Por que os líderes esquerdistas estão tão bravos com o impeachment de Lugo?

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O noticiário nos mostra que o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, sofreu impeachment. Embora todo o processo tenha ocorrido de acordo com todos os critérios de um julgamento político, a liderança esquerdista está revoltada.

Dos presidentes esquerdistas, Fernando Lugo era um dos mais desequilibrados. Tanto que gostava de instigar formalmente a luta entre camponeses e proprietários de Terra. Tudo bem que Lula sempre fez isso, mas não de maneira tão formal. É esperado que um presidente lute para gerenciar um país, não estimular conflitos internos. Isso deveria ser óbvio para qualquer estudante de ciência política.

Ademais, Lugo estava tão desgastado que até o Parlamento achava melhor ele seguir no cargo e perder naturalmente as próximas eleições. Entretanto, a baixaria no governo estava superando todos os limites. Vejamos, de acordo com informação da Veja:

Na sexta-feira passada, seis policiais paraguaios e onze sem-terra morreram em um confronto ocorrido durante uma reintegração de posse na cidade de Curuguaty, que faz fronteira com o Paraná. Cerca de cem pessoas ficaram feridas. O confronto ocorreu na fazenda Morumbi, que pertence ao ex-senador Blas Riquelme, do Partido Colorado, da oposição. De acordo com a imprensa local, os sem-terra invadiram o local e preparam um esquema “militar” de defesa. Após o conflito, Riquelme afirmou que os carperos (como são chamados os sem-teto) podem ter sido treinados pelo grupo guerrilheiro Exército do Povo Paraguaio (EPP), que atua no país.

O detalhe é que os tais guerrilheiros possuem ligação com o presidente. Quer dizer, orientar a invasão de propriedades de adversários políticos é jogar baixo demais. Os danos causados por Lugo, como o apoio a grupos terroristas, terá efeitos nocivos para o Paraguai pelos próximos anos.

Enfim, o impeachment de Fernando Collor, no Brasil, foi justificável, mas o impeachment de Lugo é MUITO MAIS justificável. Collor não era uma ameaça ao Brasil e não brincava dia e noite de desafiar a constituição para satisfazer à necessidade de poder dele e seus aliados, fazendo uso de grupos de terroristas e traficantes para seu intento.

Sendo assim, por que o dramalhão da esquerda?

Segundo outra matéria da Veja, Cristina Kirchner perdeu toda a compostura: “Sem dúvida houve um golpe de estado”. O engraçado é que ela finge não saber que um processo formal, encabeçado pelo Parlamento e o Senado, segundo as regras dos processos de impeachment, jamais pode ser qualificado como golpe de estado. Kirchner ainda disse que o processo foi um “ataque às instituições”, quando na verdade foi exatamente o oposto. A interrupção do mandato de um presidente que incentivava ações terroristas, as quais estavam ficando cada vez mais explosivas, é um exemplo de manutenção das instituições.

O boliviano Evo Morales não podia agir de forma diferente, dizendo o seguinte: “Não reconheço um governo que não surja das urnas”. Ué, mas em caso de impeachment, um vice-presidente assume. E quando alguém é eleito, o seu vice-presidente é eleito junto. Como se nota, lógica não é o forte de Morales. Outro problema é, se não há reconhecimento de governo que não surja das urnas, e se vice-presidentes não são considerados como “eleitos” (é a lógica de Morales, não minha), por que os esquerdistas reconheceram o impeachment de Collor? Talvez a resposta esteja aqui, na outra declaração de Morales: “Por trás da ação política se movimenta a mão de neoliberais externos e internos”. Ah, entendi, o impachment é inválido se ele for do desejo de neoliberais. Automaticamente, deve ser válido de for do desejo dos esquerdistas.

Ainda em relação ao uso de dois pesos e duas medidas quando a esquerda avalia os casos Collor e Lugo, Reinaldo Azevedo pontuou, brilhantemente:

Vênia máxima, não existe golpe quando se segue a Constituição. Golpe parlamentar, como querem alguns, é outra coisa. Nesse caso, o Parlamento vota uma lei com o fito único de depor ou de inviabilizar o governo de turno, emprestando normalidade aparente à ilegalidade. A Constituição paraguaia não foi reescrita para botar Lugo pra fora. Foi apenas aplicada. “Ah, mas já havia o claro intento de cassá-lo”, dizem alguns. Se é assim, a cassação ocorreria agora ou daqui a dois ou três meses. Nesse caso, o risco de convulsão social, manipulada pelas forças “luguistas”, seria grande.

E vamos parar de conversa mole. Bastou uma votação na Câmara para tirar Fernando Collor do poder. E sem direito à defesa porque tal procedimento era descabido naquela fase. E FOI NUM PROCESSO POLÍTICO, NÃO CRIMINAL — no Supremo, aliás, ele foi absolvido. É bem verdade que seu afastamento, em tese, não era definitivo. Mas todos sabiam, a começar do próprio, que jamais voltaria. Ainda hoje, se vocês forem fazer pesquisa na Internet, encontrarão em muitas páginas a informação falsa de que a Câmara aprovou o impeachment no dia 29 de setembro de 1992. Errado! Aprovou apenas a abertura do processo — o que o obrigou a se afastar imediatamente, sumariamente. Assim é na nossa Constituição. O processo seria mais longo do que o do Paraguai, mas Collor, como Lugo, já sabia o resultado. Renunciou ao mandato no dia 29 de dezembro, horas antes da sessão do Senado cujo resultado era óbvio. Não adiantou. A Casa deu prosseguimento ao processo político e condenou por crime de responsabilidade, por 76 votos a 3, quem já nem era mais presidente. Ficou inelegível por oito anos. Vale dizer: Collor já tinha renunciado e, mesmo assim, foi impichado…

Ironicamente, os esquerdistas estão reclamando de que o processo é um atentado a democracia, mas a manifestação de Hugo Chavez veio momentos antes dele receber o ditador do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. É, eu avisei, coerência e discurso de líderes esquerdistas são coisas que não se mesclam jamais. Chavez disse que “o processo foi vergonhoso”. Enfim, um processo que seguiu todos os procedimentos adequados a um julgamento político foi “vergonhoso”.

O fato é que nesta altura do campeonato, seria vergonhoso um blog como este não analisar a motivação para o fato dos líderes de esquerda estarem tão irritados (a ponto de combinarem desequilíbrio mental e destempero em suas declarações). Especialmente por que eu já mapeei a estratégia de esquerda denominada Ambição Global.

Além do que já abordei naquele verbete, há uma motivação em especial que é fácil de ser observada. Enquanto o líder esquerdista quer de forma obsessiva que todos os outros países virem socialistas, o líder de direita não está nem aí se os outros países largam o capitalismo para adentrarem ao socialismo, e vice-versa. Por isso, para os norte-americanos, se a Rússia quisesse continuar como um país fechado ao capitalismo, ótimo. Já para os russos, a mera existência de um país que transpirava liberdade era ofensivo. Por que isso acontece?

Para entender o fenômeno, tente imaginar uma subcultura de sujeitos que resolve lançar ácido no próprio rosto, a ponto de se deformarem. Com o tempo, eles descobrem que não conseguem mais parceiras amorosas. Ou, se conseguem, elas representam algo mais feio que bater em mãe por causa de mistura. Mesmo assim, a dor de ver o rosto deformado é válida por uma causa na qual acreditam, a de que a “beleza não pode ser cultuada” ou qualquer coisa do tipo. O problema é que, enquanto eles estão com o rosto deformado, e agora sofrendo as consequências de sua ação, muitos outros continuam com seus rostos lisinhos, e vivendo uma vida normal. Quer dizer, “fora do grupo” alguém não sofre as mazelas que as pessoas de dentro do grupo sofrem. Isso poderá abalar a fé de dentro do grupo, algo como “Será que realmente essa é a forma de sermos felizes? Por que não contestamos isso? Será que umas 10 cirurgias plásticas não podem me fazer voltar a uma vida próxima da normalidade?”. Enfim, a existência do grupo que não sofre as consequências do ato pode DIFICULTAR a fé do grupo que sofre as consequências.

O que fazer para resolver a solução? Ora, se alguém está no grupo dos que resolveram não enfiar a cara no ácido, a sensação poderia ser: “Cada um é cada um, se eles querem se destruir, problema deles”. Mas na situação do grupo que está com a cara toda detonada, pode surgir uma variação que é exatamente a oposta: “É inaceitável que eles não façam o mesmo que a gente. Portanto, eles devem ter o rosto queimado por ácido também. “. A lógica disso é a seguinte: se TODOS estão com o rosto queimado por ácido, então não há uma base de comparação, e não há um grupo para o qual se olhe e afirme: “Eles estão em situação melhor”.

O mesmo ocorre para um país que é lançado ao jugo dos socialistas. Os impostos são exorbitantes, a criminalidade é cultuada, e as instituições são depredadas. Os cidadãos vivem dia e noite com o medo do totalitarismo e a intervenção do estado (geralmente de forma indejesável) em suas vidas. A motivação para as realizações diminui, pois o país passa a cultuar a inveja ao invés do sucesso (conforme Ayn Rand já afirmou aqui). Aos poucos, investidores estrangeiros tendem a sair do país em caso de sucesso pleno das ambições esquerdistas.

Mas quando os cidadãos desse país começam a olhar para outros países que não caíram nas garras do socialismo, poderão pensar: “Será que o socialismo é mesmo a solução? Por que será que sem o socialismo outros estão mais felizes?”. É esse tipo de questionamento que os líderes esquerdistas não querem que sua população faça. Por isso, desejam que os países vizinhos se tornem socialistas também. Morales, Chavez e Kirchner não querem que seu curral possa ver o que existe além da cerca, ao menos na questão de liberdade. (Sim, pois o Paraguai nunca foi lá essas coisas em termos de prosperidade econômica)

É por isso que um conservador não dá a mínima se o Paraguai abandona o socialismo ou não. Mas os esquerdistas não querem, de jeito algum, que eles deixem de ser socialistas. Nisso, reside mais um aspecto do totalitarismo da mente esquerdista. Eles não só odeiam o fato de que você não viva sob a cartilha deles. Eles abominam a mera idéia de que outros países fujam do socialismo, especialmente se forem países próximos.

Portanto, quanto mais irritados eles estiverem irritados com o impeachment de Lugo, melhor.

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6 COMMENTS

  1. Só para deixar claro, eis o artigo 225 da Constituição paraguaia:

    “SECCION VI
    DEL JUICIO POLITICO

    ARTICULO 225 – DEL PROCEDIMIENTO

    El Presidente de la República, el Vicepresidente, los ministros del Poder Ejecutivo, los ministros de la Corte Suprema de Justicia, el Fiscal General del Estado, el Defensor del Pueblo, el Contralor General de la República, el Subcontralor y los integrantes del Tribunal Superior de Justicia Electoral, sólo podrán ser sometidos a juicio político por mal desempeño de sus funciones, por delitos cometidos en el ejercicio de sus cargos o por delitos comunes.

    La acusación será formulada por la Cámara de Diputados, por mayoría de dos tercios. Corresponderá a la Cámara de Senadores, por mayoría absoluta de dos tercios, juzgar en juicio público a los acusados por la Cámara de Diputados y, en caso, declararlos culpables, al sólo efecto de separarlos de sus cargos, En los casos de supuesta comisión de delitos, se pasarán los antecedentes a la justicia ordinaria.”

    Todo julgamento congressual é político; logo, não adianta entrar no mérito jurídico da “acusação” (para prestigiar o termo empregado na letra constitucional). Basta verificar se o rito, o procedimento, foi respeitado. E é indiscutível que foi.

  2. Luciano, só um detalhe: não há a contradição que você entendeu haver em sua primeira citação do artigo do site carta capital sobre o Impeachment, pois o primeiro comentário (sobre não ter direito a julgamento) se refere a Zalaya, enquanto o segundo (de julgamento a jato), refere-se a Lugo. Abs.

  3. dêem só uma olhada nessa ultima notícia:

    http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5856871-EI294,00-Mercosul+suspende+participacao+do+Paraguai+em+reuniao+de+cupula.html

    “-O Mercosul suspendeu a participação do Paraguai na Reunião de Cúpula de presidentes programada para a próxima semana, na cidade argentina de Mendoza, anunciou neste domingo a chancelaria argentina.
    O bloco decidiu “suspender o Paraguai, de forma imediata e por este ato, do direito de participar da XLIII Reunião do Conselho do Mercado Comum e Reunião de Cúpula de Presidentes do Mercosul, bem como das reuniões preparatórias”, diz o comunicado argentino.
    Horas antes, o chanceler do novo governo paraguaio, José Félix Fernández, havia confirmado presença na reunião, apesar de o ex-presidente Fernando Lugo, destituído na última sexta-feira, também ter dito que iria ao encontro.
    O comunicado da chancelaria argentina expressa a “mais enérgia condenação à ruptura da ordem democrática ocorrida no Paraguai, por não ter sido respeitado o devido processo”(…).”
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    O mercosul nada mais é que o clube do bolinha marxista…

    Ah! Fora o nojo que dá o uso deturpado da palavra “democracia” pelos esquerdistas

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