Duas leituras de John Gray

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Na primeira vez em que li John Gray, fiquei um tanto indignado, embora tenha recebido alguns insights poderosos. Foi em 2010, ao adquirir “Cachorros de Palha”, quando comecei a descobrir a obra deste filósofo inglês.

Minha indignação surgiu pelo fato de que na época eu era teísta cristão, e me senti incomodado com a constatação feita por Gray de que o cristianismo é responsável pelo surgimento das religiões políticas. Segundo Gray, o ser humano não possuía crença na “salvação” e não se achava superior a outros animais, mas o cristianismo trouxe esse alento ao encontrar um fim para a história, em um apocalipse a ocorrer no futuro, com a salvação em consequência. Esta salvação provocaria a catarse e seria o protótipo de todas as religiões políticas a partir daí.

Diante dessa configuração, surgiram coisas como marxismo, positivismo, nazismo e o humanismo como um todo.

Todas essas religiões políticas traziam a mudança da crença em Deus (já vista no cristianismo) para a crença no homem. Mudava também a salvação em um mundo etéreo para a salvação em Terra. Para provocar a catarse, assim como havia o apocalipse no cristianismo, havia a “crise no capitalismo” para o marxismo e a “crise do sistema global” para os humanistas. Enfim, o padrão é o mesmo.

Na época, como cristão, eu entendia que Gray estava correto em sua tese mas errado ao associar as religiões políticas ao cristianismo. Na época eu dizia que as religiões políticas negavam o cristianismo.

Esta foi minha primeira leitura de John Gray, substituída após minhas práticas em dinâmica social, sobre as quais estou escrevendo na série “A Verdade Nua e Crua” (ver aqui).

Essas práticas e estudos ocorreram entre 2010 e 2011. Foi um período em que minhas restrições ao darwinismo acabaram por completo. Também foi um período em que minha fé em Deus desapareceu. A dinâmica social, que eu sempre gostei de estudar, foi adotada como o meu paradigma central de estudos filosóficos, em algo que eu ouso definir como a nova dinâmica social, uma área que abarca a tradicional dinâmica social de Kurt Lewin, mas também programação neurolinguística, o darwinismo (como um todo, e não apenas recortes convenientes, como feitos por Dawkins e Dennett), a psicologia evolutiva (naturalmente), neurociência, análise transacional e quaisquer estudos científicos sobre as interações humanas.

Isso levou a uma consequência prevista até por Gray em “Cachorros de Palha”: a descoberta da vacuidade da política. Passamos a entender a política como uma espécie de jogo, onde ideologias são utilizadas para a obtenção do poder. Eu vou além, e acredito que a vacuidade não está só na política, como também na maioria da filosofia (depois do Iluminismo, temos mais marketing ideológico do que propriamente filosofia), em muitos estudos da sociologia (quase todos embebidos de interesses políticos) e daí por diante. (Atenção: a dinâmica social é meu campo de estudo, não de Gray. Com a dinâmica social, eu apenas expando os conceitos de Gray às últimas consequências)

Em meu período de “conversão” ao ateísmo, comecei a ler outras obras do autor, como “Al Qaeda e o que Significa ser Moderno” e “Missa Negra”. Novamente, ambas interessantíssimas.

Hoje, em uma segunda leitura de John Gray, e sem apegos emocionais ao cristianismo, concordo com a noção de que a religião política é uma extensão da religião tradicional, em especial o cristianismo. Aliás, foi no cerne do cristianismo que surgiu o Iluminismo, movimento responsável pela criação das religiões políticas.

Se é um fato que o cristianismo, com sua eterna busca pela verdade, criou o ambiente propício para o surgimento do método científico (e esse foi um efeito positivo do cristianismo), também tivemos como efeito colateral o surgimento das religiões políticas.

Aposto que no futuro o maior legado de John Gray será a noção de que as religiões políticas, oriundas do cristianismo, possuem até mais alegações absurdas do que a crença cristã. Afirmações como a noção de que o ser humano, em um governo global, irá mudar sua natureza para enfim criar o mundo justo, são mais desprovidas de evidências do que o nascimento virginal. Ou seja, ao que parece os cristãos alegavam seus milagres mas ainda tinham uma certa noção de limite. Os religiosos políticos perderam todos os limites de bom senso.

Gray não fornece nenhum método para questionamento da religião política. Sua abordagem é essencialmente filosófica. Em outra expansão dos conceitos de Gray, eu foco essencialmente em métodos para questionamento dos esquerdistas. (Esse texto traz links para vários textos sobre esses métodos)

Posso até dizer que minha tese contra a religião política, baseada em uma expansão da investigação inicial de Gray, só se tornou efetivamente completa quando eu me desvencilhei da crença cristã. Não estou dizendo que os leitores cristãos devam fazer o mesmo, pois o método de investigação proposto aqui pode ser praticado tanto por um crente cristão como um incréu.

Entretanto, mesmo com toda gratidão a John Gray pelos insights que ajudam a demolir a religião política, ele mesmo não fica livre do modelo de ceticismo pregado aqui.

Gray talvez não tenha conseguido levar seu ceticismo às últimas consequências, e apegou-se à Hipótese Gaia. Ele também acredita no aquecimento global. Essa crença no aquecimento global, junto com a crença em que um governo global deve ser estabelecido para “salvar a espécie”, com políticas globais, não é nada mais que uma nova manifestação da religião política. E Gray, sem perceber, acabou caindo nela.

Em resumo, o material de Gray é muito interessante, na maioria dos casos. Mas, ironicamente, serve para investigar até a crença do próprio na Hipótese Gaia e no “governo global para salvar-nos do aquecimento global”.

E, como não vou fazer um post sobre essa entrevista do Prof. Ricardo Augusto Felício no programa do Jô, nada melhor que citá-la aqui:

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14 COMMENTS

  1. Está cada vez melhor, Luciano! Esse artigo mostrou que nem todos os questionadores vão até o fim em seus questionamentos. Comprei o Cachorros de Palha e também notei que John Gray “comprou” a ideologia politicamente correta do aquecimento global. Continue assim, seus textos estão cada vez mais contundentes depois de seu retorno no fim de 2011.

  2. Bom, visto que uma das obras do diabo é deturpar tudo o que é bom, eu não estou surpreso desta afirmação do Gray, que faz bastante sentido.

  3. Só uma opinião pessoal Luciano, o site está excelente e a causa é justa, mas você não deveria abandonar Cristo por nada, não adianta ter todo este conhecimento e perder aquilo que é principal, a fé Cristã.

    Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração.
    Atos 17:28

    E citando Olavo de Carvalho – Se há uma conciência em você, há uma conciência no Universo também.

    Abraço e parabens pelo trabalho.

  4. Interessante… Entretanto você também considerou na conta de seus pensamentos sobre as causas da existência das religiões politicas,as religiões de oposição ao cristianismo? Que possuem forte inclinação para dominio político e infiltração na religião tradicional (para quebra-la por dentro), como satanismo, maçonaria e tantos outras organizações ocultistas que praticam sincretismo?

    Por exemplo Hitler era membro de uma sociedade secreta chamada Thule a qual para fazer parte, os membros devem declarar crença em alguma divindade nórdica, essa mesma sociedade tem presença no sul do brasil hoje…

      • Ah agora vc me fez lembrar de um lema maçom que achei em uma area secreta de um site deles, e não causa surpresa ser IGUAL ao do iluminismo que é “a maçonaria tem como objetivo, destruir os tronos e altares”, ou seja acabar com reinos e assim concentrar todo poder mundial em um estado sem rosto e invencível (manipular as pessoas psicologicamente e domina-las), etc. E acabar com a religião tradicional, mais especificamente, o cristianismo (aí os motivos são ainda mais diversos)

  5. Luciano lembro que a alguns posts atras você havia dito que resolveu abdicar da fé cristã porque resolveu que somente possuiria crenças as quais pudesse justificar plenamente, e por conta disso teria tornado agnóstico. Então ficou a duvida, como você justifica o ateísmo hoje? Quando questionado.

    • Olha, como o meu ateísmo é o ateísmo fraco, baseado especificamente na ausencia de crença, eu não tenho uma boa justificativa para ele que não a ausencia de fé mesmo. Abs, LH

  6. Luciano, vou ate-me apenas ao “Missa Negra” de John Gray já que esse – além do ensaio dele “Voltaire” que eu lhe presenteei – foi o único dos livros citados por você no texto que li. Já li também “Enlightenment’s Wake: Politics and Culture at the Close of the Modern Age”, mas isso já faz tempo tanto para mim (por volta de 2010) quanto para ele (tal livro foi publicado em 1995). Portanto, se algo estiver errado em minha análise de “Missa Negra” baseado nos dois outros livros anteriores do autor – e também no fato de que eu vou referir ao livro de cabeça, e não com citações textuais de fato -, me alerte ok?

    Vamos lá. Primeiro: a análise de Gray de pôr no Cristianismo em um todo, principalmente em sua essência salvífica fundamental para todos, a culpa [direta] pelo surgimento de movimentos revolucionários e o humanismo em um todo é errônea (e, mas aí é mera [opinião subjetiva], propositalmente desonesta). Tais movimentos revolucionários derivam de cultos mistéricos [anteriores] ao Cristianismo ou, principalmente, de [desviações heréticas] da doutrina cristã em seus primórdios (arianismo, dolcetismo, etc.) – além de atos errôneos de certos períodos [políticos] e mesmo de [divisões] do Cristianismo (Ex.: o estado teocrático de João Calvino – e também da Igreja Católica mesma no final da Idade Média. Ambas foram modelos de influência para Thomas Hobbes formular seu “Leviatã” e aí já se sabe o resto…), além da “justificativa” de insurgência contra hipocrisias e imoralidades da cristandade (o corpo meramente social de aderentes do Cristianismo – o que, obviamente, não significa que só por [se dizerem cristãos] publicamente eles o sejam [profundamente] de fato…). O que Gray faz, baseado numa leitura “prática” (leia-se: pobre) de Voegellin e Norman Cohn, é colocar na conta direta do Cristianismo todas essas desviações e imitações revolucionárias como se tais desvios fossem [inevitáveis] de ocorrer no seio mesmo do Cristianismo. Exemplo disso é quando Gray afirma que o Nazismo teve sua gênese inescapável no Cristianismo, quando se sabe que foi uma [série] de fatores que forneceram bases para Hitler e outros criarem o Nazismo, tais como: a hereia cátara que negava [todo] o Velho Testamento (ver, por exemplo, o livro “A Heresia Perfeita” de Stephen O’Shea, que escreve favoravelmente em relação os cátaros), perversões de doutrinas orientais, o [particular] antisemitismo de Lutero (“Sobre os Judeus e suas mentiras”), o idealismo alemão em um todo (em especial o nacionalista de Fichte), entre outros. Percebe quanta coisa Gray deixa de for na análise por vezes deveras sensacionalista dele?

    Segundo: Gray é – ainda que em menor grau se comparado até com alguns dos seus adversários como Richard Dawkins – um adepto de Bertrand Russell e da aversão deste de todo sistema filosófico que demande certo comprometimento sério de um indivíduo. A qualquer coisa do tipo eles dão o nome de “religião”. Assim como para Gray, por exemplo, o neoconservadorismo é uma “religião” de cunho político devido a certo “messianismo” de seus aderentes (O tipo de messianismo que, aliás, é CONDENADO na Bíblia justamente pela figura a qual todos ansiavam tal mesianismo militante: Jesus Cristo Nosso Senhor), Russell condena tanto coisas como o Bolchevismo como o “The American Way of Life” como “religiões” que supostamente prendem o pensamento de um indivíduo (a primeira em “A Prática e Teoria do Bolchevismo” – que John Gray cita um trecho como epígrafe de um subcapítulo – e o segundo em “Autoridade e Indivíduo”). Esse uso excessivo de ambos – e mais outros autores (e vou ser bem claro para dar nome aos bois: [você inclusive] – da palavra “religião” para todo movimento com certa ordenação massificada, conquista terrena de poder e outras características militantes esvazia o próprio termo em seu verdadeiro sentido e acaba criando um repúdio errôneo e generalizante também para as religiões autênticas. E tudo por conta de [macaqueações] fraudulentas que prometem coisas que não são sequer desejáveis para teóricos das religiões tradicionais.

    Terceiro: Gray comete um erro terrível (e esse erro já é de longa data: já está no livro de 1995 que eu citei acima) ao se inspirar em Maquiavel para adotar um visão “realista”em política. Esse erro se deve ao fato de que Maquiavel e sua teoria em um todo são tudo – anti-cristã, pagã e afins -, MENOS “realistas”. Maquiavel chega a inclusive ser um proponente utópico em “Discurso da Primeira Década de Tito Lívio”, obra na qual ele defende a construção de uma “Nova Roma” – ou seja: um governo mundial. Isso sem falar em uma de suas cartas na qual afirma que ele não acredita em uma só palavra do que escreve… Levar um sujeito desses a sério é como tentar interpretar os escritos de um Jacques Lacan (como um Slavoj Zizek da vida faz) quando o mesmo disse certa vez, literalmente, de que escrevia “para não ser entendido” (tal citação pode ser encontrada no livro “Discurso aos Católicos”). E não dá para desculpar Gray por esse descuido em um argumento como “desinformação acidental” porque Gray leu justamente um dos maiores leitores críticos de Maquiavel: Leo Strauss, que em “Thoughts on Machiavelli” faz justamente uma avaliação crítica da obra de Maquiavel.

    Quarto e último: a agenda eco-globalista de Gray não é em nada original. E é nesse ponto no qual ele tem a mentalidade tão revolucionária quanto a de muitos dos outros pensadores que ele critica. Sendo tanto ateu quanto um herdeiro direto do relativismo e pós-relativismo, Gray se inscreve na corrente anti-humanista francesa que tem como proponentes um Derrida, um Althusser e um Foucault. Só gente com teor autoritário de “alto nível”. O governo global do tipo que Gray defende nas entrelinhas pode não ser aquela coisa utópica que Edgar Morin ou mesmo um Leonardo Boff propõem, mas se assemelha muito com as idéias propositalmente distópicas de um Sam Harris (!!!!!) por exemplo. Até o apreço que Gray tem mais pelas religiões orientais (em especial o o Animismo precursor do Taoísmo e Confucionismo) que pelos três monoteísmos em um todo (Islamismo, Judaísmo e Cristianismo – que é claramente a religião pela qual Gray tem o menor apreço de todas) não se deve pelo que elas tem de verdadeiro, mas sim pela [utilidade mitológicas] (e quando digo “utilidade” é justamente no sentido [utilitarista] de um John Stuart Mill, outra grande – e NEFASTA – influência para o pensamento de Gray) das mesmas das mesmas que, tiradas de seus contextos, podem servir como formas de “controle” (leia-se: subjugamento) político das massas. Em que isso diferencia de outros tantos papops revolucionários? Os iluministas franceses, por exemplo, tinham pensamentos muito similares. Mesmo um Gramsci – baseado em Marx – via valor utilitário em mitologias populares para a obtenção revolucionária de poder…

    Gray é um autor interessante e estimulante como um Adorno ou um Horkheimer pelo estilo, mas comete tantos erros e de forma tão contínua que você o lê seriamente só pelo estilo mesmo. Não há porque concordar com ele (e sua análise em particular baseada nele) de que é efeito inerentemente colatreal do Cristianismo o surgimento das “religiões políticas”. E Gray chega a ser digno sim de desconfiança, no mínimo, por conta das coisas que ele defende.

    Ainda assim, creio que “Al-Qaeda e o que significa ser moderno” merece ser lido. E quero mesmo ler ainda “Cachorros de Palha”

    Para complementar tudo isso, uma resenha do Nivaldo Cordeiro sobre o mesmo “Missa Negra”:

    http://www.nivaldocordeiro.net/estupidezerudita

    • Excelente e muito informativo esse comentário, Acauã — muitíssimo obrigado, valeuw mesmo 🙂

      Agora, quem sabe, eu arranjo vontade e finalmente escrevo um post para refutar o lugar-comum que ensina que a modernidade e o iluminismo seriam de natureza “gnóstica” 😉

    • Acauã, realmente me esqueci de lembrar do “Voltaire e o Iluminismo”, que é muito interessante. Seu presente foi utilíssimo, incluindo o “Missa Negra” (que também veio de presente).

      No mais, seu post é tão bom (e acrescenta pontos interessantes, e ótimas objeções) que eu tratarei com mais tempo, provavelmente no fim de semana.

      Um abraço,

      LH

      • Err, bem, de nada?

        Sério, não achei que meu post ia ser de tamanho agrado assim. Por isso que o “desconcerto” aqui presente xD

        Mas não há de quê Luciano – e JMK ^^

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