Quando um humanista “ainda não está entendendo” a questão do ceticismo político…

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Aprendi muitas coisas no passado com uma gerente sênior, a qual eu me reportava. Um dos costumes dela era dizer uma frase senha, de forma doce e amigável: “ei, você ainda não está entendendo…”. Era a senha para um feedback bastante forte por vir.

Por sorte, eu só ouvi isso duas vezes dela, e depois nunca mais. Enquanto isso, eu ouvia ela comentando com outros líderes e/ou gestores algo como “você ainda não está entendendo…” ou, até citando fragilidades de alguns deles: “ele ainda não está entendendo…”.

Era mais ou menos assim. Certa vez, um gerente recebeu a missão de justificar o escopo de um projeto, e os custos associados a ele no prazo de 4 horas. A justificativa deveria sair até as 18 hrs. Entretanto, o gerente disse que precisava realizar uma investigação de custos, que levaria duas a três semanas. Ela lhe disse: “Você ainda não está entendendo. Eu preciso da resposta para hoje…”.

Já um outro gerente, também amigo meu, costumava dizer o seguinte: “Ei, você tem déficit? Ou será que você é cotista? Se for o caso, me avise que daí eu trato com você de outra forma…”

No mundo corporativo é assim. Às vezes podemos ser sutis ou brutos para dizer que alguém aparentemente possui um déficit de entendimento em relação ao que está sendo solicitado, abordado, explicado ou trazido à mesa.

Acabei recebendo uma mensagem escrita por um visitante esquerdista deste blog, Bruno (será o Bruno Almeida?). Segundo uma fonte que me enviou a mensagem por e-mail, Bruno teria afirmado que ele é o “verdadeiro cético”. Já em relação a mim, Bruno teria uma crítica em relação a este que voz escreve: “[Luciano Ayan] tem um posicionamento ideológico muito forte, mas mesmo assim insiste em se passar por cético, que é aquele que duvida até mesmo das próprias opiniões (ora, não precisa ser nenhum cético para duvidar daquilo que os adversários dizem – isto não é ceticismo).”

Ou seja, em uma tacada só ele tenta o truque de self-selling, no qual se “vende” para a platéia como o auto-cético, que se questiona (e que por isso não deve ser questionado) e ao mesmo tempo diz que o oponente dele (eu, no caso) não seria cético.

Provavelmente, ele esteja acostumado ao conforto psicológico que recebe ao se auto-afirmar como “o cético, dentre os demais crédulos”, mas já expliquei em um texto contando a história de uma antiga cadelinha manca da família que não posso respeitar esse tipo de truque mesmo que ele sirva como um consolo ou uma fonte de satisfação de alguma carência afetiva.

Enfim, Bruno parece ainda não ter entendido que o ceticismo aqui é político, e eu não me declaro como auto-cético, mas sim como um conservador cético. Até por que alguém se declarar “o cético”, sem qualquer outro atributo anexo, é o truque dos verbos não especificados, conforme já abordei aqui. Assim como não faz sentido alguém se declarar “cético” (sem especificar o objeto do ceticismo), não faz sentido alguém se declarar “fazedor”. Essa pessoa poderia receber uma pergunta em retorno: “Ok, eu sei que você faz, mas você faz o quê? Doce de leite? Origamis? Apresentações em Power Point? Mariolas? Termos de projeto?”.

Ora, se o ceticismo é político, obviamente a alegação “sou cético, portanto me auto-questiono, creia em mim, me compre” recebe o mesmo crivo cético do que a afirmação “há um lobisomem no quintal”. Quer dizer, a mera alegação “eu sou cético, me auto-questiono, e ele não é cético, pois não se auto-questiona” não faz sentido algum diante de alguém que exerce o ceticismo político.

O ceticismo é político, pois, como já disse várias vezes, uma alegação é política quando, se aceita, traz benefícios para a pessoa ou o grupo que propaga essa alegação.

No caso, alguém convencer a platéia de que “é o auto-cético, e portanto se auto questiona”, é o mesmo que tentar vender a idéia de que “podem acreditar em meus argumentos, viu, gente, eles são argumentos bons, pois se eu os aceitei, é por que eles são bons, já que eu sou auto-cético, portanto me auto-questiono”. É claro que este é um truque que não passa pelo crivo cético aqui. E tudo isso sem eu precisar convencer a platéia de que eu sou “auto-cético”. Na verdade, meu serviço é desmascarar quem tenta esse truque por aqui. No caso, o Bruno foi desmascarado.

Em resumo, a afirmação “eu sou cético, de verdade, portanto me auto-questiono, e a pessoa X não é cético de verdade” não tem mais evidências do que a leitura na borra do café. E como o ceticismo defendido aqui tem ênfase nas alegações políticas, há um motivo adicional para questionar essa alegação, pois ela é uma alegação essencialmente política e focada em obter um benefício psicológico perante à platéia. Enfim, é o truque da cadelinha manca esperando ser afagada.

Que Bruno ainda não tenha entendido que no ceticismo político o principal ataque que ele faz a mim a a este blog é totalmente estéril, é algo que não me surpreende.

Minha antiga gerente sênior lhe diria que ele “ainda não está entendendo”. Já aquele meu outro amigo diria que ele provavelmente tem algum déficit mental…

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