O que o darwinismo é, o que o darwinismo não é

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Recentemente presenciei com pena erros grotescos de entendimento do que é o darwinismo, e inclusive erros de entendimento quanto ao que darwinismo pode ou não explicar.

Como já disse anteriormente, não existe mais foco em respostas ao Jairo (como já disse neste post, que cita outros 3), mas apenas a citação a aspectos das atitudes dele que agora somente servem para que eu explane mais sobre o que é o darwinismo.

Infelizmente, o erro de Jairo não é só dele. Já vi outros casos de pessoas que acabam visualizando o darwinismo de uma maneira totalmente diferente daquilo que ele é.

Por exemplo, me lembro de ter escrito que o darwinismo explica “todos os componentes do animal humano”, o que é verdade, incluindo a origem da moral, a sedução, o logro, a política, e daí por diante. Entretanto, o darwinismo não nos diz QUAL a moral devemos ter e nem a validade filosófica da moral.

Para entender isso, temos que lembrar o que é uma falácia genética. Dizer a origem de algo (incluindo a moral, o estupro, o assassinato, a fidelidade, a infidelidade, a religião, o esquerdismo, etc.) não implica em validar se este algo é correto ou não em termos filosóficos, éticos ou o que valha.

Vejamos um outro exemplo: em 2001 foi publicado “A Natural History of Rape”, livro de  Randy Thornhill e Craig T. Palmer, que explicava as bases biológicas para a coerção sexual. O estudo era feito baseado na análise do estupro (sexo não consensual) em várias outras espécies animais, em comparação com a espécie humana.

Infelizmente, muitos se revoltaram com o livro, alegando que ele “defende” a ótica do estupro, quando os autores são explícitos ao afirmarem exatamente o contrário. Ao entender o mecanismo que gera o estupro, não é feito nenhum juízo de valor a respeito de se devemos estuprar ou não. Aliás, ao entender a ORIGEM do instinto do estupro, podemos entender que “educar” as pessoas contra o estupro pode não ser algo tão eficiente quanto a punição ao mesmo.

Esse é o tipo de engano maior que alguns inimigos de Darwin cometem. Ao observar que a teoria fala de características da espécie humana, muitos entendem que a teoria diz “como devemos agir”. Nada mais falso.

Quando se fala em “componentes” do animal humano, também não falamos em todas as características do animal humano, mas dos componentes do HARDWARE humano. Ou seja, aquilo que vem gravado nos instintos e não pode ser separado da maioria dos humanos. Mas o diacho é que o ser humano, tal qual os computadores, não é feito apenas de HARDWARE, mas também de SOFTWARE. E por SOFTWARE podemos entender como todo o conhecimento que adquirimos, a cultura nas quais nos inserimos, a doutrinação que sofremos, e por aí vai.

Tentar explicar a busca humana por solidificar uma cultura é um dos objetos de estudo do darwinismo, mas dizer qual cultura temos escolher não é.  Isso seria um território complexo demais para uma teoria que tem como um de seus principais objetivos o estudo comparativo entre as espécies.

Aliás, se o darwinismo explica todos os componentes encontrados na espécie humana em geral (do hardware, é claro), a teoria do Big Bang explica o surgimento de todo o universo. Mas, assim como o darwinismo, o Big Bang não nos diz como devemos direcionar nossa ética. E, como sabemos, universo significa “tudo o que existe”. (Algum ignóbil poderia fazer a risível tentativa: “mas se explica tudo o que existe, então explica a ética e daí diz como devemos agir”.)

Enfim, fica óbvio que tomarmos o darwinismo como um direcionador ético é incorrer em um erro injustificável. Se o estudo, no caso da espécie humana, fala dos componentes genéricos, não fala em como devemos agir, pois já somos “contaminados” pela cultura existente.

Podemos claramente entender o motivo por que desenvolvemos o apreço pela verdade, assim como as justificativas biológicas para o alto altruísmo. Isso não significa definir se devemos ou não dizer a verdade se alguém pede a nossa senha bancária.

Outro equívoco de entendimento sobre o darwinismo é entender que a expressão “benefício”, em termos evolutivos, se torna um guia de auto-ajuda. É exatamente o oposto, pois ao descrever componentes da espécie humana que nem sempre são úteis para o indivíduo, terminamos descobrindo que eles são úteis para a ESPÉCIE. Um exemplo, como já abordei no passado, é o alto atruísmo, que faz alguém sacrificar a sua vida por outra pessoa. Qual o benefício para o indivíduo que está sacrificando sua vida? Nenhum. Mas para a espécie a existência desse instinto é extremamente útil e serve para fortalecer a proteção entre indivíduos. Como se nota, o  ‘cui bono’ é descoberto no nível de espécie.

Ora, se muitas vezes o tratamento do “benefício” é no nível de espécie (não do indivíduo), buscar o tipo de resposta abaixo no darwinismo é o mesmo que buscar padrões nas nuvens:

  1. Devemos assistir o Big Brother ou não?
  2. Devemos torcer para o Santos ou para o Corinthians?
  3. Quem eu devo achar mais gostosa: a Dani Bolina ou Nicole Balhs?

O darwinismo simplesmente explica o processo de mudança de características hereditárias de uma população de uma geração para a outra. Por esse processo, as populações de organismos mudam ao longo do tempo. Em termos genéticos, ocorre a alteração na frequência dos alelos de um conjunto de genes em uma determinada população, ao longo das gerações, e as mutações podem alterar características existentes ou produzir novas características. Parte central da teoria darwinista, a seleção natural explica como as caracterísicas hereditárias que aumentam a chance de sobrevivência e replicação se tornam mais comuns em uma população, enquanto as características danosas se tornam mais raras, já que indivíduos com características vantajosas tem suas chances de replicação aumentadas, e por isso mais indivíduos na geração seguinte herdam estas características. Além de tudo isso, temos explicado o processo de especiação, que define o surgimento de novas espécies, a partir de espécies já existentes.

É por isso que estudamos todos os componentes centrais não só dos seres humanos, mas também dos cachorros, doninhas, marmotas, esquilos, porcos, capivaras, crocodilos, etc.

O darwinismo nos ajuda a entender os componentes, especialmente físicos, presentes em cada espécie, e como esses componentes foram úteis para a sobrevivência da espécie. Ao estudarmos os instintos das espécies, buscamos rastrear o mesmo tipo de benefício.

E quanto a alguns comportamentos padronizados na espécie humana? A psicologia evolutiva nos ajuda a entender a por que alguns desses comportamentos evoluiram por seleção natural. Podemos por exemplo entender o surgimento de mecanismos para detecção de mentiras, estratégias para a sedução e até a cognição espacial. Quanto mais universais as características, mais objeto de estudo da psicologia evolucionista elas são.

O darwinismo, assim como a psicologia evolutiva, não buscam nada além disso. Não são cosmovisões, filosofias de vida, manuais de auto-ajuda ou doutrinas que devam nos dizer o que fazer a semana que vem. O darwinismo não é um horóscopo, uma ideologia e muito menos uma religião. Decerto existem pessoas que entendem o darwinismo como uma religião, mas isso é um problema delas, não do darwinismo.

Aliás, se alguém quiser basear sua moral no darwinismo, pode até fazer uma tentativa. Mas para sustentar essa posição, precisaria primeiro encontrar um sistema filosófico que diga que as decisões devem ser escolhidas em termos darwinistas. Mas aí surgiriam problemas, pois no darwinismo os “benefícios” são definidos em termos de espécie, grupo, indivíduo e gene, no que podemos chamar de seleção multi-nível. Será que o adepto dessa nova ideologia poderia usar só os benefícios em termos de invidíduo e ignorar o resto? Mas aí já não seria mais darwinismo…

O darwinismo é somente uma teoria científica que busca entender as espécies, as ligações entre elas e os mecanismos que levam algumas espécies a serem bem sucedidas em comparação com outras, em termos evolutivos.

Se alguém quiser buscar muito mais do que isso no darwinismo, melhor ir procurar em outra seara.

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12 COMMENTS

  1. Luciano escreveuw:

    «
    me lembro de ter escrito que o darwinismo explica “todos os componentes do animal humano”,
    »

    Eu por outro lado, faço questão de enfatizar que várias dessas “explicações” estão longe de serem comprovadas *empìricamente* 😉 A origem “darwinista” da moral nos seres humanos, e mesmo o “embrião de moral” que a Etologia já detectou em muitas espécies de vertebrados, só poderia ser confirmada *de-fato* através de algum dispositivo “visualizador do passado”, o qual infelizmente e até agora ainda não foi inventado 🙂 Enquanto essa confirmação não acontece, essa e outras “explicações darwinistas” são tão boas quanto a justificativa espírita para a ocorrência da reencarnação 😀 Pelo contrário, é até possível que — sendo comprovado o modelo teórico dos *campos morfogenéticos* elaborado pelo biólogo Rupert Sheldrake — tenha sido a moralidade dos humanos que tenha induzido o surgimento de “comportamentos morais” em outras espécies de vertebrados, há centenas de milhares de anos ^_^

  2. Muito bom, só quero fazer uma crítica a sua analogia entre os humanos e computadores que por sinal a uso muito.

    O Hardware está ok, mas o software não seria a cultura e sim a consciência a razão e o intelecto.
    A cultura é somente informação que dispõe e não algorítmos ou programas de como gerenciar estas informações.
    Ex: No windows você tem um software chamado word e tem seus documentos arquivos .docx, os arquivos docx são apenas informações armazenadas em disco, não são software, são manuseados pelo software que é o programa que consegue ler este arquivo.

    Por software poderiamos entender também os metaprogramas da PNL e outros mecanismos psicológicos.

    Uma pergunta, onde posso encontrar um bom material sobre psicologia evolutiva, gostaria de interar do assunto.

    T+

  3. Oi, Ayan. Achei correto você desmascarar os que refutam o darwinismo a partir da falácia do apelo ao conseqüente. Os que enveredam para esse despenhadeiro geralmente descambam para a chantagem emocional.

    De fato, o evolucionismo é uma tentativa de explicar objetivamente a vida neste planeta, sua diversidade e características – e explicações, por objetivas, são neutras e amorais. Se alguns extrapolam esse escopo, aí já se trata de estupidez e/ou má-fé.

    Entretanto, mesmo que não queiram (e certamente não querem), as explicações propostas pelo evolucionismo influenciam a visão de mundo dos indivíduos e sociedades – influência que pode se refletir significativamente em termos de dinâmica social.

    Ora, uma, digamos, teoria assim tão impactante pode e deve ser testada ao extremo de seus limites, se não por honestidade intelectual, ao menos por prudência. Vou tentar exemplificar com um caso pessoal em outra área de conhecimento.

    Cristãos, por definição e origem (e fatalidade intrínseca, diriam os neoateus), são proselitistas – os evangelhos e epístolas neotestamentárias descrevem exaustiva e sistematicamente essa particularidade, que John Lennon tanto deplorava. Um colega meu aqui da empresa contestava cabalmente a pessoalidade do Deus cristão embora até admita Sua existência. Alegação clássica: a existência do mal e do sofrimento, mais especificamente de inocentes. Durante os últimos meses, venho-lhe expondo a apologética baseando-me nos textos sagrados – a rebelião luciferiana, o livre-arbítrio de cada criatura pensante, este planeta como um campo de concentração provisório e isolado do universo, as diversas fases do conflito para resgate da humanidade e extinção do mal bem como a iminência de seu término, entre outras doutrinas. Ele me ouviu atentamente, fez inúmeras perguntas, confrontou as respostas entre si e, por fim, concluiu:

    – “De fato, é uma narrativa interessante, diria até impressionante. Possui consistência, desfaz contradições aparentes e é perfeitamente verossímil. Contudo, verossimilhança não implica veracidade. Veja: a saga de Tolkien, apesar de bela, fascinante e complexa, é sabidamente fictícia. De igual modo, a cosmovisão cristã que você tenta me empurrar não deixa de ser pirandelliana, pois “assim é, se lhe parece”.

    – Então – respondi-lhe – a questão não se resume a tomar a narrativa bíblica apenas pela coerência interna, mas testar suas afirmações para fora de suas páginas, confrontando-as com diversos domínios de conhecimento, como a História, a Biologia, a Paleontologia, a Astronomia, a Geografia e outros. Estudar, por exemplo, profecias como as do livro de Daniel, feitas em meados do sexto século a.C., e verificar se não são patacoadas poderia ser um começo, que tal?

    O rapaz anda cabreiro com a minha proposta. Não preciso fazer leitura mental; ele próprio já deixou no ar que afirmações são mais resistentes à aceitação quanto mais mexam com nossos valores e atitudes cotidianas.

    Esse longo preâmbulo, Ayan, serve de comparação com as propostas da psicologia evolutiva, que, para citar meu colega, me parece igualmente pirandelliana; logo, deve ser testada para além de sua verossimilhança. Isso posto, gostaria que você lesse o artigo apontado pelo link abaixo:

    http://www.scb.org.br/artigos/FC01-27a42.asp

    É um texto antigo, da primeira metade dos anos 70. Precede em quase duas décadas a proposição da Teoria do Design. Poderia ser, inclusive, retificado por criacionistas qualificados. Mas sua idéia original segue firme: tentar demonstrar que o evolucionismo – ao menos quando extrapola a explicação para a diversificação de gêneros e espécies, enveredando pelas demais categorias taxonômicas (famílias, ordens, classes, filos, reinos) – tem-se revelado não mais que um postulado, ou seja, “uma exigência feita ao raciocínio, de tal maneira que, desejando-se pensar a respeito de um certo domínio da realidade, dever-se-ia pensar de acordo com esta exigência ou dever-se-ia não pensar”. Mais: esse postulado não satisfaria sequer as exigências para ser considerado científico, restringindo-se apenas a um aspecto filosófico.

    Bom, era isso. Se puder ler, desejo-lhe uma boa leitura e desde já agradeço pelos textos do blog, que venho acompanhando diariamente.

    Um abraço.

  4. Luciano Ayan,

    Sou leitor assíduo do seu blog a quase um ano.

    Devo a você o esclarecimento sobre os estratagemas da esquerda. Estava contaminado com ideologias de esquerda e nem sabia (isso até o momento em que adentrei nessa página).

    Depois eu te conto melhor minha história.

    Não concordo com tudo o que você escreve, no entanto, são diferenças pontuais que podem ser tratadas em uma outra ocasião.

    Por exemplo. Achei o debate entre você e o Jairo uma perda de tempo. Não tive paciência de ler o conteúdo por completo, foi deveras extenso de ambas as partes.

    Ficar vendo dois oponentes da esquerda discutindo sobre casos específicos de aborto enquanto esquerdistas vão tomando cada vez mais espaço nessa e em outras esferas é complicado.

    É a mesma coisa se vocês ficassem debatendo se Jesus Cristo é o Filho de Deus ou não ao passo que esquerdistas varrem do mapa toda influencia religiosa cristã no meio da sociedade implementando em suas bases doutrinas e ideologias humanistas.

    Em outras palavras, vocês perdem tempo com isso, se isolam de debates com esquerdistas, enquanto eles agem livremente.

    A platéia, na contramão de ver um conservador desmascarar um esquerdista, terá que engolir um debate frontal entre conservadores sobre temas pontuais (ajustes finos de crença).

    Como seu leitor, vou te dar um conselho. Na medida do possível, evite debates desse tipo.

    Sobre o seu artigo eu tenho uma pergunta:

    Ficou claro em seu texto que o darwinismo não se preocupa em fixar um código moral padrão a ser seguido, ou seja, no darwinismo é impossível afirmar se o estrupo é moralmente correto ou não.

    Nesse sentido você acha que teistas conservadores ao debater com neo ateistas darwinistas estão em vantagem?

    Em outras palavras.

    Como um conservador teista deve se portar ao debater com um neoateu darwnista quando este ataca frontalmente a moral religiosa ao mostrar para a plateia todos os crimes, atentatos e genocídios cometidos pela religião, seja ela cristã ou não?

  5. Poxa, fiz um comentário no post anterior, em cima de uma réplica sua ao Jairo, que cairia muito bem aqui. Aliás, aqui, você desenvolveu de modo mais aprofundado e, especialmente, didático, o cerne da ideia que eu defendi de modo bem truncado lá: o darwinismo é uma teoria científica, com objeto, escopo e campos de aplicabilidade próprios e definidos.

    Um trecho do seu texto me dá um gancho para um exemplo inusitado e até divertido. É este:

    “(…) Decerto existem pessoas que entendem o darwinismo como uma religião, mas isso é um problema delas, não do darwinismo.
    (…) se alguém quiser basear sua moral no darwinismo, (…) para sustentar essa posição, precisaria primeiro encontrar um sistema filosófico que diga que as decisões devem ser escolhidas em termos darwinistas.”

    Isso me lembrou um vilão recorrente dos X-Men: Apocalypse. Ele é um mutante poderoso e que tem uma cosmovisão darwinista (em verdade, um darwinismo muito reduzido e simplificado – estamos falando de quadrinhos!), segundo a qual apenas os mais fortes e aptos devem sobreviver. Por isso, ele prega o aperfeiçoamento dos já superiores, os mutantes, pela engenharia genética, e a escravização e eventual exermínio dos humanos, já “sabidamente” mais fracos. Ele, inclusive, respeita especialmente os heróis e mesmo outros vilões que já tenham conseguido o derrotar.

    O mais curioso é que ele é bem fundamentalista: lembro de uma história em que a Falange, uma entidade de alienígena de mente coletiva (tipo os borgs de Star Trek) tentaram “assimilar” os computadores e alguns “capangas” lá da base dele. Depois de muito tentar impedir, e vendo que não ia dar jeito, ele… deixou!

    Disso dá para ver a que ponto se chega quando se tenta transformar uma teoria científica (que, ao menos, se sustenta) em cosmovisão: a pessoa fica tão caricata como um vilão de HQ…*

    * Volto ao que vejo como exemplo-mor: os eco-chatos, que às vezes extrapolam a eco-chatice para cair no eco-terrorismo puro e simples. Alguns se comportam como genuínos mensageiros do fim do mundo… até que você pergunta quantos Protocolos de Kyoto são anulados por uma erupção de cinzas vulcânicas de médio porte…

  6. Luciano,

    Antes de ir ao ponto, apenas um detalhe.

    Você diz:
    “a teoria do Big Bang explica o surgimento de todo o universo. Mas, assim como o darwinismo, o Big Bang não nos diz como devemos direcionar nossa ética”.

    Este apelo ao Big Bang acaba em falácia de falsa comparação de sua parte. Como o Big Bang não pretende dizer absolutamente nada sobre a origem dos valores morais, então, com efeito, obviamente ele não tem nada a dizer sobre ética. Mas DISSO não se segue que, da mesma forma, o darwinismo não pretende direcionar a ética… Porque você disse que o darwinismo pretende se pronunciar sobre o surgimento de valores morais… Assim, pode ser que realmente não pretenda, mas se o darwinismo pretende ou não um direcionamento ético, o Big Bang em nada pode auxiliar a mostrar isso: é uma falsa comparação.

    Ao ponto!

    Você diz:
    “me lembro de ter escrito que o darwinismo explica ‘todos os componentes do animal humano’, o que é verdade, incluindo a origem da moral, a sedução, o logro, a política, e daí por diante. Entretanto, o darwinismo não nos diz QUAL a moral devemos ter e nem a validade filosófica da moral”.

    Concordo plenamente que, se o darwinismo pretendesse dizer o que é certo ou errado em moralidade ele incorreria, certamente, em uma falácia genética. Pois seria dizer que algo é justo ou injusto e verdadeiro ou falso com base em sua origem. Mas o ponto para mim não é precisamente este, mas o da origem genética dos “valores morais”.

    A propósito, não ficou muito claro aqui o que você quis dizer com “origem da moral”, então vou fazer objeções entendendo que você tenha pretendido dizer “origem dos valores morais”, porque foi isso que você escreveu em seu post “Ceticismo ‘Prático’ Respondendo a Importantes Objeções…”.

    Bem, você diz por exemplo, que a origem do instinto de estupro é explicada geneticamente. Supondo que isso seja o caso, podemos logicamente concluir APENAS que o instinto de estuprar é geneticamente EXPLICADO”; ou, no máximo, que “a conduta de estuprar é baseada em um instinto de estupro cuja origem é geneticamente explicada”. Claramente, isso não tem nada a ver com origem do valor moral em torno do não estuprar.

    Quando consideramos uma conduta qualquer e acerca dela dizemos “isso é correto e eu recomendo”, então temos um valor moral. Desta forma, para que alguém diga algo acerca do “surgimento de um VALOR moral (isto é, de como surge a aprovação e a recomendação de uma conduta) seria preciso dizer “por que e como” o homem passou a considerar um comportamento como certo e recomendável (seja ou não este comportamento baseado em um instinto supostamente explicado pelo darwinismo). Isto é, se um darwinista tem algo a dizer sobre “como os valores morais (e não apenas os instintos) se originam geneticamente”, é preciso fazer bem mais do que uma explicação da origem do instinto. Senão haveria um salto lógico da ideia de “instinto” para a de “valor” de uma conduta.

    É por isso que, em meu comentário ao seu último destinado ao Jairo, (e reforço que é isso o que eu penso) eu disse que o darwinismo não somente (A) não pretende direcionar a moral (como você bem o diz) como também (B) nada tem a dizer mesmo sobre a origem dos valores morais – muito embora possa ter teorias a oferecer sobre origem dos instintos, que precisariam se justificar, inclusive quanto à cientificidade do método.

    O ponto (A) você mesmo já respondeu: o darwinismo não pretende direcionamento moral. Mas vou mostrar o problema relativo ao ponto (B). Minha solução, como disse, é a de que o darwinismo não tem nada a dizer sobre origem de valores morais – independente de ter ou não algo a dizer sobre origem genética de instintos.

    Vou usar o caso que você citou do livro de Thornhill e Palmer (vou levar em contra suas palavras porque não conheço o livro). Se o entendimento da origem do instinto de estupro permite a alguém concluir que não é eficiente educar contra essa conduta, mas apenas punir, convenhamos que essa conclusão não decorre apenas de uma explicação da origem do instinto, e que envolve uma super teoria do instinto! Admitindo hipoteticamente que esse método pudesse explicar de modo bem-sucedido a origem de instintos, nenhum darwinista conseguiria explicar, meramente com base nessa explicação biológica, como, por exemplo, um comportamento instintivo se tornaria, apesar de instintivo, reprovado pelo homem… Para isso seria preciso sair do método científico.

    Com base nesse trecho, e também com base em outros darwinistas que tratam do assunto, podemos vislumbrar um pressuposto gigantesco da leitura darwinista da moralidade: o instinto de estupro que está sendo considerado como CAUSA EFICIENTE da conduta, eliminando a deliberação ou então reduzindo-a ao instinto. Note, somente porque o instinto está sendo tomado como causa eficiente da conduta é que faz sentido o autor dizer que “apenas o mecanismo punitivo possa inibir o agente humano a não cometer estupro”. Um darwinista (como John Gray – não sei se o conhece) poderia dizer: sem o mecanismo punitivo, a conduta humana não seria nada diferente do comportamento animal; o homem iria estuprar condicionado (quase determinado!) pelo instinto; e sabemos que ele não é absolutamente determinado pelo instinto porque a punição é capaz de inibir a conduta.
    Tudo seria menos problemático se o autor fosse menos pretensioso e dissesse apenas que “o instinto de estupro tem sua origem geneticamente explicada”; neste caso seria preciso mostrar apenas isso (e seria mais científico do que dizer que “a educação não seria capaz de inibir o estupro”, isso muda todo o panorama para uma filosofia ética). Por que digo isso? Porque, embora isso realmente não implique, por parte do darwinismo, a postulação de um imperativo (um “isso deve ser feito”), a forma de ele conceber o instinto em relação à deliberação implica um retorno à velha questão do determinismo ou da liberdade de escolha. Note que, dizendo isso, ele já não estaria apenas tratando de descrever a origem de instintos que poderiam ser rejeitados pela deliberação do indivíduo ao ponderar sobre sua conduta, mas dizendo que a deliberação mesma não exerce tanta influência sobre a conduta quanto o instinto, ou que a própria deliberação não seja mais que um impulso instintivo (por isso, como aos cães que adestramos, só podemos punir…).

    Hume, por exemplo, sustentou uma moral naturalista na qual os valores teriam origem no sentimento de reprovação e aprovação. Não há justificação para essa teoria dele, mas ela explica coerentemente os juízos de valor com base nos sentimentos. Por exemplo, os sentimentos de repúdio quanto ao estupro estariam na base dos juízos de reprovação dele. Mas no caso do darwisnimo, o problema é o fato de pressupõe que o instinto seja um tipo de “essência da deliberação”, de tal modo que a conduta não se oriente por ela, mas pelo instinto a que ela está subsumida.

    O problema em si não é haver um instinto de estupro, mas, sim, como o darwinismo explica que esse instinto de estupro superpõe a decisão da pessoa ou é a verdade proibida por trás do que ingenuamente estaríamos chamando de “deliberação”. Assim, não é pela explicação genética do instinto em si, mas pela concepção de que o instinto determina a vontade (cumprindo um propósito da espécie!) que o darwinismo seria uma dentre as várias filosofias que defendem o determinismo da vontade, e precisa se justificar nisso.

    Por isso eu digo, se quer falar de origem de valores morais, ele tem de se justificar de um ponto de vista filosófico, afinal, se sua teoria do instinto estiver certa (e não apenas suas explicações da origem de instintos), somos todos irresponsáveis por nossos atos, e inimputáveis por eles. Que o darwinismo fale, então, apenas da origem genética dos instintos, para não se tornar, de uma perspectiva alheia a seus propósitos, uma mera reformulação da velha querela filosófica do determinismo, que então teria como pressuposto metafísico disfarçado de ciência a alegação de que a natureza da deliberação é instintiva.

    Assim, ficam as perguntas. Se o instinto está na base da deliberação, de tal modo que sem punição não seria possível controlar eficientemente um instinto, isso deixa totalmente inexplicado (a) por que muitas vezes não acedemos a comportamentos instintivos e, mais que isso, (b) como a muitos nós reprovamos. Ao dizer “se se quiser inibir eficientemente o estupro, é preciso punir”, isso não tem nada a dizer sobre o porquê de considerarmos o estupro errado, percebe? Ou seja, ao contrário do que você diz, ele não está tratando de origem de valoração moral, mas no máximo (e ainda carecendo de justificativas científicas) de instintos motivadores (não determinantes) da ação.

    Abs. Eduardo

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