Que tal usar o neo ateísmo para destruir o esquerdismo?

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Tempos atrás, eu escrevi um texto entitulado “Meus sinceros agradecimentos aos quatro cavaleiros do apocalipse: Dawkins, Dennett, Hitchens e Harris”. Lá, reconheci a influência dos autores neo ateus (menos na prática da mentira, é claro) em meus escritos.

Agora, vou um pouco além, e quero defender aqui a “reconstrução” (ao invés de desconconstrução, como solicitaria Derrida) de PRATICAMENTE TODO o material escrito pelos autores neo ateus, só que transcrito para atacar a religião política.

Para isso, vamos avaliar algumas constatações:

  1. A religião política possui várias manifestações, incluindo marxismo, humanismo, nazismo, etc. Cada uma dessas é uma manifestação do esquerdismo, e o neo ateísmo é apenas uma variação específica do humanismo mais radical. Portanto, estudar o neo ateísmo é o mesmo que estudar uma “espécie” de esquerdismo.
  2. Todas as “espécies” de religião política se baseiam no mesmo dogma central (crença no homem), e por este compartilhamento da crença central existe uma forma de “simpatia” que alguns membros de uma variação da religião política nutrem por outra – embora existam exceções, no caso específico do nazismo e comunismo, que nutrem rivalidade desde a Segunda Guerra Mundial. Mas no geral, eles estão sempre “alinhados”.
  3. Por causa desse alinhamento, é normal que eles atuem muitas vezes em conjunto. Um exemplo disso é na estratégia de apologia ao gayzismo, na qual os neo ateus participam para atacar a religião (por esta não apoiar o comportamento gay), as feministas atuam para atacar a “opressão masculina”, e os demais esquerdistas em geral abarcam essas estratégias. Por essa sinergia, é natural que a atuação em conjunto os leve a compartilharem truques, estratagemas e estratégias.
  4. Uma das estratégias centrais dos marxistas é o “acuse-os do que fazemos”, propagada por Lênin. Isso significa pegar todas as culpas que se possui e aplicá-las ao oponente, usando os estratagemas comuns aos esquerdistas. Pelo compartilhamento de truques e estratagemas, mencionado no item 3, espera-se que não apenas os marxistas propaguem a máxima de Lênin, mas todos os esquerdistas. Isso inclui, naturalmene, os neo ateus.
  5. Logo, é esperado que, ao lermos o material neo ateísta, no qual eles atacam a religião tradicional, estejamos na verdade vendo as culpas que eles (humanistas) possuem mas querem na verdade imputá-las à religião tradicional. Portanto, lido da maneira correta, PRATICAMENTE TODO material neo ateísta pode ser transformado não em uma acusação contra a religião tradicional, mas uma confissão do que o humanismo (tal qual todo esquerdismo) realmente é.

É preciso ter cautela em alguns pontos, obviamente.

Por exemplo, reconhecer que o material neo ateísta descreve, após ser demolido e depois “reconstruído”, tudo que os humanistas representam em ideologia delirante e perigosa, não significa isentar a religião tradicional de todas as denúncias que sofreram.

Na verdade, algumas dessas denúncias são bem aplicáveis, como algumas críticas ao favorecimento que alguns pastores exigiam em termos de “não questionamento”. Também concordo com as críticas feitas à rejeição de teorias científicas, como o darwinismo, por parte de alguns adeptos do criacionismo. Então, que fique claro: reconhecer que quase todo material neo ateísta (após reconstruído) serve mais para a religião política que para a religião revelada não significa dizer que ele NÃO SIRVA de forma alguma para a religião revelada.

Esclarecido este ponto, podemos prosseguir.

A reconstrução proposta aqui não se baseia em pegar TUDO o que os neo ateus escreveram e reescrever (mudando exemplos, citações, contextos, etc) para atacar a religião política, mas quase tudo.

Existem algumas partes, naturalmente, que não se aplicam à religião política, como a crença no sobrenatural, a qual não é uma das facetas da religião política. Entretanto, a crença no homem (e na possibilidade de que o homem poderá, por sua ação, mudar sua contingência e criar o paraíso na Terra), é mais ridícula ainda do que qualquer crença sobrenatural. Portanto, mesmo nos pontos em que o neo ateísmo reconstruído não é diretamente aplicável para a religião política, podemos investigar extrapolações que nos levam em muitos casos a encontrar a convergência.

Vamos ver como funciona essa reconstrução na prática.

Pegue, por exemplo, o primeiro capítulo de “A Morte da Fé”, de Sam Harris. Se você tem o livro, a tarefa vai ficar fácil. Se não, abstraia.

Logo no início do capítulo, Harris usa duas páginas para narrar um evento dramático: a história de um terrorista que entra em um ônibus e explode uma bomba em seu corpo, matando várias pessoas. Harris conclui essa introdução dizendo: “Por que, então, é tão fácil, tão trivial – quase poderíamos apostar a própria vida, de tão fácil -, deduzir qual é a religião deste jovem?”.

A resposta que Sam Harris quer forçar o leitor a aceitar é “islamismo”. E por isso o islamismo seria culpado pela bomba explodida, certo? Errado, pois, dentre outras constatações, existem milhares de islâmicos que não agem assim. Entretanto, a Al Qaeda tem um padrão de comportamento que nos remete à mentalidade revolucionária e por consequência à religião política. Como John Gray já nos explicou em “Al Qaeda e o que significa ser moderno” (ver meu texto Por que a Al Qaeda e os neo ateus são farinha do mesmo saco?), a culpa não é do islamismo em si, mas da influência humanista (e suas respectivas crenças de salvação do mundo pela ação política) dentro da Al Qaeda. Logo, aplica-se todas as duas páginas iniciais para um caso contra o humanismo. Ou seja, Harris começa como acusador e termina como culpado.

A partir daí, Sam Harris usa abordagens como “uma crença é uma alavanca que, uma vez acionada, move quase tudo o mais na vida de uma pessoa”, o que é óbvio. Mas novamente, segue tudo aplicável ao humanismo, muito mais que ao islamismo. E daí sucessivamente.

Basicamente, a “reconstrução” que proponho é exatamente essa. Encontrar tudo (mas tudo mesmo) que está nos textos dos autores neo ateus, ver o que é aplicável mais à religião política do que propriamente à religião revelada. Daí reinterpretar o material, escrevendo novos textos, expondo as culpas da religião política.

Alguém poderia dizer: “Luciano, mas esse é só um exemplo do início do livro. Será que dá para fazer o mesmo com todos os outros textos deles?”. Você vai se surpreender com o fato de que 80% a 90% do material é plenamente mais aplicável à religião política do que ao cristianismo ou humanismo.

Tomemos como exemplo outro ponto do livro de Harris.

Na página 16, ele usa a abordagem de que respeitarmos a religião “moderada” é um erro. Aliás, já usei uma abordagem semelhante aqui, mas aplicada à religião política. Nesse momento, Harris cita: “De acordo com pesquisas do Gallup, 35% dos americanos acreditam que a Bíblia é a palavra literal e infalível do Criador do universo”.

Essa técnica é um “break” utilizado para ele demonstrar que a religião fundamentalista é aceita em mais quantidade do que parece.

Mas podemos reescrever o parágrafo citando pesquisas do Gallup ou outro instituto denunciando a quantidade de americanos que acreditam no Occupy Wall Street, movimento político reconhecido por seu radicalismo, apoio a idéias genocidas, totalitarismos e conhecido por estuprarem suas próprias amigas de manifestação. (Os casos de estupro nas manifestações do Occupy Wall Street foram amplamente noticiados)

Como se vê, é muito fácil reconstruir os textos neo ateus para atacar a religião política.

Vamos a outro autor, Richard Dawkins, em seu “Deus, um Delírio”. Em certo momento, Dawkins faz um “case” contra a doutrinação escolar. Segundo Dawkins, as crianças deveriam ficar “livres” de qualquer doutrinação de cunho religioso. Eu concordo com Dawkins, mas devemos ter um cuidado ainda maior com a religião política. Ou seja, apologias a Marx e ao gayzismo são exemplos de doutrinação da religião política. E, se devemos proteger as crianças da doutrinação da religião tradicional (ao menos na escola pública), que façamos o mesmo em relação à doutrinação da religião política. Enfim, o argumento para isso foi fornecido pelo próprio Dawkins.

Daniel Dennett já opta por fazer um “estudo da religião”, segundo ele, de forma científica. Entretanto, basicamente o que temos é a proposta de um humanista, conforme já demonstrei no texto O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Dennett, tal qual Dawkins e Harris, é um crente retinto na religião política. Os três, como humanistas, não são investigadores, mas os investigados, após a reconstrução do material. Todo o livro “Quebrando o Encanto”, escrito por Daniel Dennett, pode ser reescrito para um estudo de toda a religião política.

Enfim, não podemos esquecer que para ocorrer a reconstrução é preciso antes de uma demolição. Ao demolir as alegações neo ateístas, e usando o método proposto aqui, tomamos como base que os autores estavam na verdade imputando culpas deles e suas doutrinas para os outros e as doutrinas dos outros. Com isso como princípio, vamos atrás da culpa que conseguimos descobrir durante este processo de demolição, e a partir daí reelaboramos a denúncia feita por eles, mas agora direcionada aos reais culpados.

Com este texto, fiz apenas a introdução ao método, mas se surgirem dúvidas, obviamente farei novas abordagens.

O que importa é que você poderá ter uma NOVA perspectiva no momento de denunciar e expor as chagas da religião política.

Está com falta de idéias para criar um blog e escrever um texto atacando a esquerda? Quer saber as culpas da religião política? Tomando como base a premissa de que a esquerda sempre age usando o lema “acuse-os do que fazemos”, as acusações dos autores neo ateus contra a religião política funcionam definitivamente como uma confissão do que eles (os religiosos políticos) efetivamente sempre fizeram. Essas “idéias” estão todas lá nos livros dos autores neo ateus, desde que você faça a demolição do que eles escreveram e reaplique os escritos, agora direcionados à religião política. (Faço novamente o alerta de que é realmente possível que um ou outro trecho ou capítulo desses autores não se aplique à religião política. Neste caso, deixe essa parte de lado e procure outra que se aplique.)

Unimos o útil ao agradável. E ainda assim poupamos tempo.

Por terem apresentado um caudal de acusações sem igual contra a religião revelada, Dawkins, Dennett, Harris e Hitchens nada mais nada menos nos ajudaram a descobrir exatamente o que eles são.

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3 COMMENTS

  1. “Segundo Dawkins, as crianças deveriam ficar “livres” de qualquer doutrinação de cunho religioso. Eu concordo com Dawkins”

    Você concorda com isso? em que sentido? os pais devem ser privados de transpassar sua “bagagem cultural” aos filhos? acho isso mais uma bobagem de Dawkins, gostaria de uma elucidação!

    • Acho que me expressei mal, realmente. O que eu defendo é o seguinte: se a doutrinação religiosa em escolas PÚBLICAS não pode, também não deveria poder a doutrinação em religião política. Mas se os pais quiserem transmitir sua bagagem cultural aos filhos, sem problema algum. Abs, LH.

  2. Boa tarde Luciano!
    Como já falado por voce, a mudanca demografica americana (isto é geral na cultura ocidental) uma das causas da derrota dos Republicanos. Podemos dizer que nesta nova demografia encontram-se todos os simpatizantes do Occupy Wall Street. Certo? do mesmo modo que perguntei no artigo referido: os republicanos devem atrair parte desta demografia? abs

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