Será que falta aos conservadores malícia para jogar o jogo político?

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Sou um colorado pé-rapado. Daqueles que assistem os jogos do Inter uma vez na vida e outra na morte. Sequer sei direito a escalação do time. Mas assisti esta semana ao jogo entre Inter e São Paulo, com vitória do Inter. O gol foi desse rapaz aí da foto (D’Alessandro).

Mas o importante, em termos deste blog, não é o jogo em si, mas a mensagem de indignação (justa) de um torcedor do São Paulo no blog do Birner. Segue a mensagem:

Bom, pra começar a crítica em cima de mais uma derrota do São Paulo, eu acho que vou dizer uma coisa em que todos concordam. O São Paulo NÃO TEM MALÍCIA PRA JOGAR FUTEBOL!

To cansado de ver jogador bonzinho, jogador mole, jogador sem raça, sem o mínimo de brio pra disputar uma partida.

O time tá uma merda e ninguém dá a mínima. Só vejo o lazarento do Luis Fabiano, correndo o mínimo, e que vai ficar de fora novamente de um clássico no domingo. Não são os jogadores que tem que mudar.

É A FILOSOFIA DE TRABALHO! Jogadores que não cavam faltas, não cavam expulsões, não fazem nada na malandragem. Pelo contrário, TODOS os times do Brasileirão estão cheios de jogadores espertos e que vão deitar e rolar no São Paulo.

O São paulo hoje parece um time sub-15 jogando. Faz falta no lance mais besta, chuta pro gol de qualquer lugar (Quem viu o chute do William José no final do jogo, da linha de fundo pro gol, pode confirmar) e toma cartão por reclamação TODO jogo.

Infelizmente, o futebol brasileiro está infestado de malandragem, que com a péssima arbitragem – o penalti do Flu e o gol anulado do palmeiras estão ae pra comprovar – vai se sagrar melhor quem souber jogar junto com o arbitro.

Não adianta jogar como LORDES, se o resto do campeonato é de times com os nervos à flor da pele. O São Paulo precisa criar vergonha na cara.

O que tem essa mensagem a ver com este blog? Simplesmente tudo!

O torcedor do São Paulo falou de um comportamento ingênuo e sem malícia de um time que está DISPUTANDO JOGOS.

Mesmo torcendo contra o Tricolor paulista, cheguei a ficar com pena deles a certo momento da partida, tamanha a ingenuidade com que encaravam o jogo. Do outro lado, a esperteza ajudou bastante. É, o mundo é dos espertos.

Quando escrevi o post anterior, “Jairo Filipe sai cagando regras, mesmo que tenha mais responsabilidade por abortos irrestritos do que pensa ter”, essa situação dos jogadores ingênuos caindo diante dos espertos, no futebol, me veio à cabeça.

Vamos avaliar como atuam os esquerdistas do perfil marxista no jogo político, em uma das facetas do jogo – que defino com o domínio da Janela de Overton.

De acordo com a Estratégia Gramsciana, a tomada de poder deve ocorrer após a consolidação da hegemonia, em que o senso comum conservador da massa é substituído por um novo senso comum, adaptado aos ideais esquerdistas.

Mas, para fazer isso e não sofrerem resistência, os gramscianos implementam uma série de idéias intermediárias, que aos poucos vão “anestesiando” a patuléia, para que progressivamente as idéias mais radicais sejam aceitas.

É por isso que muitos esquerdistas apóiam hoje a idéia de “Estado de bem social”, uma mistura de capitalismo e socialismo, pois sabem que esse é um meio termo entre o capitalismo e o socialismo, mas já deixa a patuléia anestesiada para quando vier o socialismo.

Isso explica por que a maioria da população argentina comemorou a estatização da Repsol-YPF. O país já adentrou ao socialismo, ao passo que Cristina Kirchner e sua turma já estabelecem um governo totalitário. Mas eles só chegaram neste estágio por terem galgado os degraus em uma “escada”, na qual o Estado de Bem Social foi um degrau intermediário. Se desde o início eles dissessem que iriam assumir o poder totalitário, ninguém ficaria a favor. Hoje, os argentinos comemoram a ditadura.

Enfim, depois de Gramsci, a tomada de poder de forma totalitária (objetivo final de todo beneficiário esquerdista) não é feita de sopetão, mas através de camadas sutis, em que a maioria da população nem percebe o que está acontecendo.

Do outro lado, teríamos os oponentes dos esquerdistas, que seriam, é claro, os conservadores.

Mas a maioria destes parece optar não por jogar o jogo de acordo com a Janela de Overton, mas usar a posição 8 ou 80, o que significa sair do jogo político e ir diretamente para a espiral do silêncio. Em especial quando a esquerda se encontra em estágios avançados de implementação.

Vamos ao exemplo do aborto. Coloquemos de acordo com a gradação da Janela de Overton algumas posições, sendo 1 a mais radical contra o aborto, e 5 a mais radical a favor dele:

  1. Totalmente contra o aborto, em quaisquer casos
  2. Aceita o aborto somente no caso da mãe correr risco de vida
  3. Aceita o aborto somente em casos de estupro e/ou estágios iniciais de gestação
  4. Aceita o aborto em qualquer circunstância
  5. Aceita até a morte de recém nascidos

Hoje em dia o debate está entre 3 e 4, com alguns mais espertinhos querendo levá-lo para o estágio 5. Quem assume a posição 3 tem um argumento no qual ao mesmo tempo consegue defender os direitos das mães em decidirem sobre seu corpo como também defender os direitos das crianças que ainda nem possuíram seu desenvolvimento cerebral. Esta é a posição que adotei. Posição esta abominada por Jairo, que orgulhosamente ostenta a posição 1.

Tecnicamente, respeito o direito dele ter a posição 1, mas não posso deixar de constatar que, tanto pela teoria da Espiral do Silêncio como pela Janela de Overton, ele está fora do jogo. Enquanto eu estou no jogo, e posso fazer algo para salvar algumas crianças (em estágios avançados de gravidez) de serem vítimas do aborto, Jairo já não tem mais nada a fazer.

A regra é clara: quem não participa do jogo, não pode sequer pensar em ganhar. Ele, ao entrar na espiral do silêncio e estar longe da discussão (pela janela de Overton), não participa da contenda.

Avaliemos agora a questão do relacionamento entre gays, seguindo o mesmo modelo anterior (1 sendo a posição mais radical contra, e 2 a posição mais radical a favor):

  1. Totalmente contra o relacionamento gay, pedindo a prisão de gays confessos
  2. Tolera o relacionamento gay, mas não aceita a imposição deste comportamento e defende o direito de ser contra
  3. Apóia o relacionamento gay, e participa de comunidades LGBT
  4. Apóia fervorosamente o relacionamento gay, e acha que qualquer crítica a eles deve ser criminalizada
  5. Endeusa o relacionamento gay, pedindo a prisão de heterossexuais

Hoje em dia, felizmente, não há defensores da posição 5, e acho que dificilmente isso irá ocorrer. Entretanto, a posição 4 é fervorosamente defendida por esquerdistas, sendo que alguns deles estão na posição 3. Espertamente, Silas Malafaia, o maior dos líderes anti-gayzismo do Brasil, adota a posição 2, que é facilmente defensável, pois ao mesmo tempo em que se respeitam os direitos dos gays, é respeitado o direito daqueles que não querem que o homossexualismo seja culturalmente imposto aos seus filhos, por exemplo.

Esse é um dos raros exemplos onde hoje em dia os conservadores estão fazendo um bom jogo.

Podemos avaliar, com os dois exemplos citados, o motivo pelo qual os abortistas irrestritos estão cada vez mais próximos de sua vitória, enquanto que os gayzistas estão comendo o pão que o diabo amassou para conseguirem aprovar a PL 122.

Isso ocorre por que os conservadores, que estão na posição 2 (facilmente defensável), não saíram do jogo. Já anti-abortistas como Jairo Filipe, ao adotarem a posição 1 (ou seja, na escolha entre 8 ou 80, ficam com o 8), simplesmente pediram para sair.

Para “enraizar” o conceito, vamos a um outro exemplo, agora falando de uma área que gosto bastante, dos estudos darwinistas. Vamos à gradação pela Janela de Overton:

  1. É criacionista da Terra Jovem, se opondo totalmente ao darwinismo
  2. É adepto do design inteligente, aceitando o darwinismo com reservas
  3. Aceita o darwinismo com reservas, mas entende que a teoria é “só uma teoria”
  4. Aceita o darwinismo por completo, achando que as teorias rivais são uma piada
  5. Aceita o darwinismo como paradigma absoluto para a vida, e acha que os oponentes devem ser extirpados da vida acadêmica

Os criacionistas, ao ficarem contra o darwinismo de forma radical, caíram nas garras daqueles que optaram pela posição 5. Pior ainda, por estarem associados com entidades criacionistas, adeptos da posição 2 ficaram culturalmente “marcados” como aqueles a serem tirados do debate também , ou seja, outras presas fáceis daqueles que estão na posição 5.

Tecnicamente, o interesse pela posição 3 quase não existiu, pois os oponentes do darwinismo optaram por 1 ou 2.  Quem é adepto da posição 4 (como eu) não tem do que reclamar, mas quem é adepto da posição 5 também hoje se encontra em situação confortável. Hoje, o debate da questão darwinista se baseia nas posições 4 e 5.

Enfim, é assim que o jogo funciona, e não sou eu quem criou essas regras.

Para entender que estamos diante de um jogo, no qual a vitória é importante, é preciso de um tanto de malícia e alguns quilos de esperteza. É preciso deixar de ter esperanças na bondade dos oponentes.

Também é preciso ceder em alguns pontos para adotar argumentos que não sejam tão facilmente demolidos em um debate.

Posições extremistas são facilmente lançadas na espiral do silêncio, e as posições extremistas da esquerda somente se materializaram pois eles subiram lentamente os degraus jogando o jogo previsto na Janela de Overton.

E já vou avisando, antes de qualquer lamúria: entender como funciona o jogo político e estudar os efeitos da espiral do silêncio e da Janela de Overton não é “ser maquiavélico”. (Expressão que causa tremores em alguns)

É entender que às vezes precisamos moderar algumas de nossas iniciativas políticas, e saber que extremismos só tem lugar, em termos políticos, quando se está muito próximo da obtenção do poder, não quando se está distante dele.

Se alguém quer “defender” as crianças indefesas, não é assumindo a posição 1 na Janela de Overton que conseguirá salvar qualquer uma delas. Pelo contrário, o máximo que essa pessoa conseguirá é sair do jogo, sendo lançado na espiral do silêncio, e então facilitando a vida dos mais extremistas pró aborto.

Se aparecer algum movimento anti-gayzista relevante que defenda a “prisão de gays”, isso seria assumir a posição 1 na Janela de Overton, sair do debate, caindo na espiral do silêncio. A esquerda só teria a agradecer se isso ocorresse, pois os gayzistas mais extremados conseguiriam implementar a criminalização da crítica ao homossexualismo com mais facilidade.

No caso do darwinismo, não há mais nada o que fazer. Posições extremistas, e associações de moderados com extremistas (como no caso do design inteligente no passado), somente ajudaram os darwinistas mais radicais, que venceram a contenda, chegando a um estágio no senso comum onde dicilmente a situação será revertida. Eu, como sou darwinista, já disse que não tenho do que reclamar. (Alguns até diriam que 49% dos norte-americanos acreditam no criacionismo, mas isso é irrelevante em termos políticos, pois entre os intelectuais e membros da mídia, o darwinismo ganha de lavada)

Um argumento que ouvi recentemente é o de que, se aceitarmos as posições intermediárias, até defendendo-as, estamos aos poucos ajudando os extremistas da esquerda a implementarem as suas posições extremadas.

Isso significaria que, se aceitarmos o aborto de anencéfalos, estamos abrindo o caminho para o aborto de recém nascidos. Se aceitarmos a eutanásia a pedido do paciente, estamos abrindo as portas para a eutanásia forçada. Se aceitarmos o casamento gay, com ressalvas, estaríamos abrindo brechas para a proibição do comportamento heterossexual. E daí por diante.

Mas a teoria da Janela de Overton diz exatamente o oposto. Ao adotar posições extremistas, especialmente diante de grupos que sejam pertencentes ao outro extremo e já estejam em estágio avançado de conquista de espaços na guerra política, isso significa sair da discussão, pois o espectro desta discussão já foi deslocado para um eixo do qual esta posição extremista encontra-se distante.

Portanto, um anti-abortista que seja contra a pílula do dia seguinte já não participa mais da discussão sobre o aborto. Ele tem um papel decorativo e funciona como diversão caricatural para os adeptos mais extremados do aborto.

E, por fim, qual o aspecto que tem levado à esta situação dramática, na qual muitos conservadores pensando combater os esquerdistas, estão mais colocando lenha na fogueira que os está queimando, ante o regojizo dos esquerdistas? É aquilo que eu defino como ausência de malícia.

Muitos conservadores não perceberam que, como John Gray diz, só temos a constatar a vacuidade da política, que não passa de um jogo para a obtenção de poder. De um grupo ou de outro.

E a única coisa a fazer em favor da causa em que se acredita não é sair do jogo, mas jogá-lo. Com esperteza.

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18 COMMENTS

  1. Eu conheço isso, graças a Deus eu jogo o jogo nos degraus (quando aparece a oportunidade de discutir sem ataques em bando de irracionais) e guardo aquilo que acredito para o momento em que estarei livre para falar abertamente (aparentemente nunca acontecerá, é a realidade que vejo, mas fazer o que).

  2. Ha! Não é que eu lembrei de mais um exemplo? Nesse também muitos conservadores se perdem na hora de defender maior combate à criminalidade:

    1. Defende execução sumária, tortura, linchamento e nenhuma garantia aos criminosos: “Bandido bom é bandido morto.”
    2. Defende pena de morte e/ou prisão perpétua para alguns crimes, com o devido processo legal.
    3. Defende penas mais longas, redução da maioridade penal e progressão de regime mais demorada.
    4. Defende o sistema atual: penas curtas, progressão rápida, coitadismo criminal.
    5. Abolicionista penal: “Direito penal só controla os excluídos do sistema capitalista, logo deve acabar.”

    E nessa aparecem Alborghetti e Bolsonaro defendendo 1. Fica facílimo para o esquerdista dizer que eles são “inimigos da democracia”, “fascistas” e descartá-los do debate.

    • A Argentina já é um país onde a invasão de órgãos de imprensa é encarada com normalidade. O que falta para serem um regime totalitário?

    • Bom, assim como existem vários tipos de esquerdistas, existem vários tipos de conservadores, e eles podem discordar… Normal, não?

  3. Apenas um adendo, LH.

    No item origem da vida, existe uma posição 1.5: criacionistas da Terra jovem que concordam com o evolucionismo com reservas.

    Quando debato com evolucionistas ateus ou teístas, eu busco iniciar a questão com a pergunta: qual a idade do planeta e do sistema solar apenas considerando-se, sem nenhuma premissa ideológica, os geocronômetros ora conhecidos e qual o margem de confiabilidade de cada um desses geocronômetros? Inevitavelmente, tergiversam pois para eles a idade da Terra ser de, aproximadamente, 4,5 bilhões de anos já se tornou uma petição de princípio; não conseguem sequer conceber uma realidade em que isso não seja verdade. Esse transtorno obsessivo causa risos em alguns amigos meus, criacionistas da Terra jovem com doutorados e pós-doutorados em astrofísica nuclear, geologia, arqueologia e bioquímica, entre outras áreas, (não, não é a falácia do apelo à autoridade, é que tem muito mulá semi-letrado falando besteira em nome do criacionismo).

    Voltando ao ponto, o verdadeiro debate não deve ser entre criacionismo e evolucionismo mas sobre a idade deste planeta. Se a Terra for jovem, a lista que você elaborou restringe-se a 1 e 2; se for muito antiga, de 3 a 5. Simples assim.

    Isso me lembra aquele filmete dos anos 70, Star Wars: quando (repito: quando) conseguirmos acertar um traque dentro do duto de ventilação da Estrela da Morte, não vai sobrar nem os tijolos da parede onde está montada a Janela de Overton para essa discussão. Dá trabalho e é academicamente arriscado, sei, mas, como no filme de Lucas, o show pirotécnico vai ser mais enlevante que o da queda do Muro de Berlim.

    [ ]s.

    • É verdade. Mas sendo anti-esquerdista, um libertário, tal qual um conservador, é um não-crente da relígião política. Ou, melhor, é um cético em relação à religião política 😉

  4. Não tô entendendo, Luciano… Você apresenta 5 posições possíveis e diz que só 2 realmente fazem parte das opções possíveis. Como pode isso não ser uma falsa dicotomia?

      • Isso é falso Luciano, sinto muito. Eu já debati sobre o aborto adotando a posição (1) e fiz o cara que defendia a posição (3) sair desmoralizado. E mais: Boa parte dos leitores – me refiro a Brasil – concordam com a posição (1), então a defesa dela ajuda a posição que desejam os leitores, foco do debate.

        A minha impressão, Luciano, é que as vezes você se concentra muito mais em propagar a sua ideologia que o debate contra a esquerda em si, e isso me incomoda(esse post é um exemplo disso… Exemplo?: Nunca nem ao menos cheguei PERTO de ser ridicularizado por crer no Design Inteligente, conforme você sugere). Não estou dizendo que você o faz de propósito, mas isso vem ocorrendo nos teus posts mais recentes.

        Abraço!

      • Olá Catolicoresp,

        Na verdade, não é uma “ideologia” que tenho propagado, mas sim um sistema de pensamento, que transcrevo aos poucos, que envolve:

        1. Ceticismo político
        2. Conservadorismo cético
        3. Todo o “kit” para ser usado no jogo político, incluindo mapeamento de rotinas, falácias, etc.
        4. A abordagem da dinâmica social, que ajuda a explicar os efeitos que as ações dos outros tem em debates políticos (ex. pq é eficiente o uso do termo “razão” e “representante da ciência” e qual o mecanismo evolutivo que faz com que a platéia ouça estes somente pelo uso destes rótulos)

        E daí por diante.

        Em relação à “ridicularização”, você me entendeu errado, e creio que foi mais por erro meu do que seu. Creio que isso tem ocorrido talvez por que eu tenha sido menos detalhado.

        Ao escrever “debate”, eu pude dar a entender a idéia de debates em particular.

        Eu realmente concordo com quase tudo o que você disse no segundo parágrafo, independente da sua posição na Janela de Overton, você pode ganhar ou perder debates.

        Mas eu deveria ter escrito “debate público”, que é o fórum mais amplo, onde as idéias são aceitas ou não em um fórum tão amplo que inclui: as universidades, os meios de comunicação, a cultura, etc… até o ponto em que a platéia (a massa) se torna influenciada.

        E temos que avaliar uma estratégia pelos resultados que ela gera.

        Se o interesse é salvar crianças de serem abortadas, é esse critério que temos que usar para avaliar a estratégia da direita.

        Abs,

        LH

      • Acho que entendi sua resposta, Luciano. Foi por outros meios, então vou tentar explicar pra ver se é isso mesmo:

        No contexto filosófico, temos 5 opções, e nesse contexto restringir a discussão a apenas 2 delas seria uma falsa dicotomia.

        No contexto político, apesar de termos 5 opções, 3 delas são excluídas porque serão facilmente ridicularizadas, ou outro motivo que as torna inviáveis nesse contexto.

        Nesse caso, você faz uma espécie de “redução de danos”: aceita uma posição que pra você é filosoficamente inaceitável apenas para impedir que a pior opção prevaleça.

        Política é foda mesmo, tem que ter estômago… 😉

  5. A meu ver, o funcionamento da janela tem regras diferentes para diferentes casos.

    Quando se trata de ser absolutamente intolerante quanto aos criminosos, defendendo a pena de morte ou coisa que o valha, isso claramente auxiliaria a posição extremamente oposta, que, com justeza, nomearia a primeira de fascista para cima. E o mesmo vale, sem dúvida, para o caso dos homossexuais: se a maioria defendesse a proibição da conduta, a isso se bradaria: “cerceamento da liberdade individual!”, e, novamente, constituiria um argumento à favor da posição 5.

    Mas quanto ao aborto, a chave do jogo seria criar coletividade dentro da posição 1, não em uma posição intermediária. E digo por quê: se você admite aborto em certos casos, já não pode dizer nada contra todos os outros, pois seu único trunfo é o princípio da dignidade humana, que tem sua aplicação máxima no direito à vida. Se largar mão dela, largou mão de tudo. Não tem mais como defender nenhum tipo de restrição. Assim, se uma feminista diz “vou abortar porque eu quero”, aquele que defendeu uma posição intermediária saiu do jogo, porque relativizou a dignidade humana no primeiro caso, e agora não tem argumento moral de peso para impedir o segundo.

    Pelo contrário, se todos os anti-aborto defendessem a posição 1, o debate necessariamente penderia para o tema da dignidade humana, e a questão então não poderia se resolver com tosca jurisprudência, seria preciso bem mais tempo e talvez uma revisão da Constituição. Isso não apenas retardaria a aprovação do caso em questão, como poderia impedir a legalização de outros casos, mesmo a longo prazo, pois não só a coletividade em torno de 1 poderia mostrar de modo cada vez mais incisivo o problema ético de tomar a existência humana como sendo digna apenas enquanto existência humana consciente e produtiva, como também, quem afirmasse que a existência humana digna seria restrita apenas ao conceito de “personalidade civil” teria de garantir isso, senão não haveria legalidade.

    O problema em torno do aborto é que muitos que eram totalmente contra defenderam posições intermediárias, isto é, por entenderem como excessiva resistência, abandonaram a única resistência realmente possível.

  6. Só pra deixar claro aqui pros outros leitores: Ainda prezo por esse blog. Tanto é assim que não deixei de seguí-lo.

    Eu entendi que também era para debates públicos, mas não pensei em algo tão amplo(como uma plateia enorme que você sugeriu, até porque não tenho essa influência tão grande nem de longe), e é exatamente nesses que eu ganhei o debate com a defesa do ponto (1) no aborto.

    Como eu mesmo não tenho experiência em debates públicos amplos no nível que você propôs, me complica opinar nesse sentido, mas **acredito** que tal como eu fiz isso em um debate menor, mas com alguns leitores, é possível que se faça isso em debates mais amplos.

    No mais, agradeço sua atenção. Abraço!

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