Escavação de alegações: por que isso deve ser um método?

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Como venho de uma família com vários advogados, entre eles o meu pai, sempre ouvia o termo “alegação”. Quando meu pai comentava sobre algum caso, ouvir frases como “A parte X pode alegar X, portanto devemos nos preparar para isso” era comum. Hoje não moro mais com ele (nem na mesma cidade), mas sei que ele continua bastante esperto nas “alegações” da outra parte.

Entretanto, o termo alegação aparece também muitas vezes em debates envolvendo ceticismo

James Randi, por exemplo, descreve a si próprio como um “investigações de alegações paranormais”. Assim, as alegações paranormais são o objeto de seu ceticismo.

Alguns mestres da neurolinguística sempre nos lembram que “o homem é um animal linguístico”. Portanto, por causa das construções semânticas utilizadas, ele pode interpretar a realidade de uma maneira completamente diferente da realidade em si. Enfim, ele pode construir a própria realidade.

Um exemplo está no uso histórico do termo “cético” por pessoas que questionavam o sobrenatural. Naturalmente, esse é um exemplo de ceticismo, mas, como já abordei mais de uma vez, não é a única forma. Entretanto, ao acharmos que o ceticismo se resume ao paranormal, o apressado poderá interpretar a afirmação de James Randi (de ser um “investigador de alegações paranormais”) como se ele fosse o questionador “de alegações”. Um mero erro cognitivo poderia levar alguém a achar que se há alegações, elas são relacionadas ao sobrenatural.

Mas se você não caiu neste erro linguístico, conseguirá compreender que uma alegação não necessariamente fala de eventos sobrenaturais. E o ceticismo deve ser aplicado a todo tipo de alegações, não apenas as alegações sobrenaturais.

Exemplos de alegações sobrenaturais incluem a leitura na borra do café, a quiromancia, ou até mesmo a validade do horóscopo. Mas, só para ficar no meu território (o do ceticismo político), os itens abaixo também são alegações:

  • O homem poderá criar um paraíso em Terra, por sua ação (alegação tanto humanista quanto marxista)
  • As diferenças comportamentais entre os sexos são apenas construções culturais, não tendo  relação com a biologia (alegação feminista)
  • O estado age como se fosse laico ao retirar o crucifixo de uma repartição pública, mas viola o estado laico se o deixa por lá (alegação tanto humanista quanto neo ateísta)
  • Muitos guerrilheiros estavam lutando pela liberdade, não pela ditadura, na época do regime militar (alegação marxista)

Como se nota, em muitos textos esquerdistas você já viu alegações do tipo, que deveriam ser questionadas, desmascaradas e ridicularizadas tal qual o ceticismo de combate de James Randi.

Mas ainda podemos ir além.

Ao rastrearmos as alegações contidas nos discursos, podemos até encontrar alegações não tão evidentes. Alguns exemplos:

  • A ciência nos diz para nos guiarmos pelos ideais humanistas (há duas alegações embutidas aqui, sendo a primeira tentando simular que o alegador é um “representante da ciência”, e a segunda dizendo que ciência e humanismo estão diretamente relacionados)
  • Como representantes de Direitos Humanos, é vital nos preocuparmos com o bem estar dos presidiários (outras duas alegações, sendo a primeira na qual o alegador se posiciona como representante dos direitos humanos, e a segunda onde é afirmado que o bem estar dos presidiários é uma prioridade dos Direitos Humanos)

Há várias formas de questionar todas as quatro alegações embutidas nos dois discursos citados acima, mas antes de tudo, o importante é não nos esquecermos que se temos alegações, temos uma investigação a fazer.

Há ainda um terceiro caso no qual as alegações não estão evidentes, mas escondidas detrás de uma malha de palavras, que induzem o leitor ou ouvinte a crer em uma determinada alegação. Vamos a um exemplo já clássico neste blog, em um trecho retirado de “Deus, Um Delírio”, de Richard Dawkins:

Mas diz-se com frequência e com razão que as guerras, e as brigas entre grupos ou seitas religiosas, raramente dizem respeito a discordâncias teológicas. Quando um paramilitar protestante do Ulster mata um católico, ele não está pensando: “Tome isto, seu idiota transubstancionista, mariólatra, incensado!”. É muito mais provável que ele esteja vingando a morte de outro protestante morto por outro católico, talvez dentro de uma vendeta transgeracional. A religião é um rótulo para a inimizade entre integrantes do grupo/forasteiros e para a vendeta, não necessariamente pior que outros rótulos como a cor da pele, a língua ou o time de futebol preferido, mas freqüentemente disponível quando outros rótulos não estão disponíveis. Sim, sim, é claro que os problemas da Irlanda do Norte são políticos. Realmente houve opressão económica e política de um grupo sobre o outro, e isso remonta a séculos atrás. Realmente existem ressentimentos e injustiças genuínos, e eles parecem ter pouco a ver com religião; tirando o fato de que — e isso é importante e muitas vezes deixado de lado — sem a religião não haveria rótulos herdados ao longo de muitas gerações.

Embutido na afirmação acima está a alegação extraordinária de que o gregarismo (presente em todas as espécies) seria reduzido na espécie humana apenas com a eliminação da religião. Segundo Dawkins, o gregarismo humano é AMPLIFICADO pela religião. Obviamente, ele não tem evidência alguma disso, mas propaga essa alegação em grande quantidade. Curiosamente, raramente vi adversários de neo ateus isolarem essa alegação, efetuando sua demolição em larga escala.

Isso acontece pois muitas vezes deixamos passar algumas alegações do outro lado ficarem incólumes.

Esse é um erro imperdoável, pois um dos pontos centrais nos quais alguém pode ser atingido está relacionado com as alegações infundadas que possui.

Não podemos também esquecer de uma das afirmações centrais do framework de ceticismo político defendido aqui: não há crença política grátis. Se você não questionar o seu oponente quando este fizer uma alegação política infundada, isso jamais ficará barato. Se você não cobrar dele o preço desta alegação, você paga este preço.

Portanto, quando for encarar o discurso de seus oponentes politicos, reserve um cuidado especial para as alegações de qualquer tipo que estiverem contidas em tudo que ele propagar. Mesmo aquelas alegações que não pareçam tão óbvias à primeira vista.

Escavar as alegações é simplesmente buscar garantir que NENHUMA alegação que seja ao mesmo tempo inválida e benéfica para o seu oponente político passe incólume ao questionamento incisivo.

Essa perspectiva deveria estar incorporada ao DNA de todo cético político.

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1 COMMENT

  1. Na boa, LH, estes seus textos sobre fraudes “latu sensu” – conceituação, descrição, análise profunda, contextos em que são frequentemente usadas, pressupostos, desdobramentos, neutralização etc – são como um curso. Me refiro a todo o conjunto: rotinas, truques psicológicos, falácias, alegações sem prova, técnicas de controle de frame, estratagemas erísticos…

    Se burilados e encadeados, organizados sistematicamente (e, quem sabe, parcialmente reescritos, para ficar mais fluidos e coesos globalmente), dariam um PUTA livro. O material bruto está todo aqui: suas premissas e bases teóricas e metodológicas, seu ponto de vista intelectual (e político), mesmo sua bibliografia-base (ainda que não citada conforme manda a ABNT… rsrsrs).

    Sério, pense nisso. Você iria se supreender com a acolhida e o impacto de um livro “redondo” com conteúdo como o deste blog. Há muita gente carente dos conhecimentos que você compartilha aqui – tanto o que você absorve de suas fontes quanto o que você produz, original e criativamente, de estro próprio.

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