus mais calorosos aplausos, porque eu amo a beleza da cultura africana, mestiço nordestino que sou, de uma ilha quente ao Equador e durmo desde que vivo ao som dos atabaques.

    E se quiserem adornar com Buda, que o façam que admiro a beleza dos ensinamentos de paz deste mestre.

    Arrancar crucifixos é nada mais nada menos que VIOLÊNCIA SIMBÓLICA ESTATAL ORGANIZADA.

    E provo no Aurélio cada letra garrafal, hein!

    Ponderação 02:

    Toda essa celeuma me trouxe a mente algumas imagens… do Cristo Redentor e da deusa Themis.. aí pensei no no argumento do conselho de justiça gaúcho o qual pode ser assim resumido: argumento da influência deletéria dos fluidos imaginários, inversamente proporcional ao quadrado da distância entre o ícone e o encéfalo do magistrado.

    Crucifixo em sala de tribunal tem grande força na decisão do togado, imperiosa determinação toma-lhe os pulsos e as cadeias do pensamento e, contra seu próprio alvedrio, o pobre escravo da Igreja manda às favas a impessoalidade e a laicidade, e sempre defende a Malvada Inquisitora, absorvendo sem pestanejar os milhões de pedófilos inveterados que vicejam nessa Terra de Santa Cruz (ops… Santa Cruz, não, que isso é trazer maus fluidos ao SCC).

    A deus Themis, ali, do lado de fora, teria a mesma influência? Certamente que não, a influência se existente, seria exponencialmente menor, daí que a mesma não deva ser removida, afinal ela é um símbolo de nossa herança cultural do BEM, daqueles nosso amigos romanos, seja ela chamada Justitia, ou gregos, seja ela alcunhada Themis, que gostavam de uma suruba, de uma pederastia, de um sexo livre, de um bacanal bacana, de um woodstock proto-histórico para o júbilo e o orgasmo amazônico (sem a imposição castradora e doentia da moral judaico-cristã) do grande Marcuse.

    O negócio é por abaixo somente os símbolos do Mal: dos três pilares da civilização ocidental, Roma, Atenas e Jerusalém, que caia apenas esta último, sob o zunido diuturno de tantas trombetas zombeteiras, repetindo a mesma propaganda a exaustão. Derribem-se apenas as muralhas de Jerusalém, para provar que não somente a voz de Deus pode derrubar Jericó.

    Para o grande gozo de Marcuse, que tudo observa, lavando as costas com água fervente, em um calderião de breu, nas profundas brenhas do inferno.

    Já o Cristo, não poderia ele, do alto do morro, entrando pelas janelas dos tribunais cariocas obnubilar a inteligência dos magistrados daquele belo rincão?

    Não, por enquanto, a prudência indica melhor não mexer com ele que a massa alienada pode nos dar um safanão. Eles ainda, incultos que são, não estão preparados para a única verdade, aquela que só nós sabemos, de que não existe verdade alguma. Ademais, guerra cultural é como sopa quente, come-se pelas beiradas. Talvez daqui a 50 anos, quiçá?

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