O inimigo do meu inimigo é meu amigo

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Alguns já me perguntaram: “Luciano, de onde vem sua simpatia pela religião?”

Eu não consigo ver dessa forma. Eu não sou simpático à religião tradicional. Não sou cristão (embora já tenha sido), e não morro de amores pelo cristianismo.

Só que eu defendo os cristãos das mentiras propagadas pelos neo ateus, que na verdade não são mais do que uma variação bizarra do humanismo secular, que por sua vez é uma variação do humanismo. E, sim, os humanistas são meus adversários.

Abaixo, vejam um trecho do Manifesto Humanista, de 1933:

QUATORZE: Os humanistas estão firmemente convencidos de que uma sociedade focada em aquisições e lucros é inadequada e que é preciso uma mudança radical a ser instituída nos métodos, controles e motivos. Uma ordem econômica socializada e cooperativa deve ser estabelecida com o objetivo de que uma distribuição adequada dos meios de vida seja possível. O objetivo do humansmo é uma sociedade livre e universal na qual as pessoas cooperam de forma voluntária e inteligente para o bem comum. Humanistas pedem uma vida compartilhada em um mundo compartilhado.

Já em outro manifesto humanista, de 2000, publicado por Paul Kurtz, vemos coisas como:

VI: Um comprometimento universal para a humanidade como um todo

A necessidade cada vez mais de uma comunidade global envolve desenvolver um novo Humanismo Planetário – um que busca preservar os direitos humanos e aumentar a liberdade humana e dignidade, mas também enfatiza nosso comprometimento com a humanidade como um todo. O princípio ético subjacente do humanismo planetário é a necessidade de respeitar a dignidade e o valor de todas as pessoas na comunidade mundial.

VII. Uma Lista de Direitos e Responsabilidades Mundial

Para cumprir o nosso compromisso com o humanismo planetário, nós oferecemos uma Lista de Direitos e Responsabilidades Mundial, que incorpora o nosso compromisso planetário para o bem-estar da humanidade como um todo. Ele incorpora a Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas vai além, oferecendo algumas novas disposições. Muitos países independentes têm procurado implementar estas disposições dentro de suas próprias fronteiras nacionais. Mas há uma crescente necessidade de uma Lista de Direitos e Responsabilidades Mundial, que se aplica a todos os membros da espécie humana.

VIII. Uma nova agenda global

Muitos dos altos ideais que surgiram após a Segunda Guerra Mundial, e que encontraram expressão em instrumentos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tem diminuído através do mundo. Se queremos influenciar o futuro da humanidade, teremos de trabalhar cada vez mais com e através dos novos centros de poder e influência para melhorar a equidade e estabilidade, aliviar a pobreza, reduzir os conflitos e proteger o meio ambiente.

IX. A necessidade de novas instituições planetárias

A questão urgente no século XXI é se a humanidade pode desenvolver instituições globais para resolver estes problemas. Muitos dos melhores remédios são aqueles adotados nos níveis local, nacional e regional, através de esforços voluntários, privados e públicos. Uma estratégia é buscar soluções através de iniciativas de livre mercado, outra é usar fundações internacionais e organizações voluntárias para o desenvolvimento educacional e social. Acreditamos, no entanto, que continua a haver uma necessidade de desenvolver novas instituições globais que irão lidar com os problemas diretamente e incidirão sobre as necessidades da humanidade como um todo. Estes incluem a chamada para uma legislatura bicameral nas Nações Unidas, com um Parlamento Mundial, eleito pelo povo, um imposto de renda para ajudar os países subdesenvolvidos, o fim do veto no Conselho de Segurança, um órgão ambiental, e um tribunal mundial com poderes de polícia.

Prestem atenção na lista de pessoas que assinam o Manifesto: Daniel Dennett, E. O. Wilson (apesar de darwinista, este parece ainda crer que a espécie humana pode fazer o prometido no manifesto – embora se ele for beneficiário, pode apenas simular a crença), Richard Dawkins, Artur Clarke, Lewis Wolpert. Provavelmente Sam Harris e Christopher Hitchens não estão nesta lista por em 2000 ninguém nem sabia da existência de ambos.

Enfim, os humanistas jogam pesado: se os comunistas queriam o governo totalitário para a ditadura do proletariado (que eles acreditavam levar o ser humano à “sociedade justa”), o novo humanista não quer saber de miséria. O governo tem que ser global e não tem conversa.

Por que esse fenômeno acontece?

É muito simples, embora os humanistas fiquem indignados com a explicação.

O ser humano é biologicamente programado para achar o seu “alfa”. Este seria o macho alfa da tribo. É como em todas as espécies animais. O “alfa” é aquele que teria condições de fazer o melhor pelo grupo. O “alfa” deve ser seguido, é o líder dos outros.

Ao que parece, a crença em Deus funciona como um substituto para essa busca do macho alfa, pois a crença em outros homens é transferida para um criador de todos, Deus. Logo, essa crença em Deus seria um substituto para a crença em uma autoridade (e o macho alfa é uma autoridade).

Note que a busca do alfa é algo que não necessariamente funciona por vias de força, mas motivação própria. A pessoa tem que estar MOTIVADA a seguir o “alfa”.

Ora, se a crença dos teístas é focada e achar o seu “alfa” em um Deus, isso REDUZ  a chance dessa pessoa acreditar no ser humano e buscar seus “alfas” em nossa espécie. Isso explica por que a maioria dos conservadores tem orientação religiosa (embora alguns poucos sejam ateus, como eu, e também Theodore Dalrymple e Luiz Felipe Pondé), assim como a maioria dos religiosos políticos, especialmente humanistas, não possuem crença em um Deus.

Os beneficiários da esquerda foram espertos: eles sabiam que para criar uma legião de crentes no homem, a melhor forma é criar uma legião de ateus. Pois, sem a crença em Deus, AUMENTAM AS CHANCES de alguém ser vítima da crença no homem. É aí que surgem os funcionais da esquerda.

Atenção, de novo: isso não significa que TODO ATEU OU AGNÓSTICO vai virar um humanista, mas sim que a MAIORIA deles irá fazê-lo. Eu sou ateu, e não me converti ao humanismo. Por isso refiro a mim mesmo como um ponto fora da curva, pois não tenho religião tradicional e nem religião política.

Mas COMO EU SEI que o ser humano possui esse componente de busca pela autoridade (a busca pelo macho alfa da tribo), e que, com exceção dos pontos fora da curva, aqueles que não forem seduzidos pela religião tradicional, serão seduzidos pela religião política (e vice versa), obviamente começo a achar a religião tradicional algo não tão ruim assim. Se não para mim, para a população em geral.

Eu não gosto de vários pontos da religião tradicional. No caso do cristianismo, eu não gosto do moralismo sexual, da proibição da eutanásia e outros pontos.

Mas, mesmo assim, sei que a alternativa humanista é muito pior. Conforme as ambições declaradas por eles próprios (nos manifestos citados), eles possuem um objetivo firme: estabelecer núcleos de poder centralizados, que obviamente irão adquirir poder totalitário, e enfim criar variações mais radicais e violentas do que foram regimes como aqueles implantados por Stalin, Hitler e Mao. Na verdade, em um governo global totalitário, podemos antever sem chance de errar que os três citados serão reconhecidos em um futuro pela modéstia de seus genocídios.

A crença humanista é genocida em excelência, pois ela tem uma única finalidade: dar PODER a grupos que PROMETAM cuidar dos demais, por causa de uma CRENÇA de que o homem pode resolver suas contingências, para enfim “criar o mundo justo”. Esta obsessão, implantada nos funcionais (através dos beneficiários), é feita através do aproveitamento estratégico de um subproduto evolutivo que é a crença na autoridade, ou, em termos mais darwinianos, a “busca pelo macho alfa”, presente em todas as espécies.

É este ponto, e somente este, que me faz defender os cristãos dos ataques neo ateístas, pois estes são apenas representantes da vertente mais radical do humanismo.

Se o humanismo é a mais perigosa de todas as religiões, dar pequenos auxílios para as religiões rivais não é uma má idéia.

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14 COMMENTS

  1. E outra coisa, o cristão dá liberdade para o ateu ser ateu, pro agnóstico ser agnóstico, pro homossexual ser homossexual e etc, desde que não venha querer vantagens por ser minoria nem querer obrigar ao cristão manipular sua própria declaração de fé para afaga-los, o humanista não te dá liberdade nenhuma senão aceitar a visão utópica de “Justiça e tolerância” que ele IMPÕE (santa ironia batman)…

  2. Fala.luciano.blz?

    Eu sei que você não tem fé,nem acredita em divindades.Eu também não tenho muita simpatia por religião.
    Mas quero te perguntar uma coisa: porque será que todas as culturas do mundo falavam sobre deuses?
    Como dar conta de que todas as culturas chegaram a um pensamento em comum agindo de formas independentes? Será apenas coincidência?

    Você conhece os livros de Erik Von däniken? ” Eram os deuses astronautas” ” Alienígenas do passado” ?
    Caso não conheça,deixarei alguns videos.Peço que os assista.

    http://www.youtube.com/watch?v=56NA6KCPCN0&feature=plcp

    http://www.youtube.com/watch?v=jK-qUpprzXY

    http://www.youtube.com/watch?v=8a3ZmsKehTM&feature=plcp

    http://www.youtube.com/watch?v=8NihrC4o8xM&feature=plcp

    Essa teoria explica praticamente tudo.Se você pensar pelo lado de que os nossos antepassados não compreendiam certas tecnologias,ai o único modo de explicar o que viam era dizer que eram os “Deuses”.
    Eu não acho que os nossos antepassados inventaram os deuses e inventaram todas aquelas historias e relatos da bíblia,corão,e muitos outros livros( Que imaginação a deles,hein? rsrs).
    Eles escreviam o que estavam vendo,eram fatos reais.Mas apenas mal compreendido por eles,porque não tinham palavras para descrever o que viam,então “endeusavam” os astronautas.Não havia outra forma de explicar.

    Poe exemplo: na bíblia diz que Deus estava numa carruagem de fogo.Mas pera ai,será que Deus precisaria de uma carruagem? É claro que não.Isso foi o esforço de alguém tentando descrever algum tipo de tecnologia que ele não compreendia,e é um belo e poético jeito de tentar descrever o que viam.
    É sempre a mesma historia: Alguém descendo dos céus de forma barulhenta,com fogos,ventos,fumaça…
    Sem contar nas megas construções que faziam no passado,que é difícil até para nós hoje em dia.E os nossos antepassado dão créditos aos deuses por isso.Foram os deuses que os ajudaram a construir.Alguma coisa realmente aconteceu no passado,não é apenas invenção de nossos antepassados.

    Não sei,mas quero uma opinião sua sobre tudo isso.Abraços
    Aguardando a resposta…

    • Já que o Luciano não respondeu até agora, respondo eu 🙂

      Óia, Veltman, eu também penso que a história da humanidade ainda está muito mal-contada, mas desde 1980 e alguma coisa, deixei de acreditar que os deuses “eram extra-terrestres”. Civilizações avançadas num passado muito remoto? Aceito sem muita discussão, mas não vejo necessidade alguma de postular que a origem dessas civilizações foi alguma “influência extra-terrestre”. O excelente livro “O Enigma do Zodíaco”, escrito pelo jornalista francês Jacques Sadoul, deixa bem claro, a respeito da criatura chamada Oannes, que este era um ser *marinho*, e não um E.T., apesar do Carl Sagan e outros insistirem em detectar E.T.s onde eles não existem 😀 Recomendo também que você aprende a desconfiar da postura “deuses são a explicação para o inexplicável” 😉 Nem todos os conteúdos de um “texto sagrado” devem ser levados ao-pé-da-letra — por exemplo, muitas vezes o termo *céu* é um símbolo para a *cabeça*, se e quando o assunto tratado é uma dica para técnicas secretas de desenvolvimento *espiritual* 😉 Ignore este fato, e você pode cair rapidinho nos delírios do Sr. Zecharia Sitchin 😛

      Pra terminar, lembro que Herr Däniken NÃO FOI o pioneiro no assunto “enigmas indecifrados do passado”. Antes de Däniken, já existia Robert Charroux, mas foi o Däniken que conseguiu ficar “mundialmente famoso”. E pra completar, indico também a excelente compilação “Arqueologia Proibida”.

  3. Luciano,

    Um esclarecimento: na última entrevista ao Roda Viva, o Pondé disse que se tornou teísta.
    Eu imaginava que você, no início, era agnóstico e depois se tornou teísta.
    Pelo visto eu estava equivocado. Houve algum momento/causa que o fizeram se tornar ateu? Teve alguma relação com algum debate de que você tenha participado? (lembro nos debates do Orkut que você afirmava ser agnóstico).

    Obrigado,

    Wellington

    • Realmente eu me equivoquei ao chamar o Pondé de ateu. Realmente, hoje é teísta.

      Comigo ocorreu o inverso. Já fui agnóstico no passado, depois virei teísta, e depois voltei ao agnosticismo e agora ao ateísmo. Tecnicamente, hoje sou um ateu agnóstico.

      Minha “conversão” ao agnosticismo/ateísmo ocorreu em um período em que eu estava fora dos debates e estudando (e praticando) dinâmica social, junto com estudos da psicologia evolutiva.

      • Sinceramente, sinto-me um pouco triste e confuso diante dessa sua “conversão”. Não por ter alguma dúvida sobre o meu teísmo, mas, como eu acompanhava diligentemente seus debates, fiquei com a sensação de que todos os seus argumentos agnóstico-teístas terão que ser descartados. Algo extremamente complicado. Seja com for, continuarei o respeitando e lendo alguns posts que me interessarem.
        Grande Abraço,

        Wellington

      • Olha, Wellington, eu entendo o que você quis dizer, mas acho que não há muita diferença de argumentação entre eu “antes do ateísmo” e agora.

        Veja por exemplo um texto meu sobre a postura agnóstica em debates:

        http://lucianoayan.com/2010/02/08/o-que-e-a-postura-agnostica-para-debates/

        Desde aquela época, eu já não tinha “argumentos teístas”, mas sim argumentos contra o neo ateísmo.

        Acredito que a maior mudança é o fato de agora eu englobar o ceticismo contra toda a esquerda, e não só o neo ateísmo.

        Um grande abraço, LH

      • Este meu comentário já está bastante atrasado, porém foi só agora que achei disposição para escrevê-lo, e mesmo assim, ainda tenho dúvidas quanto à sua “utilidade” 🙁 , mas vâmo’ lá.

        Concordo em vários pontos com o Wellington e outros habitués/veteranos deste blog. Aparentemente ao menos, alguns dos artigos da fase antiga (como aquele em que você apontou a, digamos, insustentabilidade epistemológica do materialismo) ficaram meio-que datados, pois destoam bastante da tua postura atual, Luciano. Em minha não-tão modesta opinião, essa teoria que vê a crença em divindades como uma “forma alienada” da submissão à autoridade, é tão infundada quanto as falácias de Herr Feuerbach, por exemplo, ou pior ainda, quanto aquele pensamento tosco do Mario Quintana, que fez a “leitura mental” nos peixinhos de aquário : – /

      • É verdade, JMK, eu tinha me esquecido deste texto sobre o Feuerbach. E, pensando bem, até parte de minha série de refutação ao Dawkins já ficou datada também.

        Mas eu não diria que a crença em Deus é uma “forma alienada” de submissao à autoridade. Eu não entro no mérito da validade ou não da crença em Deus, pois tenho uma veia agnóstica. Mas em relação aos humanistas, eu já entro no mérito da validade da crença no homem, que é infundada, e os argumentos aqui são vários.

        Nesse caso, eu explicaria a motivação biológica para os crentes em Deus acreditarem em Deus, e os crentes no humanismo acreditarem no homem.

        O motivo desse post era o seguinte: se muitos humanistas são anti-religiosos, e a dissidencia ao teísmo tradicional aumenta as chances de alguém virar humanista, qual é o objetivo por trás de tudo isso?

        Meu post foi feito para explicar o fenômeno.

      • LH escreveu:

        «
        Nesse caso, eu explicaria a motivação biológica para os crentes em Deus acreditarem em Deus, e os crentes no humanismo acreditarem no homem.
        »

        Tudo bem, DESDE QUE se ressalte a total falta de indícios *seguros* que apontem para essa suposta “motivação biológica” para se acreditar em Deus.

      • JMK, eu não entrei nesse mérito. Aliás, sou ateu agnóstico, então eu não defino a crença em Deus como falsa.

      • A questão não é acreditar ou não em Deus, o problema foi a intenção [ não muito explícita aliás 😉 ] de apresentar a “motivação biológica”
        ( tanto para a crença em Deus quanto para a idolatria humanista )
        como algo *verossímil*, — entendeste agora?

        P.S.: Pensando bem, acho que a tua redefinição do termo “religião”, embora bem-intencionada e aparentemente necessária, acabou meio-que “errando o alvo”. Seria melhor definir o esquerdismo em geral como uma CONTRA-religião, pelo menos de acordo com o mestre René Guénon 🙂 A expressão “religião política” pode conduzir à *falsa* conclusão de que o fanatismo humanista e a religião “normal” são apenas os dois lados da mesma moeda…

        P.P.S.: Saudações quase-invernais do Agnóstico Dextrógyro ^_~

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