Como a perspectiva do triângulo em debates ajuda a resolver problemas estratégicos do debatedor

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Vou dedicar esse post a responder uma questão que incomoda um amigo. Ele me disse o seguinte:

Há alguns dias eu estava em um jantar com minha namorada e um casal de amigos. Minha namorada é de direita, como eu. E esse casal de amigos é de esquerda. Eu sou um leitor de seu blog e estava debatendo com eles a respeito da inviabilidade de algumas idéias de esquerda. Pasme, eles pareciam “cegos” a qualquer argumento que lhes mostrava. A mente deles era blindada aos novos argumentos, e eles se resumiam a repetir a crença que já possuíam. Como eu faço para mudar a mentalidade deles? Parece que mesmo quando eu estou com os fatos em mãos, isso não é suficiente.

É, meu caro, parece que está havendo aí um erro estratégico de tua parte.

Eu defino um erro técnico como aquele que ocorre quando uma ação está correta, em relação aos seus objetivos (a estratégia), mas você não consegue executá-la corretamente. Um exemplo é quando você traz 5 profissionais para uma função, mas 2 deles não demonstram a qualificação que você ESPERAVA que eles possuíssem. A estratégia de definição dos profissionais estava correta, mas ocorreu um equívoco na seleção dos profissionais.

Já um erro estratégico ocorre quando até a ação escolhida NEM SEQUER DEVIA ESTAR SENDO REALIZADA. Por exemplo, se você quiser conquistar o mercado de mariolas, não há razão em priorizar a venda de doce de figo. Mesmo que seu carregamento de doce de figo chegue na data correta, a estratégia está errada (pois você devia estar vendendo mariolas).

Antes de tudo, qual é a estratégia? Entendo que deveria ser vencer a guerra intelectual com os esquerdistas. Pura e simplesmente. E depois as ações deveriam ser feitas em alinhamento com essa estratégia.

Ficar tentando convencer um casal de amigos em uma conversa que devia ser amigável vai gerar quais efeitos em alinhamento com essa estratégia? A meu ver nenhum.

Para entender melhor esse conceito, vou apresentar aqui a perspectiva do triângulo que uso para debates.

Faça o desenho de um triângulo de ponta cabeça, como abaixo:

Notou o desenho?

Pois bem, ele possui 3 vértices, sendo:

  1. Você (e o seu lado político)
  2. Seu oponente (e o lado político que ele defende)
  3. A platéia

Eu já abordei a questão das crenças emocionais, que não serão abandonadas antes questionamento, o que é reforçado pelo conhecimento do efeito backfire.

Quer dizer, se o seu amigo esquerdista ASSUMIU COMO VALOR a crença no homem, essa crença está enraizada emocionalmente nele. Ela está registrada no sistema límbico profundo. Não é sua argumentação que irá convencê-lo do contrário. Se você quiser seguir argumentando com ele, vai perder um amigo. E muito provavelmente conquistará um inimigo.

A lógica é clara: em um debate político desse tipo, você e sua namorada não deixarão de acreditar nos princípios da direita. E ele não deixará de acreditar nos princípios da esquerda.

Qual a solução então? Argumentar e duelar com os seus oponentes, com ênfase no esclarecimento daqueles que estão do seu lado (vértice da direita), e convencendo os neutros que estão assistindo o debate, ou seja, a platéia (vértice inferior).

Só isso e nada mais.

Não é preciso mudar a concepção de mundo daquele que esá no vértice da esquerda (o seu oponente).

Pelo contrário, se ele continuar cada vez mais crente nos ideais da esquerda, você poderá usar isso para DEMONSTRAR à platéia o quanto a crença dele, mesmo sendo irracional, é aceita sem questionamentos.

Ao pensar em tentar convencer o outro lado, você se esqueceu de que está em uma guerra política, no qual você deve satisfação ao teu lado, e à platéia, mas jamais ao lado oponente.

É o mesmo princípio da auditoria, no qual eu devo satisfação ao meu time de auditores, e à organização, mas jamais aos fraudadores. (E, como já mostrei várias vezes por aqui, o discurso de esquerda não passa de uma coleção de fraudes intelectuais)

Para piorar, no caso do jantar em questão, havia apenas 2 lados, e nem o triângulo se configurou. Em resumo: não havia platéia.

Normalmente nesses casos (quando não há uma platéia) eu me resumo a ouvir e dar corda para o outro lado falar de forma empolgada de suas crenças. Eu posso até dizer que estou “pensando no assunto, e avaliando se acredito nele”.

Nesse caso, quando ele fala de forma emocionada (com os olhos brilhando) em sua crença na ONU, nos Anonymous ou qualquer ideologia revolucionária ou utópica, estou aprendendo cada vez mais o modus operandi dele.

Recentemente, um amigo humanista me dizia empolgado sobre suas perspectivas otimistas para o mundo. Parecia que ele estava próximo de ter um orgasmo quando narrava sua expectativa. E eu só dava corda: “olha, eu sou um tanto cético, mas me diga mais…”. E ele, emocionado, tentava me convencer. No fim, o que eu disse foi: “olha, não me convenceu, mas respeito tua crença…”

Como não havia platéia por perto, não vi vantagem em desmascará-lo e nem humilhá-lo publicamente.

E ele ainda continuou sendo meu amigo.

Portanto, sempre que estiver em embates políticos, tente visualizar o triângulo, e pense no que está acontecendo.

Se há uma platéia (como em debates de Orkut), esmague os argumentos do outro sem só nem piedade, deixando seu oponente em situação constrangedora sempre que possível.

Se não há uma platéia, e o outro lado ainda pertence ao teu círculo de amizades, deixe-o falar e simule um certo grau de condescendência (o suficiente para mantê-lo falando, empolgado).

E aí nesse caso talvez você aprenda uma coisa ou duas sobre as crenças dele e o padrão de comportamento adotado por ele.

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10 COMMENTS

  1. Não se dialoga com um inimigo que dispara em sua direção brandindo uma espada. Brande-se a sua e das duas uma: ou o espanta ou finca sua espada em seu pescoço. Senão você morre.

  2. O problema do seu amigo é o mesmo que o meu…

    Ultimamente tenho caído na seguinte armadilha do pensamento: “se não consigo convencer a toupeira do meu cunhado por ex. em uma assunto banal, que efeito terá com um sujeito mais… digamos, fundamentado e inteligente, que sofre das mesmas crenças na religião política?”

    E ainda por cima as essas pessoas ficam bravas que nem criança, o ambiente fica pesado e tal, enfim, realmente não vinga. Vou ter que mudar a estratégia porque pelo visto não adianta tentar convencer diretamente um crente fanático!
    ***
    Mas tem uma coisa que eu quero perguntar. Normalmente a “platéia” nesses casos não é como a platéia de um programa de auditório, passiva, que ouve quieta. Normalmente todos participam da conversa em algum nível, e meu, geralmente vão abraçar um comportamento de rebanho e interceder em defesa do representante de rebanho que exprime idéias que lhe são mais enraigadas, ou seja, progressistas/esquerdistas/anti-cristãs e afins – SEMPRE ACONTECE! Não aconteceria nesses casos um reforço de um dos lados do debate, num ataque em bando dos terceiros, do que possibilidade de “conversão[sic]” desses terceiros? Ainda por cima discussões in loco são geralmente com amigos, colegas, conhecidos, etc, e não dá pra dar aquele “arregaço(kkk)” que agente dá na internet.

    Alguma dica/ideia sobre isso? Por que isso acontece? sei lá, dá uma luz!

    PS: Vendo por este prisma a internet é fichinha… 🙂

  3. Sem contar, prezado Luciano, que esse tipo de debate, sem platéia, acaba se tornando um vício terrível de ser extirpado. Durante muitos anos, fui completamente viciado em debates via internet. Entrava lá no site do Bule Voador ou no Vermelho,org, por exemplo, e passava horas tentando argumentar com os crentes no humanismo. É claro foi pura perda de tempo. Como disse o Olavão, com ideólogo não se debate; ele deve é ser desmascarado.

  4. Concordo totalmente com o texto. E só pra ajudar a exemplificar:
    “Há alguns dias eu estava em um jantar com minha namorada e um casal de amigos. Minha namorada é evolucionista, como eu. E esse casal de amigos é criacionista de Terra jovem. Eu sou um leitor de seu blog e estava debatendo com eles a respeito da inviabilidade das idéias criacionistas…”

  5. Olá,Luciano!Sou seu leitor a algum tempo e sempre que posso,divulgo seu trabalho em minha página no facebook (História e Afins).Página essa que criei voltada pra pessoas e estudantes( entre os quais estão alguns alunos meus) na intenção de motivá-los a pesquisarem mais sobre a História.O fato é que em minhas pesquisas,entrei em contato com um blog chamado Rebeldia Metafísica( onde recentemente você foi citado).Bom,entre outras coisas,foi dito ali que você e o snowball ( do quebrando o encanto…) são a mesma pessoa!Acredito que seria interessante você se pronunciar a respeito e trazer a tona suas reais crenças( caso vc seja mesmo as duas pessoas).Além do mais,omitir-se agora,iria de encontro a tudo que vc defende neste blog.Já havia entrado em contato com o snowball e o site Teísmo.net a respeito dos artigos publicados no referido site e recebi somente respostas evasivas,isso quando não fui sequer respondido.Como seu assíduo leitor,gostaria realmente de um pronunciamento a respeito.Grande abraço!

    • Anderson, antes de tudo obrigado pela leitura. Eu e o Snowball não somos a mesma pessoa embora compartilhemos a idéia de que é importante ser feita a refutação de esquerdistas. O foco dele é na refutação ao neo ateísmo, e eu estou interessado na religião política (esquerda) como um todo. Uma idéia que até o Snowball considera como interessante e resolveu reaproveitar no site dele (pelo que ele me disse) é a idéia de isolar os truques argumentativos dos neo ateus (e posteriormente esquerdistas em geral) e criar refutações a eles. Isso foi feito para tornar mais rápida a refutação. Se mais sites fizerem isso, além do site do Snowball, terão todo o meu apoio.

      Enfim, eu sou ateu e agnóstico, adepto da psicologia evolutiva e gosto de dinamica social como modelo de análise. Atuo com gestão da qualidade, auditoria e governança em TI. E, com certeza, eu e Snowball não somos a mesma pessoa.

      Um abraço.

  6. Só que é o seguinte, na boa, isso ja virou dtatica de debate eleitoral, para convencer platéia. A idéia é tentar convencer eskerdistas SINCEROS e que não estejam, ao debater com vc(pessoa conservadora) mirando numa platéia.

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