A verdade nua e crua – I:3 – O risco da sabedoria

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No filme “Coração Satânico” (dirigido em 1987 por Alan Parker), o personagem Lúcifer, interpretado por Robert de Niro, diz ao infeliz Harry Angel (personificado por Mickey Rourke): “Quão terrível é a sabedoria quando ela não traz lucros para o sábio!”.

Essa frase resume bem um dos principais motivos pelos quais eu anunciei, na parte 2 desta série, que haveria um fator de “dor” no estudo da dinâmica social.

Vou além e digo que existe mais de um tipo de dor. Existe a dor curável e a incurável. Assim como para as doenças tradicionais, o mesmo vale para as dor psicológica relacionada às descobertas oriundas da dinâmica social.

Mas o que pode haver de doloroso em saber a verdade por trás dos relacionamentos humanos? Ou mais: saber a verdade a respeito do que o ser humano realmente é?

Imagine a situação onde um gestor visualize a si próprio como um excelente gestor de pessoas. Ele pode passar um bom tempo em sua função, orgulhoso de seus feitos, até o dia em que é encostado, descobrindo, através de seus contatos no RH, que o motivo de seu afastamento das principais atividades organizacionais é pelo fato dele ser um “péssimo gestor de pessoas”. Ele poderia até questionar essa informação, mas os números, incluindo um alto turn over e uma péssima avaliação 360 graus, confirmam a suspeita de que ele é de fato um péssimo gestor de pessoas.

Ele poderia tomar essa informação para se reciclar e se transformar em um excelente gestor de pessoas. Nesse caso, a verdade cruel lhe causa uma dor psicológica, mas ela tende a ser curada com uma reformulação na carreira do profissional. Mas e se nada mudar, a dor permanecerá.

Claro que nem sempre a “verdade” significa uma má notícia. Lembro-me certa vez que fiz uma apresentação e senti, ao final, que tinha tido um péssimo desempenho. Qual não foi minha surpresa ao saber que no dia seguinte eu fui elogiadíssimo. Nesse caso a “verdade” foi bem agradável.

Mas na maioria das vezes, o que o ocorre é o oposto, até pela tendência de auto-engano do ser humano. Não é raro alguém se achar melhor do que realmente é.

Em geral, as análises da dinâmica social costumam tirar o véu de ilusões de várias situações de nosso cotidiano, especialmente aquelas relacionadas às interações humanas. E isso tende a ser pouco agradável na maioria das vezes.

Recentemente, um post publicado no blog Marxismo Cultural trouxe um texto que é um estudo de dinâmica social em essência, talvez até sem seus autores terem percebido isso. O post é entitulado “Mulheres em posição de autoridade discriminam mulheres bonitas”.

Segundo o post, um estudo da revista The Economist mostra que as mulheres em alta posição hierárquica tendem a prejudicar as carreiras de mulheres bonitas que estejam em posição de inferioridade.  O estudo foi feito através de um seguinte teste: dois currículos com informações semelhantes foram enviados para mais de 2500 ofertas de emprego. O detalhe: um dos currículos tinha a foto de uma mulher bonita e o outro seguiu sem foto.

O resultado mostrou que as mulheres bonitas tem uma desvantagem competitiva no mercado de trabalho, recebendo menos entrevistas de empregos que as restantes (sem foto). Os pesquisadores também levantaram o fato de que 93% dos cargos de recursos humanos são ocupados por mulheres. Ou seja, aí estariam as mulheres que poderiam discriminar as outras.

Por que isso ocorre? A explicação é mais simples do que parece.

O fato é que o homem é programado biologicamente para obter status, e então conseguir as melhores mulheres. Logo, os homens competem entre si por status. Já as mulheres são programadas biologicamente para obter os homens de melhor status, a partir de sua estética . Portanto, elas competem entre si por beleza.

Um simples fato, avaliado sob a ótica da dinâmica social, é suficiente para demolir a maioria das ilusões feministas. Outras ilusões são demolidas junto, como até de mulheres bonitas não feministas. É, belas garotas, se vocês acham que o mundo corporativo é justo, sinto lhes decepcionar. Aliás, até homens que se reportem a uma mulher devem tomar cuidado ao contratarem mulheres bonitas. Se uma funcionária tua for mais bonita que sua patroa, você pode estar em maus lençóis.

O mais problemático é que, em muitos casos, saber verdades como essa simplesmente não é suficiente para que você possa fazer nada para reverter a situação. Você deve aceitar os fatos como eles são, e resignar-se. E isso obviamente é o que o personagem de De Niro quis dizer com “uma sabedoria que não traz lucros para o sábio”.

Entretanto, em outros momentos, saber a verdade sobre o ser humano pode trazer benefícios para quem obtem tal tipo de conhecimento.

Um exemplo é quando existe uma melhoria de desempenho corporativo quando um líder conhece a teoria do macho alfa, e estuda como os seres humanos escolhem seus líderes através da demonstração de posse de um alto valor de sobrevivência.

Obter esse conhecimento talvez seja doloroso no momento em que alguém descobre por que vários fracassos de sua carreira ocorreram provavelmente não por questões de desempenho técnico, mas por jogo político. Entretanto, essa dor tende a passar caso a pessoa faça algo para reverter sua situação. Mas caso a pessoa não tenha força e energia para reverter a situação, a tendência é que seu sofrimento psicológico aumente, pois agora ela deixa de achar que algumas das intempéries de sua vida são “questões do destino”, mas sim surgidas a partir de sua falta de ação em relação a alguns pontos. A situação é ainda pior quando não há chance alguma de reverter a situação.

Vamos a um exemplo dos judeus na prenúncio do Holocausto nazista. A verdade sobre os fatos é que já existia uma campanha anti-judaica muito em voga que, orquestrada da maneira que as coisas iam, com certeza facilitariam o massacre judeu no futuro, o que naturalmente acabou ocorrendo. Estudar a dinâmica social da campanha anti-judaica poderia ter ocorrido em diferentes momentos por diferentes papeis. Por exemplo, um jornalista influente nos primeiros dias do anti-semitismo organizado poderia ajudar a reverter a campanha. Já no prenúncio do Holocausto, qualquer judeu que soubesse essa verdade só teria a lamentar.

O que quero dizer aqui é que a verdade nem sempre nos liberta, e em alguns casos (especialmente quando falamos de eventos que nos afetam negativamente) pode tornar a situação ainda mais amarga do que seria se continuássemos envolvidos de ilusões.

Obviamente, não estou fazendo um argumento a favor da manutenção da ilusão, muito pelo contrário, senão eu não estaria escrevendo esta série. Estou apenas avisando que a análise da dinâmica social, buscando a verdade que reside atrás das relações humanas, pode ser dolorida às vezes. E em alguns casos, não há nada o que fazer a respeito.

Outro impacto que pode ocorrer é o surgimento de um rancor que pode ser até auto-destrutivo. Me lembro de uma vez em que descobri estar sendo vítima de uma armação política corporativa. Minha primeira intenção era jogar merda no ventilador. Obviamente, seria a pior das soluções. Por sorte, fui aconselhado a manter uma postura low profile e contra-atacar na hora certa. O que acabou felizmente ocorrendo, e os resultados foram muito bons. Saber a verdade pode muitas vezes não ser apenas doloroso em termos psicológicos, como também nos levar a arroubos de raiva.

Enfim, a sabedoria (e neste caso falo em saber a verdade das relações humanas) pode muitas vezes não trazer lucros para o sábio.

Esse é o risco inerente à todo estudo da dinâmica social.No caso de Pick Up Artists, há vários relatos de pessoas que melhoraram seu desempenho no relacionamento com as mulheres após o estudo da dinâmica social da atração sexual humana. Decerto, mas também vários alegam terem ficado mais amargos em suas relações.

Esse tipo de conhecimento, em qualquer nível, tem seu preço, e é um preço que sempre estive disposto a pagar.

Poderia até arriscar a usar uma definição adicional para a dinâmica social, como o estudo da verdade por trás das relações humanas. Um estudo que tem como principal risco trazer à tona verdades muitas vezes inconvenientes.

Que doa a quem doer.

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8 COMMENTS

  1. A verdade por trás das interações humanas.Um estudo que tem como principal risco trazer à tona verdades muitas vezes inconvenientes.
    Texto Perfeito.

    No meu caso este conhecimento está sendo benéfico.Consigo ver as interações com outros olhos,sobre um prisma maior.Com isso posso tomar decisões e agir da melhor forma possível,sem contar que ainda posso ajudar outras pessoas nas interações.

    Obrigado por “dividir” este conhecimento conosco.Se não fosse por este blog,acho que jamais teria conhecido a Dinâmica Social.Abraços!

  2. Caro Luciano Ayan, gosto do seu blog, dos assuntos tratados, o problema fica, em muitos temas, na generalização. Muitos comportamentos, atitudes sociais, que você descreve me parecemse resumir a uma generalização simplista das relações humanas, como se todas as pessoas fossem iguais, pensassem iguais, isso não é verdade, pelo menos, não na intensidade que fica parecendo.
    Pelo menos é como eu vejo.

    Esse é o risco de se tomar a realidade e se criar “fórmulas da realidade”. Fica parecendo que se pode reduzir as relações sociais a termos análogos a fórmulas da matemática, fórmulas da física, química, etc…
    Esse é o maior defeito que vejo em blogs como o seu, que abordam questões de comportamento.
    Um grande abraço!

    • Roberto, eu concordo com sua objeção. Na verdade, busca-se o PADRÃO de comportamento, mas não pontos fora da curva. Por exemplo, as mulheres “são programadas para buscar o macho alfa”. Isso é verdade, mas é possível que algumas não façam isso. As lésbicas não fazem, e até mulheres que tenham menos atributos femininos (sem serem lésbicas) também não fazem. Da mesma maneira, temos o fato de que “gerentes são ambiciosos” e isso é verdade. Mas é possível encontrar algum gerente não ambicioso? Claro que sim, e eu já encontrei.

      Mas entendo que esse tipo de análise deva ser focada no padrão central, e não nos pontos fora da curva.

      Aliás, eu ADORO objeções. O tratamento delas ajuda a tornar as abordagens mais completas ainda. Nos próximos textos da série eu inclusive tratarei algumas objeções.

      Obrigado pelas críticas.

      Abs, LH.

    • Na Internet e em PDF até existem, mas você precisa saber vasculhar os sites de file-sharing e de torrents 😉 E em casos extremos, é necessário conhecer os pontos-de-acesso à “Deep Web” e às “darknets” 😉

      A propósito, ainda não entendo a fixação do Luciano com metodologias no mínimo duvidosas, tipo a Análise Transacional e a PNL — talvez o Luciano precise de mais pessoas para convencê-lo de que o ateísmo e o agnosticismo não dependem de uma cosmovisão estritamente / basicamente materialista 😉 Por exemplo, re-leiam a historieta “Mário e o mágico” de Thomas Mann. Exceto pelo final modificado, tudo que foi narrado ali aconteceu de fato. Não existe PNL que explique por que o hipnotizador ingere uma bebida alcoólica, e os outros é que ficam bêbados, enquanto que o hipnotizador permanece 100% sóbrio 😉 O próprio nome, “programação NEURO-lingüística”, sempre foi e ainda é pra lá de suspeito, e funciona mais como marketing para os que facilmente se impressionam com tecnicismos altissonantes, em minha modesta opinião.

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