O Duelo Cético: como esse paradigma é o melhor que temos para agregar valor aos debates

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Será que o proprietário deste blog resolveu dar a cara a tapa e dizer que a solução para a baixa qualidade do debate público hoje é “fazer todos quebrarem o pau”? Sim, é exatamente isso o que eu quis dizer. Mas é claro que eu preciso dar uma explicação mais detalhada.

Me lembro quando abordei o controle de qualidade nas organizações, a partir do qual a validação da qualidade de um entregável é feito por uma ÁREA APARTADA em relação a área que faz a entrega. Isso significa que não é o emissor das faturas aquele a validar que “a qualidade das faturas está de acordo com o que a organização espera”. Da mesma forma, não é o gerente de projetos que declara que “seus projetos estão conforme o padrão da organização”. Lembremos que o responsável pelas faturas poderá omitir informações importantes, para simular uma qualidade que o seu trabalho não tem, assim como o gerente de projetos pode omitir problemas de qualidade em suas entregas para aumentar o seu bônus. Não é por outro motivo que nas organizações a atividade de validação é feita pelas áreas de controle de qualidade e auditoria.

Esse tipo de constatação dá sustentação à minha tese da espiral da bobagem, na qual um grupo político, ao colocar o grupo adversário na espiral do silêncio, começa a dizer uma quantidade enorme de bobagens. Isso por que aqueles que poderiam fazer o ‘crivo’ de qualidade nos argumentos desse grupo (agora dominante) estão calados.

Podemos até supor que a atividade dos iluministas, ao agir para derrubar a monarquia (e os papas que os apoiavam), ficou fácil pois estes estavam na espiral da bobagem. Com o advento do Iluminismo, um ataque frontal foi lançado aos monarcas e os líderes religiosos, que em pouco tempo foram lançados na espiral do silêncio. Ironicamente, a religião política foi colocada no lugar da religião tradicional. O culto a Deus foi substituído pelo culto ao Estado. Mas se os religiosos estavam na espiral do silêncio, a partir desse momento os esquerdistas é que foram para a espiral da bobagem. E, como sempre nesses casos, a qualidade do debate político cai exponencialmente.

Hoje em dia quando vemos posts como o de Sakamoto apoiando os criminosos mas pedindo a criminalização da “ostentação das vítimas”, isso é sinal de que a “intelectualidade” esquerdista não passa longe de classificações que transitam entre a neurose, demência e psicose. Pela hegemonia do pensamento esquerdista (religião política), os adeptos dessa linha de pensamento estão na espiral da bobagem.

Considerando esses fatores, hoje em dia temos o problema de que muitos esquerdistas falam a bobagem que lhes vier na telha. Será que se um dia os conservadores conseguirem a hegemonia, entrarão na espiral da bobagem também? A meu ver, essa é uma hipótese bem provável. Logo, se tanto um lado como outro podem entrar na espiral da bobagem, qual o valor do ceticismo político? (Estou considerando grupos adversários, em diversos níveis, como esquerda X direita, religião tradicional X humanismo, neo ateísmo X cristãos, etc.)

Para resolver essa questão, voltemos às organizações. O fato de auditarmos CONTINUAMENTE uma área, não significa que estejamos pensando em um estágio no qual a auditoria não seja mais necessária. Assim como não consideramos a situação em que um auditor resolve ir para a linha de frente realizar entregáveis e não precisa ser mais auditado só por ter sido auditor no passado. Ou seja, a auditoria não só é importante, como também constatamos que, assim que ela é abandonada, o caos volta a imperar. Às vezes, em quantidade até pior do que antes.

Sendo que não adianta esperarmos a situação em que ocorrerá um “fim do ceticismo”, um cenário no qual não será preciso mais questionar os outros (pois estes estarão “conscientes” de só usarem bons argumentos e alegações válidas), melhor pensar no ceticismo, especialmente político, como algo que não está apenas “de passagem”, mas que deve ser estabelecido como um hábito a não ser mais abandonado. Pelo contrário, quanto mais ele for ampliado, melhor.

Já vi objeções conforme a seguinte: “Você é um conservador, e questiona os esquerdistas. Logo, quem te questionará?”. A resposta é óbvia: “os esquerdistas”. Isso significa que, como conservador, meu papel no duelo cético é questionar os esquerdistas. Já o papel deles, no mesmo duelo, é questionar os conservadores.

Não posso me esquecer, é claro, de algumas verdades incontestáveis. Por questões de sobrevivência, o ser humano corre o risco de mentir quando quiser levar vantagem (e isso não é raro). Isso não significa que eu esteja te chamando de mentiroso. Estou me referindo ao ser humano de uma forma geral. Ainda assim, mesmo que o ser humano possua tendência a mentir, também gosta de ser tratado com o uso de verdades, em contrapartida. A lógica que dá sustentação a esse raciocínio não é nada complexa. É óbvia. Imagine, por exemplo, que duas pessoas estejam em um barco lutando pelo último cantil de água. A tendência é que um tente matar o outro para ficar com a água e conseguir sobreviver. Mesmo assim, ambos os dois DESEJAM no fundo não sofrer efeitos da violência. Não dá para negar que isso se aplica perfeitamente ao modelo que entende a tendência biológica à mentira dos indivíduos lutando pela sobrevivência, ao mesmo tempo em que estes indivíduos não desejam ser vítimas da mentira. (O leitor Bruno objetou dizendo que os seres humanos vão aceitar como verdade uma mentira em que desejam acreditar. Isso pode acontecer, é verdade, mas ainda assim essa “vítima” da mentira irá perceber a informação recebida como uma verdade, o que não muda a constatação de que, mesmo tendendo a mentir, caso precise lutar pela sobrevivência, esta pessoa desejará não ser vítima de mentiras)

Ora, considerando que a política é a ARTE na qual grupos lutam para levar vantagem sobre outros através de ações organizadas, incluindo o uso de discursos, no cenário da guerra política não faz sentido algum esperar que um desses grupos VALIDE a própria atuação. Por exemplo, em seu livro “Quebrando o Encanto”, Daniel Dennett diz que precisa investigar os religiosos. Agora veja o que ele diz em relação aos ateus: “Existe uma assimetria: os ateus em geral acolhem bem o exame intensivo de suas opiniões, práticas e raciocínios. Na verdade, sua exigência incessante de autocrítica pode se tornar bastante aborrecida”.

Pura bobagem. Os ateus (e neste caso ele fala dos neo ateus/humanistas) realmente questionam muito a religião revelada, mas não significa que façam o mesmo com o ateísmo e suas outras crenças. Eles questionam em larga quantidade o teísmo, pois este é o grupo político com o qual rivalizam. Caso acreditemos que os “ateus” se auto-questionem, isso seria cair no truque Auto Cético. Eu, como sou ateu, entendo que não cabe a mim dizer se o ateísmo é a melhor opção. Mas mesmo que eu diga isso, não cabe a mim DEFINIR que esta é a posição válida. Por ser ateu, eu posso ter um interesse investido no ateísmo. Cabe aos não ateus e oponentes do ateísmo esse questionamento. Assim como tem cabido aos ateus (especialmente os militantes) o questionamento ao teísmo.

Se você pegou o “jeitão” do raciocínio, já entendeu que eu defendo que o questionamento dos argumentos em si seja feito pelos OPONENTES daquele argumento. Isso significa que no cenário atual teríamos configurações como:

  • Ateísmo questionamento teísmo, na mesma medida em que teísmo questiona o ateísmo
  • Humanismo questionando a religião revelada, ao mesmo tempo em que os religiosos tradicionais questionam o humanismo
  • Direita questionando a esquerda, ao mesmo tempo em que a esquerda questiona a direita

Nessas configurações, que são apenas um exemplo, ainda podem surgir os pontos fora da curva, como eu, que não sou adepto da religião revelada, mas questiono a religião política, e me considero um adversário da mesma.

Agora, avaliemos como esta “malha” de questionamentos (lançados de forma adversária pelos oponentes do grupo alegador) pode ajudar na melhora da qualidade dos argumentos.

Se não questionado, um grupo, especialmente se estiver na espiral da bobagem, vai falar tudo que for necessário para obter vantagem política. Ao mesmo tempo, pelos adversários estarem na espiral do silêncio, mesmo que sejam afirmadas besteiras inomináveis, este grupo atuante não vai ser corrigido. Em muitos casos, a regra é clara para eles: se a vantagem política vem, que mal tem? Ao mesmo tempo em que ganham vantagem política, lançam uma quantidade inominável de bobagens na seara pública. Entretanto, se um grupo oponente assume que este grupo será questionado de todas as maneiras possíveis, as besteiras ditas pelo grupo aleagador tendem a ser “filtradas”. Como já disse, esse filtro não ocorre a partir deles próprios. Ocorre a partir de seus adversários.

Não podemos esquecer de umoutro fator, que é a perspectiva do triângulo para debates. É evidente que após uma saraivada de questionamentos e refutações que um esquerdista fique ofendido e irritado com a atuação do conservador. E vice-versa. Mas o que importa é que a plateia estará sendo “imunizada” de argumentos ruins que surgem de parte a parte. Essa “imunização” só pode ocorrer pois estamos aceitando como premissa de que o questionamento que pode demolir as alegações ruins vem da parte adversária, não dos proponentes da ideologia. Passaríamos, neste contexto, a aceitar de que uma das funções centrais dos ateus militantes é questionar os religiosos tradicionais. Isso, aliás, vem acontecendo há muito tempo. A diferença é que aceitaríamos também que a função dos religioso tradicionais é questionar ferrenhamente o ateísmo militante. Os dois lados, agora, fariam parte do duelo cético. Depois, basta aplicar isso para qualquer duelo ideológico cujos lados estejam bem definidos.

Vamos a um exemplo da tentativa de alguns criacionistas em imputarem ao darwinismo as culpas pelo nazismo. Obviamente, uma grande bobagem. Mas enquanto criacionistas estiverem obtendo as vantagens dessa rotulagem imposta ao oponente, não há esperanças de que abandonem o argumento ruim. Mas os darwinistas, adversários do criacionismo, poderão efetivamente questionar de forma pública essa alegação criacionista. E assim, sucessivamente, um questionando o outro.

Se há o questionamento extensivo de lado a lado, cada um dos lados questionados poderá ter muitas de suas alegações refutadas. A partir daí, só existem dois caminhos para aquele que for refutado. Abandonar suas alegações (ou ao menos algumas delas), e apresentar retificações, sendo obrigado a voltar atrás em alguns de seus estratagemas, enganos, deslizes ou até fraudes. Outro caminho é continuar propagando o argumento ruim, só que o questionamento realizado pelos adversários deste grupo poderá gerar um grau de conscientização pública a respeito do fato de que o grupo declarante está de fato propagando mentiras. Em qualquer um dos casos, a qualidade dos debates tende a aumentar.

Suponha o seguinte cenário. Um grupo de neo ateus propaga uma série de mentiras contra os religiosos tradicionais. Vários destes se juntam para refutar, e ridicularizar esses neo ateus, além de conscientizarem seus leitores de que os neo ateus em questão são mentirosos. Suponha que de 10 argumentos dos neo ateus, 8 ou 9 tenham sido massacrados na contra-argumentação. Só que os neo ateus vão rebater, e nessa contra-argumentação, podem encontrar bobagens nas argumentações dos mesmos teístas. Pode até ocorrer a situação em que nesse momento, ao tentar contra-atacar, os neo ateus simulem falso entendimento dos argumentos dos teístas. Mas estes mesmos teístas podem rebater mostrando que até na contra-argumentação, os oponentes então mentindo. Enfim, temos uma situação de fogo cruzado na qual, aos poucos, os argumentos ruins e as fraudes vão sendo derrubadas. Quem sai ganhando, naturalmente, é a platéia.

Por isso, entendo o duelo cético, uma perspectiva de debate na qual defendemos que o fogo cruzado de questionamentos entre partes adversárias, é uma forma muito mais eficiente de ceticismo, especialmente político, pois deixa a validação de uma idéia para um grupo que NÃO TEM INTERESSE em implementar a idéia. É uma expansão dos conceitos de controle de qualidade e auditoria nas organizações, só que aplicada ao debate público.

Assim como o controle de qualidade e a auditoria são funções que inegavelmente agregam valor à organização, esta lógica se aplica ao ceticismo político, em sua especialização que defino por duelo cético.

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29 COMMENTS

  1. Texto muito bom, Ayan! De clareza elogiável!

    Isso não significa, no entanto, que eu concorde com todas as teses (como de costume rs).
    Mas são desacordos que não merecem ser tratados aqui, pois mudariam o foco do texto.

    1) Você diz: “a auditoria não só é importante, como também constatamos que, assim que ela é abandonada, o caos volta a imperar”

    Verdade! A coisa funciona bem assim mesmo! O policiamento das ideias é inversamente proporcional ao caos (inclusive moral). E isso nunca acaba!

    2) A tese subliminar aqui é que as pessoas estão buscando poder e que precisamos controlar esse alcance de poder, e precisamos fazer isso para haver um equilíbrio de forças na sociedade. Entendi bem?

    Isso vai ser uma pergunta, mas depende de sua resposta.

    Abs.
    Eduardo

    • Em relação ao controle do alcance de poder e a necessidade do duelo cético para haver um equilíbrio de forças, você entendeu corretamente. Esse é o princípio do duelo cético, que é uma das terminologias que usei aqui mas nunca havia abordado em detalhes.

  2. Legal!

    Continuo então a questão.

    E por que precisamos manter equilíbrio de forças na sociedade?
    (Não é uma pergunta ingênua, mas também não é capciosa, é direta e clara, e dependendo da resposta, faz sentido ou não falar o que eu falaria).

    • Na verdade, eu tomei como um axioma que um equilíbrio de forças é desejável para a melhoria do debate público. Quando um lado passa a ter medo das consequências de divulgar idéias ruins (pelo questionamento que recebe, e a ridicularização que a alegação ruim pode gerar), isso tende a ser positivo. Caso um dos lados entre na espiral do silêncio, um dos lados tende a dominar o debate, sem freios para suas idéias, o que tende a gerar consequências desagradáveis para o grupo que entrou na espiral do silêncio. Por isso, tomei como premissa que para a melhoria do debate é bom ficarmos livres das alegações ruins que vierem de qualquer lado.

      Em relação a uma justificativa filosófica para o equilíbrio de forças na sociedade, e por que isso é melhor do que o domínio total do grupo X sobre Y, vejo que também é um axioma para mim.

      • É o que chamamos, no Direito, de “checks and balances”, “freios e contrapesos”, expressões utilizadas quando o tema é princípio da separação de Poderes. É um fundamento da democracia, em verdade: não há pessoa, órgão ou instituição com poder absoluto, ninguém se sobrepõe de modo acachapante, e há sempre um “tertius” fazendo algum tipo de controle.

        Nas sociedades que, em termos civilizacionais, isso aí funciona, vê-se Legislativo realmente representativo, Executivo probo e eficiente em termos de administração e gestão, e Judiciário ágil, efetivo e de baixo ativismo.

        Falta ceticismo, no sentido empregado por você, nos duelos institucionais brasileiros, isso é fato.

  3. Essa necessidade do ceticismo constante em relação ao discurso politico e ideológico lembra alguns ditados que eu ouvia na infância: “a desconfiança é a mãe da segurança” e “o preço da liberdade é a eterna vigilância”.

    É do jogo que o apologista de certa crença acuse o oponente de coonestar ou acobertar os erros de seu próprio grupo. Porém, embora haja maniqueístas em cada lado de um confronto, o problema, a meu ver, é que esquerdistas/humanistas/neo-ateus e similares são quase todos eles maniqueístas. Testemunho essa danação todos os dias, aqui no meu serviço, quando demonstro por A + B a estratégia usual do PT:

    1) Petistas e agregados tacham como calúnia ou paranoia as denúncias que sofrem
    2) uma vez confirmadas as denúncias, acusam a oposição de fazer igual
    3) constatado que o oponente não “faz igual”, alegam (como fez o copromante Paulo Betti em 2006) que os fins justificam os meios, no caso, a tal “justiça social” (sic ad infinitum)
    4) demonstrado que não promovem “justiça social” porcaria nenhuma, voltam à toda repetindo os 3 passos anteriores e passam a apelar para as estratégias de repetição à exaustão e ataque em bando.
    5) Como os beneficiários do petismo não são idiotas, tratam de tentar anular os que possam dificultar seu projeto de hegemonia: Judiciário, TCU, MPU, a banda limpa da PF e a imprensa que não se rendeu à verba oficial.

    Se forem bem sucedidos no passo 5, game over para o país, para a democracia e para o estado de direito.

    O que se nos impõe como falta de alternativa: “petismus delenda est”. Dentro da legalidade, obviamente.

  4. “O leitor Bruno objetou dizendo que os seres humanos vão aceitar como verdade uma mentira em que desejam acreditar. Isso pode acontecer, é verdade, mas ainda assim essa “vítima” da mentira irá perceber a informação recebida como uma verdade, o que não muda a constatação de que, mesmo tendendo a mentir, caso precise lutar pela sobrevivência, esta pessoa desejará não ser vítima de mentiras.”

    Sim, ninguém deseja ser vítima de mentiras. Porém, isso não quer dizer valorizamos a verdade, pois isto significaria que a primeira coisa que pensamos quando recebemos QUALQUER informação é: “isso é verdade ou não?”. Como normalmente deixamos nossos desejos se sobrepor a isto, fica difícil sustentar tal afirmação. Eu poderia até dizer que valorizamos a verdade OU aquilo que atende nossos desejos, mas vou ser ousado e afirmar que valorizamos SOMENTE aquilo que atende nossos desejos e que algumas vezes desejamos uma informação que nos agrade independente de ser verdade ou não e outras desejamos uma verdade independente de nos agradar ou não. Ou seja, mesmo quando damos valor a verdade, só damos porque isso atende a um desejo básico. Isso está mais no campo da ousadia e do achômetro, mas até que dá uma prosa booa hehe

    E (como o Fabrs disse) tratamos certas mentiras como se fossem verdades, por isso valorizamos verdades. Acho que aqui existe uma “confusão” com a palavra verdade. Num sentido absoluto, verdade é aquilo que corresponde aos fatos de forma exata e não-ambígua. Mas num sentido psicológico, verdade é aquilo que consideramos que corresponde aos fatos. Na verdade, todas nossas opiniões e registros são verdades dentro de nosso cérebro. Se eu acho que você mentiu para mim, meu cérebro vai tratar a informação “o luciano mentiu quando disse que tem uma ferrari” como uma verdade. Se eu tenho uma certa recordação equivocada, meu cérebro tratará a informação “eu visitei BH em setembro de 2010” como uma verdade, mesmo que eu tenha ido em outubro e esteja me confundindo. Evidentemente, tais verdades estão no campo meramente psicológico. Não é o caso de valorizarmos esse tipo de verdade, pois elas são o modo de trabalho da nossa mente. É como dizer que valorizamos a fome porque sentimos fome quando precisamos de alimento ou que valorizamos a febre porque ela nos avisa quando temos algum problema. Não é o caso de rejeitarmos a fome e a febre, mas também não é o caso de darmos valor.

    Por fim, não podemos dizer que valorizamos a verdade absoluta dado o valor às verdades psicológicas pois: 1) são coisas diferentes, 2) mesmo que fossem equivalentes, não valorizamos verdades psicológicas e 3) são poucas as situações onde colocamos as informações sob questionamento, especialmente quando nos interessam ou quando fazem parte da nossa visão de mundo.

    Só ressalto que nada disso refuta o blog, pelo contrário, ajusta sua perspectiva para uma mais adequada. O Luciano até que tem boa carga de leitura e parte de algumas premissas verdadeiras. A falta de qualidade que julgo ter este blog se deve ao adjetivo que o Gilmar usa para caracterizar ao autor, não à sua bagagem rs

    • Só um detalhe, Bruno, pois embora suas ultimas contribuições tenham sido interessantes, você ainda se apega às provocações de parquinho, como tentou ao final. A tentativa de ofensa do Gilmar foi devolvida em dobro para ele, pois ele não conseguiu me refutar. Se o adjetivo fosse adequado, ele teria conseguido me refutar com extrema facilidade. Aliás, no próximo texto sobre OTF vou falar de um erro vergonhoso cometido por ele, quando eu citei o darwinismo para refutar o ERRO DE CATEGORIAS cometido por ele, e ele entendeu que a citação ao darwinismo era uma tentativa de paródia ao OTF. Não era. É por isso que provocações de parquinho não funcionam, se o desempenho do ofensor não for condizente. Aí é a mesma situação que você sair dizendo que o desempenho sexual do rival é fraco, mas após você ter tido relacionamentos com a ex-namorada dele, ela sai em público dizendo que você é bem pior que ele. Esse foi (mais um) erro estratégico do Gilmar. Quanto mais propagá-lo, melhor para mim.

    • Uai, eu não sou obrigado a achar que este blog tem qualidade, ou sou? E não sou obrigado a esconder a minha opinião, ou sou? E seria estranho eu dizer que você tem uma bagagem boa e depois criticar a qualidade do blog, não seria? E nada mais justo então do que apontar uma justificativa para essa suposta contradição minha, certo?

      Eu acho que já fui muito mais provocativo do que isso…

      Na verdade, o que eu quis dizer foi o que eu estou tentando te falar desde que vc criou essa mood híbrido cético-conservadora: que o ceticismo nos faz fugir da esquerda na mesma velocidade que nos faz fugir da direita. Quem dera houvesse mais gente mundo a fora que pensa de maneira similar à mina, mas aos poucos vou juntando material para abrir um blog sobre uma proposta de “terceira via”… quem sabe?

      • Claro que você pode apontar essa suposta justificativa, mas saiba que há o preço a ser pago pela alegação. E este é o preço do ridículo.

        Agora, vamos aos argumentos (sim, você está melhorando neste quesito).

        Você diz “o ceticismo nos faz fugir da esquerda na mesma velocidade que nos faz fugir da direita”.

        Deixe-me entender como funciona. Questionar a impunidade dos criminosos nos faz fugir em da punição a eles? Questionar o excesso de impostos nos faz fugir da redução deles?

        Esse é o tipo de questionamento que geralmente complica aqueles que não querem ser rotulados nem de direita nem de esquerda.

        Falei disso já aqui:

        http://lucianoayan.com/2011/12/23/o-mito-da-neutralidade-politica/

      • É aí que está! Você está cometendo claramente a falácia da falsa dicotomia! Questionar penas brandas não é uma postura unicamente conservadora, pois esta postura pode ser assumida em um paradigma diferente. Você está clamando para o conservadorismo a exclusividade em questionar penas brandas, de modo que ou se questiona elas e é conservador ou as apoia e é esquerdista. É evidente, pelo menos logicamente, que se pode estabelecer uma linha de raciocínio independente de qualquer ideologia atual mas que mesmo assim tenha pontos em comum. Ou falei muita besteira?

        E outra, você vem dizer que estou nervoso porque estou provocando, mas você revida TODAS provocações, dizendo que quem ganha com isso é você e que eu pago o preço do ridículo. Na tua linha de raciocínio, você está tão nervoso quanto, eu acabei de ganhar um ponto e este parágrafo está te expondo ao ridículo. Ou falei muita besteira?²

      • Eu não disse que você estava nervoso no post anterior. Eu comentei que você usou uma provocação e isso poderia ser revertido. O revide de provocações conforme feito aqui não é mais a exposição de uma sensação instintiva, mas uma técnica. Falarei disso em maiores detalhes em um post falando da técnica “jogo de provocações”, e você verá que nem sempre estamos nervosos quando executamos o jogo. Mas desde, é claro, que estejamos conscientes do jogo.

        No caso do questionamento às penas brancas, ok, vamos entender, a título de argumento, que ela não é uma exclusividade conservadora. Mas há outros aspectos em que temos a exclusividade conservadora, como o apoio ao estado mínimo (ao invés do estado enxuto), e o ceticismo em relação à promessas de “salvação”. Nesses aspectos é difícil ficar no meio termo.

        Além do mais, é possível ser um esquerdista moderado, ou um direitista moderado. Aliás, eu já fui enxovalhado por alguns conservadores mais radicais e você deve ter presenciado isso até neste blog mesmo. Eu seria terceira via? Não, pois eu sou claramente contra a esquerda.

        Fico curioso, então, em como seria o “core” de crenças de alguém que estabelece uma linha de raciocínio INDEPENDENTE das ideologias centrais da esquerda e da direita.

        Digo isso por suspeitar da idéia de ‘terceira via’, não porque é impossível ser neutro, mas sim que as questões centrais dessas ideologias são DILEMAS, e portanto é difícil ficar no “meio do caminho”.

      • Só complementando, eu não apoio um posicionamento NEUTRO, mas um que seja INDEPENDENTE dos dois. Um posicionamento que coincida com a esquerda e com a direita nos pontos em que estão certos e que diverge deles quando estão errados. Sacou?

      • Saquei. E você poderia me dizer quais são seus posicionamentos nessas questões. Em quais pontos a direita está correta? Em quais pontos a esquerda está correta? Diante disso, podemos saber se estamos diante de alguém que seria uma “terceira via” de fato, ou um esquerdista ou direitista moderado.

      • Olha, vou ser bem sucinto. Não que eu tema em absoluto passar pelo crivo dos outros (pelo contrário, já deve ter percebido que às vezes confundo coragem com imprudência), mas o fato é que minha ideias estão muito pouco maduras para que as apresente de forma sucinta sem perder coesão.

        O que é importante ter em mente é que nas últimas décadas dois pensamentos distintos foram ganhando forma, evoluindo etc dando origem a esteriótipos que chamamos de “esquerda” e “direita”. Obviamente que ninguém bate 100% com um esteriótipo, medimos apenas a proximidade da pessoa com seus princípios e com seu “mindset”. E tão obviamente quanto, esses esteriótipos estão em constante evolução.

        Vou começar falando sobre o esteriótipo “esquerda”. O mindset do esquerdista enxerga toda questão social como conflito entre uma força dominante e outra oprimida. Evidentemente que muitos sistemas sociais são facilmente modeláveis desta forma, mas nem todos são. À medida que a esquerda força a barra para modelar tudo na sociedade como um conflito opressor x oprimido, ela erra sempre que não há tal conflito e sempre que exagera na medida de um que realmente existe.

        Por exemplo, hoje vemos bancos e grandes corporações atuando de forma absolutamente criminosa e insustentável dentro do sistema de capital. Criminosa porque considero certas práticas dessas empresas como verdadeiros estelionatos contra pessoas e empresas menores. Insustentável porque ferem o princípio básico do capitalismo: a livre concorrência. Para que um sistema de capital funcione, ele PRECISA de concorrência, as últimas décadas provaram isso muito bem. De certa forma, a esquerda faz muito bem em denunciar esse tipo de coisa. Mas ela exagera um pouco (vamos falar bem a verdade, erra bastante) quando propõe uma regulamentação opressiva, que trata tais empresas gigantes como inimigos que devem ser diminuidos à força até que tombem e se tornem tão pequenas quanto as empresas sustentadas por incompetentes.

        Aliás, o modus operandi da esquerda é nivelar o sistema econômico por baixo. Isso, obviamente, prejudica aqueles que conquistaram um lugar ao sol depois de um trabalho duro. Estas pessoas são vistas como as inimigas dos que ficaram para trás. Não é muito uma questão de inveja não, é que tem gente que se acha tão moralmente superior que pensa: “se fosse eu que tivesse vencido na vida, não deixaria o pessoal que deixei pra trás na mão. Como que venceu na vida foram ELES, então ELES não podemme deixar na mão”. Como economia e cultura são análogas, a esquerda tenta nivelar o status social por baixo também. Valorizam o trabalho braçal e o suor e acham que o trabalho inteligente e criativo não merece mais valorização do que os primeiros. Acham que o respeito deve ser imposto, via de regra, pela lei, pois assim garantem um sistema de status social coletivizado.

        Por fim, a esquerda valoriza a mudança como arma fundamental na guerra social. A mudança ganha o status de revolução e quanto mais ela prejudica as classes dominantes (tanto no âmbito econômico quanto no cultural) e quanto mais esparafatosa ela é, melhor. A mudança acaba se transformando em “mudar por mudar”, pois na visão de mundo deles, qualquer mudança é uma vitória contra aqueles que estão no poder. Outra grande ferramenta é o conflito armado, a luta física ao invés da ideológica. Destruição de bens materiais e desapropiação. Afinal, a luta pela igualdade justifica os meios.

        Reforço que nem todo esquerdista pensa assim. Atualmente, a esquerda abandonou um pouco esse revolucionarismo (uma mera adaptação) e não vê o capitalismo com aqueles mesmos olhos de ódio insano de antes; seu novo modus operandi é nivelar a cultura e a economia por baixo. É só ver a França, onde um engenheiro formado com mestrado recebe apenas um pouco mais que uma secretária com ensino médio. Isso é uma palhaçada completa, não precisa ser nenhuma gênio para descobrir isso.

        Já o mindset conservador nasceu como resposta imediata à esquerda. Não que não existisse antes, mas o surgimento da esquerda forçou uma organização formal nova que resultou a atual direita. Gostando você ou não, a direita nasceu na religião e mantém com esta uma relação simbiótica até hoje. Apesar do catolicismo em si ser bem esquerdista na questão econômica, todo o restante do cristianismo tende a ser muito direitista. A reação anti esquerda tem duas frentes básicas, ambas bem engastadas na religião, que descreverei a seguir:

        A primeira frente tentou lidar com a questão do conflito social e com a mudança como arma de guerra. Aqueles que hoje chamamos de burguesia de um século atrás viram suas fortunas sob risco e as religiões viram sua influência ameaçada, então eles bolaram um aparato teórico para se protegerem: o conservadorismo. A teoria básica do conservadorismo é valorizar aquilo que cresceu por conta própria até se tornar grande. Valorizar leis e sistemas sociais que se formaram depois de uma grande período de estruturção. Valorizar a mudança pequena porém consciente, a mudança que se dá através da Evolução e não através da REvolução. Proteger as instituições grandes e as leis já estabelecidas, proteger a propriedade privada e tornar o capital inviolável e, por fim, manter a ordem social como forma de se criar um ambiente favorável ao desenvolvimento.

        Muito bonito na teoria, mas a prática é bem diferente. A cautela em só permitr mudanças evolutivas é tão grande, que às vezes nem estas são permitidas e o sistema começa a caminhar para a obsolência. A luta pela ordem social se torna um meio de coibir qualquer tipo de movimento, mesmo aqueles “pacíficos” que ainda assim inserem caos e prejudicam o progresso. Os problemas derivados da desigualdade social se tornam invariavelmente um problema de raiz individual que deve ser solucionado com a mesma abordagem da luta pela ordem social. Acaba que o crminoso deixa de ser visto como fruto do meio + falha individual para ser visto como ou só fruto do meio ou só problema individual. A propriedade privada passa a ser um direito tão forte como o direito à vida (e olha que nem este é absoluto… é só ver a lei da legítima defesa e do estado de necessidade que vai ntar que existem situações em que perdemos o direito à vida). As instituições de longa data não são vistas como importantes, mas como fundamentais e passam a emanar um poder que não merecem, afinal são constituídas de homens corruptíveis como todo o resto. A tradição ganha status normativo e se torna insensível às mudanças naturais trazidas por novos conhecimentos, novas descobertas, novas tecnologias, intercâmbios culturais, novos pontos de vistas, novos artistas etc

        A verdade é que este aparato teórico teve um papel até considerável na formação dos Estados Unidos (e de tabela, na formação do estado moderno), mas ele se perdeu completamente, caiu no esquecimento. A direita passou usa a resistência à mudança como arma para manutenção de seu status econômico e social. Como no ponto de vista capitalismo x comunismo, ganhou de lavada, (apesar de ter sido forçada a abrir em alguns pontos), hoje a direita se concenta mais na segunda parte. O bandido deve ser combatido como se fosse único culpado, o indivíduo é livre para não ser forçado a se envolver no processo de diminuição das diferenças econômicas e sociais, o indivíduo determina a economia do status social sem regulamentação formal do estado, as instituições de longa data são fontes preciosas de status social (leia-se: as religiões), a propriedade deve ser valorizada etc

        A outra frente da direita foi o capitalismo. Este é fruto descarado da religião, tanto é que sua base teórica é protestante. Mas ele é tão bom, que os prtestantes perderam o controle e ele ganhou forma por si só e hoje é independente no campo ideológico. Importante notar que o capitalismo é anterior à esquerda x direita, mas como esquerda nasceu para combatê-lo, ele se tornou parte importante da direita. Evidentemente, a burguesia pregava um capitalismo ultra-liberal, que deixaria os ultra-liberais de hoje parecerem socialistas. Esses eram claramente inimigos da economia de mercado e da livre-concorrência. A exploração do trabalho manual destruia as chances de se criar um mercado sustentável e capaz de crescer. Esses foram cortados na seleção natural, mas com uma pequena ajuda da esquerda. Os direitos trabalhistas e a regulamentação da economia pelo estado podem ter sido uma derrota a olhos distraídos, mas o capitalismo só ganhou força mesmo quando se democratizou. A esquerda perdeu completamente a moral para critcá-lo: insistiu, desistiu e agora quer nivelá-lo por baixo. Mas nessa, a direita levou de lavada. Mérito por ter dado suporte a ele, mas nem tanto por ele ter se emancipado. Uma observação importante é que hoje a regulamentação está defasada, pois as empresas arrumaram uma forma de crescer descontroladamente de novo. E todos sabemos que falta de controle leva ao caos. A própria teoria conservadora diz que instituições crescendo sem controle são ameaças.

        Agora vou concluir minha dissertação “sucinta”: enquanto a esquerda tenta nivelar a economia e a cultura por baixo, através de mudança por mudança, da desordem social e da injustiça contra aqueles que cresceram graças a seu trabalho, a direita tenta nivelar a sociedade por cima, quer o progresso pelo progresso e exagera na luta pela ordem social, causando injustiça àqueles que são competentes mas não conseguem crescer por estarem em desvantagem clara. A primeira acha que deve-se fazer TUDO contra a pobreza e a segunda acha que TODO pobre é vagabundo.

        Minha proposta básica é montar um sistema que combata a injustiça e procure dar oportunidades iguais a todos. Quem aproveitar, bem, quem não aproveitar, amém. Evidentemente que isso não garante a inexistência da desiguldade social e não garante um estado enxutíssimo, mas devemos fazer uma solução de compromisso: qual o menor tamanho do estado capaz de garantir a menor desiguldade social com a menor quantidade de injustiças possível? Isso é ser independente de ideologia, pois é humana (no sentido de não ser desumana ou cruel), mas não impõe a igualdade como obrigação de todos nem faz vista grossa à desiguldade por motivos egoístas ou mesmo ideológicos. Cada um tem sua chance, todos têm a mesma chance. Quem tem mais talento, tem sua recompensa. Quem trabalha mais, tem sua recompensa. Quem se destacou não é demonizado, quem tem talento não parte em desvantagem.

        Outra proposta é tornar o processo de decisão mais independente da política. Estabelecer uma linha mais clara entre administração pública e política. Deixar que pessoas preparadas e competentes, altamente especializadas, tomem decisões importantes ao invés de políticos com ensino fundamental, interessados em fazer a vida e em ganhar as próximas eleições ou ao invés de políticos cegos que acham que suas opiniões altamente carregadas de visões de mundo esteriotipadas possam resolver tudo.

        Evidentemente que nada disso resolve qualquer problema e estou ciente da maioria dos defeitos. A ideia como um todo é muito imatura e está apresentada aqui de forma incompleta. O que eu quis aqui mesmo foi deixar claro que a esquerda fez uma modelagem da realidade e a direita fez outra, mas que ambas acertam em alguns pontos e erram em outros. Quando se sabe quais pontos são os certos e quais são os errados, pode-se sintetizar um novo modelo independente dos anteriores que inclua as vantagens de ambos e exclua as desvantagens. Esse modelo terá seus novos erros e provavelmente será confrotado por um outo modelo antagônico, ambos se tornarão esteriótipos até que se consiga sintetizá-los em um novo modelo, até que a solução comece, depois de umas boas iterações (a grafia está correta, iteração sem ‘n’), a convergir.

        http://pt.wikipedia.org/wiki/Modelo_%28matem%C3%A1tica%29 (http://en.wikipedia.org/wiki/Mathematical_model)

        http://pt.wikipedia.org/wiki/An%C3%A1lise_num%C3%A9rica

      • Farei uma análise de sua proposta futuramente, mas há algo curioso no que você postou: “Minha proposta básica é montar um sistema que combata a injustiça e procure dar oportunidades iguais a todos.”.

        A pergunta: quem vai gerenciar este sistema?

        Aparentemente, minha impressão é que você não está em uma postura INDEPENDENTE de esquerda, mas sim de uma esquerda moderada. É como as tais “críticas” marxistas, que eram feitas para “melhorar” o marxismo, mas sempre dentro do frame de mente esquerdista. Outro indício é a frase: “A primeira acha que deve-se fazer TUDO contra a pobreza e a segunda acha que TODO pobre é vagabundo.”, que de acordo com os jogo de rótulos conta pontos a favor da esquerda.

        http://lucianoayan.com/2012/06/14/tornando-a-guerra-politica-mais-divertida-uma-introducao-ao-jogo-de-rotulos/

        Um exemplo é isto aqui também: “Deixar que pessoas preparadas e competentes, altamente especializadas, tomem decisões importantes ao invés de políticos com ensino fundamental”.

        Em suma, sempre a extrema confiança no homem.

        Por isso, a definição deste blog, que neste caso apenas segue a terminologia defendida por John Gray, é mais justa.

        * Se alguém crê em Deus, é teísta
        * Se alguém crê no homem (e no potencial do homem resolver suas contingencias para “arrumar” a sociedade em prol de toda humanidade), é esquerdista

        Mas, claro, posso estar errado e vou analisar sua ideologia ainda mais. Para ter certeza, precisaríamos saber quem seriam os “agentes reguladores” deste novo sistema proposto por você. Quem seriam os interessados no novo sistema? A quem ele atende?

    • “E (como o Fabrs disse) tratamos certas mentiras como se fossem verdades, por isso valorizamos verdades”

      Eu não disse que valorizarmos “verdades psicológicas” significa que valorizamos “verdades absolutas”.

      Disse que buscamos verdades absolutas e só incorremos em erro quando nosso julgamento nos levou, por meio de erros, a uma “verdade psicológica” mas não percebemos isso e achamos que estamos de posse de uma “verdade absoluta”. Tanto é que, se percebermos que era uma “verdade psicológica”, imediamente partiremos para trocá-la em busca de uma que seja absoluta (e claro que podemos continuar errando na nova busca).

  5. Fabrs: Concordo com seu último post. Acho que está muito claro e correto.

    Bruno: acho não só que você está errado como também se contradizendo.

    Leia o que você digitou:

    “Ninguém deseja ser vítima de mentiras. Porém, isso não quer dizer valorizamos a verdade, pois isto significaria que a primeira coisa que pensamos quando recebemos QUALQUER informação é: “isso é verdade ou não?.” Vou dizer que valorizamos SOMENTE aquilo que atende nossos desejos e que algumas vezes desejamos uma informação que nos agrade independente de ser verdade ou não e outras desejamos uma verdade independente de nos agradar ou não. Ou seja, mesmo quando damos valor a verdade, só damos porque isso atende a um desejo básico. Isso está mais no campo da ousadia e do achômetro, mas até que dá uma prosa booa hehe” (fim de citação)

    Não, isso certamente não dá uma proposta boa. Nem tanto pelos seus humores exaltados, mas pela tese mesma que você defende, parece-me que você está mais emocional e psicologicamente crente nisso do que racionalmente convicto. Uma verdade se define por “razão + experiência”: isto é, por relações lógicas entre premissas e por adequação dessas premissas à coisa da qual elas tratam. Se isso estiver ok, a conclusão do argumento é uma verdade. (Viva Aristóteles!)

    Assim, você precisaria de garantia epistemológica disso, mas são garantias que não se pode dar, porque defender essa tese é algo logicamente contraditório.

    Alguns problemas desse pequenos trecho:

    1) Como assim, se ninguém deseja ser vítima de mentira, isso quer dizer, ao menos em um sentido, que valorizamos a verdade: no discurso que ouvimos. É só porque valorizamos a verdade no mínimo nesse sentido que chamamos interlocutores mentirosos de mentirosos…

    2) Quais seus argumentos para afirmar que valorizamos SOMENTE o que atende nossos desejos? Ora, a religião para mim, por exemplo, em muitos casos vai contra, bem contra, muitos dos meus desejos. Mas eu a valorizo mais que todos os meus desejos, bem por isso eu não acedo a muitos deles.

    3) Se você afirma que SOMENTE valorizamos o que atende a nossos desejos, então já não pode dizer mais que “outras vezes desejamos uma verdade independentemente de nos agradar ou não… Isso é uma pura e típica contradição

    4) Em seguida você volta à sua tese original de que só valorizamos o que desejamos, e introduz isso por meio de um “ou seja”, como se decorresse ou fosse igual ao que você disse antes…

    5) Enfim, não se pode aplicar o que você diz sobre “sempre valorizarmos o que desejamos” ao contexto da verdade, ao menos não de modo irrestrito, isto é, no sentido de que sempre tomamos como verdadeiro o que desejamos que seja verdadeiro, porque isso implicaria que ninguém mudasse de posições sem mudar de desejos… O que é um contra-senso visível, por exemplo, na religião. O Cristianismo é um exemplo característico de como uma verdade ilumina a conversão do desejo.

    6) O fato de acontecer de algumas ou inúmeras vezes “tomarmos como verdadeiro o que desejamos que seja a verdade” não dá base lógica alguma para concluir que isso possa tomado como uma explicação do que é natureza humana, isto é, de que realmente é o caso à natureza humana que a verdade se defina pelo desejo. É uma incoerência lógica defender que a verdade objetiva é um tipo de miragem… (em certa medida, essa foi a objeção que diz ao Ayan). (Além de me parecer mais uma dentre as tantas defesas do humanismo secular: pois definir a verdade com com base no desejo é dizer que a realidade das coisas é definida por referência à vontade do sujeito).

    Vou mostrar a contradição lógica de defender isso:

    – Passo (1) a tese: o desejo é causa final da verdade (porque a verdade está sendo definida em função do ou pela finalidade de realizar o desejo);
    – Passo (2): quando você diz que a verdade é definida pelo desejo, pretende que essa tese seja, ela mesma, verdadeira (isto é, pretende que ela diga como de fato nos posicionamos quanto à questão do verdadeiro e do falso);
    – Passo (3): Mas para ser verdadeira, necessariamente ela precisa ser provada como tal (porque eu poderia dizer que a verdade se define por relações lógicas entre as premissas de um argumento e, sobretudo, pela prova de que a conclusão e cada uma das premissas de fato se predicam daquilo sobre o que elas falam).
    – Paso (4): Contudo, o simples fato de TER DE justificar epistemologicamente a verdade disso já prova que “NÃO É PORQUE VOCÊ DESEJA” que essa teoria seja verdadeira que ela então “É” verdadeira”.
    – Passo (5), Prova prática do argumento acima: deseje que a tese apresentada por você seja verdadeira e nos convença de que ela pode ser verdadeira com base apenas em seu desejo.

    Percebe que isso não funciona nunca? Em todos os casos que alguém afirma que a verdade se define por utilidade, pelo desejo, pelos interesses, etc. está se contradizendo; porque isso mesmo não se torna verdadeiro apenas porque se diz que é verdadeiro.

    Esse último post do Bruno me permitiu mostrar mais um caso da incoerência em que uma pessoa se enreda quando secunda ou relativiza o papel da razão na busca da verdade ou quando secunda e relativiza a própria verdade – que é o que eu estava objetando ao método do Ayan caso ele partisse de algumas premissas darwinistas que fazem essa relativização da razão e da verdade.

    Abraço!
    Eduardo

  6. Ayan, voltando ao seu artigo, refaço minha pergunta:
    Por que o domínio total de um grupo X sobre um grupo Y é algo ruim?
    (Novamente, não é uma pergunta ingênua e tampouco capciosa).

    • É verdade, eu tinha me esquecido disso. Na verdade, o domínio total de um grupo X sobre um grupo Y é ÓTIMO para o grupo que domina, e péssimo para o que é dominado. E por isso temos que explicar as consequências disso a ambos os grupos. 😉

  7. Ok, outra pergunta então: porque o domínio total é péssimo para o grupo que é dominado? O que está na base da afirmação de que “é péssimo ser dominado”, que não poderia ser admitido?

    • Podemos ter um exemplo no Brasil. Somos hoje dominados pelos esquerdistas, por isso temos que aturar os impostos altos, a impunidade aos menores, etc. Na relação de domínio, os interesses a serem atendidos são APENAS os do que dominam.

  8. Ok, percebe que você apenas não disse com palavras, mas que está subentendido em sua fala que: “todos os humanos tem a mesma dignidade / igualdade”? Não se pode falar de dignidade humana sem pressupor algum princípio ou (1) à la Kant (toda unicidade que não pode ser precificada é uma dignidade – Metafísica dos Costumes), ou (2) à moda cristã (somos feitos à imagem e semelhança de Deus, e por isso, somos todos iguais perante Deus e entre nós). É só mediante uma metafísica do Alto que estabelece uma identidade de natureza entre todos os seres que são referidos pelo termo “ser humano” que que faz sentido dizer que não admitimos poderes totalitários, que um governo não pode definir a moral pelas vontades de grupos de indivíduos; que o poder não pode ser exercido na vida privada (biopoder), que índios não podem ser queimados por playboys, que judeus não podem ser mortos por arianos, que negros não pode ser escravizados, que feministas não podem tratar o aborto em termos de direito reprodutivo, etc… (isso nada tem a ver com igualdade material – fora comunismo! – mas com uma moralidade natural que pode ser metafisicamente fundamentada).

    Pois bem, meu interesse era chegar aqui: como fica isso frente a diversos pontos da teoria darwinista, como a seleção natural, por exemplo? Veja bem, se o darwisnismo está certo ou não quanto ao que afirma, isso não é meu ponto, meu ponto é que, independentemente disso, a teoria evolutiva não pode se pronunciar moralmente sobre isso, não pode explicar a igualdade e dignidade da natureza humana que você pressupõe para se opor aos esquerdistas. Note que, se o darwinismo não se pronuncia sobre isso, há um distanciamento entre seu pensamento e o darwinismo à medida que você o faz com muita qualidade! Pela explicação genética dos instintos e das condutas não se chega a essa atitude de mostrar a farsa de sistemas discricionários, e seria incoerente com o pensamento darwinista (pois, como você disse, ele não pretende direcionamento moral). Mas se pretendesse, seria coerente com ele defender exatamente o contrário do que você defende: vale o poder, que vença o mais forte, afinal vai acontecer o que é o melhor para a espécie!

    Não sei quanto você conhece de teologia cristã, mas eu o vejo mais cristão do que darwinista.
    Note que esse é mais um caso em que você não segue o darwinismo. O mesmo aconteceu quanto à critica que fiz sobre a busca pela verdade nos debates (coisa que você pressupõe, sob pena de ser contraditório ao atacar os esquerdista de falsários). Agora, a pressuposição fundamental (que você mesmo foi mostrando em resposta às minhas perguntas) de que está preocupado com igualdade e dignidade humana num sentido transcendental – já que pela mera biologia, deveria se importar pouco ou nada com a a imoralidade do esquerdistas.

    Abraço!
    Eduardo

    • Pois bem, meu interesse era chegar aqui: como fica isso frente a diversos pontos da teoria darwinista, como a seleção natural, por exemplo? Veja bem, se o darwisnismo está certo ou não quanto ao que afirma, isso não é meu ponto, meu ponto é que, independentemente disso, a teoria evolutiva não pode se pronunciar moralmente sobre isso, não pode explicar a igualdade e dignidade da natureza humana que você pressupõe para se opor aos esquerdistas.

      A teoria evolutiva realmente não pode se pronunciar moralmente a respeito disso, e nem é essa a função da teoria evolutiva. Tecnicamente, no entanto, podemos tentar uma explicação evolutiva para a busca da “igualdade de direitos” na espécie humana. Provavelmente por tornar as sociedades mais estáveis.

      Mas ao abordar o ser humano com um animal predator (que ele é), vemos que é inseguro dar ao ser humano o poder totalitário. E é nesse ponto em que podemos nos opor aos esquerdistas. Note que não é uma argumentação sobre a moral, mas uma constatação de como somos biologicamente, e por isso o esquerdismo é inviável.

      Note que, se o darwinismo não se pronuncia sobre isso, há um distanciamento entre seu pensamento e o darwinismo à medida que você o faz com muita qualidade! Pela explicação genética dos instintos e das condutas não se chega a essa atitude de mostrar a farsa de sistemas discricionários, e seria incoerente com o pensamento darwinista (pois, como você disse, ele não pretende direcionamento moral). Mas se pretendesse, seria coerente com ele defender exatamente o contrário do que você defende: vale o poder, que vença o mais forte, afinal vai acontecer o que é o melhor para a espécie!

      Sim, mas somente se eu usasse o darwinismo como um paradigma moral. Vou a um exemplo. Podemos usar o darwinismo como um paradigma que nos explica por que é inseguro abortar os mecanismos de segurança de nossa organização, mas ele não é uma teoria moral dizendo se DEVEMOS roubar senhas dos outros ou não. Mas, se constatamos, através do darwinismo, que o ser humano não é confiável, é inseguro não investirmos em sistemas de segurança. Aliás, é extremamente inseguro evitarmos o segregation of duties (validações de outras partes, para evitar fraudes corporativas). Caso surgisse um sistema como o bonismo (falo um pouco disso neste texto: http://lucianoayan.com/2012/01/03/como-picaretas-do-naipe-de-steven-pinker-se-aproveitam-da-ingenuidade-alheia/).

      Não sei quanto você conhece de teologia cristã, mas eu o vejo mais cristão do que darwinista. Note que esse é mais um caso em que você não segue o darwinismo. O mesmo aconteceu quanto à critica que fiz sobre a busca pela verdade nos debates (coisa que você pressupõe, sob pena de ser contraditório ao atacar os esquerdista de falsários). Agora, a pressuposição fundamental (que você mesmo foi mostrando em resposta às minhas perguntas) de que está preocupado com igualdade e dignidade humana num sentido transcendental – já que pela mera biologia, deveria se importar pouco ou nada com a a imoralidade do esquerdistas.

      Eu não vejo motivo para distingir alguém entre “cristão e darwinista”. Cristão poderia ser uma oposição ao ateísmo, mas não ao darwinismo. Aliás, não só eu não sigo o darwinismo filosoficamente, como os darwinistas também não seguem. Darwinismo é uma definição que explica se alguém acredita na teoria de DArwin ou não. Eu realmente poderia estar preocupado como “igualdade e dignidade em um sentido transcendental”, e isso pode ser influência do cristianismo, mas a influência do cristianismo está em toda a sociedade ocidental. Enfim, eu não me preocupo com a “imoralidade” dos esquerdistas. Me preocupo apenas quando o esquerdista influencia a vida de nós, não esquerdistas.

      Aliás, ver o texto “Há um esquerdismo aceitável?”

      http://lucianoayan.com/2012/01/24/ha-um-esquerdismo-aceitavel/

      • “Não confio em Deus, mas confio na Igreja”. (Diogo Mainardi)

        Eu acredito haver lógica na afirmação de que é possível adotar valores e preceitos morais advindos do cristianismo (a bem da verdade, de qualquer religião revelada) sem ter fé religiosa nela. E uso o termo “religiosa”, aqui, em seu sentido primevo em termos etimológicos, “religare”, “ligar de novo”, ou seja, reatar o laço perdido (ou enfraquecido, ou feito “invisível”) entre Homem (criatura) e Deus (criador). A moral judaico-cristã, sem dúvidas, é um fator de estabilização e harmonização social que propulsiona o desenvolvimento de todos os aspectos da civilização. E creio ser possível um indivíduo adotá-la em grande parte, ou ser favorável a seus preceitos básicos e alguns de seus detalhes pontuais, sem, digamos, crer na divindade de Jesus, em sua ressureição, na concepção imaculada…

        Acho que este texto do Reinaldo Azevedo resume a questão e a explica mellhor do que minhas mal-traçadas linhas: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/voce-tambem-cristao-ateu-mesmo-que-nao-queira/

        Tendo-se a fé religiosa ou não (Luciano não a tem, no caso), com base em meus limitadíssimos conhecimentos sobre darwinismo, penso ser possível, através dele, explicar porque, evolutivamente, fez e faz sentido um sistema axiológico como o cristão ter prevalecido em, literalmente, meio mundo. Não porque ele é bom ou ruim intrinsecamente, e passando totalmente ao largo da questão da credulidade ou da incredulidade quanto ao aspecto místico e espiritual; em termos pragmáticos, o resultado prático do cristianismo se mostrou, vou correr o risco do neologismo aqui, “darwinianamente adequado”.

        É por isso que discordo da ideia de “vale o poder, que vença o mais forte”. É questionável se, em termos estritamente evolutivos – estamos falando de sobrevivência dos mais aptos – um regime totalitário, carente de instituições que têm origem remota e profunda numa institucionalidade de base cristã (a milenar Igreja Católica é uma instituição que ensinou ao mundo muito mais do que seu próprio catecismo – vide o quanto contribuiu para o direito, por exemplo), seria o melhor meio de a humanidade progredir técnica, biológica e socialmente. Parece-me que, sob um sistema ético-moral que prega valor intrínseco a cada indivíduo, cooperação e auxílio mútuos, resolução civilizada e não-violenta de conflitos etc etc, a humanidade tem mais chances de sobreviver e se desenvolver.

        É preciso entender que o darwinismo é capaz de tentar entender como o tripé que sustenta a civilização ocidental (moral judaico-cristã, filosofia grega e direito romano) explica porque cada um desses elementos se espalhou mundo afora e conquistou a hegemonia (em sentido gramsciano, também). O fato de eles terem se tornado hegemônicos é devido ao valor intrínseco de cada um deles ou ao resultado prático positivo que eles trouxeram para a humanidade, como um todo? Será que eles não tornaram seus adeptos “os mais aptos”?

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