A Arte da Guerra Política – VI – Política e Princípios

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Nada de novos impostos

Para deixar meu ponto claro, vou formulá-lo de forma tão provocativa quanto possível. A pedra angular da eleição de George Bush em 1988 foi seu desafio aos eleitores com a expressão “leia meus lábios: nada de novos impostos”. O que fez George Bush perder a eleição de 1992 foi o acordo que ele fez dois anos antes com os Democratas do congresso para elevar os impostos. Os críticos conservadores de Bush dizem que ele perdeu por não ter princípios. Aqui está minha formulação contrária: de um ponto de vista conservador, o arrocho fiscal foi moralmente são, mas politicamente estúpido [1].

Para entender este paradoxo, precisamos retornar ao contexto no qual Bush assinou o acordo com o qual quebrou seu compromisso eleitoral. Nesse período, os Democratas eram maioria no Congresso e com isso controlavam tanto o processo de apropriação como a habilidade de permitir que os Estados Unidos fossem à guerra. O ditador do Iraque, Saddam Hussein, havia invadido e conquistado o Kuwait e seus exércitos estavam posicionados nas fronteiras de uma Arábia Saudita rica em petróleo e relativamente indefesa. Como um agressor impune com o tesouro público de ter colocado o Kuwait em seus bolsos, Saddam apareceu como uma ameaça iminente ao fornecimento de petróleo para Europa e Asia. Uma guerra do Oriente Médio com Israel, possivelmente envolvendo armas nucleares, era um prospecto real [2].

Neste contexto, o Presidente Bush decidiu que o interesse nacional exigia que ele neutralizasse o agressor, pela força, se necessário. O Partido Democrata se opôs ao uso da força e insistiu em apaziguamento mesmo quando as negociações se tornaram uma charada óbvia. Como Comandante Chefe das Forças Armadas responsável pela segurança da América, Bush decidiu que ele não poderia entrar em duas guerras ao mesmo tempo – uma contra Saddam Hussein no exterior, e outra contra os Democratas em casa. Ele precisava de verbas para a guerra, sabendo que os Democratas não iriam cortar gastos domésticos para custeá-la. Ele precisava de apoio político Democrata para obter autorização para a implementação em si.

Este foi o dilema que George Bush encontrou quando aceitou um acordo com os Democratas para aumentar os impostos de forma a garantir o orçamento. Isto lhe deu os fundos que necessitava para realizar a guerra e o apoio de Democratas em quantidade suficiente para autorizar a proposta política. Mesmo com essa concessão, entretanto, Bush apenas teve autorização para ir a guerra por um triz. Apenas seis senadores Democratas votaram para autorizar o envio de tropas para a Tempestade no Deserto. O votação final foi 52 a 47. Se três Democratas tivessem alterado seu voto, a autorização falharia.

Os conservadores são contra aumentar impostos, mas eles também querem proteger os Estados Unidos e as nações livres do mundo de predadores tirânicos como Saddam Hussein. Conservadores são também realistas (ou deveriam ser). Na crise que levou à Guerra do Golfo, os Democratas tinham poder suficiente no Congresso para sabotar a iniciativa de guerra. Da forma como a batalha política estava configurada, Bush não tinha poder para manter os Democratas sob controle. Valeu a pena aumentar os impostos para vencer Saddam Hussein? Esta era a questão com que George Bush se defrontou. Sua resposta foi sim. Dado o balanço das forças políticas naquele momento, que conservador poderia culpá-lo por sua decisão?

Mas ao tomar o curso moral correto, Bush cometeu um erro de cálculo político fatal para sua carreira. Ele confiou que os Democratas seriam homens honrados que não iriam usar sua boa fé e um acordo que eles próprios propuseram para destruir sua carreira política. Seu cálculo foi equivocado. Uma vez que a Guerra do Golfo estava terminada (e ganha), os Democratas passaram ao ataque contra o ex-aliado. Eles ignoraram sua própria autoria da proposta de aumento de impostos e a utilizaram como arma para destruir George Bush e eleger Bill Clinton. O fato de que Bush fez a promessa “nada de novos impostos” como a peça central de sua campanha eleitoral de 1998 foi o suficiente para selar seu destino.

Os erros que Bush cometeu foram completamente políticos. Ele pensou que estava lidando com pessoas preocupadas com o interesse nacional da America e para os quais o partidarismo seria deixado de lado em um momento tão delicado. Ele não imaginou o quão longe o Partido Democrata tinha oscilado à esquerda e o quão traiçoeira sua liderança congressista tinha se tornado nos anos que se seguiram à guerra do Vietnã [3]. Ele não imaginou  o perigo político que corria quando assinou um acordo que ele considerou necessário para parar Saddam Hussein.

Haviam outras ações para possivelmente remediar a situação e que estavam disponíveis a George Bush, caso ele tivesse os instintos políticos para buscá-las. Ele poderia ter rejeitado o acordo com os Democratas e travado uma guerra de relações públicas contra a proposta política de apaziguamento da parte deles [4]. Ele poderia ter tentado envergonha os Democratas perante o povo americano, forçando-os a dar apoio ao esforço de guerra sob os termos de Bush, cortando o gasto doméstico. Esta seria uma missão difícil e arriscada. Se tivesse obtido sucesso, Bush poderia ter ganho a eleição de 1992. Entretanto, não era parte do perfil político de George Bush conduzir uma guerra política agressiva deste tipo.

Mesmo após a Tempestade no Deserto, com a vitória fresca na mente dos americanos, ele poderia ter salvo sua presidência através da condução de uma campanha eleitoral que punisse os Democratas por seu apaziguamento e explicado as razões pelas quais ele assinou o acordo. Ele poderia ter travado uma guerra política contra a maioria dos Democratas que se opuseram à Guerra do Golfo, forçando-o a aceitar o compromisso de orçamento. Ele poderia ter feito uma campanha relacionada ao tema de que ao Partido Democrata não pode ser confiada a segurança nacional (embora, para ser justo, tanto Clinton como Gore deram apoio à guerra).

Talvez este tipo de campanha teria salvo sua presidência. Mas, como um homem gentil e político moderado, George Bush escolheu não tomar este caminho. Foi com sua incapacidade de atacar seus inimigos políticos em casa e fazê-los pagar pela proposta de apaziguamento (não apenas do Iraque, mas da União Soviética antes disso) que finalmente George Bush afundou nas pesquisas. Ele foi um fracasso político, não moral.

Nós começamos toda essa discussão com uma questão: Por que os Republicanos perdem quando eles tem uma mão vencedora? Este próximo caso mostra como a política pode superar princípios em eleições locais.

Os perigos do purismo

A Assembléia Distrital 41 California se estende do lado esquerdista a oeste de Los Angeles até os municípios mais conservadores de San Fernando Alley. Atualmente, o censo mostra que 49% são Democratas e 33% Republicanos, enquanto 13% não informaram sua afiliação. Em 1996, este eleitorado votou 55% a 45% a favor de encerrar preferências raciais, 70% a 30% a favor da iniciativa dos três crimes, 54% a 47% para combater a imigração ilegal, e 59% a 41% contra o aumento de impostos sobre eleitores de maior renda. Mas em 1998 o mesmo eleitorado votou 55% a 38% para eleger Sheila Kuehl, uma ativista gay de esquerda e uma forte oponente de todas as questões acima.

Como isto pôde acontecer? É a política, estúpido. [5]

Kuehl é uma ex-atriz infantil que fez o papel de Zelda no show televisivo Dobie Gillis. Ela ganhou por ter feito uma campanha escorregadia, apresentando a si própria (e com sucesso) como uma “Democrata sensível”, responsável e moderada, enquanto seu oponente Republicano falhou ao defini-la como a esquerdista que de fato era. Pior, ela conseguiu projetar em si mesma a imagem de preocupada e tolerante para uma comunidade que também votou 55% a 45% pelo aumento do salário mínimo, 64% a 36% pela legalização da maconha para tratamentos medicinais, e 67% a 33% por impostos sobre cigarros cujo retorno financeiro iniciaria programas para crianças pré-escolares. Seu oponente era um candidato Republicano razoavelmente típico, um homem de negócios honesto e conservador engomado. Mas a imagem que ele projetou aos eleitores foi a de um contador responsável – fiscalmente prudente, socialmente rígido – um Republicano sem um coração. Esta imagem o derrotou.

Os eleitores na Assembléia Distrital 41 não compartilhavam todos os valores sociais conservadores, mas muito menos compartilhavam com todos os valores “liberais” de Sheila. De fato, em ao menos três questões divisórias e definidoras – preferências raciais, imigração ilegal e impostos com base em guerra de classes – eles se opuseram fortemente as visões de Kuehl. Ainda assim, ela ganhou por estrondosa maioria. O resultado enviou Sheila Kuehl para Sacramento, onde ela trabalhou para minar a Iniciativa Californiana de Direitos Civis e a lei anti-imigração, além de aumentar impostos. Sheila Kuehl sabia como conduzir a batalha política; seu adversário Republicano não. [6]

Política tem a ver com ganhar eleições e implementar programas. Sendo que não há uma maioria na America que concorda em todas as questões importantes, a política se baseia em formar coalisões e trabalhá-las de forma unificada. Política também tem a ver com conseguir que pessoas discordantes entre si formem uma aliança. Em resumo, política tem a ver com acordos. Isto não significa que também não tem a ver com princípios. De acordo com os princípios, você cria sua facção na coalisão e define como você consegue qualquer coisa assim que chegar ao cargo. Se você não está disposto a permanecer firme aos seus princípios básicos, você perderá sua base e eventualmente perderá a causa também. A arte da política envolve saber como você tem seus princípios implementados sem os comprometê-los em demasia.

Os Republicanos conservadores normalmente condenam acordos sem fazer distinções, mas seu herói, Ronald Reagan, foi um famoso homem de acordos. Através de sua administração ele permitiu déficits que nenhum conservador poderia justificar em boa consciência. Ele fez isso pois suas escolhas eram limitadas por realidades políticas. Os gastadores Democratas controlavam o Congresso e manipulavam o bolso do governo. Eles se opuseram a aumentos no orçamento militar e foram inclinados a sujeitarem-se aos comunistas durante a perigosa Guerra Fria. Ronald Reagan era um político visionário. Ele queria derrotar o “império do mal” e libertar a economia das garras do estado inchado. Mas que o tornou o presidente de maior sucesso nos últimos quarenta anos foi que ele focou no que era importante para ele e não deixou que os puristas o dissuadissem de sua missão.

As prioridades de Reagan foram cortes de impostos e a vitória na Guerra Fria. Ele permitiu aos Democratas que estabelecessem seus programas de gastos para fazê-los aceitar um acordo de uma redução radical nas taxas de impostos marginais e um aumento dramático no orçamento militar. Ele deu uma negativa (déficits) e obteve duas positivas (prosperidade e paz). Ele fez acordo em relação aos princípios, mas para um bem maior. [7]

O problema do purismo político está sempre conosco. A razão para isto é que muitas pessoas confundem política com religião. Política é a arte do possível; religião é a busca de um ideal. Religião tem a ver com ir para o céu; política tem a ver com obter o cargo. Em assuntos religiosos, integridade de princípios não é apenas uma vantagem, mas a meta em si própria [8]. A religião não luta por obter redução de impostos ou construir escolas; tem a ver com salvar almas. Ser virtuoso e íntegro, mantendo seus princípios inatacáveis, são a essência do pensamento religioso. Você não pode fazer acordos com o Demônio e esperar ir par ao céu. Na política, por sua vez, pactos com o Demônio são feitos o tempo todo. Isto pode até mesmo ser considerado como um desenvolvimento saudável. O século vinte ficou repleto de corpos de pessoas que ficaram no caminho de fanáticos intransigentes – Hitler, Lenin, Pol Pot – que pensavam estar em uma missão religiosa de redenção social [9]. Os lugares adequados para tornar as pessoas morais e boas são as igrejas, sinagogas e mesquitas, não salas de audiência congressistas.

Muitos conservadores não querem encarar os problemas do mundo real que suas atitudes puristas criam. Eles querem o melhor dos dois mundos. Eles pensam que sendo conservadores moralmente corretos vencerão. De fato, eles pensam que essa é a única maneira pela qual os Republicanos podem vencer. O problema Republicano, eles dizem, é “a falta de uma espinha dorsal”, no que eles querem dizer que às vezes eles falham ao ficarem aderentes aos princípios conservadores. Timidez política certamente é um problema Republicano, e ficar na defensiva geralmente significa perder a guerra política. Mas será que esta atitude defensiva é o resultado de uma falta de princípios, ou é uma falta de confiança ao encarar o inimigo? Em minha visão, os Republicanos são ofuscados não por que lhes falta princípios, mas por que eles estão convencidos que o poder de fogo da esquerda é superior ao deles.

Esta ofuscação não vem do tipo de propostas políticas de coração mole associadas com os moderados que uma vez lideraram o Partido Republicano. Hoje em dia o Partido Republicano está distante do partido de Nelson Rockefeller ou mesmo Bob Michel. Se os atuais Republicanos da casa fossem basicamente covardes, não teria existido o “Contrato com a America” [10]. Os Republicanos ficaram traumatizados após o naufrágio de 1995, quando foram manobrados pela Casa Branca. Apenas dois anos depois, entretanto, eles demonstraram que podiam continuar apegados aos princípios quando tentaram fazer o impeachment do presidente, mesmo que as pesquisas estivessem contra eles e como consequência eles falharam em seu intento.

Os Republicanos da Casa ignoraram as pesquisas que davam 70% de apoio a Clinton pois estavam comprometidos a defender o processo constitutional. Só que dificilmente eles poderiam ignorar que Clinton sobreviveu seu plano. Clinton foi capaz de sobreviver um ano em que nenhum outro político sobreviveria por causa de sua maestria no combate político. Após contemplarem a personificação da prova de balas de Clinton, isso naturalmente tornou os Republicanos precavidos. O problema dos Republicanos é que eles são psicologicamente batidos com antecedência por um oponente que sabe como lutar melhor. Isto não tem nada a ver com os Republicanos serem adeptos de conchavos ou covardes. Os mesmos homens que lideraram a Revolução Republicana de Gingrich e venceram essas famosas vitórias são os homens que ordenaram a retirada.

Olhe para Clinton e pergunte a você próprio: Como ele faz isso? Como ele comete adultério na Casa Branca, pratica perjúrio diante de um grande júri, mente ao povo americano, e ainda prevalece em um combate político ao mesmo tempo?

A resposta está nas crianças. A resposta está nos negros. A resposta está nos pobres. Tudo isso compõe a versão Democrática de envolver a si próprio na bandeira americana. Como qualquer Democrata de sucesso, Clinton se envolve na bandeira dos “desfavorecidos”. Ele diz: “Não importa o quanto você pensa mal de mim, eu sou tudo o que está entre as mulheres, crianças, minorias e os pobres, e aqueles Republicanos de coração duro, que são racistas enrustidos também”. Até que o Partido Republicano retire esta arma do arsenal Democrata, os Republicanos estão condenados a frustrações e derrotas de longo prazo. Em distritos marginais e em nível nacional, os Republicanos podem vencer apenas quando os Democratas traem suas crenças esquerdistas. Mas se os Republicanos podem aprender a lutar da maneira que os Democratas fazem, eles podem muito bem se tornar o partido da maioria, como suas propostas políticas merecem.

Esta prescrição para o sucesso pode ser sumarizada utilizando a terminologia de “triangulação” inventada pelo pesquisador Republicano de Clinton Dick Morris. Para convencer os eleitores americanos que os Democratas podiam ser fiscalmente responsáveis e socialmente austeros, Clinton triangulou com os Republicanos ao se apropriar de propostas políticas Republicanas que refletiam esses valores. Os Republicanos precisam reverter o processo e triangular com a retórica dos Democratas que provou possuir apelo de massa (Não é preciso dizer que nem toda essa retórica é utilizável. Apelos Democratas à guerra de classes e cultura de vitimismo de raça são contrárias aos princípios Republicanos e aos interesses do bem público, e seria contraproducente adotá-los). Lembre-se: política tem a ver com convencer o cidadão comum de que suas propostas políticas fluem do seu interesse por eles – e do medo da agenda de seu oponente.

David Horowitz

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[1] Essa é a grande mudança de paradigma que devemos fazer para avaliar o desempenho político. Muitas vezes, ao realizarmos a atuação política somente de acordo com os princípios morais nos quais acreditamos, terminamos por chafurdar politicamente, ou seja, aí sim indo contra os princípios morais que nós representamos, por não sabermos representá-los politicamente. Enfim, não adianta termos um princípio que se, ao ser defendido a risca, faz com que vejamos leis implementadas facilmente contra esses princípios. Isso, é claro, se assumirmos a noção de que, conforme David Horowitz nos lembra, a vontade do povo é soberana.

[2] Na época em que Bush resolveu invadir o Iraque, e estabelecer a Guerra do Golfo, praticamente a totalidade dos esquerdistas do Brasil foi contra essa ação. Na época, vários professores esquerdistas chegavam a dizer que estávamos diante de um “novo Vietnã”, e muitos torciam deslavadamente para Saddam Hussein. Obviamente, todos ficaram com o rabinho entre as pernas com a estrondosa vitória da campanha americana na guerra.

[3] Em breve trarei uma nova série, que fará a análise profunda dos textos de Saul Alinsky, líder radical de esquerda que em 1971 publicou “Rules for Radicals”, manual de combate político esquerdista que é cartilha básica dos Democratas até hoje. Alinsky aproveitou a revolta dos esquerdistas com a guerra do Vietnã e aproveitou para embutir doses incríveis de revanchismo contra os Republicanos em sua postura. Essa proposta de Alinsky se mantém até hoje, especialmente pelos líderes da campanha de Barack Obama. E, como já disse, Hillary Clinton fez sua tese de mestrado com base no material de Alinsky.

[4] Conforme será mostrado na parte 8 (e última) desta tradução, os Democratas, sempre que puderam, utilizaram a Casa Branca para travar guerras de relações públicas com o Republicanos quando haviam divergências nas propostas políticas, como no exemplo do Tratado de Interdição de Armas Nucleares, que os esquerdistas queriam aprovar mas a direita não. Na época, os Republicanos ajudaram a derrubar a iniciativa da Casa Branca (durante o governo de Clinton), mas o governo foi usado de forma política para tentar jogar a população contra os Republicanos. Horowitz apenas propôs que os Republicanos tivessem feito o mesmo.

[5] Um dos motivos pelos quais o material de Horowitz incomoda à primeira vista (na maioria dos casos) é que não sabemos, por natureza, pensar politicamente. Esse é um instinto a ser desenvolvido. Pensamos por princípios e pensamos que automaticamente os outros irão agir desta forma. Tecnicamente, a maioria da população irá pensar por princípios, mas o mesmo não pode ser dito dos líderes políticos, especialmente os da esquerda, que já sabem pensar politicamente à muito tempo. É como no exemplo dos neo ateus, que surgem em público para difundir as mentiras de líderes como Richard Dawkins e Sam Harris. Quanto à maioria de seus seguidores, não dá para dizer que são estrategistas políticos – aliás, podemos até dizer que isso é improvável. Entretanto, Dawkins e Harris podem ser rotulados claramente de estrategistas políticos. A grande tragédia, por sua vez, é que seus adversários ainda estão pensando por princípios, não politicamente. A diferença entre saber pensar politicamente ou pensar somente por princípios será tratada nestas páginas em breve.

[6] Ao projetar sua imagem como moderada, Sheila conseguiu conquistar especialmente os indecisos, e até alguns conservadores. Conseguir esse feito é sinal de bastante inteligência política, pois, com suas pequenas conquistas, ela conseguiu enfim ir para Sacramento onde conseguiu os seus principais objetivos, incluindo o aumento de impostos. Enquanto isso, seu oponente conservador, fiel aos princípios na época da campanha, não conseguiu a posição obtida por Sheila, e, portanto, teve que assistir seus princípios serem derrotados lá na frente, com a vitória de Sheila.

[7] De uma forma bastante pragmática (e também muitas vezes incômoda), esse é um dos principais pontos de avaliação do desempenho político: os resultados. Se Reagan conseguiu mais implementações a favor de seus princípios, do que implementações contra, politicamente ele foi um vitorioso. Mas, voltando ao tema do purismo (a essência deste capítulo, diga-se, de passagem), se alguém permanece fiel aos seus princípios, e vê que TODAS as implementações políticas vão contra os seus princípios, isso significa alguém que em essência é um perdedor em termos políticos. Diante desta metodologia bastante lógica para avaliar o desempenho político, poderíamos considerar as pessoas que não fazem acordos e triangulações, mas perdem as batalhas políticas, como exemplos a não serem seguidos. Talvez isso explique por que Ronald Reagan é um símbolo do conservadorismo até hoje. Ele foi um vitorioso.

[8] Isso pode dar uma explicação para o fato de que uma das guerras mais facilmente vencidas pela esquerda está na questão do neo ateísmo. Muitos religiosos têm entrado no confronto pensando em uma extensão de sua religião, agindo totalmente focados em princípios, ao invés de reconhecerem que estão dentro de uma batalha dentro da guerra política maior entre esquerda e direita. Por exemplo, o vídeo abaixo mostra um cidadão que só pensa sob o seu paradigma religioso, mas politicamente pode ser definido como alguém que nasceu para colecionar derrotas políticas. Politicamente, Jayson Rosa é um inútil:

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Isso também me lembra a época dos posts (veja um deles aqui) em que tive um embate com um conservador que se recusava a reconsiderar alguns de seus princípios contra o aborto. Para ele, ceder na questão do aborto era uma aberração, mas já sabemos, após esta série, que politicamente não ceder nem um pouquinho significa simplesmente dar a garantia de vitória aos oponentes. Sob o prisma político, ele estava simplesmente dizendo em público que não se importava com as mulheres grávidas de um estupro, e informava que condenaria todas elas a terem um impacto por sua vida inteira caso tivessem uma gravidez indesejada. Lembremos do princípio 4, “Posição é definida por medo e esperança”, pois ao dar ao povo a noção de que muitos (especialmente as mulheres) devem temer a vitória da implementação de suas idéias, ele passa a ser retirado do debate público.

Tanto no caso de Jayson Rosa (o do vídeo) como o de Jairo Filipe, temos pessoas que politicamente não tem como realizar uma atuação com o mínimo de resultados.

[9] Neste caso realmente podemos considerar os líderes comunistas como membros de uma missão religiosa, mas não da religião tradicional, e sim da religião política.

[10] O “Contrato com a America” foi um documento lançado pelo Partido Republicano na campanha da eleição para o congresso de 1994. Foi escrito por Larry Hunter, e teve a participação de Newt Gingrich, Robert Walker, Bill Paxton, Tom DeLay. Nesse contrato, foram detalhadas as ações que os Republicanos prometeram tomar caso se tornassem um partido majoritário no congresso pela primeira vez em 40 anos. Esse documento incluía os seguintes compromissos:

  • exigir que todas as leis que se aplicam ao resto do país também se aplicassem ao Congresso;
  • definir uma empresa líder de auditoria independente para realizar uma auditoria completa em desperdícios, fraudes e abusos no Congresso;
  • reduzir o número de comissões da Câmara e cortar pessoal de comitês em um terço;
  • limitar os termos dos presidentes de comissão;
  • banir os votos por procuração na Câmara;
  • exigir que as reuniões da Câmara sejam abertas ao público;
  • exigir uma maioria de três quintos para aprovar um aumento de impostos;
  • garantir uma contabilidade honesta do Orçamento Federal através da implementação de orçamento com linha de base zero.
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