Teste de conhecimento sobre ceticismo político: Qual o erro estratégico cometido na frase “Estado laico não é dono da sociedade”?

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Fonte: Paulopes

O arcebispo Eduardo Benes de Sales Rodrigues (foto), 71, da Arquidiocese de Sorocaba (SP), escreveu em defesa da prática de orações nas escolas que o Estado laico não é dono da sociedade. “O Estado não é dono das escolas e, ao organizar o processo de ensino, deve levar em conta o bem da sociedade como um todo”, disse em um artigo publicado no jornal Cruzeiro do Sul.

Ele sustentou o seu ponto de vista com o argumento de que o Estado é posterior à sociedade, e foi esta que criou aquele para garantir o “bem comum”, cuja definição está na Encíclica Mater et Magistra, de João 23.

No caso do Brasil, ele não citou nenhuma vez a Constituição democrática de 1988 que estabelece a laicidade do Estado, à qual todos devem se submeter por vontade da sociedade.

O arcebispo admitiu ser o Estado laico uma “conquista da racionalidade política”, mas afirmou que a sociedade precisa de “um fundamento transcendente para os valores sem os quais a paz social se torna impossível”.

Ou seja, pelo argumento dele, a religião é a única fonte de tais valores, o que é altamente questionável. Mas ele admitiu, também, que a intolerância religiosa compromete a liberdade de religião ou de crença, “sobretudo em Estados teocráticos”.

Dom Rodrigues defendeu a pluralidade do ensino religioso (embora na prática o que prevalece é o proselitismo católico), admitindo até mesmo, além de “outras opções religiosas, “a profissão de fé ateística”. A palavra “fé”, nesse caso, soa como uma provocação aos descrentes, porque, para eles, “fé” é um produto da irracionalidade.

O arcebispo escreveu: “O leitor pode estar perguntando por que falo de ‘profissão de fé ateística’. É que o ateismo é uma opção. Não se pode provar cientificamente a inexistência de Deus. A questão de Deus se coloca fora do campo da pesquisa científica. Ninguém encontra Deus por verificação empírica. Mas todos os cientistas acabam se colocando a questão: existe uma inteligência suprema que pensou o universo? Se existe, qual sua intenção ao desejar a existência do ser humano? É possível conhecer Deus? Quem é Ele e como Ele é? Mas esta não é uma questão a que as ciências possam resolver”.

Dom Rodrigues disse que a crítica à religião é bem-vinda porque, transcreveu Bento 16, “há patologias na religião que são extremamente perigosas e que tornam necessário encarar à luz da razão como um, por assim dizer, órgão de controle, a partir do qual a religião sempre deve se deixar purificar”.

Mas, prosseguiu na transcrição, “há patologias da razão (do que, hoje em dia, a humanidade em geral não tem exatamente consciência), uma hybris da razão, a qual não é menos perigosa, ao contrário, devido à sua potencial eficiência, muito mais ameaçadora: a bomba atômica, o homem como produto. Por isso, por outro lado, a razão também deve ser lembrada de seus limites e aprender a disposição de ouvir as grandes tradições religiosas da humanidade.”

Em que pese o esforço do arcebispo em se mostrar sintonizado com a contemporaneidade, ao reconhecer a importância da critica à religião, a sua oratória é saudosista porque remete a um Brasil colonial, quando não havia a separação entre o Estado e a Igreja Católica.

O fato é que, hoje, um Estado laico que se preze não pode admitir religião nas escolas públicas. E ponto.

Meus comentários

Errei. Não há apenas um erro estratégico, mas dois, nas palavras do arcebispo Eduardo Benes de Sales Rodrigues.

O primeiro é o erro de vestir a camisa de força do oponente, aceitando que eles estão “do lado do estado laico”, mas ele estaria a favor do mesmo estado laico, só que “com ressalvas”.

O problema é que a palavra “estado laico” é uma “senha” para abrir a mente de pessoas da platéia neutra (veja a perspectiva do triângulo para debates), e então ganhar o debate por antecedência.

Já mostrei aqui e especialmente aqui que aceitar a idéia de que o adversário “luta pelo estado laico” é pedir para perder o debate mesmo.

Na verdade, ao tentarem retirar quaisquer sinais da religião cristã da frente, os humanistas estão obtendo benefício a partir da intervenção do estado, e portanto o estado laico está sendo violado, pois o humanismo é beneficiado em detrimento do cristianismo.

Portanto, o arcebispo deveria se colocar totalmente à favor do estado laico e denunciar os adversários neo ateus e humanistas pelo fato destes violarem os princípios do estado laico, mesmo que finjam lutar por ele. E chamá-los de mentirosos na cara dura. Simples assim.

O segundo erro estratégico é usar frases como “a razão também deve ser lembrada de seus limites”, permitindo então que seu oponente fique cravado na mente da platéia como o “dono da razão”, que é exatamente uma rotina que já mapeei por aqui.

Quer dizer, Eduardo precisa treinar um tanto de ceticismo político para não cair nos truques do oponente, e, através do questionamento impiedoso, trucidar duas alegações dos humanistas:

  1. a de que defendem o estado laico, quando na verdade o violam
  2. a de que estão do lado da razão, quando na verdade apenas repetem a expressão “estou do lado da razão” à exaustão, mas não com comprovações específicas de estarem de fato do lado da razão

Mas, caso essas rotinas não sejam questionadas, a verdade nua e crua dos debates políticos é impiedosa: pelo mero uso estratégico de “senhas”, o adversário ganha.

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