A Arte da Guerra Política – V – Observações

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Eu comecei este ensaio para resolver um quebra-cabeças: como os Democratas conseguem fazer uma campanha com base em programas e idéias Republicanos – orçamento controlado, reforma da previdência, atitudes hostis contra o crime e valores familiares – e vencer, enquanto os Republicanos que tem promovido estes mesmos princípios por décadas – não apenas durante o período eleitoral – perdem? Como uma “questão social” como a educação se transforma em uma questão Democrata? Se esquerdistas e Democratas são responsáveis pela crise na educação, como é eles alegam que a questão educacional é de sua responsabilidade enquanto os Republicanos não podem fazê-lo? Minha resposta é que os Republicanos não entendem (ao contrário dos Democratas) que política é guerra conduzida por outros meios;  que é uma guerra de posição; e que você só pode vencer se associar suas agendas diretamente aos interesses das mulheres, crianças, minorias, trabalhadores americanos e os pobres. Em uma democracia a posição em que você deve buscar permanecer é do lado dos oprimidos, que é a posição com a qual a maioria dos americanos se identifica (não importa se eles são oprimidos de fato ou não).

Eu defini seis princípios como guias para a batalha política. O princípio fundamental é este: As pessoas não vão se importar com o que você tem a dizer a não ser que elas acreditem que você se preocupa com elas. A arte da política é persuadir as pessoas que não te conhecem, e que você jamais vai conehcer a não ser por símbolos e frases de efeito, que você se importa com elas. Os Republicanos não prestam atenção suficiente a esta simples verdade.

Alguns anos atrás Ronald Reagan estava em um encontro entre Democratas e Republicanos. Durante os procedimentos, houve uma pausa na qual ambos os lados ficaram aguardando, com blocos de notas defronte a eles enquanto esperavam para que as negociações retomassem. Depois, um repórter coletou os blocos e descobriu que os Republicanos tinham desenhado figuras geométricas enquanto os Democratas desenharam animais e rostos de pessoas. Apenas um Republicano desenhou um rosto – Ronald Reagan.

Na guerra política, as armas são palavras e símbolos pois não há tempo para alcançar o eleitorado com argumentos longos – ou mesmo curtos. Nessas circunstâncias um slogan, um símbolo ou um gesto é tudo o que você tem mãos. Um bom exemplo do quão efetivo um símbolo pode ser é a vitória de John F. Kennedy em 1960 devido ao voto negro. Ele conseguiu esse feito com uma única chamada telefônica para Martin Luther King na prisão.

Até aquele momento, os negros suspeitavam do Partido Democrata pois este havia sido o partido dos segregacionistas [1]. Kennedy mudou tudo isso com uma chamada telefônica. Ele não teve que lançar uma proposta política ou um panfleto se posicionando a respeito de questões raciais. Poucas pessoas teriam lido se ele fizesse isso. Poucas pessoas teriam ouvido qualquer discurso que ele tivesse dado. A imagem foi tudo. Ele não teve que decidir questões complexas a respeito de segregação, ou a respeito de direitos estaduais, ou mesmo sobre responsabilidades individuais. Ele simplesmente fez uma chamada telefônica.

Recentemente, alguns intelectuais negros e figuras políticas comentaram por que 90% dos negros apoiam Bill Clinton e por que muitos até o consideram “o primeiro presidente negro”. Mesmo que os comentaristas fossem pessoas experientes, suas razões não tinham nada a ver com propostas políticas que ele defendeu, pois muitas destas mesmas pessoas visualizavam as mesmas propostas (como a reforma da previdência) como se fossem hostis aos negros. As razões que eles deram para considerar Clinton um amigo, e mesmo “um deles”, foi que ele toca saxofone, deu vários cargos a negros, aparece em igrejas negras, tem amigos negros como Vernon Jordan, e normalmente parece confortável ao redor de negros. Estes são todos símbolos relacionados a Bill Clinton. Eles transmitem uma única mensagem: ele compartilha algo conosco; ele simpatiza conosco; ele se importa conosco. Esta mensagem triunfa sobre qualquer proposta política que ele tenha defendido ou qualquer programa que ele tenha iniciado.

Há outra razão pela qual Clinton tem tamanha vantagem quanto ao eleitorado negro, e ele não possui vantagem em relação a quase nada mais: os negros percebem os Republicanos não apenas como alienígenas em relação a eles, mas ativamente hostis. Se os Republicanos não são na verdade racistas, eles serão associados com racistas, como  é alegado que Bob Barr e Trent Lott supostamente sejam. Além disso, os Republicanos parecem não se importar. Um Republicano negro muito proeminente reclamou ao Presidente do Comitê Nacional Republicano Jim Nicholson que nenhum membro Republicano do congresso compareceu ao funeral do secretário Ron Brown. Como podem os Republicanos não terem pago tributo ao primeiro secretário negro do comércio?

Não foram as propostas políticas de Ron Brown que fizeram os Republicanos negligenciarem seu funeral. Afinal, haviam legisladores Republicanos no funeral do congressista George Brown. E Brown era praticamente um comunista. A respeito de suas intenções declaradas de inclusão de negros, os Republicanos não praticam atitudes necessárias para recrutá-los, e demonstrar que eles se importam. Como resultado, apesar de propostas políticas Republicanas como redução de impostos e escolha escolar serem benéficas aos negros, a comunidade negra não está ouvindo. A falha de alguns Republicanos em alcançar os Afro-Americanos é uma atitude defensiva causada pelos ataques da esquerda, mas isto não deveria ser usado como uma desculpa para o que é uma séria falha Republicana. Os Republicanos não são mais racistas do que os Democratas. Mas os Republicanos não fazem esforço algum para mostrar que eles não são. Com poucas exceções – Jack Kemp, J. C. Watts, e George W. e  Jeb Bush, por exemplo – eles não fazem praticamente esforço algum para mostrar que se importam com o que acontece com pessoas que vivem em nossas cidades do interior e no subúrbio, sofrendo os efeitos de viver nesses locais.

Os Republicanos têm nomeado negros para cargos importantes. Mas ao contrário dos Democratas, essas nomeações são sempre discretas. Pete Wilson nomeou uma ex-mãe de bem-estar negra para liderar seu departamento de previdência e presidi-lo durante suas refrormas. Eloise Anderson é uma das mais informadas e bem sucedidas especialistas em política pública a respeito de questões da previdência, uma conservadora firme além de uma Republicana que ajudou nas forças-tarefa de bem social do Governador Tommy Thompson e de Newt Gingrich. Pense o quão poderosa a voz de Eloise Anderson seria nas questões de propostas políticas sociais que são chave para os Republicanos ganharem a confiaça das minorias e pessoas pobres na California. Mas poucos Californianos sequer ouviram falar de Eloise Anderson, inlcuindo Republicanos. Pete Wilson, cujos instintos políticos são normalmente aguçados, a manteve praticamente como um segredo virtual. Ele não forneceu a ela uma plataforma pública para realizar anúncios importantes publicamente, ou mostrá-la na televisão em eventos estaduais. Se uma figura política não está na televisão realizando importantes anúncios a respeito de propostas políticas, ela não existe.

Um gesto em direção aos afro-americanos afeta mais que o eleitorado afro-americano. Afeta todos que se consideram perseguidos, desfavorecidos, “sub-representados” ou “oprimidos”. Isso afeta a todos.

Os principios que eu delineei fornecem um guia para que os Republicanos evitem os erros do passado e passem a posicionar a causa conservadora como aquela que irá libertar os pobres e minorias da opressão do esquerdismo e do estado de bem-estar social. Uma palavra resta a ser dita a respeito da relação entre os princípios e as táticas políticas. Sendo que a política é a arte da prática, a relação entre esta e a teoria é uma relação sempre complicada e facilmente mal interpretada.

David Horowitz

***

[1] Aliás, é sempre bom lembrar que Abraham Lincoln foi o primeiro presidente Republicano, e quando se fala em conservadorismo, especialmente no caso americano, é pela conservação dos princípios defendidos pelos Pais Fundadores. Outro fator curioso é que Lincoln foi criticado pelos Republicanos Radicais por sua lentidão no processo de abolição da escravidão. Um dado que seria o suficiente para tirar toda a autoridade moral dos Democratas ao se definirem com os “representantes” dos negros.

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3 COMMENTS

  1. Olá, Luciano.

    Desculpe a pergunta off, mas não achei outra forma de entrar em contato com você.
    Gostaria de saber onde você colocaria Teocracias: esquerda ou direita?

    Caso não queira aceitar esse comentário, pode me responder no e-mail matrixpolitica@gmail.com

    Obrigado

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