Por que a educação dada pelos nossos pais pode ter criado uma geração de pessoas sem preparo para a guerra política?

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Antes de tudo, que fique bem claro que eu não estou contra a educação dada pelos pais, nem os valores que os pais transferem aos filhos. Quem acompanha este blog sabe que defendo os direitos dos pais em transmitirem seus valores aos filhos.

O que quero dizer aqui é que, se esses valores podem ser úteis, em muitos casos também possuem efeitos colaterais, e devemos conhecer esses efeitos para lutar contra eles, e tentar, enfim, aproveitar aquilo que é útil da cultura de nossos pais, ao invés de permanecer com o que é inútil.

Qual é o problema que quero tratar aqui? Simples. Muitas vezes nossos pais nos ensinam que o correto é falar a verdade, praticar a justiça e fazer aos outros aquilo que gostaria que lhe fizessem. Em suma, é uma herança da doutrina cristã, mesmo que isso ocorra também em famílias seculares.

Tecnicamente, não há problema algum nisso, mas o diacho é que junto com essas lições vem o fato de que muitos saem com a impressão de que o mundo é feito de praticantes de verdade, justiça e reciprocidade. É aí que a porca torce o rabo. Com isso, criamos uma cultura de pessoas que tentam praticar a verdade (mas nem sempre isso é possível),  tentam serem justos (e, novamente isso nem sempre é possível) e buscam aplicar a justiça. Para variar nem sempre isso é possível. Mas a tentativa, ao menos, merece meu respeito. Só que ao mesmo tempo essa pessoa espera que AUTOMATICAMENTE os outros ajam da mesma forma com ela. E em muitos casos, não é isso o que acontece.

Obtive esse insight ao estudar o comportamento de muitos cristãos no duelo com os neo ateus. Foi aí que defini a expressão “clicar no email de phishing, achando que ele veio por engano”. Ao debater com o oponente, que está praticando fraudes intelectuais, alguém poderia dizer: “ele está enganado”. Esse é o resquício da cultura do “bom moço”, que pode ser extremamente prejudicial na guerra política.

Pela cultura do “bom moço” (ou “nice guy”, como diriam os norte-americanos), temos pessoas que são boazinhas, mas extremamente vulneráveis ao mal causado pelos outros. São incapazes de se proteger e são reconhecidas por sua ingenuidade. Se alguém acha que isso é um mérito, grande parte das injustiças do mundo se deve aos “nice guys”, pois estes são os maiores responsáveis por permitir que as atrocidades aconteçam.

Por isso, devemos trocar a cultura do “bom moço”, pela cultura do “homem justo”, ou qualquer rótulo nessa linha. Nessa cultura, devemos aproveitar todos os valores de nossos pais, é claro, desde que estes sejam úteis, mas ao mesmo tempo nos prepararmos para a vileza dos outros. Logo a expressão “Fale a verdade” tem que ser substituída por “Fale a verdade, mas esteja preparado para o fato de que muitos, senão a maioria, vão mentir para você”. Em suma, devemos corrigir os gaps na educação, e tornar as pessoas mais preparadas para, ao mesmo tempo em que cultuam seus valores, não se tornam despreparadas para lidar com o mundo exterior.

Essa cultura que defendo reside em uma cultura de precaução, que obviamente só pode surgir a partir de uma postura cética em relação ao homem.

A forma de criar essa cultura de precaução é atribuir responsabilidade às pessoas. Ou seja, alguém que mente é responsável pela mentira, mas alguém que é ingênuo ao aceitar essa mentira passa a ser co-responsável. Portanto, mesmo que seja praticante da verdade, por sua ingenuidade se torna um PATROCINADOR da mentira. A partir daí, essa pessoa pode ser questionada da seguinte forma: “se você valoriza  a verdade, por que permite que a mentira de seus oponentes prospere?”.

São âncoras deste tipo que poderão, aos poucos, ajudar as pessoas a “corrigirem” as falhas obtidas no aceite da cultura de seus pais.

Aí, e somente aí, quando estiverem prontos para ao mesmo tempo em que valorizam a verdade e a justiça, saber que estão diante de oponentes prontos para a mentira e a vileza, teremos indivíduos com a mentalidade preparada para adentrar ao território da guerra política.

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9 COMMENTS

  1. A conduta de bom moço, caro Luciano, dos cristãos em debates com neo-ateus, é um fato que lhes põe antecipadamente em desvantagem, pois abre espaço para que o inimigo use de toda sorte de estratagemas afim de vence-lo. Ao contrário do que pensamos, porta-se desta maneira não é demostrar dignidade ou superioridade ante ele, mas reforçar e alimentar indiretamente a sua empreitada na desonestidade. A inocência dos cristãos é algo gritante!

  2. Ayan, essa ingenuidade não se deve ao Cristianismo, ao menos não ao Cristianismo fundamentalista.

    Veja essas três passagens.

    Na primeira, Cristo adverte seus seguidores sobre como se portarem perante os perigos de uma sociedade potencialmente hostil:

    “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas.” (Mt 10:16)

    Na outra, o evangelista e historiador Lucas considera os judeus messiânicos de Bereia mais nobres que os de Tessalônica porque os primeiros praticavam o ceticismo saudável consultando o Antigo Testamento para testar e validar as afirmações do apóstolo Paulo e do missionário Silas:

    “E logo, de noite, os irmãos enviaram Paulo e Silas para Beréia; tendo eles ali chegado, foram à sinagoga dos judeus. Ora, estes eram mais nobres do que os de Tessalônica, porque receberam a palavra com toda avidez, examinando diariamente as Escrituras para ver se estas coisas eram assim.” (At 17:10-11)

    Por fim:

    “Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor” (Jr 17:5)

    Essa maldição acima mencionada pelo profeta se vem fazendo sentir nas catástrofes humanas e sociais promovidas livremente pelos esquerdistas.

    O problema de nossa credulidade, a meu ver, é o conceito enganoso de cristandade – uma comunidade que, por ser predominantemente cristã (ao menos nominalmente), se pautaria, em tese, pelos valores cristãos, os quais, por força da verdade e da beleza se estabeleceriam naturalmente, por gravidade e inércia.

    Capaz.

    As Escrituras Sagradas estão lotadas de pessoas que servem de exemplos preventivos para nossa educação. Nas páginas sagradas são desnudadas pessoas que tiveram todas as condições de se tornarem gigantes morais, mas que se revelaram estroinas e meliantes. Ora, se entre o povo de Deus encontram-se algumas das mais escabrosas personagens já descritas, que esperar então dos nossos oponentes humanistas?

    • Ah, sim, esquecia-me o golpe de misericórdia nas pretensões humanistas:

      “ENGANOSO É O CORAÇÃO DO HOMEM, mais do que todas as coisas, e PERVERSO; quem o conhecerá?”(Jr 17: 9)

      Ignorar esse conselho é morrer abraçado com o capeta, beijando-lhe a boca.

  3. Luciano, fui criada numa família dividida entre espíritas e católicos. Já frequentei centros kardecistas, centros umbandistas, frequentei um colégio católico e estudei por um tempo com testemunhas de jeová. Preferi acreditar no espiritismo mas, recentemente, passei a questioná-lo e, por fim, vi que também não me satisfazia…
    Comecei a ler em sites e fóruns sobre agnosticismo, cheguei ao ateísmo e agora ao seu site. Confesso que, até o momento, o agnosticismo me pareceu coerente, apesar de muitas vezes ser considerado um “ateísmo em cima do muro” ou “ateísmo covarde”, enfim…
    O fato é que resolvi comentar porque A-DO-REI seu blog! É muito bom acompanhar discussões lúcidas e imparciais como as que encontrei aqui! Apesar de estar “enamorada” pelo ateísmo, não concordo com as atitudes neo ateístas e acho que tanta intolerância os iguala aos religiosos super fanáticos que, segundo eles, causam tanto mal.
    Acredito que as pessoas devam ser livres para seguir a religião que escolheram, e que TODAS merecem respeito. Vi comentários do tipo “os teístas tentam o tempo todo converter os outros, postam sobre sua religião no facebook, porque não podemos fazer o mesmo?”; além dessa argumentação ser vazia de conteúdo, existe uma diferença enorme entre falar sobre sua religião aos outros, discutir religião de forma saudável (convenhamos, debates sérios e embasados são uma delícia!) e desrespeitar as crenças alheias.
    Seu blog ganhou uma fiel leitora, que não concorda com tudo que você escreve, mas que tem FÉ que um dia as pessoas serão mais tolerantes.
    Beijo!

    • Bem vinda à turma de admiradores deste blog, Fernanda. Sou cristão fundamentalista mas não saio daqui, hehehe.

      Só um conselho: a religião está para o casamento assim como Deus está para o amor; você se casa porque ama, casar na esperança de um dia vir a amar geralmente resulta em divórcio e/ou adultério. 🙂

      Grande abraço.

    • Bem vinda ao blog Fernanda! São os votos de boas-vindas deste aderente do catolicismo um tanto quanto gnóstico que defende a liberdade de escolha de outras crenças e mesmo descrenças, desde que com respeito mútuo =D

      Só um alerta: cuidado com o uso da palavra “fé” em certos circuitos “culturais” viu? nÉ arriscado, por exemplo, você sofrer bullyings por aderentes neo ateus à lá Sam Harris que tem ojeriza contra qualquer coisa que ganhe o rótulo “obscurantista” de fé xD

  4. Excelente texto Luciano, parabéns. Sinceramente, nunca tinha pensado por esse lado, mas concordo com o Marco Antonio, as bases do cristianismo não nos fornecem evidências de que a culpa é do cristianismo. Creio isso ser culpa do imaginário popular causado por heróis, bom “moços” que só querem o bem de todo mundo, Capitão Planeta… Em resumo, o ideário esquerdista. Em defesa do cristianismo o Marco citou muito bem alguns textos, e espero que você considere.

  5. Perdão, não quis dizer que você quis dizer que a culpa é do cristianismo, porém desses valores que muitas vezes são herdados como sendo cristãos ou simplesmente da confiança no homem bom etc… Caso contrário só estaria argumentando contra um espantalho.

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