Conservadorismo cético e ceticismo político: qual a diferença?

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Em debates no Orkut, já “ouvi” o seguinte: “você acredita em princípios conservadores, portanto não é um cético imparcial”.

Alguém mais empolgado já disse também: “se você não é imparcial, então não é um verdadeiro cético, como eu sou”.

Vamos com calma, muita calma nessa hora.

Existe uma diferença entre conservadorismo cético e ceticismo político, e já é o momento para que eu esclareça meus leitores e meus inimigos a respeito dessa diferença.

Antes de tudo, é preciso recobrar a definição de alegação política: Uma alegação política é toda alegação que, se aceita, irá gerar benefícios para a pessoa ou grupo que a propaga.

Já me disseram: “e se a alegação não gerar benefício para o grupo ou pessoa que a propagou?”

Vamos avaliar?

Suponha que alguém afirme: “defendo o melhor para a sociedade, por isso apóio que o estado tome conta de tudo”. À primeira vista, parece que o alegador não está obtendo benefício algum, certo? Errado.

Veja mais de perto:

  • Temos alguém (A) que quer impostos mais altos, sob pretexto de “justiça social”
  • Temos alguém (B) que quer pagar menos impostos, e acha que “justiça social” deveria ser feita diretamente pelos esquerdistas, de forma voluntária
  • Se a alegação de (A) for aceita, este vence, enquanto (B) perde
  • Se a alegação de (A) for rejeitada, (B) vence, enquanto (A) perde

Aplique a metodologia de avaliação do vested interest em qualquer afirmação feita, e você poderá identificar se temos uma afirmação política ou não.

Vamos a algumas afirmações que não são políticas:

  • “O ceticismo é um método de questionamento”
  • “Haverá lua cheia hoje”
  • “Você pode completar. Grato.”

Agora veja algumas afirmações políticas:

  • “Eu sou o mais cético aqui, me auto-questiono e sou imparcial”: se aceita, essa afirmação não comprovada irá gerar um “gatilho” psicológico na plateia, garantindo o aceite das idéias do alegador, em oposição às outras ideias.
  • “Eu defendo a razão, ele não”: se aceita, essa afirmação “desliga” o centro de atenção do ouvinte para o oponente, ouvindo apenas aquele que se identificou como “da razão”.
  • “Minha área requer mais recursos, pois isso necessito de um headcount maior”: se não questionado, esse gerente poderá convencer os superiores que realmente precisa de mais recursos. Mas e a comprovação para isso?

Se você pegou o jeitão da coisa, deve ter ficado fácil.

O que é o ceticismo político então? Nada mais, nada menos que o ceticismo aplicado às alegações políticas.

Se existiu um “ceticismo” que foi divulgado por Carl Sagan e James Randi, mas era focado somente em alegações de cunho sobrenatural, o ceticismo “de volta às origens”, defendido aqui, é focado em alegações de qualquer tipo, sejam sobrenaturais ou não, desde que sejam políticas (mas se for aplicado à alegações não políticas, o princípio é o mesmo). E, para que elas sejam qualificadas como políticas, basta que alguém ou um grupo leve a mínima vantagem pelo aceite dessas alegações. Não se esqueça que deve ser dado um enfoque especial às alegações políticas de apelo à autoridade, incluindo as rotinas de controle de frame e o self-selling.

Note que você pode aplicar o ceticismo político em cima de um gerente cujas alegações não sejam embasadas. Aliás, essa é uma de minhas especialidades: investigar gerentes malandrões através de controles corporativos. É uma variação do ceticismo político que defino como ceticismo corporativo. E, como todos sabem, o ambiente corporativo é um ambiente inerentemente político.

Não é preciso elocubrar muito para reparar que o ceticismo político pode ser aplicado a um ateu ou cristão, conservador ou esquerdista, enfim, a qualquer um que realize uma alegação política.

E o conservadorismo cético? É mais simples ainda: é a aplicação do ceticismo político em direção à religião política.

Explicando melhor: assim como no passado você deve ter acostumado a ver céticos anti-religião, o conservadorismo cético faz exatamente o mesmo papel, bastando substituir como alvo da investigação cética a religião tradicional pela religião política.

Criei a concepção do conservadorismo cético, pois sempre achei que havia uma lacuna quanto ao questionamento da religião política. Se hoje existem especialistas no questionamento ao que qualquer líder religioso tradicional fala e qualquer alegação da religião tradicional, por que não existe tal ação especializada no questionamento aos religiosos políticos? Lembrando que a religião política possui alegações absurdas, nem de longe sustentadas cientificamente (ainda que alguns de seus adeptos afirmem “representar ciência”) e, pior, é muito mais perigosa em termos sociais do que as religiões tradicionais.

Por exemplo, é uma rotina esquerdista dizer que o conservador “não aceita mudanças”. Nem de longe, eu adoro mudanças. Sou um adepto de novas tecnologias. A questão é que eu sou contra as mudanças PROPOSTAS PELOS ESQUERDISTAS, não contra as mudanças em geral. Eu sou contra as mudanças propostas pelos esquerdistas, pois sou um conservador cético, e questionei as propostas dos esquerdistas (e elas não passaram no crivo cético).

Enfim, a diferença: o ceticismo político é aplicável a qualquer alegação política, independente de quem a faça. Já o conservadorismo cético é uma ESPECIALIZAÇÃO da prática do ceticismo político, orientado ao questionamento da religião política (esquerda).

Aos meus adversários das redes sociais, especialmente o Orkut: já não há mais motivo para confusão.

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