A perspectiva da demolição do valor alheio OU Como a paixão ideológica se torna frágil diante do ceticismo

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Não sei se já contei aqui quando surgiu a epifania de aplicar o ceticismo aos neo-ateus, o que posteriormente levou-me ao ceticismo contra a esquerda em geral, e, por fim, à criação de um método para o ceticismo político. Ou seja, um método que tanto um esquerdista pode usar contra um direitista, quanto um direitista usar contra um esquerdista.

Entretanto, este não é um post sobre o método, mas sobre a origem de um estímulo que criou em mim um hábito de usar o ceticismo para combates ideológicos (inicialmente na Internet). Curiosamente, minha influência surgiu a partir de… adeptos de Carl Sagan e James Randi.

O que importa é que fui convidado por uma amiga a participar de uma comunidade chamada “Projeção Astral”. Nela, vários participantes comentavam suas peripécias no “plano astral”. Diziam poder visitar as garotas enquanto dormiam. O que, por si só, já era sedutor para elas. Alguns deles ofereciam cursos online, que não eram baratos. Mais ousado ainda era um deles anunciando a criação de um curso de extensão universitária sobre projeção astral e outras técnicas “mágicas”.

Nunca acreditei que essas coisas funcionassem, mas na época eu estava interessado em sensações. Algo como executar todos os procedimentos de meditação, e obter a sensação de como seria sair do corpo. Isso tudo sem precisar acreditar que realmente o espírito sairia do corpo. De qualquer forma, a maioria dos orkutianos daquela comunidade pensavam de forma exatamente oposta. Alguns pareciam acreditar terem poderes sobrenaturais, e, justamente por isso, seriam uma “elite”. Era praticamente um debate entre pessoas “iluminadas” dentre os pobres mortais.

Fiquei acompanhando praticamente 1 mês os debates por lá, e não surgia muita coisa interessante, até que em um dia apareceu um sujeito, chamado Viliam (ou, ao menos, era esse seu apelido), com uma mensagem desafiadora. Era mais ou menos isso:

Notei que muitos de vocês alegam praticar viagens astrais. Eu particularmente duvido. Mas posso estar errado. Portanto, proponho um desafio: escreverei em um pedaço de papel 3 frases, e colocarei este papel em cima de meu computador. Desafio qualquer um dos projetistas a vir aqui, de forma astral, e ler o que está escrito no papel. Hoje é segunda-feira, dia 14 de fevereiro. Esperarei até o dia 18, sexta-feira. O desafio é muito simples. Ou vocês aparecem e lêem o que está escrito no papel, ou poderemos dizer que a viagem astral é uma fraude. O jogo está aberto!

Não é preciso dizer que a mensagem suscitou reações indignadas de imediato. O proprietário da comunidade ameaçou banir Viliam logo de cara, no que foi contido por outro moderador, alertando sobre o risco deles parecerem anti-democráticos. Viliam se sentiu tranqüilo para prosseguir com o desafio. Enquanto isso, os demais participantes, os “projetistas”, estavam irritadiços. Muitos diziam que “Viliam não entendeu o conceito por trás da viagem astral”. Ele foi rápido ao retrucar:

Se eu não entendi, então me explique exatamente o que estou perdendo, pois farei um novo desafio revisado.

As desculpas dos projetistas variavam entre o patético e o desvio de foco padrão. O fato é que os projetistas estavam aos poucos sendo desmoralizados. Melhor para Viliam, que era impiedoso:

Estou avisando que o papel ainda está em cima do meu computador. A sexta-feira já passou. Estou com pena de vocês. Vou dar mais duas semanas de prazo…

Eis que aquele garanhão que garantia visitar as garotas no sonho tornou-se também desafiador. E disse que iria ler o papel de Viliam. Mas só quando tivesse vontade. Viliam, obviamente, se aproveitava retrucando de forma cada vez mais fulminante:

Está certo. Estou esperando. Mas duvido que apareças…

É claro que ninguém apareceu. O papel não foi lido. Aliás, nem sei até hoje se realmente existia algum papel escrito. E sinceramente não me importa. O que realmente importa é que pessoas que alegavam uma autoridade em cima de outras (lembre: “eu tenho a habilidade de viajar no plano astral, e posso visitá-la em seu quarto, sem a presença corpórea, sou diferenciado”) não podiam mais fazê-lo. Pelo menos por algum tempo.

Os vendedores de cursos estavam tímidos. Workshops de projeção astral? Nem pensar. E, cada vez mais, a comunidade era freqüentada por pessoas que duvidavam da viagem astral. Viliam não estava mais sozinho.

Outros faziam coro juntamente ao seu questionamento:

Existe viagem astral? Então prove! Se alegou, então demonstre!

A sensação que eu senti pelos projetistas era de vergonha alheia. Dava pena ver marmanjos sendo desafiados, após praticarem bravatas, e depois usarem a expressão “veja bem”…

Viliam usava o ceticismo, e, pela eficiência em seu uso, conseguiu tirar a autoridade de uma comunidade inteira. Posteriormente, ele citou que era um adepto de James Randi e que tinha o livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, de Carl Sagan, como sua principal fonte de inspiração.

Foi quando decidi investigar a fundo o padrão de comportamento, e em como o ceticismo de desmascaramento provocava calafrios naqueles que eram questionados. De uma hora para outra, pessoas que tinham um ar imponente se sentiam acuadas e humilhadas.

Mas foi aí que veio a epifania, pois entendi um conceito básico. O ceticismo NÃO REQUER que um alegador esteja fazendo alegações sobrenaturais. Quaisquer alegações podem estar sob o escrutínio do ceticismo. Da mesma forma, um questionador cético NÃO PRECISA ser anti-religioso ou anti-paranormal. Basta ter um objeto de ceticismo, tal qual os adeptos de Randi tinham um objeto de ceticismo. Para eles, o paranormal e o sobrenatural deviam ser questionados.

Uma frase dita por Viliam foi extremamente relevante: “Ei, são vocês que estão alegando projeção astral. Eu não estou alegando nada. Estou em posição extremamente confortável”.

Foi aí que entendi o poder do ceticismo. E por que ele é uma ferramente tão útil que não pode ser exclusividade de um grupo só. O ceticismo tem o poder de tirar o VALOR de alguém, apenas pelo questionamento de suas alegações.

Para isso, vamos ao conceito de valor, incluindo o valor subjetivo. Imagine um sujeito que afirme em público ser namorado de uma coelhinha da Playboy, que é considerada musa em todo lugar que vá. Entretanto, alguém descobre e divulga ao público que a namorada dele jamais posou para a Playboy. Posou para a Private. E é bem feinha. É natural que o sujeito fique indignado, pois um valor subjetivo dele, o orgulho que ele tinha por ter uma namorada que todos desejariam, se perdeu. Esse orgulho foi substituído por uma humilhação. Antes ele se achava motivo de inveja. No dia seguinte, se sente motivo de chacota.

Outra vez, soube da história de um sujeito que tinha um Fusca, que ele apelidou de “Fuscão”. Era um carro de cor preta, provavelmente em homenagem a uma música sertaneja. Cheio de adereços, o carro vivia sendo exibido. Seu dono também gostava de usar o som no maior volume possível. O problema foi quando ele ouviu, sem querer, várias pessoas rindo da breguice de seu carro. O “fuscão”, que era seu objeto de orgulho, tornou-se motivo de vergonha.  Não demorou para ele vendê-lo.

É exatamente o mesmo que ocorreu com os praticantes da viagem astral. Antes, se achavam portadores de um conhecimento sobrenatural, que causaria inveja nos outros. Após o questionamento de Viliam, são percebidos pela platéia como pessoas delirantes, que vivem de ilusão e auto-engano.

Nos 3 casos, o padrão é o mesmo. O valor que a pessoa percebia ter é abalado. E, pior ainda, os demais percebem que o valor que o outro tinha é muito menor do que ele pensava ter. É aí que surge a sensação do “chão caindo por debaixo dos pés”, que Randi e Sagan garantiam gerar naqueles que eram foco de seu questionamento. O motivo é claro: o valor de alguém é tirado por alguém que não tem nada a perder.

Sim, é exatamente isso o que você leu. Se a alegação do outro é facilmente demolível, e você não está fazendo nenhuma alegação que precise ser validada, você só tem a ganhar e o outro tem grandes chances de perder. Para entender melhor o conceito, crie mentalmente a imagem de duas pessoas, X e Y, que estão lutando. X tem uma bexiga cheia de tinta vermelha, que fica presa por um arame à sua cabeça. A vitória será para aquele que ficar todo sujo de tinta, e os participantes usam longos pedaços de pau para poderem se agredir sem precisar encostar um no outro. Caso a bexiga exploda na cabeça de X, Y ganhará. Entretanto, a bexiga SÓ PODE estourar na cabeça X. É uma vantagem considerável para Y.

Imagine agora o valor que está sendo colocado sob questionamento como pertencente ao participante X (o namorado da alegada playmate, o dono do fuscão e o viajante astral). Mas Y, que é o cético, não tem esse valor. É isso que faz Y estar em uma posição extremamente confortável. O valor sob questionamento é como a bexiga cheia de tinta do exemplo anterior. (Atenção, não digo que esta é uma situação imutável, pois em alguns casos você será o cético e o outro será o questionado, mas em outros você pode ser o crédulo, enquanto seu oponente ser o cético)

E o que é a paixão ideológica senão um valor adotado pela própria pessoa? Um esquerdista pode se achar “defensor dos direitos humanos”, mas, sob questionamento lhe tiramos esse valor e mostramos ao público que ele é um defensor de criminosos, mas tende a ignorar vários aspectos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ele também poderá definir a si próprio como “defensor dos pobres”, mas podemos lhe tirar esse valor mostrando que ele apoia ditadores… riquíssimos.

Muitos esquerdistas, por sua vez, estão tão apaixonados por sua ideologia que podemos encontrar relação entre essa afeição e o amor romântico. Muitos deles chegam a ficar com pernas trêmulas ao lembrarem de Che Guevara. Há um conhecido que posou ao lado de Lula. Parecia, nesta foto, a pessoa mais feliz do mundo. Seus olhos brilhavam de emoção. Nesses casos não só a ideologia, como também os líderes da ideologia, são objetos de valor para o esquerdista. Ao questionarmos esse valor, estamos tirando o chão por debaixo dos pés deles.

Por isso, comecei a notar um padrão quando agia, perante neo ateus (no início) e esquerdistas em geral (a partir de meados de 2011), da mesma forma que Viliam agia perante os projetistas astrais. Enquanto esses crédulos tinham tudo a perder (pois a crença deles é que estava sob o crivo cético), eu podia simplesmente ficar em uma posição “extremamente confortável”. A vantagem é que, emocionalmente envolvidos (pela paixão ideológica), meus adversários normalmente ficavam irritados. Imagine a situação na qual o namorado da playmate está vendo sua garota ser chamada de “bagulho” em público. Ele tem motivos para se irritar, não os seus questionadores. Ele está apegado emocionalmente à ela, não os seus questionadores. Assim como o esquerdista está apegado às suas ideologias.

Sei que os teístas que lêem este blog entenderão por que muitas vezes ficam tão irritados quando os neo ateus os questionam. Eles estão colocando os valores dos cristãos sob questionamento. A bexiga de tinta vermelha, nesse caso, está na cabeça dos teístas. Entretanto, basta ridicularizarem as crenças de Dawkins, a postura humanista e a memética, que os teístas podem também colocar bexigas de tinta vermelha na cabeça deles. E, assim como ficam irritados quando os neo ateus os irritam, irritem eles também, oras.

Esse é um dos motivos que tornam o ceticismo, especialmente o ceticismo político, tão poderoso. É um paradigma na qual é fácil tirar o valor que seus oponentes possuem. Em tese, o ceticismo de Sagan e Randi sempre foi um ceticismo político. Foi o ataque de humanistas contra teístas, e esses grupos são rivais. Entretanto,  os humanistas venciam pois APENAS ELES questionavam. Logo, a bexiga de tinta vermelha ficava só na cabeça de seus oponentes. Aos poucos, o que tenho mostrado aqui através de uma série de conscientizações (e essa é apenas mais uma delas), é que o ceticismo não é propriedade de ninguém. É uma ferramenta que qualquer um pode usar contra os alegadores DO OUTRO LADO. Se você tem algumas alegações, seus oponentes também possuem várias.

Se você é religioso e se irrita ao ver neo ateus ridicularizando sua crença (segundo Dawkins, a hóstia é uma bolachinha besta, o que significa a demolição do valor alheio), saiba que eles também possuem várias crenças pelas quais se apaixonaram.

Mire sempre na bexiga de tinta vermelha logo que a colocar na cabeça deles. Tenha certeza que eles vão ficar bem  indignados. Significa que você está no caminho certo.

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4 COMMENTS

  1. Fala,Luciano,Beleza?

    Você diz que existe um certo amor dos esquerdistas por suas ideologias,com isso,os neo ateus também estão enquadrados aqui,certo?
    Mas e quanto aos ateus(Você se define como ateu,não é?),eles também podem ter uma especie de amor por sua ideologia?
    O ateísmo também pode ser definido como uma crença?

    Veja se essas definições de ateísmo estão corretas:

    Ateísmo fraco,ou negativo
    Ateísmo forte,ou positivo

    Imaginemos assim…
    Um pastor chega e diz:”Esse aqui é Deus,ele é assim,ele fez isso e pode fazer isso.”
    O Ateu diz:”Eu não acredito nisso…ou…Eu duvido disso”.

    Agora imaginemos dessa forma…
    Um pastor chega e diz:”Esse aqui é Deus,ele é assim,ele fez isso e pode fazer isso.”
    O Ateu diz:”Isso é impossível,não existe nenhum tipo de Deus.

    A primeira forma de ateísmo é o ateísmo fraco,ou negativo,que pode ser definido como: A não crença em Deus(es).
    A segunda forma de ateísmo é o ateísmo forte,ou positivo,que pode ser definido como:A crença na inexistência de Deus(es).

    Vou dar um exemplo aqui:Eu afirmo que todos os PUAS do mundo não pegam uma Hb10.
    Pra provar que esta afirmação é verdadeira eu teria que encontrar todas as HB’s de todos os PUAS do mundo.Não seria impossível de se provar,mas é muito,muito difícil.Tão difícil que beira o improvável.
    Uma alternativa para a minha afirmação seria:Até hoje não encontramos nenhum PUA que pegasse uma HB10.

    O ateísmo fraco,ou negativo,diria:”Não foi encontrado nenhum PUA que pegasse uma HB10.”
    O ateísmo forte,ou positivo,diria:”Nenhum PUA pega uma HB10,Isso é impossível.

    O primeiro caso,o ateísmo fraco,é uma descrença.O segundo caso,o ateísmo forte,é um tipo de crença.

    Acho que deu pra entender,não é?RS
    Estas definições estão corretas?

    Abraços.

  2. interessante o texto luciano mais permita-me questionar o método do Vilian para analisar a existência da projeção astral.Vamos supor que realmente existisse isso e que alguem realmente conseguisse ler o papel em cima do computador e falasse a mensagem correta quais seriam as garantias de que o Villian confirmasse que a frase estava correta?Seria a palavra dele contra a do suposto ”projetor astral” o ideal seria se o Villian encontrasse pessoalmente com o ”projetor astral” junto com uma platéia neutra ou com pontos de vistas distintos em relação a projeção astral,então ele escreveria uma mensagem num papel mostraria para a platéia,o papel seria posto em cima de uma mesa e pediria-se para o ”projetor astral” le a mensagem a um metro de distancia.

    Não acha esse método melhor?Afinal também se leva em conta a hipótese de que o questionardor também seja desonesto.

    • Concordo com sua abordagem. A vantagem do Viliam naquele caso (e ele aconteceu realmente!!) é que os participantes da comunidade não conheciam o método científico. Senão, eles teriam questionado até o questionamento do Viliam. Mas vc está certo sim.

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