Ceticismo “prático”: tratando importantes objeções… e já não era sem tempo

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O leitor Eduardo postou algumas objeções em relação a 2 posts meus da série “Um Novo Ceticismo”, publicados ainda em 2010. Os textos são “Um novo ceticismo, Pt. 1 – A Responsabilidade Teísta”  e “Um novo ceticismo, Pt. 2 – O escopo do novo ceticismo”.

Entendo esse tipo de objeção como aquela que permite que eu faça duas coisas em relação às minhas idéias: (1) Abandone as idéias que não passam na análise do argumento, (2) Explique melhor idéias sobreviventes através de outros exemplos e “pontas” que não tenham sido fechadas. É o tipo de objeção que valorizo.

Antes, um aviso ao Eduardo e aos demais leitores (ao menos para os que chegaram recentemente a este blog): algumas coisas mudaram desde aquela época. Por exemplo, eu abandonei o teísmo e voltei aos meus velhos tempos de incréu em relação a Deus. Também abandonei o termo “novo ceticismo”, pois entendo que o ceticismo defendido por mim não tem nada de novo. Entendo-o como um retorno às raízes do ceticismo original, cuja ênfase era no questionamento a autoridade, e quaisquer tentativas de apelo à autoridade.

De qualquer forma, sigamos nas respostas ao Eduardo:

Não ficou perfeitamente claro para mim em seu texto de que tipo é o seu ceticismo. Quando eu esperava que você apresentaria uma definição, você disse:  “Já o ceticismo prático, que trato aqui (…) é um ceticismo tanto científico, quanto lógico, metodológico, ideológico, religioso ou o que valha. Ou seja, é ceticismo, e fim de conversa”. Com isso você pareceu antes referir quais os âmbitos sobre os quais o ceticismo se pronuncia do que explicar o sentido em que entende o termo “ceticismo”. Pois, obviamente, não há muita coisa que seja claramente comum entre todos esses âmbitos de modo que a mera adjunção do termo “ceticismo” a todas elas pudesse definir este termo. Pelo contrário, a definição do termo é que poderia dizer em que sentido cada âmbito desses é considerada por você de uma perspectiva cética. Gostaria, assim, que me esclarecesse o sentido em que está empregando o termo “ceticismo”, para que eu entenda em que sentido você aqui o está definindo substancialmente como “ceticismo prático” – pois na concepção filosófica e histórica mais assente do termo, “ceticismo” designa a posição teórica de não admitir como verdadeira uma tese que não se demonstrasse racionalmente impossível de ser refutada (isto é, uma tese cujo contrário fosse impossível ser o caso). Ocorre que os argumentos céticos (como os 10 Modos de Enesidemo e, sobretudo, os 5 Modos de Agripa) mostrariam que atualmente faltam critérios capazes de levar uma justificação racional a esse nível extremo (da necessidade de o contrário de uma tese ser provada impossível de ser o caso). Diante disso, manter uma postura de ceticismo prático seria, para esses céticos, não poder afirmar tese alguma sobre o que é a agência humana.

Neste texto, “O Ceticismo em toda a sua crueza”, eu trago a minha definição para o ceticismo: É o ato de questionar uma alegação, de qualquer tipo. E o que significa ser “um cético”? É uma situação contextual na qual alguém coloca-se como questionador de algo. Portanto existem “céticos quanto à religião”, “céticos quanto a Deus”, “céticos quanto a religião política”, “céticos quanto ao paranormal” e assim por diante. E o tal rótulo “cético”, no caso da rotina Cético Universal? O próprio ato de ceticismo tende a colocar essas pessoas em maus lençóis, pois você poderá desmascarar o praticante deste truque mostrando-o como um desonesto usuário do estratagema verbos não especificados. Ora, se o ceticismo é apenas o ato de questionar uma alegação, usando o método científico, a lógica ou ambos, podemos dizer que o ceticismo está em todos os lugares. E isso é verdade. A diferença é que nem sempre o ceticismo é executado de forma metodológica. (Esse post aqui dá um exemplo de método para o ceticismo). Mas o ceticismo é um mecanismo instintivo do ser humano, portanto, mesmo sem um método, ele será inevitavelmente executado.

Em suma, eu retiro toda a abordagem metafísica do ceticismo, atribuo a ele uma análise que investiga a origem do ceticismo em nosso DNA (ou nosso instinto, que o valha), defino um método e reduzo o escopo, para apenas o ato de questionar uma alegação de qualquer tipo. Simplesmente assim.

Então, concordo que no texto comentado por Eduardo, eu realmente havia esquecido de fornecer uma definição para o meu ceticismo, mas creio que agora já não existem dúvidas. Sei, de antemão, que esse tipo de ceticismo é um pouco rude às vezes, mas é bem parecido com o ceticismo corporativo. (Aliás, pretendo fazer uma série de textos ou uma categoria adicional no futuro para tratar deste assunto)

Por exemplo, nos tempos do pirronismo (ou melhor, ceticismo acadêmico, como corrigiu o Eduardo), existia a dúvida de se podíamos ter acesso a um conhecimento seguro. Eu tenho segurança de que hoje ocorreu um baita trânsito em São Paulo, e isso pode ser medido de forma objetiva. Mas entendo que, EM ALGUNS CASOS, esse conhecimento seguro pode não ser obtido. Por questões desse tipo, entendo que o ceticismo acadêmico é útil como exercício intelectual, mas não tem funcionalidade prática, seja para uso em métodos científicos ou outras formas.

Já o que defino de ceticismo prático envolve fazer o uso do ceticismo, de forma metodológica (no ato de questionamento), independente do que disseram Sagan, Popper, etc.

Neste caso, você pode acreditar em vampiros, mas enquanto está questionando a existência de lobisomens, você já está usando ceticismo. Você pode acreditar em duendes, mas se está questionando a leitura na borra do café, já está usando o ceticismo também. Ou seja, executar a PRÁTICA de questionamento, de uma forma metodológica, é o que chamo de ceticismo prático.

Nesse caso, podemos utilizar teses à vontade, sabendo, é claro, que essas mesmas teses podem ser QUESTIONADAS pelo outro lado da contenda. Aliás, o debate no qual os dois lados estão questionando teses e afirmações do outro lado é o que defino como duelo cético. No texto “O ceticismo como a bola do jogo” falo um pouco disso.

Sigamos:

De acordo com isso, como você defende sua teoria da Dinâmica Social, seria preciso de duas uma: (I) justifica-la de modo que uma teoria contrária fosse impossível, ou (II) considerar que tal teoria não é verdadeira (muito embora possa ser logicamente válida). Sendo assim, penso que são duas tarefas logicamente independentes as suas: (1) a de mostrar a inconsistência do neo ateismo e da religião política por um expediente metodológico cético estrategicamente negativo / desconstrutivo (que é a parte mais primorosa de seu trabalho, a meu ver) e (2) uma teorização positiva sobre a Dinâmica Social, que não é uma teorização que, em si mesma, não depende de ou se funda em nada de propriamente cético. (o que não significa que careça de fundamentação, não avaliei isso)

Como eu disse anteriormente, independente das crenças que alguém tenha, o ceticismo prático que defendo pode ser aplicado. Desta forma, eu posso tomar como base a teoria da Dinâmica Social (no que chamo de Nova Dinâmica Social, ampliando o escopo original de Kurt Lewin), e ainda assim continuar usando o ceticismo.

Vou dar um exemplo em um hipotético diálogo com um usuário da “nova filosofia”.

  • NOVO FILÓSOFO: Eu sou um adepto da razão, ao invés da fé. Justamente por isso, eu defendo os argumentos  X e Y.
  • CÉTICO PRÁTICO: Eu duvido que você seja mais adepto da razão do que eu. E esta alegação “sou um adepto da razão” é uma que qualificamos como “não testada”. Tecnicamente, você poderia estar utilizando a rotina “Dono da razão”, tentando convencer a platéia de que está do lado da razão para tentar influenciá-los psicologicamente a aceitar, de forma automática, que você realmente teria a “razão”. Provavelmente por que isso atribui um maior valor de “sobrevivência” a você perante a platéia, e por isso você talvez você se apegue tanto ao rótulo. São motivos para eu lhe questionar novamente: como você prova que é mais adepto da razão do que eu? [Obs.: Toda a parte em azul significa uma explicação conforme a dinâmica social]
  • NOVO FILÓSOFO: Olhe, eu não acredito nessas explicações de dinâmica social…
  • CÉTICO PRÁTICO: Ok, tudo bem. É apenas uma teoria. Eu não falei nem para você, mas para a platéia. Mas deixemos isso para lá. Entretanto, você ainda tem que provar que é mais adepto da razão do que eu ou que seus oponentes políticos.

Como se nota, eu usei uma explicação da dinâmica social para explicar à platéia (não ao oponente político) o risco de aceitarmos a alegação dele. E ao mesmo tempo eu usei o ceticismo para questionar a alegação de que ele estaria mais do lado da razão que os demais.

Neste diálogo hipotético, eu NÃO PRECISEI sequer tomar como verdade a explicação da dinâmica social, mas apenas lançá-la como hipótese. E, em momento algum, isso me impediu de colocar a afirmação política da outra parte (“eu estou do lado da razão”) sob o crivo cético.

Da forma como entendo o ceticismo, e por conseguinte, o que constituiria um ceticismo prático, pelo que li em seus artigos, seu ceticismo não se enquadraria nessa categoria. Porque, em boa medida, um ceticismo prático (da forma como minhas pesquisas sobre o tema o consideram) implicaria talvez inevitavelmente um tipo de relativismo moral (ou cairia numa moral naturalista).

Sim, é verdade, mas tomando como princípio que usa-se, pela dinâmica social, as bases do darwinismo (como o melhor paradigma para a explicação da espécie humana), podemos estudar os motivos pelos quais existem alguns valores que se solidificaram em nossas sociedades. Enfim, estudar a moral (embora não defini-la, como exageradamente diz Sam Harris) sob princípios científicos.

De qualquer forma, isso seria positivo demais para uma postura cética, seria assertivo demais. Por isso estou considerando, a partir da noção que dei acima de “ceticismo”, uma segunda parte de seu trabalho não teria a ver com ceticismo. Isso se resolveria se você entendesse que “ceticismo” não é apenas negativo (mas, se for este o caso, eu gostaria que justificasse a concepção de um “ceticismo positivo” – concepção esta que seria possível identificar em seu texto (por exemplo, quando diz que “o ato de ceticismo não implica em “não acreditar”). Se entende o ceticismo de uma forma positiva, é preciso mostrar de que forma, ainda inédita na história, se trataria esse ceticismo assertivo; isto é, explicar de que forma seria ao mesmo tempo (de um lado) assertivo e (de outro) zetético e suspensivo – que é o que caracteriza todas as posições céticas ao longo dos séculos.

Neste texto, “Ceticismo emburrado? Não, otimista!”, eu explico os aspectos positivos do ceticismo. No ramo do ceticismo corporativo, por exemplo, se alguém quer ser reconhecido como gerente, eu já digo: “aguardo você demonstrar que realmente tem potencial para ser gerente”. Note que isso pode ser um gatilho para a motivação por resultados.

Agora imagine se assumíssemos, a priori, que o gerente é de fato um gerente efetivo somente por uma declaração dele. Acredito que isso reduziria os resultados, pois não haveria motivação para consegui-los, se acreditássemos de maneira aprioristíca que todas as declarações são válidas.

Outro exemplo do mundo corporativo nos mostra que as checagens que os profissionais de recursos humanos fazem nos currículos ajudam a reduzir a quantidade de mentiras escritas lá. Isso é extremamente positivo.

Note que este ato de ceticismo, em relação aos currículos, é derivado de uma crença, a de que a investigação dos currículos trará melhores resultados na seleção de profissionais.

É isso que eu queria dizer que “o ato de ceticismo não implica em “não acreditar””. Na verdade, inclusive implica em acreditar que uma aplicação do ceticismo pode resultados.

Então, apenas para distinguir ceticismos, vale considerar que o ceticismo pirrônico jamais defendeu a impossibilidade do conhecimento, isso quem defendia eram os céticos acadêmicos. O próprio Sexto Empírico, de quem são quase absolutamente os textos sobre pirronismo, diz logo no início das Hipotiposes Pirronianas que, com respeito aos objetos investigados pela Filosofia, alguns afirmam ter descoberto a verdade, outros dizem que a verdade não pode ser apreendida, outros ainda continuam investigando. Os primeiros são os dogmáticos, que tomam como evidente algo que não se justifica como tal; os segundos são os acadêmicos, que desistem da busca por entenderem ser impossível conhecer a verdade; o últimos são os pirrônicos. (HP I, I). Ademais, os pirrônicos diziam que a toda proposição de pode opor uma oposta com igual força de convencimento, e devido a essa equipolência de teses, seria preciso suspender o julgamento sobre qual seria a verdadeira. Contudo, em momento algum eles dispensam a possibilidade de que alguma tese se comprove verdadeira, e é precisamente a negação dessa possibilidade que eles criticam nos acadêmicos, entendendo que, por fazerem isso, eram dogmáticos às avessas. Isto é, para o pirrônico, se os dogmáticos erravam por se precipitarem em tomar como verdadeiro algo que carece de justificação, os acadêmicos seriam dogmáticos de pólo inverso por defenderem que a verdade jamais será encontrada.

A explicação acima é boa, e realmente posso ter me equivocado ao dizer que os pirrônicos não acreditavam na possibilidade do conhecimento. De qualquer forma, minha crítica vai, portanto, aos acadêmicos.

Entretanto, em relação aos pirrônicos, conforme sua definição, o ceticismo prático poderia colocar em dúvida se os pirrônicos “realmente continuariam procurando”. Poderíamos tomar a afirmação “eu continuo questionando” como uma alegação política, e, portanto, que deveria ser testada.

Você poderia defender sua afirmação dizendo algo do seguinte tipo: o fato de os pirrônicos dizerem que eles mesmos não abandonam a possibilidade do conhecimento não significa que, em sua prática filosófica, eles não terminem fazendo exatamente essa negação. Mas, neste caso, o ônus da prova seria seu. Seria inalienável que você provasse que os pirrônicos de fato defendiam a impossibilidade do conhecimento ou que, à revelia do que diziam, essa era a consequência de seu tipo de ceticismo. Em outros termos, devolvo a pergunta cética a você: por que eu preciso acreditar em você quando diz que o ceticismo pirrônico negava a possibilidade do conhecimento? Não pode ser apenas porque você está falando que é assim. Eu seria muito grato se conseguisse essa façanha, pois faço mestrado sobre pirronismo na UFPR, estudo ceticismo há 7 anos, e de modo algum acho que essa tese seja facilmente demonstrável. Sem falar que há historiadores do ceticismo que defendem de modo muito plausível a tese oposta à sua. Mas, como disse, o ônus da prova é seu.

Vamos entender então essa objeção. Se alguém diz que “é o maior defensor da ética” em uma empresa, se não acreditarmos nele passaríamos a ter o ônus da prova? Na verdade, podemos tomar como princípio que TODA ALEGAÇÃO POLÍTICA (e que, se aceita, trará benefícios ao alegador ou a um grupo ao qual o alegador pertence) pode ser questionada no momento em que é feita.

Quando você me pergunta “Por que eu preciso acreditar em você quando diz que o ceticismo pirrônico negava a possibilidade do conhecimento?”, eu lhe responderia: “Você não precisa acreditar em mim”. Aliás, é por não acreditar (ou não concordar) que você lançou objeções interessantes, que me permitiram fornecer exemplos do que chamo de ceticismo prático.

Por exemplo, eu acredito que alguém pode estudar o ceticismo pirrônico, assim como alguém pode estudar qualquer coisa. Mas, tecnicamente, em termos de alegação política, se alguém afirmar ser mais “pirrônico” que os demais, então a partir disso temos uma alegação a ser provada.

Quanto à afirmação de que o próprio ceticismo pirrônico carece de comprovação. Bem, essa é outra afirmação que vejo ser gratuita no presente texto. Nele mesmo você disse que o fato de alguém dizer que algo é o caso não prova que o que disse realmente seja o caso, e que perceber isso é considerar as coisas de uma perspectiva cética. Receio que aqui você novamente não foi cético. Seria preciso provar que o ceticismo pirrônico carece de comprovação, para que aceitemos essa sua afirmação. Caso contrário, seria injustificado seu abandono do pirronismo se a base para esse abandono for o motivo não demonstrado que você apresentou: ele carece de comprovação.

Ótima objeção, para a qual lanço a retificação. Não é o ceticismo pirrônico que carece de comprovação, mas a alegação de que alguém está mais próximo do “ceticismo pirrônico” do que os demais.

Um pouco sobre dinâmica social. Se alguém difunde a idéia de que o “questionamento é bom” (e eu acredito nisso), e automaticamente lança a idéia de que “questiona mais, com menos certeza”, isso passa a ser uma alegação política, pois lançará uma idéia para a platéia que a tornará mais receptiva aos seus argumentos.

Lembremos minha definição de alegação política: é toda afirmação que, se aceita, trará benefícios para aquele que propaga a afirmação, e/ou para o grupo ao qual o alegador pertence.

Indo ainda além, em que sentido uma posição qual a cética pirrônica sequer precisaria de comprovação? Realmente não entendi o que seria “comprovar a posição cética”. Antes de tudo, é um grande dilema o de saber se ela afirma algo ou não, se tem ou não uma doutrina, mesmo a respeito do que ela própria é enquanto posição filosófica. Então, no mínimo por isso, já seria difícil entender o que exatamente seria “comprovar a posição pirrônica” ou mostrar que ela “carece de comprovação”. Em segundo lugar, poderíamos objetar que, mesmo que ela diga que nada afirma, poderíamos identificar certas teses pressupostas. Mas então seria preciso trazer essas teses a luz, isto é, provar que nao estamos fazendo uma acusação arbitrária e infundada sobre a posição pirrônica, para então mostrar que isso que ela pressupõe sem querer carece de comprovação.
Em terceiro lugar, mesmo se, de modo geral, você quisesse dizer que ela implica algum tipo de incoerência (por exemplo, o fato de ela se propor a suspender crenças que a vida obrigaria a aceitar – como Hume criticou), também a afirmação de incoerência teria de ser justificada. Por exemplo, porque há defesas muito boas, como a de Michael Frede e Plínio Smith, que mostrariam que a crítica de Hume não se aplica ao pirronismo, porque os céticos não abandonariam as crenças cotidianas].

A grande diferença é que a análise da dinâmica social modifica todo o paradigma.

Eu já citei em algum lugar o exemplo do gerente que propaga nos corredores a idéia de que “ele é o mais adepto dos resultados”, ou que “é a favor de resultados”, tentando convencer aos demais de que ele seria realmente o mais focado em resultados na organização. A alegação é política pois, se aceita, trará benefícios ao alegador, e isso pode ser revertido em uma promoção, aumento no bônus, etc.

Da mesma forma, em termos ideológicos poderíamos considerar a afirmação “eu sou mais questionador” ou “eu sou um questionador eterno” como táticas psicológicas para a obtenção de maior aceite de suas idéias perante à platéia. Tecnicamente, é uma obtenção de vantagem da mesma forma que fez o gerente citado.

Por isso afirmações como “eu sou um questionador eterno” ou “eu sou focado em resultados” são objetos do mesmo crivo cético, pois são afirmações políticas.

“Não é nada mais do que recobrar o modelo original de David Hume, só que entendido apenas como uma ferramenta de trabalho, e não como a forma como se observa toda a vida (esse foi o erro de Hume).” ->  Aqui novamente tendi a interpretar que seu caso não se trata de um ceticismo prático (o que, pela forma como entendo o ceticismo, é ponto para você), mas apenas teórico, metodológico e negativo. A segunda parte de seu trabalho, repito, é que me pareceu construtiva, por não parecer decorrer de nenhum emprego de ceticismo (o que não significa que contenha problemas lógicos ou fundamento epistemológico – repito, não analisei isso).

Eu usei o termo “ceticismo prático” justamente por abstraí-lo da forma que ele ocorre no dia-a-dia. Por exemplo, se alguém lhe pede as senhas de seu cartão de crédito, você não as fornece. Mas por que? Simplesmente, por que está executando o ceticismo de forma prática.

Alguém perguntaria: “mas o ceticismo é só isso?”. Sim, para mim é só isso mesmo, com a diferença que eu defino um MÉTODO para a aplicação deste ceticismo, e o priorizo sobre alegações políticas de qualquer tipo, seja de alguém que tenta convencer a platéia de que “está representando a ciência” como também de alguém que esteja afirmando “que defende o questionamento eterno”.

A dinâmica social, que defendo, só apimenta ainda mais a discussão, estudando as vantagens obtidas por alguém que faz DETERMINADAS AFIRMAÇÕES, sob uma análise darwinista.

Alguém poderia questionar-me dizendo: “Mas para mim o ceticismo é uma forma pela qual eu percebo a realidade e defino minha cosmovisão”. Eu, de forma prática, somente teria a dizer o seguinte: “A forma pela qual você percebe o mundo é irrelevante, pois isso não é testável. É uma alegação sem provas. Então, não adianta que é alguém que ‘só tem dúvidas, ao invés de certezas’, pois isso é uma alegação política, e, para piorar, sem provas”.

Pode parecer uma forma OFENSIVA de ceticismo? Sim, é verdade. Mas é aí que falo da origem do ceticismo: o questionamento à autoridade. Ao duvidar de qualquer alegação política (especialmente as atribuições de rótulos positivos a si próprio), estou retornando, enfim, à origem do ceticismo.

Você afirma que Hume teria usado o ceticismo como uma forma pela qual se observa toda a vida (e que esse teria sido o erro dele)? Gostaria de entender em que sentido está entendendo isso. Porque essa foi precisamente a crítica que Hume fez aos pirrônicos, que, na sua visão, pretendiam se desfazer de todas as crenças sem se dar conta de que o fundamento das crenças não era racional. Sua teoria é do tipo que fundamenta na imaginação a crença da vida cotidiana e assim pretende mostrar o furo da tentativa pirrônica de se desfazer das crenças.

Na verdade, minha crítica vale para todos os iluministas, ou quaisquer adeptos da “nova filosofia” que se auto-propagassem com rótulos como:

  • “sou alguém focado em questionamento”
  • “minha vida se pauta pelo questinamento”
  • “estou do lado da ciência”
  • “um questionador deve pensar assim e assado…”
  • “sou adepto da razão”

Enfim, qualquer parangolé que seja qualificado como alegação política e ainda é embebido de uma cosmovisão envolvendo rótulos supostamente positivos é objeto do ceticismo defendido aqui. A crítica que fiz a Hume, neste caso, é a mesma que faria para Bertrand Russel, Imannuel Kant, etc.

Se eu pudesse voltar no tempo e encontrasse com Hume pela frente, lhe diria: “não me importa no que você acredita, nem sua cosmovisão, e nem a ‘postura’ que você diz levar, só me interessam suas alegações, e nada mais”. E diria o mesmo para qualquer iluminista.

Mas gosto do método dele, no entanto.

Sei que todo o aspecto “filosófico” do ceticismo parece se perder com essa nova abordagem. Eu diria que essa “perda” ocorre apenas nas alegações políticas oriundas de atribuições de rótulos positivos a si próprio ou quaisquer formas de capitalização política.

Sei também que o ceticismo, dessa forma, pode se tornar praticamente uma espécie  de “jogo”, no qual adversários políticos são abatidos por serem questionados. Capaz.

Mas é como uma frase que gosto bastante da dinâmica social: “Deixe que o jogo comece!”.

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5 COMMENTS

  1. Luciano,

    Obrigado pelo tempo e pelo post dedicado ao assunto. Isso mostra preocupação com a honestidade intelectual – o que é indispensável para lidar com os opositores que você tem, porque é um dos pontos em que eles pecam pela falta.

    Antes de tudo, vejo que definiu melhor o que particularmente entende por “ceticismo”. Receio, no entanto, que ainda há indefinições quanto ao que seria seu caráter prático. Entendi sua definição de ceticismo prático, mais isso ainda me parece carecer de melhor explicação. Vou me ater àquilo em que vejo ainda indefinições ou problemas. Se, por acaso, houver má interpretação de minha parte, peço que pontue onde e de que forma entendi mal, pois isso muito me ajudaria a aprender a lê-lo melhor.

    1) Se você puder e quiser responder, eu gostaria de saber porque deixou de ser teísta e se tornou incréu, já que citou isso. Primeiramente, achei um tanto curioso que você tenha julgado relevante dizer isso no início do seu post. Quanto ao abandono do novo ceticismo, havia contexto para cita-lo, mas quanto a não ser mais teísta, confesso que isso me pareceu uma bela irrupção do inconsciente, com seu poder magnífico de entrar em cena quando não esperamos que ele entre, pretendendo, TALVEZ, dizer que, em sua forma pessoal de se relacionar com a crença, era preciso deixar claro para os leitores que, ainda que racionalmente possa defender o contrário, do ponto de vista do inconsciente, você ainda entende a fé como algo mais fraco do que ser cético. Pode ser uma leitura errada de minha parte, mas não precisa me acusar de leitura da mente, eu mesmo já estou me acusando. Mas realmente pareceu-me que você precisasse mostrar que não acredita, porque subjetivamente entende que não acreditar, de certo modo, fosse torna-lo mais qualificado como cético.
    Perdão mesmo caso seja uma leitura errada.

    Quanto ao assunto em si, o fato mesmo é que não vejo essa tendência incrédula em seus textos (talvez porque esteja respondendo aos esquerdistas e aos neo-ateus), mas tudo o que vejo é você dizendo que não crê, não textos de um incrédulo. A hipótese que eu lanço é a de que seu uso do ceticismo que pode ter se tornado tão injustificadamente globalizado quanto, em seu exagero próprio, os racionalistas o fazem por não medirem o alcance nem os limites da razão e, assim, enxergarem o mundo unicamente pelo óculos do racionalmente justificado. O detalhe é: como eles não tiram sequer hipoteticamente esses óculos, porque para o tirarem exigiriam justificação, não percebem que o ônus da prova é antes deles mesmos, que afirmam que a razão é a única postura válida de consideração do que é aceitável ou verdadeiro em todo o plano existencial. Essa é a primeira afirmação, os racionalistas e céticos racionalistas é que tem o ônus de provar que isso tem de ser assim.
    Ora, basta, como exemplo, a hipótese de que o plano consciente/racional, como nos lembra Jung, seja apenas uma parcela do psiquismo, e os métodos de análise psicoterapêutica bem mostram quantos conflitos surgem se resolvem totalmente alheios ao campo da razão e à sua lógica, tendo sua origem e configuração pela lógica própria do inconsciente. Não estou dizendo que aquilo que não é do plano da razão seja irracional, contra a razão, mas que é não-racional, imensurável e impossível de ser justificado por ela, e isso em nada limita seu significado, que talvez seja de importância muito mais vital à existência humana em seu todo do que aquilo que conseguimos entender dela pela razão. A meu ver, um caso característico disso é a fé. E Jung tem ótimos argumentos também em favor disso.
    Não sei se sua incredulidade seria decorrente de um ceticismo globalizado, que também é uma forma de racionalismo de exigência excessiva quanto ao que se aceitar como digno de crença (pois também entende que só o racionalmente justificado é digno de ser acreditado). Por isso, gostaria de ouvi-lo a respeito: saber se sua incredulidade é uma escolha, e, caso sim, com base em que a teria feito. Ou, se é consequência de uma restrição do campo semântico aos significados logicamente obtidos, e caso sim, como justificaria isso. Ou ainda, se é de outra forma, que forma seria essa, e como ela se justificaria

    Aos esclarecimentos.

    2) Você diz:
    “Mas o ceticismo é um mecanismo instintivo do ser humano, portanto, mesmo sem um método, ele será inevitavelmente executado. Em suma, eu retiro toda a abordagem metafísica do ceticismo, atribuo a ele uma análise que investiga a origem do ceticismo em nosso DNA (ou nosso instinto, que o valha), defino um método e reduzo o escopo, para apenas o ato de questionar uma alegação de qualquer tipo. Simplesmente assim.”

    a) Talvez seja preciso apenas que você explique o que quer dizer com o termo “instintivamente”.
    Pois, da forma como eu o entendo, “instintivamente” é o modo de se comportar não premeditado, não apreendido, mas intrínseco. E, a meu ver, duvidar é um mecanismo adquirido, não exatamente instintivo, porque é premeditado e dependente das experiências prévias de perceber-se enganado. Se algo no plano de nossa relação com os discursos é instintivo, penso que seria o acreditar, não o duvidar. Ou também o poderia ser o questionar, mas apenas no sentido de perguntar o porquê ou o para quê das coisas. Já o duvidar, que é o que caracteriza o ceticismo, isso não entendo de que forma pudesse ser instintivo…
    Uma prova disso, por exemplo, é a de que quando lemos uma carta, um livro de história, ou ouvimos um amigo contar um episódio, não questionamos se aquilo que ele está sendo exposto é verdade ou não; a menos que tenhamos nos adaptado a fazer sempre isso, a desconfiar de tudo, mas isso está longe de ser instintivo. Pelo contrário, instintivamente nós tendemos a acreditar.
    Um exemplo um pouco melhor: se eu apareço aqui e lhe digo “seus argumentos contra os neo-ateístas são muito fracos”, note, independentemente de isso em si mesmo ser verdadeiro ou falso, é inegável que você instintivamente acreditaria que era isso mesmo que eu tinha pensando quando os li. Ou seja, por termos sido enganados várias vezes, então começamos a duvidar. E por termos sido enganados muitas vezes, começamos a duvidar muito. E então argumentamos com a intenção de desmascarar o engano, mas apenas porque julgamos que o correto e natural é dizer a verdade.
    Fica a objeção e o pedido de fundamentação de que o ceticismo (o duvidar) seria instintivo.

    b) Gostaria que me explicasse o que seria “retirar toda a abordagem metafísica do ceticismo” e como isso se concilia com “reduzir o escopo apenas para o ato de questionar uma alegação de QUALQUER tipo”.

    Antes de tudo, o ceticismo não faz, ele mesmo, abordagens metafísicas; e, portanto, por princípio, não haveria nenhuma abordagem metafísica a ser retirada dele. O que ele faz é questionar abordagens de todo tipo, e dentre elas, as metafísicas. Então, acho que o que você quer dizer é que seu ceticismo não teria como objeto as abordagens metafísicas. Certo?

    De qualquer forma, pareceu-me haver uma contradição nessa formulação. Pois, uma alegação “de qualquer tipo” pode ser um alegação “de tipo metafísica”. Então, seria contraditório dizer que seu ceticismo teria como objeto alegações “de todo tipo”, mas que não tem como objeto alegações metafísicas… (a propósito, esse é um dos planos sobre os quais o ceticismo mais tem bala na agulha!).

    3) Quanto ao que você diz sobre o ceticismo ser em suas raízes um questionamento da autoridade, apenas um esclarecimento.
    Em suas raízes, o ceticismo não é um questionamento irrestrito “à autoridade”, esse “questionamento à autoridade” é sempre qualificado:
    é especificamente um questionamento à “autoridade da razão em justificar qualquer coisa que seja afirmada como verdadeira com base em critérios de que ela não disporia para esse conhecimento”. Se, ao caracterizar o ceticismo em suas raízes como “questionamento à autoridade” você quer dizer isso, que eles questionavam “a autoridade dos critérios por meio dos quais alguém tenta justificar uma afirmação como verdadeira”, não tenho objeção à sua descrição das raízes do ceticismo e concordo que o ceticismo originariamente (e também você) realmente faça isso.

    Se, no entanto, você quis dizer que o questionamento de uma autoridade era feito pelo ceticismo meramente por ser autoridade, isso estaria equivocado. Pois eles também suspendiam o julgamento sobre se a autoridade é, ela mesma, algo justo ou injusto, certo ou errado, bom ou mal. Prova de que os céticos não atacavam a autoridade por si mesma é que eles viviam guiados pela autoridade das leis, dos costumes, das imposições da natureza, etc. O cético originário não seria o melhor modelo de se seguir na vida. Porque ele era um covarde do ponto de vista prático, e um gênio do ponto de vista epistemológico. Isso o que você faz, Luciano, não era uma atitude propriamente cética se tivesse vivido na época de Pirro ou Sexto Empírico: seria considerado dogmático para eles com sua Dinâmica Social. Ou seja, você pode desenvolver um ceticismo que ataque a autoridade pela intenção dela de capitalização política, mas esse tipo de crítica à autoridade estabelecida seria um distanciamento (e não uma aproximação) do ceticismo tomado originariamente. Os céticos estavam preocupados com uma epistemologia radical, que questionasse tanto as bases do que dizemos conhecer quanto do que dizemos acreditar (crença aqui não no sentido religioso, mas como o mero ato cotidiano de tomar algo como verdadeiro – ex.: acredito que o sol vai nascer amanhã) e nada pretendiam colocar no vazio que sua crítica instaurava. A preocupação deles não era mudar a sociedade por meio de uma crítica do que é falso e injusto para o estabelecimento do que é verdadeiro e justo. Eles devem muito aos sofistas nesse aspecto, pois realmente não estavam preocupados com verdade ou falsidade, mas com a tranquilidade que entendiam decorrer da atitude de não se posicionar sobre se algo é verdadeiro ou falso, justo ou injusto, bom ou mal. Eles nada negavam e nada afirmavam. Imagine o que seria não se pronunciar sobre o que é o certo e o errado em nossos dias… Sem comentários, não?

    A questão diz respeito apenas à proximidade e ao distanciamento do ceticismo originalmente. Sua crítica, embora às vezes se defina como estando direcionada à autoridade estabelecida, é do primeiro tipo, isto é, epistemológica, porque você sempre analisa se o discurso oponente é logicamente válido ou não, sempre pede justificativas ao oponente daquilo que ele está afirmando. E caso ele apresentasse boas justificativas, você deveria acolher a posição como verdadeira, porque definiu os critérios como sendo os da justificação lógica. Isso é epistemologia, e é o que os céticos faziam. Mas se você pretende ir além e criticar a autoridade estabelecida não somente pela lógica, tudo bem, mas neste caso já não poderá dizer que a crítica que faz da autoridade seja igual à crítica feita pelos céticos originariamente.

    4) Você diz:
    “Ou seja, executar a PRÁTICA de questionamento, de uma forma metodológica, é o que chamo de ceticismo prático”.

    Ora, “praticar a dúvida/ o questionamento de forma metodológica” é precisamente o que eu estava chamando de “ceticismo metodológico”.
    Em outros termos, o que você está chamando de ceticismo prático é, na verdade, a “prática do ceticismo metodológico”, isto é, a prática de exigir justificação racional de toda proposição que é afirmada como verdadeira. Com efeito, nada de novo, mas também, nada de prático.
    Se você quis chamar de “ceticismo pratico” a exigência de justificação racional das alegações políticas, isso não constitui ceticismo prático.
    Veja bem, sua causa é mostrar os erros do neo-ateísmo e da religião política, e você se vale do método cético de crítica para mostrar que essa causa é uma picaretagem. Isso não é ceticismo pratico, é metodológico. O que tornaria esse método de justificação racional de alegações politicas um ceticismo pratico seria usa-lo com a intenção de mostrar que “nenhuma prática pode ser justificada como melhor que outra”… E isso obviamente não é o que você pretende – pois, se pretendesse isso, teria de admitir que sua crítica ao neo-ateísmo seria meramente verbal, isto é, não implicaria que há um problema nele, e que precisa ser desmascarado. Um ceticismo pratico considera que todas as formas de prática não podem se justificar como sendo boas ou ruins, válidas ou inválidas, e assim, são igualmente defensáveis e desprezíveis.

    5) Quando você constrói o diálogo hipotético com um filsófo da nova filosofia, você diz:
    “NÃO PRECISEI sequer tomar como verdade a explicação da dinâmica social, mas apenas lançá-la como hipótese. E, em momento algum, isso me impediu de colocar a afirmação política da outra parte (“eu estou do lado da razão”) sob o crivo cético.”

    a) Bem, você usa este exemplo para responder à minha questão sobre o caráter positivo de seu ceticismo prático, sem precisar prova-la como verdadeira para usa-la contra o “novo filósofo”. Pois bem, a parte propriamente cética desse diálogo não tem nada a ver com sua teoria da Dinâmica Social e a dispensa inteiramente. Repare que você poderia ter omitido toda a leitura mental que fez baseado na Dinâmica Social e, com pura lógica, teria dito apenas o necessário: “prove que é mais adepto da razão que eu”.

    b) Ainda assim, essa não seria a forma mais adequada de colocar a objeção a ele. isso incorre na Falácia do Espantalho, pois o interlocutor não disse “sou mais adepto da razão do que você”; então você não poderia imaginar que ele tivesse dito isso, e exigir que ele justificasse isso. É falácia do espantalho. Ele disse isso: “eu sou um adepto da razão, ao invés da fé”. Sua leitura supôs que ele quisesse dizer que “ser adepto da fé é ser menos adepto da razão”. Note, da forma como você fez a questão, o interlocutor poderia objetar o seguinte: “onde foi que eu disse que sou mais racional que você? O que eu disse foi que, sendo adepto da razão e não da fé, como elas tratam de certas questões de um modo distinto e inconciliável, eu defendo os argumentos X e Y e não os argumentos B e C”. Eu diria, então, que a melhor pergunta a ser feita a ele seria “de que forma você justifica a separação que faz entre razão e fé, de modo tal que estivesse autorizado a dizer que quem é adepto da fé não o seja da razão e, assim, tenha de pensar que certos tipos de argumento se opõem a outros por força da separação entre fé e razão”? Note, nessa forma, não há a partícula comparativa “mais que”, e você teria pedido uma justificação à altura da fala do novo filosofo sem precisar da Dinâmica Social.

    c) Se era isso que sua pergunta queria dizer, note que só usamos lógica, e nada de Dinâmica Social.
    Assim, continua sendo válida minha objeção de que seu ceticismo enquanto tal é apenas metodológico (e repito, vejo como algo bom que o seja!), e que a parte positiva da Dinâmica Social (DS) não tem relação com ele.

    d) Ou ainda, se você utilizou a DS, parece ter sido isso o que fez você pressupor erradamente o que o suposto filósofo teria querido dizer. Veja como isso parece leitura de mente:
    “você poderia estar utilizando a rotina “Dono da razão”, tentando convencer a platéia de que está do lado da razão para tentar influenciá-los psicologicamente a aceitar, de forma automática, que você realmente teria a “razão”. Provavelmente por que isso atribui um maior valor de “sobrevivência” a você perante a platéia, e por isso você talvez você se apegue tanto ao rótulo”.
    Você não teria evidência alguma disso. Sua DS, nesse sentido, não apenas não ajudou o ceticismo, como atrapalhou a análise que ele poderia fazer da fala do novo filósofo com base em pura lógica. Você não pode fazer sua investigação partindo do pressuposto de que sabe o que o novo filósofo vai falar, senão incorre em Falácia de Espantalho, como neste caso que você mesmo citou.

    6) Quando eu disse que o ceticismo prático, da forma como se entende o termo ceticismo, poderia incorrer em ceticismo moral, e de que eu não via isso em seu uso dele, sua resposta foi:

    “Sim, é verdade, mas tomando como princípio que usa-se, pela dinâmica social, as bases do darwinismo (como o melhor paradigma para a explicação da espécie humana), podemos estudar os motivos pelos quais existem alguns valores que se solidificaram em nossas sociedades. Enfim, estudar a moral (embora não defini-la, como exageradamente diz Sam Harris) sob princípios científicos”

    Essa explicação mostra que a DS pode servir para explicar como alguns valores se solidificaram, mas em que isso tem a ver com ceticismo prático? Estudar a moral sob princípios científicos é tudo o que não é um ceticismo prático (menos ainda da forma como você definiu o seu: a prática do questionamento da autoridade de uma forma metodológica). De que forma isso responde à minha observação de que seu ceticismo não seria positivo, e de que, o que você faz de positivo não é mais por um viés cético?

    7) Acho que você entendeu mal minha colocação sobre aspectos positivos do ceticismo. Esse texto que você citou “ceticismo emburrado? não, otimista!” mostra bem que está tomando o termo “positivo” no sentido de “otimista” ou de apresentar bons resultados. Não é isso o que estou chamando de “positivo” na objeção. Uma teoria positiva é uma teoria que “afirma ou sustenta teses”, em oposição a uma teoria negativa, que apenas desconstrói teses. Ademais, a que você defende é, com seus próprios termos, “um modelo SISTEMÁTICO e IMPLACÁVEL de questionamento e desmascaramento, que não deixa passar fraudes intelectuais”.
    Ora, isso é um ceticismo negativo! Assim, quando eu disse que seu ceticismo parecia pretender-se positivo (pela conjunção que você pretende estabelecer entre ele e a DS), mas que não se justificava como tal, eu não quis dizer que ele parecia otimista, mas sim que ele não se mostrava sendo positivo (sustentador de teses, apenas revelador de fraudes). Eu quis dizer que você não separou a parte destrutiva de seu pensamento, que é levado adiante pelo ceticismo metodológico, da parte positiva ou construtiva do seu pensamento, que é a DS (que eu não analisei ainda), e que não tem dependência lógica e conceitual alguma em relação ao seu ceticismo metodológico.

    Isso significa que seu ceticismo, com efeito, não é positivo, embora possamos ser otimistas quanto ao que ele pode render criticamente quanto aos neo-ateus. E se a parte positiva, a DS, pode ajudar na crítica, não é mais uma ajuda de que o ceticismo mesmo precisa ou compartilha. Ele poderia se voltar contra ela mesma, pedindo o que eu pedi: que você a justificasse, pois, se você pode partir de um pressuposto injustificado para chegar a X, seu objetor pode partir de outro pressuposto injustificado para chegar arbitrariamente ao oposto do que você diz.

    8) Em resposta à minha questão sobre provar que o ceticismo pirrônico negava a possibilidade do conhecimento, você diz:

    “Entretanto, em relação aos pirrônicos, conforme sua definição, o ceticismo prático poderia colocar em dúvida se os pirrônicos “realmente continuariam procurando”. Poderíamos tomar a afirmação “eu continuo questionando” como uma alegação política, e, portanto, que deveria ser testada”.

    Claramente, isso não é uma prova, nem a hipótese de alegação política o eximiriam da necessidade de prova. Você é quem tinha afirmado a premissa básica: “eles negam a possibilidade do conhecimento”, então, seria falácia de inversão do ônus da prova dizer que eles precisariam provar que não negam a possibilidade do conhecimento, com base em um recurso gratuito à possibilidade de se tratar de uma alegação política. Você até poderia questionar isso, mas não nas vezes em que você é que afirmou o que precisaria ser provado.

    Mas mesmo se você não tivesse cometido falácia de inversão de ônus da prova, o fato de que uma proposição POSSA SER tomada como alegação política é razão necessária mas jamais é uma razão SUFICIENTE para que ela DEVA SER tomada como alegação política… ou seja, não dá para aplicar o método assim, indiscriminadamente, apenas porque você mesmo considerou essa afirmação como sendo potencialmente alegação política, quando ela na verdade poderia ser apenas um resultado das investigações epistemológicas sem sucesso feitas pelo cético. Neste caso, temos uma falácia de Causa Complexa: podemos levantar a dúvida hipotética sobre se de fato os pirrônicos “continuam procurando”, mas a necessidade de provar se isso realmente é verdade não seria decorrente de PODER SER UMA ALEGAÇÃO POLÍTICA… Ao menos, não sem justificativa. Ora, como é que que função política entraria aqui, sem um artifício de leitura da mente de sua parte? A posição epistemológica deles era a de suspender o assentimento e continuar investigando. Se a posição deles na realidade condiz com aquilo que dizem que ela é, isso é uma questão de meta-filosofia (neste caso, de coerência interna da posição pirrônica). haveria Falácia de causa complexa, então, porque não é preciso o recurso a uma suposta alegação política para que seja necessário averiguar se, de fato, os céticos continuam procurando a verdade. A necessidade de prova decorreria de ser uma afirmação primária, que reclama o ônus de provar, não de ser uma possível alegação política. Isso é Causa Complexa, recorre a coisas que podem não ter nada a ver com a questão.

    Parece-me que seu uso da DS está um tanto globalizado, e com isso você acaba vendo alegação política em muita coisa, mesmo naquelas que poderiam não ser mais que questão de pura lógica. Em muitos casos podem ocorrer (e vejo muitas mesmo nos discursos esquerdistas e neo-ateístas) mas o risco de Causa Complexa é grande sem critérios claros e rigorosos de aplicação. E o pior, é comum que ao termos uma falácia de Causa Complexa incorramos também em Falácia do Espantalho: porque você acaba acusando e atacando um problema do interlocutor no qual, na realidade, ele não incorreu. É um risco de se aplicar a DS antes o no lugar da velha e boa análise puramente lógica.

    9) Você diz:
    “Quando você me pergunta “Por que eu preciso acreditar em você quando diz que o ceticismo pirrônico negava a possibilidade do conhecimento?”, eu lhe responderia: “Você não precisa acreditar em mim”. Aliás, é por não acreditar (ou não concordar) que você lançou objeções interessantes, que me permitiram fornecer exemplos do que chamo de ceticismo prático”.
    Bem, a natureza da questão não era essa. Quando eu perguntei “por que” eu precisaria acreditar em você, eu pedi motivos para crer no que você disse. Isto fazia parte da mesma questão anterior, da necessidade de uma justificação de sua parte quanto à sua afirmação de que o cético negava a possibilidade do conhecimento. Então, eu pedia as razões pelas quais você justificaria isso. Ou seja, com efeito eu não preciso acreditar em você, mas não porque você está dizendo isso, e sim porque você deveria dar razões para que eu acreditasse que o pirronismo negava a possibilidade do conhecimento.
    Você continua:
    “Por exemplo, eu acredito que alguém pode estudar o ceticismo pirrônico, assim como alguém pode estudar qualquer coisa. Mas, tecnicamente, em termos de alegação política, se alguém afirmar ser mais “pirrônico” que os demais, então a partir disso temos uma alegação a ser provada.”

    Não sei por que o caso da alegação política entra novamente em cena. Eu já entendi o que é uma alegação política, mas não sei de que forma o exemplo de uma alegação política auxiliaria quanto à clarificação de sua afirmação de que eu não precisaria acreditar em você, quando o que estava em questão é que você era obrigado pelo ônus da prova a me dar razoes para acreditar em você. Sobretudo, é necessário que você prove o que diz, e assim, garanta que você mesmo não esteja dizendo coisas que poderiam ser apontadas por mim como alegação política. Afinal, se diante da necessidade de provar uma afirmação, você apenas analisa se ela pode ser ou não uma alegação política, posso considerar que você não está preocupado com a verdade do que afirma ou com a falsidade do que ataca, mas com a capitalização de adeptos. Entende a gravidade do ponto?

    10) Quanto à minha questão sobre em que sentido a posição pirrônica sequer precisaria de comprovação, você diz:

    “A grande diferença é que a análise da dinâmica social modifica todo o paradigma”.

    Concordo que modifique tudo, mas minha concordância pesa negativamente.
    A análise da dinâmica social MODIFICA o paradigma mesmo quando nada justifica que ele seja político. No caso analisado, nada no parágrafo permite você concluir que o caso se trate de uma alegação politica. Ali se trata de meta-filosofia. Você disse que o pirrônico defendia a impossibilidade do conhecimento, e ao invés de dar razoes para isso, mostrou exemplos diversos de alegação política. Percebe que muitas afirmações que você toma como alegações políticas só se tornam tais porque está vendo o mundo com os óculos da DS? É claro que muitas realmente o são, mas como nos dois casos que analisei acima, a leitura com base na DS acaba contaminando a compreensão, ao invés de depura-la.

    Preciso de uma justificação aqui: de que forma o parágrafo da objeção que fiz à a necessidade que você afirmou de se comprovar a posição pirrônica se conecta com os exemplos que você deu sobre alegação política? Ou, em outros termos, porque uma leitura da objeção que fiz com base em DS não seria de sua parte uma atitude arbitrária de tratar como alegações políticas o que está ali e pode não ser alegação política?

    11) Enfim. Entendi que seu ceticismo é prático no sentido de que você pratica o ceticismo como uma forma metodológica de questionamento da autoridade de um discurso criado para capitalização política. Eu só manteria ressalvas quanto aos critérios pouco precisos por meio dos quais você avalia e distingue uma afirmação que apenas PODERIA ser alegação política de outra que DE FATO é alegação política.

  2. Cara, estive super ocupado com o mestrado, e só agora consegui voltar ao seu blog. Lembro-me vagamente de ter visto que você tinha respondido minhas objeções, mas procurei e não encontrei o artigo. Poderia me enviar o link do último? Grato!

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