Como o truque da apropriação de um falso rótulo positivo pode ser mais danoso do que parece na questão criacionismo X darwinismo

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Na disciplina da dinâmica social, alguns aspectos são óbvios. Mas algumas variantes do comportamento humano, relacionadas à engenharia social, são tão complexas que principiantes no assunto raramente mapeariam.

Estou falando do truque do falso rótulo positivo, que é implementado a partir da intenção de um agente X que intencionalmente quer que um adversário (o agente Y) aceite um rótulo negativo, mas que ele pensa ser positivo. A partir deste aceite, o agente X somente obtem vantagens, enquanto Y acumula derrotas contínuas.

A complexidade está na diferença em relação a outros estratagemas, como por exemplo:

  • Usurpação de rótulo positivo: Neste caso, alguém atribui a si próprio um rótulo positivo, que lhe garantirá capitalização política somente pelo aceite público deste rótulo. Em uma empresa, seria o rótulo de “realizador”. No mundo político, poderia ser o rótulo “liberal”. Geralmente, aquele que implanta o rótulo “cola-o” em si próprio para obter a vantagem psicológica que esse rótulo pode prover.
  • Atribuição de rótulo negativo: É praticamente a mesma coisa do anterior, com a diferença que o rótulo implantado está em seu adversário. Por exemplo, ele poderá ser chamado de “fundamentalista”.

Os dois truques acima são de extenso conhecimento dos leitores deste blog.

Vamos então ao que seria o falso rótulo positivo.

É algo que é planejado pelo seu oponente como negativo (e que vai lhe trazer prejuízos), mas você DEVERÁ ACHAR que é positivo, e então abraçará o rótulo com orgulho. Quanto mais agarrado ao rótulo você estiver, pior para você.

Já falei um pouco de um exemplo corporativo aqui. Deixe-me ampliá-lo.

Certa vez, um gerente de projetos sênior caiu nesse truque. Ele tinha uma vasta experiência em gestão de produção, gestão de fábrica de software e correlatos, mas assumiu a área de treinamentos. Não demorou para ele assumir o rótulo de “professor”, do qual se orgulhava. Ele se esqueceu, no entanto, de que corporativamente esse rótulo serviria para lhe tirar da competição pela área de gestão, a única que lhe interessava de fato. Um gerente sênior, com medo do crescimento desse gerente (agora da área de treinamentos), fez todo o trabalho para que ele ficasse conhecido como “o professor”. O mais bizarro é que o “professor” realmente se orgulhava de ser chamado dessa forma. Politicamente, para ele na verdade era uma tragédia ser conhecido como “o professor”, mas esse é o rótulo atribuído a ele, pelos oponentes, e para piorar ele começou a “gostar “ disso.

Vamos a arquitetura da situação. Ele deveria rejeitar esse rótulo como se fosse o diabo fugindo da cruz, mas automaticamente ele (por falha de ego, ingenuidade ou qualquer outro motivo) começou a gostar de ser chamado assim. Quanto mais ele “gostava” de ser chamado dessa forma, mais ele fazia o serviço de seus oponentes. Enfim, o rótulo que ele pensava ser positivo na verdade era extremamente negativo aos objetivos dele.

Alguém poderia dizer que ingenuidades assim são raras, mas na verdade no ambiente corporativo esse jogo, aparentemente complexo, ocorre em maior quantidade do que você poderia imaginar. Há uma variação desse jogo chamado “Projetos Especiais”. Pessoas que não são consideradas úteis na empresa mas com uma senioridade alta demais para serem mandadas embora acabam sendo enviadas para uma área de “Projetos Especiais”, onde perdem visibilidade. Muitas, com o tempo, acabam pedindo demissão. Mas outras se ORGULHAM de participar em “Projetos Especiais”, no que acabam ajudando a afundar suas carreiras de vez.

No território da guerra política, não posso deixar de citar a questão entre darwinismo e criacionimo (ou design inteligente).

Muitos cristãos aprenderam a se orgulhar de serem:

  • Criacionistas OU
  • Adeptos do design inteligente OU
  • Negadores da teoria de Darwin, ao menos em alguns aspectos

Ao assumirem qualquer um desses rótulos, eles não percebem que estão fazendo o jogo do adversário, no caso a totalidade dos esquerdistas.

Explica-se: o darwinismo é uma metodologia que elimina qualquer possibilidade do homem ser considerado acima ou “especial” em comparação com qualquer outro animal. Se isso pode renegar o aspecto divino do ser humano, prejudica muito mais o humanismo.

Entretanto, muitos humanistas começam a PROPAGAR o darwinismo, sabendo que isso irritará muitos cristãos, que acabarão em consequência renegando o darwinismo.

Quer dizer, sem perceber, os cristãos estão perdendo o argumento mais poderoso contra o humanismo (a teoria de Darwin elimina qualquer chance da espécie humana ser considerada “especial” em relação a qualquer outra espécie animal). Com isso, humanistas, mesmo suspeitando que sua crença não duraria muito tempo sob questionamento (especialmente pelo darwinismo), NÃO SÃO QUESTIONADOS.

Outro benefício que os humanistas tem com essa aceitação de falso rótulo positivo dos cristãos é o fato de que a teoria darwinista é extremamente bem embasada cientificamente, e portanto qualquer um que a rejeite pode ser chamado de adepto do obscurantismo científico. E, convenhamos, é muito fácil retirar o poder político de qualquer obscurantista. Que o diga a Sarah Palin, que foi humilhada por Matt Damon com facilidade impressionante.

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Sarah Palin, se aceitasse o darwinismo, teria uma extrema facilidade de ridicularizar todo o humanismo de Damon. Mas, ao rejeitar o darwinismo, ela perde o principal argumento que poderia ter contra o humanismo. Inteligentemente, o humanista sabe disso, e, mesmo que o darwinismo destrua o humanismo, ele simulará crença no darwinismo – exatamente por saber que seu oponente não conhece o darwinismo o suficiente para usar contra ele. Talvez por isso também, ele poderá em público declarar ser “darwinista, ao contrário dos obscurantistas”

O aceite do criacionismo por conservadores cristãos é um jogo no qual o esquerdista SEMPRE GANHA.

Sei que para muitos pode parecer até ofensivo abandonar a crença no criacionismo ou mesmo no design inteligente (para os mais moderados), mas mesmo para aqueles que não conseguirem esse desapego emocional, a verdade nua e crua não pode ser escondida: estamos diante de alguém, de forma absurdamente ingênua, vítima do truque da atribuição de um falso rótulo positivo.

E os esquerdistas, é claro, estão morrendo de rir com isso.

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25 COMMENTS

  1. Eu considero o darwinismo – evolucionismo errado, mesmo quando observado cientificamente. Não me considero “especial” por causa disso, mas por vários argumentos que pesquisei por aí, o darwinismo pra mim não faz nenhum sentido.

    Porém, também notei que vc faz grande uso dessa ferramenta pra combater os esquerdistas, o que torna a teoria vantajosa. Como já disse pra uns amigos, ironicamente, a teoria de darwin só é falsa na biologia, pq em outras áreas ela se aplica muito bem.

    Sob esta posição, eu estaria ainda como um falso positivo?

    • Veja Dalton, a teoria evolucionista só se aplica na biologia. Ela explica não só nossos instintos, como os instintos das espécies relacionadas a nossa. Eu diria que não é que eu goste do darwinismo por que ele nos ajuda a combater os esquerdistas. Eu adotei o darwinismo ao ve-lo funcionando na prática, através da dinâmica social. Mas enfim, gostaria de saber de tua parte por que o darwinismo seria falso em tua opinião? Somente aí eu poderia dizer se você estaria como falso positivo ou não. Abs, LH.

      • Tipo, é meio difícil enumerar.
        Minha sugestão é dar uma passada lá no wordpress do Darwinismo (darwinismo.wordpress.com).
        Apesar de nem todos os posts serem do escopo, tem várias e várias problemáticas para o evolucionismo, na maioria fatais para a teoria e não resolvidos, o que me leva a não crer nela.

        E sobre a aplicação da teoria, temos essa da dinâmica social, que não é necessariamente biológica mas também sociológica, temos na computação, com algoritmos evolutivos (e só posso citar até aí, que foi onde eu vi funcionar, XD).

      • Dalton, concordo com a questão da computação.

        Mas em relaçao a questão sociológica, ela é também uma questão biológica.

  2. Concordo totalmente com seu texto, mas depois dessa patada acho que sites como Darwinismo e Conservapedia nem deveriam mais estar no blogroll.
    Além deles contribuírem para que mais pessoas caiam no ridículo de adotar crenças criacionistas, o que você provou que apenas ajuda os humanistas, eles ainda fazem retórica do ódio.
    Explico: eles adoram associar o evolucionismo ao racismo e à eugenia, com a boa e velha Reductio ad Hitlerum.
    http://darwinismo.wordpress.com/2009/04/18/racismo-evolutivo/
    http://www.conservapedia.com/Social_effects_of_the_theory_of_evolution
    Não precisa ter um ensino superior à 8ª série para perceber que o que Hitler fez não foi seleção natural, e sim seleção artificial. O Holocausto e a Eugenia foram claramente invenções humanas. Eles não sentem nenhuma necessidade em “denunciar” os responsáveis pela idéia da seleção artificial: fazendeiros, psicultores, pecuaristas e gente que já praticava isso 2.000 anos antes de Darwin. Eles querem odiar os evolucionistas (especialmente os ateus), e querem que todos odeiem os evolucionistas assim como eles odeiam.
    Isso os coloca no mesmo nível dos neo-ateus que dizem que “Hitler era cristão”. Além de terem essa perigosa e irresponsável vontade de cegarem a si próprios e aos leitores diante das evidências, adoram praticar discursos de ódio e mentiras “em favor da causa”.
    E sites assim não deveriam ser ajudados aqui.
    Abraços e parabéns pelo texto.

    • Eu concordo contigo. Retirarei tais sites. Alguns outros autores, como Ann Coulter, também renegam o darwinismo. Mas a manterei pelo fato de que a maioria das críticas dela aos esquerdistas são muito boas. Abs, LH.

      • Caros Leo e Ayan, vou chamar o Olavo de Carvalho para Advogado do Diabo do blog Darwinismo e de seu polêmico artigo http://darwinismo.wordpress.com/2009/04/18/racismo-evolutivo/ , que vocês citaram.

        Leiam o artigo do Olavo, inclusive com excertos da obra de Darwin – tenho aqui casa “A Origem (sic) das Espécies” e “A Origem (sic) do Homem (sic)” e já conferi:

        Diário do Comércio, 20 de fevereiro de 2009

        Olavo de Carvalho – Por que não sou um fã de Charles Darwin

        As festividades bilionárias em comemoração aos duzentos anos de nascimento de Charles Darwin tornam momentaneamente invisíveis alguns fatos essenciais da vida e da obra desse homem de ciência.

        Desde logo, Darwin não inventou a teoria da evolução: encontrou-a pronta, sob a forma de doutrina esotérica, na obra do seu próprio avô, Erasmus Darwin, e como hipótese científica em menções inumeráveis espalhadas nos livros de Aristóteles, Sto. Agostinho, Sto. Tomás de Aquino e Goethe, entre outros.

        Tudo o que ele fez foi arriscar uma nova explicação para essa teoria – e a explicação estava errada. Ninguém mais, entre os autoproclamados discípulos de Darwin, acredita em “seleção natural”. A teoria da moda, o chamado “neodarwinismo”, proclama que, em vez de uma seleção misteriosamente orientada ao melhoramento das espécies, tudo o que houve foram mudanças aleatórias. Que eu saiba, o mero acaso é precisamente o contrário de uma regularidade fundada em lei natural, racionalmente expressável. O darwinismo é uma idéia escorregadia e proteiforme, com a qual não se pode discutir seriamente: tão logo espremido contra a parede por uma nova objeção, ele não se defende – muda de identidade e sai cantando vitória. Muitas teorias idolatradas pelos modernos fazem isso, mas o darwinismo é a única que teve a cara de pau de transformar-se na sua contrária e continuar proclamando que ainda é a mesma.

        Todos os celebrantes do ritual darwiniano, neodarwinistas inclusos, rejeitam como pseudocientífica a teoria do “design inteligente”. Mas quem inventou essa teoria foi o próprio Charles Darwin. Isso fica muito claro nos parágrafos finais de A Origem das Espécies, que na minha remota adolescência li de cabo a rabo com um enorme encantamento e que fez de mim um darwinista, fanático ao ponto de colocar o retrato do autor na parede do meu quarto, rodeado de dinossauros (só agora compreendo que ele é um deles). Agora, graças à amabilidade de um leitor, tomei conhecimento dos estudos desenvolvidos por John Angus Campbell sobre a “retórica das ciências”. Ele estuda os livros científicos sob o ponto de vista da sua estratégia de persuasão. Num vídeo fascinante que vocês podem ver em http://www.youtube.com/watch?v=_esXHcinOdA, ele demonstra que o “design inteligente” não é apenas um complemento final da teoria darwinista, mas a sua premissa fundamental, espalhada discretamente por todo edifício argumentativo de A Origem das Espécies. O “design inteligente” é, portanto, a única parcela da teoria darwiniana que ainda tem defensores: e estes são os piores inimigos do darwinismo.

        É certamente um paradoxo que o inventor de uma explicação falsa para uma teoria preexistente seja celebrado como criador dessa teoria, porém um paradoxo ainda maior é que a premissa fundante da argumentação darwiniana seja repelida como a negação mesma do darwinismo.

        Puramente farsesco, no entanto, é o esforço geral para camuflar a ideologia genocida que está embutida na própria lógica interna da teoria da evolução. Quando os apologistas do cientista britânico admitem a contragosto que a evolução “foi usada” para legitimar o racismo e os assassinatos em massa, eles o fazem com monstruosa hipocrisia. O darwinismo é genocida em si mesmo, desde a sua própria raiz. Ele não teve de ser deformado por discípulos infiéis para tornar-se algo que não era. Leiam estes parágrafos de Charles Darwin e digam com honestidade se o racismo e a apologia do genocídio tiveram de ser enxertados a posteriori numa teoria inocente:

        “Em algum período futuro, não muito distante se medido em séculos, as raças civilizadas do homem vão certamente exterminar e substituir as raças selvagens em todo o mundo. Ao mesmo tempo, os macacos antropomorfos… serão sem dúvida exterminados. A distância entre o homem e seus parceiros inferiores será maior, pois mediará entre o homem num estado ainda mais civilizado, esperamos, do que o caucasiano, e algum macaco tão baixo quanto o babuíno, em vez de, como agora, entre o negro ou o australiano e o gorila.”

        Imaginem, durante as eleições americanas, a campanha de John McCain proclamar que Barack Hussein Obama estava mais próximo do gorila do que o candidato republicano!

        Tem mais: “Olhando o mundo numa data não muito distante, que incontável número de raças inferiores terá sido eliminado pelas raças civilizadas mais altas!”

        Para completar, um apelo explícito à liquidação dos indesejáveis:

        “Entre os selvagens, os fracos de corpo ou mente são logo eliminados; e os sobreviventes geralmente exibem um vigoroso estado de saúde. Nós, civilizados, por nosso lado, fazemos o melhor que podemos para deter o processo de eliminação: construímos asilos para os imbecis, os aleijados e os doentes; instituímos leis para proteger os pobres; e nossos médicos empenham o máximo da sua habilidade para salvar a vida de cada um até o último momento… Assim os membros fracos da sociedade civilizada propagam a sua espécie. Ninguém que tenha observado a criação de animais domésticos porá em dúvida que isso deve ser altamente prejudicial à raça humana. É surpreendente ver o quão rapidamente a falta de cuidados, ou os cuidados erroneamente conduzidos, levam à degenerescência de uma raça doméstica; mas, exceto no caso do próprio ser humano, ninguém jamais foi ignorante ao ponto de permitir que seus piores animais se reproduzissem.”

        Notem bem: não sou contra a hipótese evolucionista. Do que tenho observado até hoje, devo concluir que sou o único ser humano, no meu círculo de relações próximas e distantes, que não tem a menor idéia de se a evolução aconteceu ou não aconteceu. Todo mundo tem alguma crença a respeito, e parece disposto a matar e morrer por ela. Eu não tenho nenhuma.

        No entanto, minha abstinência de opiniões a respeito de uma questão que considero insolúvel não me proíbe de notar a absurdidade das opiniões de quem tenha alguma. Há muito tempo já compreendi que os cientistas são ainda menos dignos de confiança do que os políticos, e os paradoxos da fama de Charles Darwin não fazem senão confirmá-lo. Meus instintos malignos impelem-me a pegar os darwinistas pela goela e perguntar-lhes:

        – Por que tanta onda em torno de Charles Darwin? Ele inventou o “design inteligente”, que vocês odeiam, e a seleção natural, que vocês dizem que é falsa. Ele pregou abertamente o racismo e o genocídio, que vocês dizem abominar. Para celebrá-lo, vocês têm de criar do nada um personagem fictício que é o contrário do que ele foi historicamente. Não vêem que tudo isso é uma palhaçada?

      • Vamos ver os pontos que o Olavo levantou:

        -Darwin não inventou a Teoria da Evolução.
        -Darwinismo não é a mesma coisa que a Sintese Evolutiva Moderna (Olavo erra na diferença, porém).
        -Diz que o DI é complemento do Darwinismo, mas não consegui ver o vídeo.
        -Diz que o Darwinismo é genocida em si mesmo. Mas eu mostrei que genocídio é seleção artificial, ao contrário de seleção natural.
        -Darwin era racista. De fato. Isso só torna ele uma pessoa desprezível, mas não refuta a
        Síntese Evolutiva moderna, e nem a torna racista ou genocida (como certos sites querem fazê-la
        parecer).
        -Darwin não merece festa por ser racista. Isso é outra discussão.

        Agora como que isso refuta meu post? Eu disse que racismo, eugenia e holocausto são casos de seleção artificial, e não de seleção natural. Ao invés desses sites mostrarem o quão errada é a confusão entre os dois conceitos, eles INSISTEM na confusão. Tentar ligar as duas e culpar a teoria pelos genocídios é um perfeito exemplo de Reductio ad Hitlerum. E o uso dessa falácia é exemplo de discurso de ódio. E falando nisso, o Mats continua…
        “No entanto, como os ateus acreditam que o mundo criou-se a si mesmo, então é perfeitamente normal eles não verem nada de mal no que Hitler fêz.”
        Além do espantalho ridículo que ele usa para definir ateísmo, no melhor estilo Kirk Cameron & Ray Comfort, ele usa alguém como Dawkins como parâmetro de moralidade para julgar os ateus. E mesmo se Dawkins fosse, onde ele disse que o que o Hitler fez foi moral?
        Então a minha acusação de discurso de ódio continua.

  3. Oi, Ayan.

    Precisamos ampliar essa abordagem para além do mero aspecto da dinâmica social pois há muito mais em jogo.

    Um exemplo. Em meados do século I, os detratores buscaram pespegar nos seguidores do Caminho o rótulo altamente pejorativo de “cristãos”. A mais antiga pichação conhecida sobre essa estratégia mostrava um sujeito ajoelhado rezando aos pés de um asno antropomórfico crucificado; embaixo do desenho satírico, os dizeres: “Alexandre adorando seu deus”. Era como a doxa daquele tempo entendia a doutrina da ressurreição (e pensando bem, hoje não é lá muito diferente). Os seguidores da seita do nazareno judeu assumiram a pecha com prazer e o resto é História.

    Anos atrás, brincando com um amigo cristão que então defendia a harmonização entre a hermenêutica bíblica e a síntese evolutiva moderna, perguntei-lhe se ele se sentia espiritualmente realizado por subordinar-se ao “Concílio de Vichy”. Ele estranhou: “Você acha que sou um colaboracionista do neo-ateísmo?” Tive que explicar-lhe que o primeiro a perceber essa contradição foi Thomas Henry Huxley, o carcará de Darwin, e para demonstrar ao meu amigo como se “pega, mata e come”, dei uma de Churchill: “Entre os anéis e os dedos, vocês, evolucionistas teístas, entregaram os dedos, e, de cara, já perderam os anéis… ad majorem Dei gloriam, eu suponho”.

    A literalidade dos 11 primeiros capítulos do Gênesis alicerça todos os fundamentos autênticos da religião cristã. Os relatos da Criação, do dilúvio global e os personagens ali envolvidos fazem parte da argumentação formal de Jesus e de Seus apóstolos Paulo, Pedro, Judas e João. Não há meio-termo: o bloco só pode ser aceito ou rejeitado como um todo – é o tal do princípio Sola Scriptura. Por Sua onisciência temporal, Deus triúno decide desde sempre a sacrificar-Se para redimir a humanidade “antes” mesmo de criar a realidade: tempo, espaço, matéria e energia. O conceito da redenção é indissociável da primeira escolha moral errada, chamada de pecado original, que resultou na entrada da morte neste mundo – das bactérias aos dinossauros. Pode soar ainda mais bizarro que a caricatura do jumento crucificado, mas é a nossa cosmovisão. Para defendê-la, muitos enfrentaram o patíbulo e as estações intermediárias até ele.

    Seria então obscurantista confiar na teoria/doutrina da criação recente? Apenas se a síntese evolutiva moderna se mostrar fidedigna. Daí, por uma questão de prudência e honestidade, tornei-me cético em relação a ela. Venho estudando-a criticamente, prós e contras, há mais de uma década através de literatura afim e entrevistas com cientistas e PhDs. Poderia apontar várias petições de princípio das quais a síntese evolutiva moderna depende. Restrinjo-me apenas aos geocronômetros conhecidos. Creia-me, LH: não houve tempo hábil para a macroevolução – já a microevolução (ou diversificação de baixo nível, como a chamamos) é consenso, tanto que a aceito de bom grado e até a ensino porque sustentada por evidências.

    Assim, mesmo que se considere apenas pelo trunfo estratégico a possibilidade do criacionismo da Terra jovem ser veraz apesar de aparentemente inverossímil, o resultado seria devastador: o humanismo simplesmente deixaria de existir. Poderíamos até regredir para alguma tirania baseado no dogmatismo religioso, mas aí o problema seria outro.

    Meu conflito atual com os humanistas, eu o entendo como uma nota de rodapé de um drama que extrapola as balizas espaciais e temporais deste mundo. O texto sagrado impõe forçosamente esse horizonte escatológico. Ceder agora ao postulado metafísico da macroevolução seria não uma vitória mas uma derrota de Pirro. Algo como amputar os membros para perder peso.

    Um abraço.

    P.S. Apreciei muito a tua honestidade ao afirmar que se desagrada do Cristianismo também por suas interdições quanto às práticas sexuais. Sem intenção de ironia: percebi que tua opinião coincidiu precisamente com a de Sir Julian Huxley, biólogo emérito, neto de Thomas Henry Huxley e sobrinho do famoso escritor Aldous Huxley. Ao ser questionado durante uma entrevista sobre as prováveis conseqüências de o Criacionismo ser um fato e não um mito, ele coçou a cabeça, anuviou o semblante e comentou pensativo: ‘Eu suponho que todos nós aceitamos a Origem (das Espécies de Darwin) porque a idéia de Deus interfere com nossa moral sexual’. Óbvio que isso não valida ou invalida a proposição de Darwin mas pode explicar o efeito backfire despertado sempre que a teoria empaca ante alguma dificuldade intransponível.

  4. Ops caro Luciano, enviei meu comentário anterior pro post errado.
    Vou escrever de novo pro outro post, se você quiser pode deletar estes aqui.
    Abraço.

  5. Pois bem, aqui vão os meus dois mil-réis 🙂 para o assunto:

    Penso que, para fazer oposição certeira ao cavalo-de-batalha darwinista dos neo-ateus, seria necessário abandonar o teísmo puramente religioso (isto é, exotérico) e aceitar sem reservas o teísmo Tradicional, que tem natureza “supra-religiosa” e não interpreta os “textos sagrados” de maneira literal. Porém, e infelizmente, a grande maioria dos religiosos (especialmente os cristãos) não está preparada para tamanho “salto qualitativo” 🙁 Segundo a Tradição, já existiram diversas “humanidades” antes do chamado Homo sapiens, e muito antes do Sr. Charles Darwin, os poucos “iniciados” já diziam que os macacos de hoje nada mais são do que “o que sobrou” dos homens de um passado muito remoto 😀 Ou, de acordo com certas culturas “primitivas”, os deuses criavam formas de vida por pura diversão, e quando enjoavam dos brinquedos, destruíam tudo e iniciavam uma coleção nova 🙂 o que sem dúvida é uma boa explicação para a inexistência da macroevolução 😉 Contudo, aceitar estes pontos é relativamente fácil para o religioso comum, enquanto que a visão dos anjos e deuses como seres “andróginos”, ou o conceito de que os criadores da humanidade não são o Criador do Espaço e do Tempo, certamente são um osso mais duro de engolir : – /

  6. Marco Antônio, dei uma averiguada nas citações de Darwin do artigo do Olavo e pelo menos a última – justamente a do “apelo explícito à liquidação dos indesejáveis” – está [incompleta]

    Peguemos a citação traduzida pelo Olavo:

    “Entre os selvagens, os fracos de corpo ou mente são logo eliminados; e os sobreviventes geralmente exibem um vigoroso estado de saúde. Nós, civilizados, por nosso lado, fazemos o melhor que podemos para deter o processo de eliminação: construímos asilos para os imbecis, os aleijados e os doentes; instituímos leis para proteger os pobres; e nossos médicos empenham o máximo da sua habilidade para salvar a vida de cada um até o último momento… Assim os membros fracos da sociedade civilizada propagam a sua espécie. Ninguém que tenha observado a criação de animais domésticos porá em dúvida que isso deve ser altamente prejudicial à raça humana. É surpreendente ver o quão rapidamente a falta de cuidados, ou os cuidados erroneamente conduzidos, levam à degenerescência de uma raça doméstica; mas, exceto no caso do próprio ser humano, ninguém jamais foi ignorante ao ponto de permitir que seus piores animais se reproduzissem.”

    e, agora, o original em inglês:

    “With savages, the weak in body or mind are soon eliminated; and those that survive commonly exhibit a vigorous state of health. We civilised men, on the other hand, do our utmost to check the process of elimination; we build asylums for the imbecile, the maimed, and the sick; we institute poor-laws; and our medical men exert their utmost skill to save the life of every one to the last moment. There is reason to believe that vaccination has preserved thousands, who from a weak constitution would formerly have succumbed to small-pox. Thus the weak members of civilised societies propagate their kind. No one who has attended to the breeding of domestic animals will doubt that this must be highly injurious to the race of man. It is surprising how soon a want of care, or care wrongly directed, leads to the degeneration of a domestic race; but excepting in the case of man himself, hardly any one is so ignorant as to allow his worst animals to breed.”

    O treco, porém, CONTINUA com as seguintes palavras:

    “[The aid which we feel impelled to give to the helpless is mainly an incidental result of the instinct of sympathy, which was originally acquired as part of the social instincts, but subsequently rendered, in the manner previously indicated, more tender and more widely diffused. Nor could we check our sympathy, even at the urging of hard reason, without deterioration in the noblest part of our nature]. The surgeon may harden himself whilst performing an operation, for he knows that he is acting for the good of his patient; [but if we were intentionally to neglect the weak and helpless, it could only be for a contingent benefit, with an overwhelming present evil]. [We must therefore bear the undoubtedly bad effects of the weak surviving and propagating their kind]; but there appears to be at least one check in steady action, namely that the weaker and inferior members of society do not marry so freely as the sound; and this check might be indefinitely increased by the weak in body or mind refraining from marriage, though this is more to be hoped for than expected”. (in “The Descent of Man”, p.161. http://en.wikiquote.org/wiki/Charles_Darwin#The_Descent_of_Man_.281871.29)

    Nem o trecho citado por Olavo nem todo o trecho original – e nem nenhum dos outros dois trechos citados no artigo do Olavo – fazem um “apelo explícito à liquidação dos indesejáveis”. No máximo, são supostas constatações “proto-politicamente incorretas” e até uma apologia à tolerância para com os “fracos” (em especial nos trechos completos em inglês), tudo isso escrito de uma forma enfadonhamente técnica porém EXTREMAMENTE confusa (Darwin NÃO ERA um bom escritor, diga-se de passagem). Logo, ou Olavo cometeu um engano absurdo ou, receio, teve um arroubo incomum de desonestidade.

    E quando a Darwin ser racista, por ser naturalista Darwin SE PERMITIU ter um certo viés denigridor de outros seres humanos diferentes do modelo anglo-nórdico-europeu, mas é bom que se lembre que Darwin foi um anti-escravagista e abolicionista ferrenho tanto em publicações próprias (“The Voyage of the Beagle”) como em estudos biográficos sobre ele (“A Guerra de Darwin”, 2009).

    Portanto, eu também estou de acordo com a denúncia do Leo da retórica de ódio (e fraudulência, devo acrescentar) de sites como o Conservapedia e nos posts simplórios do Sr. Mats.

    No mais, nada a acrescentar.

      • Estou numa fase bem criativa rs. E escrevendo posts com uma antecedência. Tenho os posts escritos já para os dias 21, 22, 23 e 24. No dia 25, já agendei um post em que vou dar um puxão de orelha nos conservadores que tentam culpar o darwinismo pelo nazismo e outras atrocidades. Abraçao, LH.

    • Obrigado pela complementação, Acauã. Eu já havia discutido esse assunto com um amigo meu, que tem mestrado em biologia e dá aulas, também, sobre evolucionismo. À época, ele buscou atribuir as ideias e as posições de Darwin à influência de Spencer, que seria mais realista e pragmático.

      Quanto ao vídeo que o Léo não consegui encontrar, lamento não tê-lo guardado. Se eu tivesse lido o post em que o Ayan adverte acerca da patrulha neo-ateísta no youtube teria sido mais precavido. Alternativamente, recomendo “A Alma da Ciência”, de Pearcey e Thaxton, que trata da revolução científica moderna – um livro muito proveitoso.

      Mas não se preocupem com essa questão do tal “ódio evolucionista”, a que o Leo se referiu. Estou mais para “evocético”, e inclusive busco puxar a orelha dos meus amigos de fé para que busquem a verdade ao invés de fazer do combate à teoria de Darwin um pilar para validar a doutrina.

      Aliás, se vocês puderem me indicar evocéticos não religiosos eu agradeceria.

      Um abraço a todos.

  7. Luciano, eu só queria comentar algumas coisas nesse post….

    A questão de aceitar ou não o Darwinismo não é uma mera questão de debate. Se fosse, eu concordaria plenamente contigo e diria que precisamos todos adotar o Darwinismo. É claro que, para um agnóstico como você, o Darwinismo puro e simples é muito bem vindo nesse debate.

    Contudo, eu(por exemplo) não posso aceitar o Darwinismo por me contradizer, já que eu REALMENTE não concordo com ele quando apresentado de forma pura e simples. Dadas as evidências da Evolução, acabo por adotar o Design Inteligente – que soma as evidências da Evolução ter ocorrido com a improbabilidade de ter ocorrido aleatoriamente, gerando a necessidade de um ser que coordenou tal Evolução -, mas isso nunca me prejudicou em um debate.

    Porque? Posso explicar facilmente: Se o esquerdista for adotar, conforme seu exemplo, ele mesmo o darwinismo – como a maioria esmagadora dos casos que já vi -, então EU não preciso adotá-lo, o que não significa que eu não posso usar o Darwinismo ao meu favor.

    Vou desenvolver melhor: Eu, por mais que adote o Design Inteligente e rejeite o Darwinismo puro e simples, não sou prejudicado na medida em que meu “oponente”(posso chamá-lo assim?) está adotando a teoria, porque aí eu posso mostrar as falhas dentro do próprio pensamento dele. Em suma: não sou só eu que discordo da crença no homem que ele apresenta, mas a própria crença DELE refuta a crença humanista.

    Ou seja, pela própria contradição do humanista ao adotar o darwinismo, simplesmente NÃO IMPORTA a minha crença, já que ele contradiz a si mesmo e, portanto, dá um tiro no próprio pé que eu só terei que mostrar ao leitor, sem precisar nem mesmo refutar nenhuma das duas, mas forçá-lo a escolher uma delas e, assim, escolher qual refutar depois. Só de eu já forçá-lo a mudar uma de suas posturas, creio que já terei ganhado alguns pontos junto aos espectadores. Caso ele se recuse a trocar, a situação fica ainda mais feia pra ele, que adota uma postura evidentemente auto-contraditória.

    Entendeu ou eu me embananei pra explicar? O que achou?
    Abraço!

    • Bom post. Você pode mostrar a contradição interna entre as crenças de um esquerdista sem adotar todas as crenças dele.

      (PS.: Não sou adepto do DI e sou adepto do neodarwinismo).

  8. A vida na terra é muito curta para perder tempo defendendo uma fábula sabidamente uma farsa constituída de pura canalhice, com a justificativa de enfrentar seu oponente que defende outra fábula também farsa, canalhice construída para alienação das massas.
    Se o seu suposto oponente consegue modificar seu modo de encontrar e proclamar a verdade, ou abandona-la, logo ele já venceu a guerra.
    E tudo que mais importa nesta vida efêmera é aproveitar o curto espaço de tempo para encontrar a verdade.

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