Ceticismo na prática: novas objeções, novas respostas, e a constatação de que a dinâmica social envenena tudo. E isso é bom!

26
109

No meu texto “Ceticismo ‘prático’: tratando importantes objeções… e já não era sem tempo”, respondi algumas objeções do leitor Eduardo. Ele surgiu com novas objeções, novamente relevantes, que são tratadas aqui.

Comecemos:

Se você puder e quiser responder, eu gostaria de saber porque deixou de ser teísta e se tornou incréu, já que citou isso. Primeiramente, achei um tanto curioso que você tenha julgado relevante dizer isso no início do seu post. Quanto ao abandono do novo ceticismo, havia contexto para cita-lo, mas quanto a não ser mais teísta, confesso que isso me pareceu uma bela irrupção do inconsciente, com seu poder magnífico de entrar em cena quando não esperamos que ele entre, pretendendo, TALVEZ, dizer que, em sua forma pessoal de se relacionar com a crença, era preciso deixar claro para os leitores que, ainda que racionalmente possa defender o contrário, do ponto de vista do inconsciente, você ainda entende a fé como algo mais fraco do que ser cético. Pode ser uma leitura errada de minha parte, mas não precisa me acusar de leitura da mente, eu mesmo já estou me acusando. Mas realmente pareceu-me que você precisasse mostrar que não acredita, porque subjetivamente entende que não acreditar, de certo modo, fosse torna-lo mais qualificado como cético.

Eu não vejo desta forma, e acredito que exista um erro de entendimento, do qual eu também sou culpado. A dinâmica social teve papel fundamental nessa transição para minha descrença em Deus – então, a culpa não foi do modelo de ceticismo aplicado aqui. Não acredito também que a adoção do ceticismo aqui defendido irá levar alguém ao ateísmo ou agnosticismo, longe disso.

Você descreveu: “pareceu-me que você precisasse mostrar que não acredita, porque subjetivamente entende que não acreditar, de certo modo, fosse torna-lo mais qualificado como cético”. Já eu avalio de forma bastante diferente. Uma das especializações do ceticismo político praticado aqui é dirigida aos neo ateus, que tem como principal foco de ataque os teístas. Ao atacar os neo ateus, “metralhando-os” com uma saraivada impiedosa de questionamentos, desmascaramentos,  ridicularizações  e conscientizações contra eles (todos são componentes do que defino por ceticismo de combate, que também pode ser chamado de “debunking”), politicamente seria ainda melhor que eu fosse teísta.

Mas em um período (no qual ocorreu meu desapego à crença em Deus), no início de 2011, deixei de ser teísta. A prática (não a leitura) da dinâmica social teve papel fundamental neste processo, como já disse.

Basicamente, é o seguinte: cada pessoa tem seus motivos particulares para crer em Deus (assim como para não crer). Alguns acreditam que os argumentos para a existência de Deus são convincentes, outros relembram da experiências pessoais, outros possuem isso enraizado em sua cultura, e daí por diante. Esses motivos podem ser agrupados, portanto não é uma questão de escolher entre um motivo e outro, mas ter uma carteira de motivos. Como já disse antes, uma carteira de motivos PESSOAIS existe para alguém acreditar em Deus e não acreditar nele. Já no meu caso, eu tinha um único motivo (e nada mais que isso) para crer em Deus: eu considerava a espécie humana como “extra” em relação aos outros animais, de modo que o darwinismo não conseguiria explicar o link entre nós e outras espécies. Sendo uma espécie a parte, que foi capaz de conceber Deus, minha intuição levava a crer em Deus. Daí vinha o resto, incluindo o aceite de argumentos convincentes, como os de William Lane Craig, mas sempre o motivo central foi essa sensação que eu possuía de que a espécie humana era diferenciada, não pertencendo a mesma categoria que o “resto” das espécies do mundo. A prática da dinâmica social, no entanto, de forma sistematizada e profunda, me levou à sensação oposta, a de que o ser humano não é especial em relação aos outros animais. Estudando as reações instintivas do ser humano, em situações limite, e de forma metodológia, comecei a ver que não havia mais motivo para ver o ser humano como algo diferenciado no portfolio de espécies do mundo. De imediato, minha crença em Deus desabou.  (Aos poucos, na série “A Verdade Nua e Crua”, que pode ser vista aqui, falarei mais da dinâmica social)

Eu não quero dizer que todos devam chegar à mesma conclusão, jamais pensei nisso. Eu simplesmente quis dizer que meus MOTIVOS PARTICULARES (algo que vai muito além de ser um cético ou não) para crer em Deus deixaram de existir. Não acho que a descrença em Deus seja necessária para aplicar TODO o paradigma cético defendido aqui, pois ele é um método que pode ser usando tanto por um ateu militante contra um teísta, como por um teísta (ou ateísta) contra um neo ateu.

Quanto ao assunto em si, o fato mesmo é que não vejo essa tendência incrédula em seus textos (talvez porque esteja respondendo aos esquerdistas e aos neo-ateus), mas tudo o que vejo é você dizendo que não crê, não textos de um incrédulo. A hipótese que eu lanço é a de que seu uso do ceticismo que pode ter se tornado tão injustificadamente globalizado quanto, em seu exagero próprio, os racionalistas o fazem por não medirem o alcance nem os limites da razão e, assim, enxergarem o mundo unicamente pelo óculos do racionalmente justificado. O detalhe é: como eles não tiram sequer hipoteticamente esses óculos, porque para o tirarem exigiriam justificação, não percebem que o ônus da prova é antes deles mesmos, que afirmam que a razão é a única postura válida de consideração do que é aceitável ou verdadeiro em todo o plano existencial. Essa é a primeira afirmação, os racionalistas e céticos racionalistas é que tem o ônus de provar que isso tem de ser assim.

Nesse caso, recomendo que você busque os textos do final de 2011 para cá. Há uma incredulidade em relação às crenças da religião política. Realmente a incredulidade em relação à Deus é algo novo para mim em fase blogger (eu já havia sido ateu no passado, antes do blog).

Em relação aos “racionalistas”, o ceticismo político aplicado aqui já muda completamente a interpretação. Você diz que eles “enxergam o mundo unicamente pelo óculos do racionalmente justificado”, mas isso já é uma alegação da parte deles. Isso pode ser um exemplo da rotina Dono da Razão. É como o exemplo da cadelinha Kika, que repetia um ato instintivo (mancar, mesmo que não estivesse com dor), pois ela recebia carinhos toda vez que mancava. É exatamente assim que funciona com alguns racionalistas, que dizem que “só aceitam o que a razão propõe”, mas em muitos casos vejo que eles apóiam causas humanistas, que são extremamente irracionais, e facilmente demolidas com um crivo investigativo.

Neste caso, se a alegação “sou portador da razão” é política, temos que investigar A VIDA deste alegador do racionalismo e pedir que ele justifique todas as suas escolhas (ou a maioria absoluta delas) em termos racionais. Nesse ponto, ele adquire um ônus da prova, especialmente em termos políticos. É como no exemplo da prostituta que diz que dá mais prazer que as outras mulheres da zona. Como ela prova que dá mais prazer? Medimos isso como? Colocamos sensores no cérebro dos parceiros sexuais dela? Dizer que “é da razão” gera o mesmo tipo de ônus, em termos políticos. Essa é a proposta defendida aqui.

Já o ceticismo político não possui alegações deste tipo. Podemos ter um esquerdista questionando alegações de um direitista, assim como um direitista questionando alegações de um esquerdista. Um neo ateu questionando alegações de um teísta, e um teísta questionando alegações de um neo ateu. Todos, consecutivamente, devem usar o máximo possível o framework de desmascaramento do adversário. Isso por que, como já expliquei no passado, nas organizações o controle de qualidade da emissão de faturas não é feito pelo gerente de faturamento, mas por uma área apartada. Enfim, a investigação sempre cabe a uma área que NÃO POSSUI O INTERESSE NA ENTREGA. No mundo corporativo, isso tem o nome de SEPARATION OF DUTIES.

O ceticismo político já é aplicado no mundo corporativo há muito tempo. Só no mundo filosófico, ideológico ou político ainda existem pessoas que usam rotinas como Auto-cético. O que proponho é dar um término à essas rotinas no ambiente de debates argumentativos também.

Ora, basta, como exemplo, a hipótese de que o plano consciente/racional, como nos lembra Jung, seja apenas uma parcela do psiquismo, e os métodos de análise psicoterapêutica bem mostram quantos conflitos surgem se resolvem totalmente alheios ao campo da razão e à sua lógica, tendo sua origem e configuração pela lógica própria do inconsciente. Não estou dizendo que aquilo que não é do plano da razão seja irracional, contra a razão, mas que é não-racional, imensurável e impossível de ser justificado por ela, e isso em nada limita seu significado, que talvez seja de importância muito mais vital à existência humana em seu todo do que aquilo que conseguimos entender dela pela razão. A meu ver, um caso característico disso é a fé. E Jung tem ótimos argumentos também em favor disso.

Sim, mas muitos que alegam serem “racionalistas” hoje atendem pelo nome de humanistas. E acreditar que o ser humano irá criar um paraíso na Terra, por sua ação, resolvendo suas contingências, requer MUITO MAIS FÉ do que para acreditar em espíritos. Por isso escrevi o texto Crentes religiosos são mais livres pensadores?.

Não sei se sua incredulidade seria decorrente de um ceticismo globalizado, que também é uma forma de racionalismo de exigência excessiva quanto ao que se aceitar como digno de crença (pois também entende que só o racionalmente justificado é digno de ser acreditado). Por isso, gostaria de ouvi-lo a respeito: saber se sua incredulidade é uma escolha, e, caso sim, com base em que a teria feito. Ou, se é consequência de uma restrição do campo semântico aos significados logicamente obtidos, e caso sim, como justificaria isso. Ou ainda, se é de outra forma, que forma seria essa, e como ela se justificaria.

Acho que até o momento há um “gap” de entendimento aqui. Eu sugiro a leitura dos textos meus mais recentes para resolver esses problemas. O ceticismo que pratico é focado especialmente quanto à religião política, na mesma medida em que os neo ateus aplicam ceticismo contra a religião tradicional. Logo, não é tão “globalizado” assim. Mas, por ser um ponto fora da curva, eu também sou cético em relação à religião tradicional (neste ponto, não digo que quero ser exemplo para alguém). No texto O inimigo do meu inimigo é meu amigo, eu mostro o motivo de minha priorização ao questionamento à religião política, junto com minha simpatia pela religião tradicional.

Motivos para o ceticismo em relação à religião política? Tecnicamente, são idéias que tem ajudado a implementar regimes totalitários, o que sempre é uma consequência diferente daquela que os crentes políticos funcionais queriam. A contagem de mortos dos regimes da religião política supera muitas vezes a contagem de mortos da religião tradicional. O pagamento de impostos em volume criminoso é culpa das crenças dos religiosos políticos. Enfim, eu poderia citar muitos motivos para o ceticismo em relação à religião política, e isso não é a falácia do apelo à consequência. As consequências das idéias delirantes da esquerda são um motivo A MAIS para os investigarmos. Só isso.

Você diz: “Mas o ceticismo é um mecanismo instintivo do ser humano, portanto, mesmo sem um método, ele será inevitavelmente executado. Em suma, eu retiro toda a abordagem metafísica do ceticismo, atribuo a ele uma análise que investiga a origem do ceticismo em nosso DNA (ou nosso instinto, que o valha), defino um método e reduzo o escopo, para apenas o ato de questionar uma alegação de qualquer tipo. Simplesmente assim.” Talvez seja preciso apenas que você explique o que quer dizer com o termo “instintivamente”. Pois, da forma como eu o entendo, “instintivamente” é o modo de se comportar não premeditado, não apreendido, mas intrínseco. E, a meu ver, duvidar é um mecanismo adquirido, não exatamente instintivo, porque é premeditado e dependente das experiências prévias de perceber-se enganado. Se algo no plano de nossa relação com os discursos é instintivo, penso que seria o acreditar, não o duvidar. Ou também o poderia ser o questionar, mas apenas no sentido de perguntar o porquê ou o para quê das coisas. Já o duvidar, que é o que caracteriza o ceticismo, isso não entendo de que forma pudesse ser instintivo… Uma prova disso, por exemplo, é a de que quando lemos uma carta, um livro de história, ou ouvimos um amigo contar um episódio, não questionamos se aquilo que ele está sendo exposto é verdade ou não; a menos que tenhamos nos adaptado a fazer sempre isso, a desconfiar de tudo, mas isso está longe de ser instintivo. Pelo contrário, instintivamente nós tendemos a acreditar. Um exemplo um pouco melhor: se eu apareço aqui e lhe digo “seus argumentos contra os neo-ateístas são muito fracos”, note, independentemente de isso em si mesmo ser verdadeiro ou falso, é inegável que você instintivamente acreditaria que era isso mesmo que eu tinha pensando quando os li. Ou seja, por termos sido enganados várias vezes, então começamos a duvidar. E por termos sido enganados muitas vezes, começamos a duvidar muito. E então argumentamos com a intenção de desmascarar o engano, mas apenas porque julgamos que o correto e natural é dizer a verdade. Fica a objeção e o pedido de fundamentação de que o ceticismo (o duvidar) seria instintivo.

Aqui temos uma divergência em relação ao ceticismo (no caso, o duvidar) ser instintivo ou não.

Eu me lembro de ver uma vez uma ninhada de gatos, com 4 ou 5 dias após o nascimento. Ao chegar a mão perto de um dos gatos, vi um “rosnado”. Como ele pode duvidar de uma presença externa sem ao menos ter conhecimento de quem era o seu inimigo? Na verdade, eu nem sequer era o inimigo dele. Com o tempo, os gatos perceberam que não tinham que me temer. Enfim, a dúvida em relação aos eventos externos já é um componente habilitador do medo. Me lembro também que, nos tempos de infância, um amigo estava contando sobre um livro que leu, no qual havia um trecho no qual o personagem central matava centenas de pessoas. Eu lhe disse: “Deixe de ser mentiroso…”, em tom de brincadeira.

Vários outros exemplos mostram que o ser humano possui os instintos de dúvida e crença como INSTINTIVOS, ambos, e aos poucos o conhecimento adquirido sobre eventos que merecem dúvida (e crença), vão aprimorando o uso desses instintos.

Quando você escreve que argumentamos com a intenção de desmascarar o engano, é porque “julgamos que o correto e natural é dizer a verdade”. Mas eu diria que o natural é o ser humano tentar mentir sempre que possível, enquanto que também é natural GOSTARMOS de que os outros digam a verdade. Daí a necessidade, ainda maior, de um ceticismo focado em desmascaramento.

Gostaria que me explicasse o que seria “retirar toda a abordagem metafísica do ceticismo” e como isso se concilia com “reduzir o escopo apenas para o ato de questionar uma alegação de QUALQUER tipo”. Antes de tudo, o ceticismo não faz, ele mesmo, abordagens metafísicas; e, portanto, por princípio, não haveria nenhuma abordagem metafísica a ser retirada dele. O que ele faz é questionar abordagens de todo tipo, e dentre elas, as metafísicas. Então, acho que o que você quer dizer é que seu ceticismo não teria como objeto as abordagens metafísicas. Certo?

Exatamente.

De qualquer forma, pareceu-me haver uma contradição nessa formulação. Pois, uma alegação “de qualquer tipo” pode ser um alegação “de tipo metafísica”. Então, seria contraditório dizer que seu ceticismo teria como objeto alegações “de todo tipo”, mas que não tem como objeto alegações metafísicas… (a propósito, esse é um dos planos sobre os quais o ceticismo mais tem bala na agulha!).

No caso da religião política, isso não é tanto um problema. Tempos atrás, um leitor humanista tentou apresentar uma proposta de “metafísica do homem”, que invalidava a análise da dinâmica social sobre ele. Aos poucos foi observado que os componentes “metafísicos” eram plenamente explicados em uma abordagem darwinista. Por isso, não foi preciso de “metafísica” aqui.

Vamos ver algumas alegações políticas:

  • Eu sou o defensor dos pobres
  • Eu estou do lado da razão
  • Retirar a religião tradicional vai reduzir a violência
  • Estou do lado dos direitos humanos
  • As diferenças sexuais não existem no campo biológico, apenas cultural

É para este tipo de alegação que o ceticismo político foi construído. Para TODA alegação que, se aceita, irá gerar benefício para alguém ou grupo(s) em detrimento de outra(s) pessoa(s) ou outro(s) grupo(s).

Aí viria a pergunta: “mas e para os outros tipos de alegações, as metafísicas, por exemplo?”.

Para estas, usamos o ceticismo clássico.

Quanto ao que você diz sobre o ceticismo ser em suas raízes um questionamento da autoridade, apenas um esclarecimento. Em suas raízes, o ceticismo não é um questionamento irrestrito “à autoridade”, esse “questionamento à autoridade” é sempre qualificado: é especificamente um questionamento à “autoridade da razão em justificar qualquer coisa que seja afirmada como verdadeira com base em critérios de que ela não disporia para esse conhecimento”. Se, ao caracterizar o ceticismo em suas raízes como “questionamento à autoridade” você quer dizer isso, que eles questionavam “a autoridade dos critérios por meio dos quais alguém tenta justificar uma afirmação como verdadeira”, não tenho objeção à sua descrição das raízes do ceticismo e concordo que o ceticismo originariamente (e também você) realmente faça isso. Se, no entanto, você quis dizer que o questionamento de uma autoridade era feito pelo ceticismo meramente por ser autoridade, isso estaria equivocado. Pois eles também suspendiam o julgamento sobre se a autoridade é, ela mesma, algo justo ou injusto, certo ou errado, bom ou mal. Prova de que os céticos não atacavam a autoridade por si mesma é que eles viviam guiados pela autoridade das leis, dos costumes, das imposições da natureza, etc. O cético originário não seria o melhor modelo de se seguir na vida. Porque ele era um covarde do ponto de vista prático, e um gênio do ponto de vista epistemológico. Isso o que você faz, Luciano, não era uma atitude propriamente cética se tivesse vivido na época de Pirro ou Sexto Empírico: seria considerado dogmático para eles com sua Dinâmica Social. Ou seja, você pode desenvolver um ceticismo que ataque a autoridade pela intenção dela de capitalização política, mas esse tipo de crítica à autoridade estabelecida seria um distanciamento (e não uma aproximação) do ceticismo tomado originariamente. Os céticos estavam preocupados com uma epistemologia radical, que questionasse tanto as bases do que dizemos conhecer quanto do que dizemos acreditar (crença aqui não no sentido religioso, mas como o mero ato cotidiano de tomar algo como verdadeiro – ex.: acredito que o sol vai nascer amanhã) e nada pretendiam colocar no vazio que sua crítica instaurava. A preocupação deles não era mudar a sociedade por meio de uma crítica do que é falso e injusto para o estabelecimento do que é verdadeiro e justo. Eles devem muito aos sofistas nesse aspecto, pois realmente não estavam preocupados com verdade ou falsidade, mas com a tranquilidade que entendiam decorrer da atitude de não se posicionar sobre se algo é verdadeiro ou falso, justo ou injusto, bom ou mal. Eles nada negavam e nada afirmavam. Imagine o que seria não se pronunciar sobre o que é o certo e o errado em nossos dias… Sem comentários, não?

Eu concordo com suas explicações em relação ao que significa “questionamento à autoridade”. Também não defendo o questionamento radical à todo o conhecimento, como os chamados céticos originais, muito próximos do cinismo.

Segundo minha análise defendida aqui, o ceticismo ORIGINAL era uma forma de questionamento à autoridade, no caso do “apelo à autoridade”. Veja um exemplo quando o Lula diz “ninguém tem mais autoridade moral do que eu”, e depois tenta se livrar de qualquer acusação. Não é diferente do que um líder, há uns 2.500 anos, chegar e dizer “Eu sou enviado dos deuses, e portanto me dê 40% de impostos”. Para esse tipo de apelo à autoridade, o ceticismo original surgiu. Depois é que a coisa adquiriu outros tons.

Mas, de acordo com o ceticismo político, era interessante surgir uma “casta” de pessoas que diriam questionar absolutamente tudo. Mas, em termos científicos, vemos que isso é tecnicamente inviável. É impossível até direcionar a vida sem crenças básicas, por isso essa “epistemologia radical” também deve ser colocada sob questionamento. Podíamos perguntar para essas pessoas: “Você realmente tem tantas dúvidas assim? Vamos testar?”. Esse é um dos motivos pelos quais eu defini o ceticismo político, pois muitas vezes até a afirmação “Eu sou um cético absoluto” pode ter um viés político, que é a obtenção de vantagens pessoais.

Outro detalhe é que você ainda aborda, em seu texto, a seguinte perspectiva: “estabelecimento do que é verdadeiro e justo”.

No framework do ceticismo político, qualquer verbalização que vise dizer algo como “estou para estabelecer o que é verdadeiro e justo” já é uma afirmação política. De acordo com a perspectiva do triângulo, não é tão importante se alguém busca a verdade, mas se DEMONSTRA estar do lado da verdade para uma platéia. Isso, novamente, vem do ceticismo corporativo, em que não importa se alguém diz “estar do lado dos resultados”, mas sim se apresenta resultados ou não.

A questão diz respeito apenas à proximidade e ao distanciamento do ceticismo originalmente. Sua crítica, embora às vezes se defina como estando direcionada à autoridade estabelecida, é do primeiro tipo, isto é, epistemológica, porque você sempre analisa se o discurso oponente é logicamente válido ou não, sempre pede justificativas ao oponente daquilo que ele está afirmando. E caso ele apresentasse boas justificativas, você deveria acolher a posição como verdadeira, porque definiu os critérios como sendo os da justificação lógica. Isso é epistemologia, e é o que os céticos faziam. Mas se você pretende ir além e criticar a autoridade estabelecida não somente pela lógica, tudo bem, mas neste caso já não poderá dizer que a crítica que faz da autoridade seja igual à crítica feita pelos céticos originariamente.

A parte acima está ok, com um adendo importante. Suponha que se inicie um debate entre dois contendores, sendo X e Y. E X diga que vai aceitar a posição do outro caso este traga argumentos válidos. Isso já poderia também ser um truque para tentar convencer a platéia de que se é mais “receptivo” a novas opiniões, e aí, quando os argumentos do outro forem apresentados, fica mais fácil poder recusá-los, desde que a platéia tenha ACREDITADO que esta pessoa “aceitaria” as justificativas do outro. Portanto, no meu paradigma, é irrelevante se o adversário está pronto ou não para aceitar as justificativas do outro (e se um deles disser que “está pronto para aceitar as justificativas”, podemos suspeitar).

Você até diz o seguinte: “Isso é epistemologia, e é o que os céticos faziam” [em relação a aceitar as justificativas do outro, após critérios pré-estabelecidos].

O problema é que com o advento da religião política, e o uso do discurso meramente para obtenção de poder (ao invés de busca pela verdade), tais esperanças não tem mais espaço. É por isso que, entre adversários ideológicos (e não debatedores dialéticos, como está sendo o caso aqui), só há espaço para o ceticismo político.

Ora, “praticar a dúvida/ o questionamento de forma metodológica” é precisamente o que eu estava chamando de “ceticismo metodológico”. Em outros termos, o que você está chamando de ceticismo prático é, na verdade, a “prática do ceticismo metodológico”, isto é, a prática de exigir justificação racional de toda proposição que é afirmada como verdadeira. Com efeito, nada de novo, mas também, nada de prático. Se você quis chamar de “ceticismo pratico” a exigência de justificação racional das alegações políticas, isso não constitui ceticismo prático.

Entendi o que está ocorrendo. Você está tomando o termo ceticismo prático conforme a concepção original do termo. Nesse caso, concordo contigo. O que pratico seria melhor descrito como “o ceticismo na prática”, ou seja, a prática do questionamento de forma cotidiana e pragmática, e que deve ser executada de forma metodológica. Mas, novamente, é uma questão semântica, e não vejo necessidade de me apegar ao termo “ceticismo prático”. Aliás, o meu paradigma central é o do CETICISMO POLÍTICO, que é uma abordagem do ceticismo metodológico (como você disse), que é uma forma de aplicar na prática o ceticismo, especialmente em relação as alegações políticas.

Quando você constrói o diálogo hipotético com um filsófo da nova filosofia, você diz: “NÃO PRECISEI sequer tomar como verdade a explicação da dinâmica social, mas apenas lançá-la como hipótese. E, em momento algum, isso me impediu de colocar a afirmação política da outra parte (“eu estou do lado da razão”) sob o crivo cético.” a) Bem, você usa este exemplo para responder à minha questão sobre o caráter positivo de seu ceticismo prático, sem precisar prova-la como verdadeira para usa-la contra o “novo filósofo”. Pois bem, a parte propriamente cética desse diálogo não tem nada a ver com sua teoria da Dinâmica Social e a dispensa inteiramente. Repare que você poderia ter omitido toda a leitura mental que fez baseado na Dinâmica Social e, com pura lógica, teria dito apenas o necessário: “prove que é mais adepto da razão que eu”.

Na verdade, a coisa funciona de uma maneira bem diferente no ceticismo político, pois estamos tratando de guerras políticas, e “duelos por mentes”, ou seja, as mentes da platéia. Portanto, afirmar somente o necessário, conforme você sugeriu, seria apenas o ceticismo político, mas eu defendo que este ceticismo venha ACOMPANHADO de um framework de desmascaramento e conscientização da platéia. É a isso que defino por ceticismo de combate, na qual questionamos uma alegação, e, se ela não passar no crivo, ridicularizamos o proponente da alegação, além de conscientizarmos a platéia da anatomia do truque. É uma mistura de dois padrões: ceticismo corporativo e os métodos de James Randi.

Por que a parte da Dinâmica Social é importante? Pois temos uma platéia acostumada a aceitar as posições de um dos lados apenas pelos triggers utilizados, como a rotulagem positiva (que já tratei aqui, no jogo de rótulos). Sem a “limpeza” a ser feita nesse jogo, a argumentação passa a ser estéril e não ter valor algum, pois ficará sendo apenas uma conversa entre duas pessoas, mas a mente da platéia já terá sido conquistada pelo outro lado.

Mas, ao contrário, se você explicar que quando uma pessoa tenta dizer que “está do lado da razão” isso não passa de uma rotina psicológica, e explica para a platéia como identificar o padrão, você automaticamente lança um desafio ao seu adversário, que é provar que está do lado da razão.

Voltando ao ceticismo corporativo, é o mesmo que demonstrar os riscos de alguém ter falsificado seu currículo, apresentar os danos que alguém traria caso as informações fossem falsas, e depois desafiar: “agora, vamos validar se suas informações apresentadas são corretas”.

Observe que eu estou considerando não só o oponente, mas também a platéia, que tem que saber as consequências de uma POSSÍVEL fraude que esteja sendo implementada. Gerentes de segurança da informação são especialistas ao realizar essas conscientizações.

b) Ainda assim, essa não seria a forma mais adequada de colocar a objeção a ele. isso incorre na Falácia do Espantalho, pois o interlocutor não disse “sou mais adepto da razão do que você”; então você não poderia imaginar que ele tivesse dito isso, e exigir que ele justificasse isso. É falácia do espantalho. Ele disse isso: “eu sou um adepto da razão, ao invés da fé”. Sua leitura supôs que ele quisesse dizer que “ser adepto da fé é ser menos adepto da razão”. Note, da forma como você fez a questão, o interlocutor poderia objetar o seguinte: “onde foi que eu disse que sou mais racional que você? O que eu disse foi que, sendo adepto da razão e não da fé, como elas tratam de certas questões de um modo distinto e inconciliável, eu defendo os argumentos X e Y e não os argumentos B e C”. Eu diria, então, que a melhor pergunta a ser feita a ele seria “de que forma você justifica a separação que faz entre razão e fé, de modo tal que estivesse autorizado a dizer que quem é adepto da fé não o seja da razão e, assim, tenha de pensar que certos tipos de argumento se opõem a outros por força da separação entre fé e razão”? Note, nessa forma, não há a partícula comparativa “mais que”, e você teria pedido uma justificação à altura da fala do novo filosofo sem precisar da Dinâmica Social.

Eu até concordo com as objeções em relação ao meu questionamento ao interlocutor. Eu poderia ter resolvido tudo dizendo “Duvido muito que a abordagem do meu oponente é racional, e isso pode ser muito bem um truque, por causa de… [aí entraria a explicação da Dinâmica Social]”.

Essa explicação, de acordo com a dinâmica social, é extremamente relevante (mas você pode aplicar o ceticismo político sem ela, desde que use outras formas de conscientização), pois implica na conscientização da platéia em relação aos possíveis truques. A partir daí, o oponente poderá demonstrar que ele efetivamente está “do lado da razão”, mas a platéia já estará conscientizada de que, se ele não conseguir provar, entender por que mesmo sem demonstrar estar do lado da razão ele tentou tanto convencer a platéia de que estava.

c) Se era isso que sua pergunta queria dizer, note que só usamos lógica, e nada de Dinâmica Social.
Assim, continua sendo válida minha objeção de que seu ceticismo enquanto tal é apenas metodológico (e repito, vejo como algo bom que o seja!), e que a parte positiva da Dinâmica Social (DS) não tem relação com ele.

A Dinâmica Social é independente do ceticismo político apresentada aqui, mas  para mim ela é utilizada como fator de conscientização da platéia. Mas você pode explicar a anatomia dos truques e jogos de rótulos sem usar a dinâmica social.

d) Ou ainda, se você utilizou a DS, parece ter sido isso o que fez você pressupor erradamente o que o suposto filósofo teria querido dizer. Veja como isso parece leitura de mente: “você poderia estar utilizando a rotina “Dono da razão”, tentando convencer a platéia de que está do lado da razão para tentar influenciá-los psicologicamente a aceitar, de forma automática, que você realmente teria a “razão”. Provavelmente por que isso atribui um maior valor de “sobrevivência” a você perante a platéia, e por isso você talvez você se apegue tanto ao rótulo”. Você não teria evidência alguma disso. Sua DS, nesse sentido, não apenas não ajudou o ceticismo, como atrapalhou a análise que ele poderia fazer da fala do novo filósofo com base em pura lógica. Você não pode fazer sua investigação partindo do pressuposto de que sabe o que o novo filósofo vai falar, senão incorre em Falácia de Espantalho, como neste caso que você mesmo citou.

Não concordo com essa abordagem, e vou dizer o motivo. No mundo corporativo, suspeitamos de alguém MESMO ANTES de alguém dar motivo para essa suspeita. Por exemplo, se alguém é contratado para ser gerente, mesmo assim existe a avaliação “quero ver mesmo se ele vai demonstrar o que falou nas entrevistas”. Por que não acreditamos primeiro? Por que não suspendemos o juízo? A precaução, aliada a tendência ao logro do ser humano, nos mostra que é importante ter uma base de conhecimento a respeito dos POSSÍVEIS TRUQUES que os outros podem fazer. Isso nos tornaria mais criteriosos.

Agora, voltando à Dinâmica Social, se o outro lado diz que “está do lado da razão”, e eu não explicar os motivos para a platéia deste possível truque, a rotina ainda terá algum efeito, ao menos em alguns. Ao mostrar a anatomia do truque, e explicar como ele funciona no aspecto darwinista, estou dando uma explicação para a platéia de como o truque opera. A partir daí, o oponente poderá ter duas opções: (1) demonstrar que realmente ele é o mais racional, mas aí tudo que ele falar será avaliado por um checklist de falácias, e se as falácias forem identificadas, pior para ele, (2) desistir da alegação de que é o mais racional.

Não é diferente do mundo corporativo, repito novamente. É quando alguém do RH diz: “Vamos checar todas essas informações que você está apresentando, quer realmente ir à frente?”.

Quando eu disse que o ceticismo prático, da forma como se entende o termo ceticismo, poderia incorrer em ceticismo moral, e de que eu não via isso em seu uso dele, sua resposta foi: “Sim, é verdade, mas tomando como princípio que usa-se, pela dinâmica social, as bases do darwinismo (como o melhor paradigma para a explicação da espécie humana), podemos estudar os motivos pelos quais existem alguns valores que se solidificaram em nossas sociedades. Enfim, estudar a moral (embora não defini-la, como exageradamente diz Sam Harris) sob princípios científicos”. Essa explicação mostra que a DS pode servir para explicar como alguns valores se solidificaram, mas em que isso tem a ver com ceticismo prático? Estudar a moral sob princípios científicos é tudo o que não é um ceticismo prático (menos ainda da forma como você definiu o seu: a prática do questionamento da autoridade de uma forma metodológica). De que forma isso responde à minha observação de que seu ceticismo não seria positivo, e de que, o que você faz de positivo não é mais por um viés cético?

Bom, já concordamos que o termo “ceticismo prático” pode ser substituído por “ceticismo na prática”, para não confundir com o termo “ceticismo prático”. Sendo assim, deixe-me traduzir o que você disse para o ceticismo político.

De acordo com o jogo de rótulos, avaliado pela perspectiva da dinâmica social, conseguimos ter uma explicação científica a respeito de como muitas pessoas ganham debates SEM PRECISAR APRESENTAR ARGUMENTOS, apenas dominando o uso de rotulagem que lhe favoreça. O uso de expressões como “sou representante da ciência”  ou “estou do lado da razão” possuem um efeito psicológico que permite àquele que usa tais rótulos não precisar argumentar. Isso, aliás, explica grande parte do material neo ateísta.

Se já sabemos esses ganchos, e estes explicam como MAPEAR os truques do outro lado, é um conhecimento importante, em termos de conscientização da platéia.

Em breve, farei um texto sobre o investigacionismo, que é o método para avaliação de textos que simula em sua totalidade o paradigma de um investigador de fraudes. E, como já mencionei no passado, a conscientização das pessoas a respeito das fraudes e seus impactos é PARTE do trabalho de um auditor. A dinâmica social apenas nos ajuda a estudar por que algumas fraudes funcionam de forma tão fácil.

Voltando à sua pergunta, no final eu concordo com sua constatação. O ceticismo político em si não é positivo, mas a conscientização gerada pela divulgação dos seus truques, com disciplinas auxiliares (como a dinâmica social e o investigacionismo) promovem uma forte base de conhecimento em relação aos truques existentes “no mercado”.

Acho que você entendeu mal minha colocação sobre aspectos positivos do ceticismo. Esse texto que você citou “ceticismo emburrado? não, otimista!” mostra bem que está tomando o termo “positivo” no sentido de “otimista” ou de apresentar bons resultados. Não é isso o que estou chamando de “positivo” na objeção. Uma teoria positiva é uma teoria que “afirma ou sustenta teses”, em oposição a uma teoria negativa, que apenas desconstrói teses. Ademais, a que você defende é, com seus próprios termos, “um modelo SISTEMÁTICO e IMPLACÁVEL de questionamento e desmascaramento, que não deixa passar fraudes intelectuais”. Ora, isso é um ceticismo negativo! Assim, quando eu disse que seu ceticismo parecia pretender-se positivo (pela conjunção que você pretende estabelecer entre ele e a DS), mas que não se justificava como tal, eu não quis dizer que ele parecia otimista, mas sim que ele não se mostrava sendo positivo (sustentador de teses, apenas revelador de fraudes). Eu quis dizer que você não separou a parte destrutiva de seu pensamento, que é levado adiante pelo ceticismo metodológico, da parte positiva ou construtiva do seu pensamento, que é a DS (que eu não analisei ainda), e que não tem dependência lógica e conceitual alguma em relação ao seu ceticismo metodológico.

Ah, sim, tendo ficado claro a sua abordagem do que seria um ceticismo positivo, há um aspecto nele, que é do controle de qualidade argumentativo, cuja questão eu tratei aqui (na parte 3 da série “Um Novo Ceticismo”), além da tese da espiral da bobagem, tratada aqui (na parte 7 da mesma série). São abordagens mostrando que podemos MELHORAR A QUALIDADE DOS DISCURSOS, a partir do questionamento implacável dos adversários desses discursos. Aliás, é explicado que, se hoje muitos esquerdistas falam bobagens intermináveis, é pelo fato de estarem na espiral da bobagem, e um questionamento incisivo e adversário poderia levá-los a falar menos bobagens.

Já a Dinâmica Social é realmente apartada do ceticismo político, e deve funcionar como um mecanismo AUXILIAR de conscientização da platéia, e, aos poucos, pode também servir como um freio no controle de qualidade argumentativo.

Isso significa que seu ceticismo, com efeito, não é positivo, embora possamos ser otimistas quanto ao que ele pode render criticamente quanto aos neo-ateus. E se a parte positiva, a DS, pode ajudar na crítica, não é mais uma ajuda de que o ceticismo mesmo precisa ou compartilha. Ele poderia se voltar contra ela mesma, pedindo o que eu pedi: que você a justificasse, pois, se você pode partir de um pressuposto injustificado para chegar a X, seu objetor pode partir de outro pressuposto injustificado para chegar arbitrariamente ao oposto do que você diz.

Conforme mostrei anteriormente, o ceticismo político também tem seu viés positivo. Tanto na abordagem anterior, como na construção de uma tese, que tem como um dos suportes a noção de que o controle de qualidade DEVE ser feito por uma parte adversarial, como nas organizações já é feito. Sendo essa a única forma de conhecimento que SE APROXIMA da chance de reduzir fraudes, é a forma que defendo ser adotada.

Alguém poderia dizer “olha, eu já me valido, eu checo tudo em que acredito”, mas a avaliação dessa pessoa não é uma avaliação de uma parte adversária, mas dele próprio, que pode estar interessado na manutenção da crença.

Para refutar a idéia de que a noção do ceticismo aplicado pela parte adversária é a forma mais segura de controle de qualidade, talvez teríamos que testar a troca da auditoria e controle de qualidade, nas organizações, para a auto-validação. Eu acho que afundaríamos uma empresa rapidamente.

Em resposta à minha questão sobre provar que o ceticismo pirrônico negava a possibilidade do conhecimento, você diz: “Entretanto, em relação aos pirrônicos, conforme sua definição, o ceticismo prático poderia colocar em dúvida se os pirrônicos “realmente continuariam procurando”. Poderíamos tomar a afirmação “eu continuo questionando” como uma alegação política, e, portanto, que deveria ser testada”. Claramente, isso não é uma prova, nem a hipótese de alegação política o eximiriam da necessidade de prova. Você é quem tinha afirmado a premissa básica: “eles negam a possibilidade do conhecimento”, então, seria falácia de inversão do ônus da prova dizer que eles precisariam provar que não negam a possibilidade do conhecimento, com base em um recurso gratuito à possibilidade de se tratar de uma alegação política. Você até poderia questionar isso, mas não nas vezes em que você é que afirmou o que precisaria ser provado.

Auditores costumam identificar padrões de comportamento, que normalmente levem à fraudes. Isso não significa que automaticamente o padrão executado derive em uma fraude. Por exemplo, uma quantidade enorme de acessos no período de madrugada ao sistema de segurança deve nos levar a uma investigação mais profunda nesses acessos.

Eu concordo contigo que ainda não temos uma evidência de fraude, mas um indício de que DEVEMOS TER MAIS ATENÇÃO e investigar mais profundamente.

Quando alguém lança uma afirmação política, e isso aparentemente é feito de forma estratégica, o que eu sugiro é exatamente o mesmo padrão: ATENÇÃO REDOBRADA.

Vamos a um exemplo prático. Você é teísta, e o seu oponente é ateu. E então ele lhe diz: “Eu sou ateu, mas continuo buscando respostas. Você é teísta, e já tem suas respostas.”.

Perante a platéia, ele já está na dianteira, pois usou o rótulo positivo de “contínuo buscador de respostas”, enquanto lhe imputou o rótulo de dogmático. No psicológico da platéia, o debate já está terminado para você, mesmo que você continue argumentando. A explicação da dinâmica social para o fato de você ter perdido, mesmo que o oponente não tenha apresentado argumentos a favor da parte dele (mas somente um slogan) vai buscar os motivos pelos quais o cérebro da audiência se “desligou” em sua direção, mas continua absorvendo as idéias do outro.

Nada lhe impede, no entanto, de suspeitar que o outro é um “contínuo buscador de respostas”, pois o seu oponente não apresentou evidências de que está em dúvida. Ele apenas fez uma verbalização, que pode muito bem ter sido feita apenas para ele ganhar o debate e te tirar da contenda.

Vamos agora para o mundo corporativo. Um gerente rival diz que “é a favor dos resultados” e repete isso duzentas vezes. Se você não fizer nada, ele vai ganhar uma promoção em cima de você. Isso implica em AUMENTO DE BÔNUS para ele, no fim do ano. Uma grana que poderia ir para o seu bolso. É claro que ele deve ser questionado (e até ridicularizado) enquanto não apresentar resultados de fato.

Isso é ceticismo corporativo no mesmo molde do ceticimo político.

Mas mesmo se você não tivesse cometido falácia de inversão de ônus da prova, o fato de que uma proposição POSSA SER tomada como alegação política é razão necessária mas jamais é uma razão SUFICIENTE para que ela DEVA SER tomada como alegação política… ou seja, não dá para aplicar o método assim, indiscriminadamente, apenas porque você mesmo considerou essa afirmação como sendo potencialmente alegação política, quando ela na verdade poderia ser apenas um resultado das investigações epistemológicas sem sucesso feitas pelo cético.

Voltamos ao critério do acesso de madrugada em sistemas corporativo. É claro que o acesso pode ser lícito, como apresenta grandes chances de ser ilícito. Por isso, AUMENTAMOS A INVESTIGAÇÃO.

É claro que realmente alguém pode ter feito “investigações epistemológicas, e continua em busca da verdade”, como também poderá estar tentando enrolar a platéia fingindo que “ainda quer respotas”, para aparentar alguém que é maleável.

O que fazemos no mundo corporativo? Retira-se a alegação. Simples assim. Por exemplo, alguém diz “eu quero que me reconheçam como capaz de levar essa empresa ao primeiro lugar”. O outro lhe diz: “Podemos cobrar na avaliação de desempenho isso quando?”. Ele pode responder: “Pensando bem, estou aqui só para mostrar meu valor. Deixemos o que eu falei para lá”. Isso é retirada de alegação. Se não pode provar, recue, senão vai ficar apanhando igual cachorro ladrão até ser demitido de forma muito fácil. Isso pela PROMESSA feita, pela qual você será questionado. É exatamente esse princípio do mundo corporativo que está sendo adaptado aqui. Quer dizer, se alguém não tem como comprovar que “está a favor da ciência”, retire a alegação, ou então aceite a ridicularização de ter feito uma alegação sem provas, e vamos explicar à platéia por que alguém faz uma alegação deste tipo.

Nesse momento, fica claro que o ceticismo político é uma adaptação do que chamo de ceticismo corporativo.

Neste caso, temos uma falácia de Causa Complexa: podemos levantar a dúvida hipotética sobre se de fato os pirrônicos “continuam procurando”, mas a necessidade de provar se isso realmente é verdade não seria decorrente de PODER SER UMA ALEGAÇÃO POLÍTICA… Ao menos, não sem justificativa. Ora, como é que que função política entraria aqui, sem um artifício de leitura da mente de sua parte?

Seria uma leitura de mente se fosse dito “isso é uma alegação política”. Mas quando ainda PODE SER uma alegação política, isso não é leitura mental. O que importa é deixar a platéia consciente da alegação política que pode estar envolvida, e ver se a pessoa se apega à alegação ou não. O mais sereno seria rejeitar a alegação.

Parece-me que seu uso da DS está um tanto globalizado, e com isso você acaba vendo alegação política em muita coisa, mesmo naquelas que poderiam não ser mais que questão de pura lógica. Em muitos casos podem ocorrer (e vejo muitas mesmo nos discursos esquerdistas e neo-ateístas) mas o risco de Causa Complexa é grande sem critérios claros e rigorosos de aplicação. E o pior, é comum que ao termos uma falácia de Causa Complexa incorramos também em Falácia do Espantalho: porque você acaba acusando e atacando um problema do interlocutor no qual, na realidade, ele não incorreu. É um risco de se aplicar a DS antes o no lugar da velha e boa análise puramente lógica.

Eu entendo que este texto meu (Os quatro níveis de questionamento que todo cético político deve dominar) é um dos mais importantes que já fiz aqui. Entendo também a idéia de você fazer a “boa análise puramente lógica”, mas de que ela adianta se você estiver falando sozinho? A partir do momento em que a platéia “desligou” a atenção em direção a você, tudo que você falar não será mais ouvido.

Em relação a provavelmente atacar um “problema do interlocutor no qual, na realidade, ele não incorreu”, isso também não é um problema, pois no ceticismo corporativo assumimos que, se alguém não demonstrou algo que lhe conte pontos positivos, é o mesmo que não ter feito. Ou seja, se não apresentou resultados, não receberá o crédito por resultados. Se não mostrou a certificação, não será reconhecido por ela. Isso serve até para forçar as pessoas a mostrarem o seu devido valor.

Ademais, qual o motivo de querer ser reconhecido em público como “eterno questionador” quando não se apresenta provas de que realmente se é um “eterno questionador”? A meu ver, só o interesse em obter um rótulo positivo, o que é um ganho político.

“Por exemplo, eu acredito que alguém pode estudar o ceticismo pirrônico, assim como alguém pode estudar qualquer coisa. Mas, tecnicamente, em termos de alegação política, se alguém afirmar ser mais “pirrônico” que os demais, então a partir disso temos uma alegação a ser provada.” Não sei por que o caso da alegação política entra novamente em cena. Eu já entendi o que é uma alegação política, mas não sei de que forma o exemplo de uma alegação política auxiliaria quanto à clarificação de sua afirmação de que eu não precisaria acreditar em você, quando o que estava em questão é que você era obrigado pelo ônus da prova a me dar razoes para acreditar em você. Sobretudo, é necessário que você prove o que diz, e assim, garanta que você mesmo não esteja dizendo coisas que poderiam ser apontadas por mim como alegação política. Afinal, se diante da necessidade de provar uma afirmação, você apenas analisa se ela pode ser ou não uma alegação política, posso considerar que você não está preocupado com a verdade do que afirma ou com a falsidade do que ataca, mas com a capitalização de adeptos. Entende a gravidade do ponto?

Não vejo como algo tão grave assim. Se você entender uma afirmação minha como alegação política, questione-a. Se eu entender que da outra parte vem uma alegação política, questionarei também.

Além do mais você diz: “posso considerar que você não está preocupado com a verdade do que afirma ou com a falsidade do que ataca, mas com a capitalização de adeptos”. Não tem problema algum você achar isso. É por isso que eu sempre defendo a máxima de não nos importarmos tanto com o que o outro acredita (no curso do debate), mas no que formaliza em termos de alegação.

A análise da dinâmica social MODIFICA o paradigma mesmo quando nada justifica que ele seja político. No caso analisado, nada no parágrafo permite você concluir que o caso se trate de uma alegação politica. Ali se trata de meta-filosofia. Você disse que o pirrônico defendia a impossibilidade do conhecimento, e ao invés de dar razoes para isso, mostrou exemplos diversos de alegação política. Percebe que muitas afirmações que você toma como alegações políticas só se tornam tais porque está vendo o mundo com os óculos da DS? É claro que muitas realmente o são, mas como nos dois casos que analisei acima, a leitura com base na DS acaba contaminando a compreensão, ao invés de depura-la.

Gostei disso. “A Dinâmica Social envenena tudo”. Daria até um título para um texto. Quem sabe eu o faça. Mas o que importa é que se tivermos dúvida, também temos o outro lado que poderá retirar sua alegação. É o que sugerimos no mundo corporativo. Na dúvida, retire as alegações e fique naquilo que você poderá realizar, o que significa materializar suas alegações. Ex. “Aumentarei a resolução de incidentes com KB em 80% em 9 meses”, “Reduzirei a taxa de projetos com sucesso para 23% em 6 meses”, e daí por diante.

Preciso de uma justificação aqui: de que forma o parágrafo da objeção que fiz à a necessidade que você afirmou de se comprovar a posição pirrônica se conecta com os exemplos que você deu sobre alegação política? Ou, em outros termos, porque uma leitura da objeção que fiz com base em DS não seria de sua parte uma atitude arbitrária de tratar como alegações políticas o que está ali e pode não ser alegação política?

Em relação ao seu exemplo, voltemos ao jogo de rótulos. Vamos ao significado do rótulo “Dúvidas (Cheio De)”, que recebe valor positivo: “Esse rótulo depende do momento e é mais útil para debates políticos. No mundo corporativo, não ter certeza do que faz é perigoso e pode transmitir aos outros a imagem de fraco, especialmente se você for líder. Mas em duelos ideológicos, é o oposto. Alguém cheio de dúvidas passa a imagem de que está apto a ouvir novas opiniões, sendo distante da imagem de “irredutível”.

Portanto, o alegador poderá ter o direito de RETIRAR a alegação do debate, para evitar que lhe seja EXIGIDO provar que REALMENTE ele é um “eterno questionador”.

Enfim. Entendi que seu ceticismo é prático no sentido de que você pratica o ceticismo como uma forma metodológica de questionamento da autoridade de um discurso criado para capitalização política. Eu só manteria ressalvas quanto aos critérios pouco precisos por meio dos quais você avalia e distingue uma afirmação que apenas PODERIA ser alegação política de outra que DE FATO é alegação política.

Respeito suas objeções, e gostei delas, e em um ensaio que estou fazendo sobre o ceticismo político abordarei várias destas objeções.

Entretanto, tal qual no ceticismo corporativo, a precaução é importante, pois os prejuízos de aceitarmos as declarações políticas são muito grandes. Podemos até levantar a hipótese de que as grandes ditaduras do século passado só conseguiram seus objetivos por causa de rótulos políticos utilizados e que não foram questionados.

Pelo risco das alegações políticas, novamente ressalto que a precaução é essencial.

Por exemplo, alguém entra no debate e diz “eu sou alguém que questiona antes de aceitar qualquer coisa, por isso aceitei minhas idéias”, no que recebe a patada cética “eu duvido que você tenha efetivamente questionado, vamos testar isso no debate”. O alegador original poderá dizer “é irrelevante se eu questionei ou não minhas idéias, mas vamos aos argumentos”, mostrando um recuo como no mundo corporativo (desiste-se de uma alegação quando não se pode prová-la).

Mas, no caso de ser uma alegação política, será que o alegador quererá perder o rótulo de “auto cético” que tentou implantar? Aí acho difícil. E é aí que através da dinâmica social podemos explicar para a platéia por que alguns rótulos são tão importantes, e justamente por isso devem ser questionados.

É, a dinâmica social realmente envenena tudo. Mas, em um mundo hoje focado mais em debates políticos do que “busca pela verdade”, é assim que as coisas são. É tudo uma questão de nos adaptarmos.

Anúncios

26 COMMENTS

  1. Luciano olha a prova que a sociopatia dos esquerdistas vai além de chingamentos e vandalismo intelectual contra conservadores:

    http://juliosevero.blogspot.com.br/2012/06/blogueiros-conservadores-alvos-de.html

    trecho:
    De acordo com a Fox News, blogueiros conservadores dos Estados Unidos estão dizendo que estão sendo vítimas de um trote terrorista potencialmente mortal. Ligações são feitas para a polícia, em retaliação a artigos conservadores, trazendo como consequência policiais armados na porta dos blogueiros.

    […]

    Especialistas nos EUA suspeitam que o autor desses trotes perigosos é Brett Kimberlin, que tem recebido financiamento de George Soros e Barbara Streisand entre outros esquerdistas. O histórico de Kimberlin inclui tráfico de drogas, abuso sexual de crianças, perjúrio e falsificação. Ele passou 17 anos na prisão.
    Hoje, suas atividades contam com vários seguidores, que se ocupam em provocar danos em blogueiros conservadores. Além disso, outros estão imitando os trotes.

    […]

  2. Cara, algumas vezes beiro ao agnosticismo pelos mesmos motivos pelos quais você se tornou ateu.
    Mas acredito que não vou chegar ao ponto de negar a existência de Deus, o máximo que pode acontecer seria eu me tornar agnóstico.

    Continue com admirável trabalho.

    • Marco, concordo com você, o agnosticismo é uma postura ‘menos imprudente’ 🙂 que o ateísmo. Veja só como o Luciano agiu de maneira, digamos, precipitada (em minha opinião):

      «
      Estudando as reações instintivas do ser humano, em situações limite, e de forma metodológia, comecei a ver que não havia mais motivo para ver o ser humano como algo diferenciado no portfolio de espécies do mundo. De imediato, minha crença em Deus desabou.
      »

      O erro, aqui, foi admitir como “fato incontestável” a conclusão de que ‘o ser humano NUNCA FOI basicamente diferente dos outros animais’. Oras pois, a mitologia judaico-mesopotâmica *não é a única que* ensina que o estado atual do ser humano é o resultado de uma deterioração em relação a um certo estado original ou primordial. E eu pessoalmente dou mais crédito a essa e outras “lendas” do que a um punhado de fósseis com seqüências de DNA incompletas misturadas com muitas especulações que são facilmente desmentidas pela assim-chamada ‘arqueologia censurada’ 😉

      Por favor, não me entendam mal, o Luciano pode continuar sendo ateu, eu deixo 😀 , só que ele precisaria de uma justificativa melhor do que essa aí, é o que eu acho ^_~

      • Agora eu saquei tudo, Luciano.

        No teu dicionário pessoal, “Deus = sobrenatural = imaterial”.
        E baseado nessa “fórmula”
        (adequada para um David Hume ou um Auguste Comte, mas totalmente *furada* a partir do final do século 19),
        ao rejeitar novamente a crença em Deus, você teve de retornar ao materialismo “sientêfeko”
        (e assim, sempre podendo atrair suspeitas de que você é um “cripto-humanista”).

        Mas enfim, que seja.

      • E com isso você quis dizer o quê, precisamente?

        1) as premissas do teu “método de ceticismo”, ainda que tenham falhas fundamentais, não são suficientes para neutralizar sua eficácia no combate político, pois êste último é “tudo que realmente importa”; OU…

        2) o paranormal ainda é uma “questão de crença”, mas o materialismo que *nega as evidências de sua própria insuficiência* nunca foi, não é e nunca será uma *postura de CREDULIDADE* ;

        3) tanto a primeira quanto a segunda ;

        4) Nenhuma Das Anteriores ;

        Respostas aceitáveis = 1 ou 4. Sendo que a resposta 4, SE acompanhada de “justificativas”, tem sua credibilidade inicial automaticamente reduzida para 50-por-cento.

  3. Iae,Luciano.Beleza?
    Você diz que a pratica da Dinâmica Social tirou sua crença em Deus,certo?
    Como você colocou a Dinâmica Social em pratica,como seria isso? Como fez para pô-la em pratica? Porque apesar de ler muito seu blog ainda não consegui colocar a Dinâmica Social em pratica.
    Abraços!

    • Bem, o meu blog ainda não abordou PROFUNDAMENTE a dinamica social. Uma das formas mais comuns da consequencia do estudo da dinâmica social na prática é o material dos PUAs. O Mystery Method pode ser um bom começo, e é específico para agir com a mulherada (só não espere milagres, claro). É um começo interessante.

      • Ok,por coincidência eu estou lendo Mystery Method.Realmente o material dos PUAs é bem interessante.Valeu!
        Mas aproveitando a deixa,você poderia me dizer o porque nos apaixonamos? Qual o motivo de nos apaixonar por alguém? A Dinâmica Social pode nos explicar isso?
        Que motivos temos para nos apaixonar por alguém,em que isso aumenta o nosso valor de sobrevivência?
        Obrigado e Abraços!

      • Olá Veltman, de acordo com a dinâmica social são dois sentidos para a vida: sobrevivência e REPLICAÇÃO. No caso da paixão, o objetivo é levar à atração o suficiente para gerar a replicação. Em alguns casos, o suficiente para estabelcer um vínculo mais forte, pois os recém nascidos humanos são frágeis demais. Por isso, o tempo médio para a paixão DE FATO tende a durar 2 anos. Isso não significa que TENHAMOS que procriar a cada vez que nos apaixonamos, pois já conhecemos este processo. Mas o instinto humano da paixão está aí para isso. Com o tempo, a paixão acaba, e sobra a amizade. Tecnicamente, é até bom que o relacionamento siga, pois isso aumenta a cada vez mais o instinto de sobrevivência da prole.

  4. Luciano,

    Percebo que seu método é sem dúvida útil, mas a mera utilidade jamais é algo que, por si mesma, justifica o método como sendo um bom método. Com efeito, não podemos falar de bons métodos com um darwinista, pois que um método tenha apenas utilidade para atingir seu fim não é um problema para ele, que não está preocupado com verdade e com bondade. O problema é que isso implica um punhado de contradições, e vou apontar duas delas, as mais centrais. Peço que não leve para o lado pessoal, é uma crítica pontual a incoerências do método, que aponta as consequências que ele traz para você como aquele que o emprega, por estar definido da forma como está, com pressupostos darwinistas.

    Pressupostos como, por exemplo, a verdade não é mais buscada, a não-superioridade do homem, a equanimidade entre instinto humano e instinto animal (dentre outros) apenas inflam seu método se sua intenção seria apenas uma crítica bem feita do humanismo – uma navalha de Ockham deitaria ao chão muitos pressupostos que são desnecessários para o mesmo resultado crítico. Mas você não se preocupa em justificar tais pressupostos, acha que não precisa, porque um desses pressupostos é de que ninguém mais quer buscar ou saber a verdade… Mas quem não se preocupa com a verdade não debate senão por poder. Então todo seu método darwinista seria uma grande alegação política, porque você está preocupado com as mentes da plateia, em não ficar fora do debate, e não em descobrir e defender a posição verdadeira. Ou seja, você diz que não está preocupado com verdade, mas apenas porque parte de pressupostos darwinistas sobre a verdade, os quais você toma como sendo verdadeiros. Aí fica fácil, mas é autorefutante.

    As duas objeções (e gostaria de respostas argumentativas para elas, porque elas põem em xeque precisamente a coerência interna da dinâmica social, então você não pode partir dela para responde-las, seria uma fraude lógica evidente).

    1) Quando eu falo, por exemplo, da necessidade de provar algo para não haver contradição em seu discurso, ou do erro lógico de atacar um problema do interlocutor no qual, na realidade, ele não incorreu, você se defende usando dinâmica social. Ou seja, para você a dinâmica social não precisa respeitar a lógica…
    Nessa trilha, como se dá a auto refutação? É por meio de critérios epistemológicos que você desautoriza discursos políticos. Note que, embora você tenha dito que a verdade não seja objeto dos debates ideológicos, você se vale de critérios epistemológicos para a desconstrução de uma tentativa esquerdista de capitalização de poder. Por exemplo, toma uma alegação política tal como “sou mais racional” e pergunta ao seu interlocutor “como se pode conhecer isso”? Expedientes epistemológicos necessariamente estão preocupados com a verdade. E essa pergunta é desse tipo que busca pela verdade, no sentido mais comum de perceber se há adequação ou inadequação entre aquilo que o interlocutor diz e a coisa a qual se refere seu discurso. Se você o avalia assim, isso implica que, caso seu interlocutor humanista (e, por que não, um religioso tradicional?) dê uma boa resposta a você para as posições dele, você está obrigado a aceitar sua posição. E precisamente aí começa o ponto: você parte do pressuposto de que eles (os esquerdistas) sempre são desonestos (porque acredita injustificadamente, com base no darwinismo, que ninguém está preocupado em dizer a verdade, mas apenas em capitalizar poder). Então, se você tem compromisso com a verdade nessas investigações, não pode fazer uso de um expediente epistemológico pensando previamente que que já ganhou a questão porque o outro é de partida desonesto, pois isso constitui uma falácia de Bulverismo (isto é, debater partindo do pressuposto de que o interlocutor está errado sem que isso tenha sido comprovado pelo debate). Se, no entanto, não tem compromisso com a verdade (e não parece ter porque disse que debates ideológicos não tem esse foco), então sua fala também está voltada para a capitalização de poder, você disputa com o esquerdista as mentes da plateia…
    Ou seja, você argumenta não para convencer alguém do verdadeiro em oposição ao falso, mas acusa o outro de falsidade? Isso é desonestidade intelectual. Afinal, muito embora possa ser verdadeiro que o esquerdista não tenha compromisso com a verdade, você precisaria ter compromisso com a verdade para não ser igual a ele. Se você diz que o darwinismo social não se preocupa com verdade, e que os debates ideológicos tem em vista capitalização de poder, então você não seria desonesto tal como o esquerdista, pois usa do expediente epistemológico para refutar o interlocutor (exigindo que ele prove suas posições) quando, de sua parte, você não se importa com questões epistemológicas nem em provar a sua.

    Percebe? Qual é sua causa? Desmascarar humanistas. Mas, por que? Se não for porque acha que eles estão errados e que por trás de seus discursos ideológicos há uma verdade sobre o homem, não és mais que um catalizador de poder.

    O mundo corporativo busca resultados, e o ceticismo corporativo funciona bem lá. Traze-lo para o campo ideológico tem algumas aplicações úteis, mas tem grandes problemas: se você não se pautar pela verdade, não pode atacar de falsa a outra posição, porque ela está em seu direito de mentir… Percebe o enrosco? No fim das contas, não dá pra ser darwinista e debater acusando o humanista de fraudulento. Seu pressuposto admite que ele pode, deve ser fraudulento e vai ser fraudulento. Então, se faz sentido desmascarar alguém, é porque há uma verdade, e ele está fora dela. Se não está em busca da verdade, é intelectualmente desonesto ao desmascarar o mentiroso. E aí?

    2) Quanto à não superioridade humana em relação aos animais: É em si mesmo contraditório dar argumentos numa defesa discursiva (como Gray o faz) de que a humanidade não é uma espécie superior e diferenciada das demais pela racionalidade e autoconsciência… Quando usamos da razão para defender um argumento, isso pressupõe que acreditamos no seu poder de separar a verdade do erro sobre aquilo de que falamos. Ou seja, a pretensão é de provar que uma coisa é ou não é aquilo que está sendo dito sobre ela. Então, argumentar é algo que pressupõe confiança no poder da razão humana de provar algo. Ora, usar da razão argumentativamente com a intenção de demonstrar que o homem não é superior aos animais é, então, algo contraditório logo de saída, não somente porque seria mais um fino uso da razão (e, assim, que novamente comprovaria a superioridade do ser racional e de saber que se é racional), como também porque, obviamente, seria um humano oferecendo provas… A tentativa de reduzir o humano ao animal biológico que ele é, assim, de saída, uma tentativa condenada ao fracasso. Como você responde a isso?

    3) Permita-me, ainda, uma pergunta:

    Não tenho intenção de torná-lo católico, mas eu estaria mentindo se dissesse que não tenho a intenção de mostrar que o darwinismo carece de fundamento naquilo que ele poderia destruir a religião tradicional. Sendo assim, se você convencido de que o antropocentrismo é algo indefensável, e pensa isso mediante darwinismo, você estaria disposto a dar os argumentos pelos quais a teoria darwinista mostra que o homem não é superior aos animais? Vamos testar seus argumentos acerca disso.

    Abraço!
    Eduardo

    • Com certeza vamos testar os argumentos, em um novo post, no qual eu posso tratar suas objeções, pois algumas impressões que você teve são fruto de um mal entendimento teu, mais por culpa minha que sua. Acredito que não fui bem claro em alguns pontos. Mas esses esclarecimentos permitirão que eu dê mais detalhes a respeito do método e o solidifique mais. Ah, e a tese mostrando o ceticismo em seu caráter positivo será apresentada nos próximos dias também. Enfim, suas objeções estão me ajudando a “fechar” pontas que eu tenha deixado soltas anteriormente. Abs, LH.

      • Fabrs:
        “Além do mais, a transmissão da mentira será feita como se fosse uma verdade, justamente porque valorizamos a verdade.”

        Não vejo assim. No meu ponto de vista, as pessoas valorizam o que lhes é útil, ou, em última instância, valorizam aquilo que atende nossos desejos e necessidades mais básicos. É por isso que vemos velhotes milionários “acreditando” nas declarações de “amor” de jovens belas (EIKE eufemismo!)

        Se a tribo A deseja encontrar ouro de qualquer jeito e a tribo B mentir que há ouro do outro lado da montanha, é possível que a tribo A desligue seu “ceticismo” de tão secos em ouro que estão.

        Neste caso, eles estariam valorizando a informação não por ser verdadeira, mas por trazer esperança de algo que eles querem.

        Outro caso seria o do acidente vs culpa. Se uma pessoa que você ama muito morre num acidente de carro e você desconfia que alguma coisa que você fez neste carro possa ter causado o acidente, você gostaria de saber se foi culpa sua mesmo? Muita gente preferiria morrer na ignorância.

        Neste caso, as pessoas valorizam seu próprio bem estar emocional, mais do que a verdade em si. O risco da verdade ser algo doloroso nos faz esquecer que o que queremos é a verdade.

        Aliás, existem tantas situações onde preferimos não saber a verdade ou nas quais não nos importamos se a informação que recebemos é verdadeira ou não, que fica difícil sustentar que nós humanos valorizamos a verdade. Chega a ser ingênuo, uma verdadeira confiança no homem, alegar que valorizamos a verdade. Essa alegação só é feita por gente ingênua que confia no homem e que devem ser ridicularizadas.

        Uma boa prática de ceticismo é se perguntar: “eu confio nesta informação porque ela passou por algum crivo cético da minha parte ou porque ela atende a algum desejo básico meu?”

        Nosso Deus Ayan deve concordar comigo. Tecnicamente explica porque muita gente cai na conversa de políticos esquerdistas (na verdade, explica também porque muita gente cai na conversa de políticos conservadores também… aqueles pastores que falam que vão lutar pelos direitos dos cristãos, mas que uma vez eleitos só propõem meia dúzia de leis que seu curral eleitoral deseja mas que não vão passar nem a pau e depois ficam fazendo cuidando de seus próprios interesses – é um bom exemplo, mas a revolução anti-comunista de 64 também se enquadra nesta teoria)

        Na verdade, temos que admitir que nem sempre acreditamos em algo pelo seu valor de verdade. Porque é justamente nestes casos que o cérebro nos prega uma peça e diz “olha só, essa informação faz todo sentido”, mesmo que seja algo trivialmente desconfiável mas que nos interesse muito. Então reforço, devemos ficar de olho muito aberto com aquelas informações ou alegações ou ideias que desejamos que sejam verdadeiras. Normalmente, damos uma de auto-cético para fingir que realmente são coisas muito dignas de confiança quando na verdade não são.

        O autor deste blog, por exemplo. Será que ele já se perguntou se tem algum interesse especial de que o conservadorismo esteja certo? E se ele detectou algum interesse, será que ele redobrou sua desconfiança para com ele? Ou será que ele é só um iludido que acha que é verdadeiro porque lhe interessa, assim com os índios da Tribo A que mandou seus melhores guerreiros pro outro lado da montanha atrás de ouro e acabou sendo saqueada pelo Tribo B enquanto isso?

        Mas estou perguntando isto para você Fabrs. A resposta do autor do blog mesmo eu já sei qual ele vai dar, então nem precisa ser dada.

      • Incrivelmente, o Bruno fez um post com uma contribuição relevante (em termo de questionamento).

        Segundo o Bruno, eu sou um conservador,e portanto posso ter um INTERESSE ESPECIAL para que o conservadorismo esteja correto. E ele está CORRETO em assumir esta premissa, de acordo com o modelo de ceticismo político aplicado aqui. O que eu recomendo é que uma parte ADVERSÁRIA daquela que está fazendo uma alegação política investigue esta alegação.

        Se o Bruno suspeitar de minhas idéias quanto ao conservadorismo, e ele não tiver o mesmo interesse que eu nesta validação, que ELE faça um questionamento ao conservadorismo de forma tão extensiva quanto eu faço ao esquerdismo.

        Aliás, só um detalhe: existem dois frameworks em especial aqui. Um é o ceticismo político, e OUTRO é o conservadorismo cético. Quando falo do meu modelo central de questionamento, falo do primeiro, que pode ser aplicado por QUALQUER GRUPO IDEOLÓGICO contra um grupo adversário.

      • Depende do que é que se entende por “busca pela verdade” (qual era mesmo o contexto onde começaram a falar disso? Não lembro…).

        Bruno, acho que suas objeções não refutam realmente a busca pela verdade, mas sim dizem respeito a como podemos FALHAR nessa busca. O fato de buscarmos a verdade não significa que vamos encontrá-la sempre, pois estamos sujeitos a falhas como fazer julgamentos com base na emoção.

        Não só existem pessoas que acreditam em algo porque lhes é agradável como também acontece às vezes o oposto, como o marido que suspeita que é corno. Se a esposa lhe diz que não o traiu, ele dificilmente acredita (mesmo que ela esteja dizendo a verdade), se a esposa disser que traiu (mesmo que seja mentira), ele acreditará com mais facilidade, mesmo sendo uma “verdade” desgradável.

        (Esta crítica entra nas que chamo de “críticas de otimização”: são coisas como “se lutamos pela sobrevivência, por que há pessoas que se matam?”, “se temos como propósito a procriação, por que nos apaixonamos por pessoas inférteis?” e agora “se buscamos a verdade, por que não a encontramos sempre?”)

        No entanto, em todos esses casos os indivíduos tomam seus julgamentos errados como corretos. Será que alguém toma como verdade algo que SAIBA ser mentira?

    • Sei que as objeções são ao Luciano, mas gostaria de arriscar uma resposta a uma delas pra testar se estou entendendo bem a perspectiva deste blog. Caso haja erro no que falei, à vontade para apontar também.

      1) O pessoal está confundindo demais “ser” com “dever ser” nessa questão da verdade no darwinismo. O darwinismo descreve o “ser”, diz como algo É: no caso, diz que os homens valorizam a verdade porque isso lhes é útil para a sobrevivência. Isso é lógico: ao nos pautarmos pela verdade, lidamos com a realidade conforme ela se apresenta, estando aptos a evitar ameaças ou a aproveitar oportunidades REAIS.

      Aí aparecem objeções como a do Jairo, em que “uma tribo poderia mentir pra obter vantagem sobre a tribo adversária”, mas observemos que isso não refutou o “ser” da valorização da verdade: a tribo a ser enganada continua valorizando a verdade, justamente pra evitar ser enganada em situações como essa. A tribo tentando propagar a mentira não deixou de valorizar a verdade: se não soubessem a verdade pra si, eles próprios cairiam no engano que estão tentando transmitir. Além do mais, a transmissão da mentira será feita como se fosse uma verdade, justamente porque valorizamos a verdade.

      Estando demonstrado esse “ser” (buscarmos a verdade), isso não significa um “dever ser” de que devemos dizer a verdade ou não, não significa que um dos lados dirá sempre a verdade ou sempre a mentira; apenas explica o “ser” de que eles o farão de acordo com sua conveniência.

      “Mas quem não se preocupa com a verdade não debate senão por poder.”

      Todos se preocupam com a verdade (pra si) e todos debatem por poder, ou melhor, pra conseguir situações vantajosas pra si, a questão é que alguns podem debater através da mentira e outros da verdade (lembrando sempre que mesmo os que debatem pela mentira se esforçam para transmití-la como verdade, porque a valorizamos), Essa escolha vai depender apenas da conveniência dos fatos verdadeiros aos propósitos do indivíduo: se forem convenientes, ele se apoiará neles; se não forem, tentará maquiá-los, omiti-los ou simplesmente mentir que são de outra forma. Ou, talvez, devido a um erro de percepção do sujeito, ele realmente acredite que aquilo que está defendendo seja verdade, quando não é.

      Assim, o que nós temos de acordo com o darwinismo é que (1) todos valorizam SABER a verdade, mas (2) nem todos estão interessados em DIZER a verdade aos demais. O cético entra como alguém, devido a 1, caçando tais fraudes, que ocorrem conforme 2.

  5. AUTOR DO BLOG:
    “Mas eu diria que o natural é o ser humano tentar mentir sempre que possível, enquanto que também é natural GOSTARMOS de que os outros digam a verdade. ”

    Errado. Não é o caso de gostarmos que os outros nos digam a verdade. O caso é que gostamos que os outros nos digam o que desejamos profundamente ouvir. Tanto que nestes casos damos status de verdade sem pensarmos duas vezes. Isso quer dizer que não valorizamos A verdade, mas O valor da informação.

    Um bom mentiroso sempre parte do pressuposto que as pessoas irão acreditar nele desde que ele diga coisas que vão atender os desejos dos locutores.

    Saber isso é fundamental para quem se diz investigador de ateus e humanistas, ou seja lá o que for.

    Se você confia que todos só vão dar valor ao que for verdadeiro, então você confia que todos serão céticos a ponto de se certificar o máximo possível de que a informação é verdadeira. Sim, pois se valorizamos a verdade, vamos buscá-la incessantemente. Mas se, ao contrário, gostamos mesmo é de atender nossos desejos, qualquer informação meia-boca vai passar.

    Não creio que você seja um otimista do tipo “don’t worry, be happy” a ponto de crer no primeiro caso. E se crê no segundo, é obrigado a reconhecer que falou muita besteira quando alegou que valorizamos a verdade e não o valor da informação. Tens de reconhecer também que teu ponto de vista original era muito ingênuo…

    • Na verdade depende. Gostamos que os outros nos digam o que desejamos ouvir EM ALGUNS CASOS. Mas em outros, é importante querer saber a verdade. Ex.: “vai cair um tornado semana que vem?”. As pessoas podem ao mesmo tempo querer saber a verdade, como também podem torcer para a resposta ser negativa.

      Portanto não há uma regra exata, em que podemos dizer que SEMPRE as pessoas querem o que desejamos profundamente ouvir. Essa objeção, portanto, não é tão relevante, e não afeta o que publiquei. Mas pode surgir uma explicação adicional, na qual eu contemple as situações em que as pessoas estejam torcendo para ouvir algo já específico, não ligando se o que a outra parte fala é verdadeiro ou não.

      Mas cabe ao Bruno saber por que ASSUMIR que as pessoas querem ouvir algo é “fundamental para quem se diz investigador de ateus e humanistas, ou seja lá o que for”?

      Outro erro de interpretação está aqui: “Se você confia que todos só vão dar valor ao que for verdadeiro, então você confia que todos serão céticos a ponto de se certificar o máximo possível de que a informação é verdadeira. Sim, pois se valorizamos a verdade, vamos buscá-la incessantemente. Mas se, ao contrário, gostamos mesmo é de atender nossos desejos, qualquer informação meia-boca vai passar.”

      Na verdade, eu afirmei algo bem diferente. Eu disse que preferimos que os outros nos digam uma verdade ao invés de uma mentira (independentemente do fato de termos problemas na percepção do que é verdade ou mentira, ou se desejamos ouvir uma mentira), mas ainda assim a necessidade de sobrevivência tende a fazer os seres humanos MENTIREM quando necessário. Ou seja, temos ao mesmo tempo a valorização da verdade (quando isso vem de outra parte e nos afeta), como também a tendencia humana de se mentir.

      Isso já estava presente no meu ponto de vista original. Mas agora pude explicar melhor.

      Bruno, embora você ainda esteja irritado (e tentando partir para provocação), saiba que posts com QUESTIONAMENTOS E DESAFIOS à minha teoria, são sempre bem vindos.

  6. Desculpe pessoal, mas reparem que as objeções não estão bem colocadas, elas erram o alvo do debate entre eu e o Ayan. Essa questão do interesse pela verdade tratamos en passant, sem darmos mais que exemplos, nem argumentos nós apresentamos. Era para ser um mero aviso ao Ayan de que ele não pode tratar a verdade como sendo sempre questão de utilidade. Assim, o ponto é meta-filosofia, coerência interna do discurso do Ayan. Diz respeito ao que ele não poderia fazer pressupondo o que pressupõe. Releiam com esse olhar. O foco de meu debate com ele é a validade do método, é condições de possibilidade e validade do discurso dele.

    Apenas para ilustrar melhor, quanto aos discursos em geral, que muitas pessoas prefiram considerar verdadeiro o que é útil a elas, isso é óbvio que acontece, e eu não teria objeções epistemológicas a isso, teria objeções morais, caso a utilidade do que escolhessem ferisse algum princípio moral. Ou seja, nem sempre usamos o discurso preocupados com a verdade, mas quando estamos debatendo, a verdade é o trunfo do qual não se pode largar mão, sob pena de contradição tão logo se parta para o debate. Pode ser que você esteja certo, mas se disser que verdade não importa, então como é que você pode dizer que o outro está errado? Não há o que considerar falso se qualquer coisa pode ser verdadeira! Da mesma forma, ninguém pode dizer que esquerdistas estão errados, são falsários, etc sem pressupor que devessem falar a verdade, e sem pressupor que a própria postura seja melhor que a dele, ou verdadeira em posição à dele. Isso é contraditório. Enfim, não pode chamar alguém de mentiroso se para você a verdade é descartável, é apenas questão de utilidade. Porque se é apenas questão de utilidade, o esquerdista está CORRETO e AUTORIZADO a ser trapaceiro, pois sua trapaça é útil ao seu propósito. Percebem? Esse é o problema que o Ayan tem de resolver por causa de seu comprometimento com o descaso darwinista pela procura da verdade nos debates. Não pode ser apenas poder, não pode ser apenas utilidade.

    Abraço!

    • Eduardo, ainda estou devendo um post comentando essa objeção, mas só para adiantar alguns pontos:

      1 – O fato de eu considerar o ser humano propício a mentira, não significa que eu defenda a mentira
      2 – O fato de eu constatar que hoje em dia não temos mais debates de boa qualidade, apenas diálogos politicos, não implica que eu não dê valor a verdade (na verdade já escrevi posts em que mesmo no duelo cético, podemos ter foco em estar do lado da verdade)
      3 – Entender que o ser humano tem tendencia ao logro, e estudar isso sob o prisma do darwinismo, não significa que o darwinismo esteja nos ditando normas morais e nem se devemos mentir ou não

      Mas tratarei destes pontos em mais detalhes no post de resposta.

      De resto, este post tem tido objeções muito importantes e relevantes no geral (e o Fabrs e o Bruno também tem contribuido com objeções), que levo em consideração e tratá-las-ei no momento adequado.

      Abs,

      LH

  7. Ok, Luciano!

    Quanto a 1, eu não disse mesmo que você defendia a mentira. Disse que não pode acusar ninguém de mentiroso se não pressupuser que há uma verdade e não mostrar que seu adversário não está com ela.
    Isso não precisa ser feito mostrando qual é a verdade, mas não pode abster-se do compromisso epistemológico de que há uma verdade.

    Quanto a 2, Ok. Mas todo debate que se valha e argumentos pressupõe a noção de verdade, porque pressupõe adequação ou inadequação entre um discurso (seu ou do oponente) a respeito de um fato ou objeto. Todo raciocínio lógico e mesmo toda definição pressupõem o princípio de não contradição, pois se tratam de distinguir o que algo é, daquilo que ele não é.

    Quanto a 3, eu não disse isso sobre o darwinismo. E pelo que conheço de método científico, se ele pretende ser um, sei que ele não pode mesmo defender isso. O que eu quis dizer é que, se você pressupõe, via darwinismo, que nossos discursos buscam apenas poder, não pode acusar ninguém de falsário, porque ele teria todo o direito de ser falsário. Ou seja, ou você não acusa ou você abandona o pressuposto de que debates SÓ buscam poder. Tem de haver uma verdade em razão da qual você possa atacar quem você ataca. Senão é mero palavrório.

    Sim, também gostei das colocações do Fabrs e do Bruno, são boas sobre “se” buscamos a verdade “sempre”, mas não sobre quando a busca da verdade necessariamente é pressuposta, que é o caso dos debates.

Deixe uma resposta