Politicamente cético, realista e pragmático: respondendo novas objeções ao ceticismo político

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Já tratei em dois posts objeções interessantíssimas feitas pelo leitor Eduardo. Os posts são “Ceticismo prático: Tratando importantes objeções, e já não era sem tempo” e “Ceticismo na prática: Novas respostas e a constatação de que a Dinâmica Social envenena tudo. E isso é bom!”.

Esse tipo de questionamento, especialmente de alguém interessado em Filosofia, só tem me ajudado a incorporar novos pontos em minha abordagem para torná-la mais robusta. Por isso, é prazeiroso tratar esse tipo de objeção.

Comecemos:

Percebo que seu método é sem dúvida útil, mas a mera utilidade jamais é algo que, por si mesma, justifica o método como sendo um bom método.

Gostaria de melhorar essa constatação.  Eu prefiro dizer que os resultados justificam o método como sendo um bom método, e não apenas a  sua utilidade. Em momento algum, o ceticismo político é uma cosmovisão ou uma forma de como devemos “ver a vida”. Basicamente, ele é um método (ou até uma técnica) para ajudar os debatedores no contexto do debate político. Por exemplo, se você usa o questionamento socrático ou a argumentação aristotélica em um debate, mas o seu oponente está visualizando o debate de forma política (e o neo ateísmo é um movimento político, assim como o humanismo, o marxismo, etc.), você vai perder. Mas, se utilizar o método descrito por mim, vai ter muito mais chances de vencer.

Com efeito, não podemos falar de bons métodos com um darwinista, pois que um método tenha apenas utilidade para atingir seu fim não é um problema para ele, que não está preocupado com verdade e com bondade.

Discordo frontalmente desta afirmação. No texto “O que o darwinismo é, o que o darwinismo não é” eu já tratei esse tipo de confusão. Alguém que opta pelo paradigma darwinista poderá escolher a cosmovisão que quiser, inclusive o paradigma conservador. Um ótimo livro que trata dessa questão é “Darwinian Conservatism”, de Larry Arnhart. Um darwinista poderá ser um cristão e tirar sua base moral do cristianismo. Assim como poderá ser um ateu e tirar sua base moral da tradição que foi influenciada pelo cristianismo. E daí por diante. O darwinismo por si só não é um direcionador moral, portanto afirmar “não podemos falar de bons métodos com um darwinista, pois que um método tenha apenas utilidade para atingir seu fim não é um problema para ele, que não está preocupado com verdade e com bondade” é algo que só faria sentido se estivéssemos distante de alguém que dissesse “crer no Darwinismo, tomá-lo como base para sua cosmovisão, sem precisar de nada mais”. Mas eu jamais disse coisa do tipo. Pelo contrário, eu digo que o darwinismo é uma teoria para explicar a especiação, e como nós chegamos aqui (no que diz respeito à espécie). Se quiser definir seus parâmetros morais, busque em outro lugar.

Pressupostos como, por exemplo, a verdade não é mais buscada, a não-superioridade do homem, a equanimidade entre instinto humano e instinto animal (dentre outros) apenas inflam seu método se sua intenção seria apenas uma crítica bem feita do humanismo – uma navalha de Ockham deitaria ao chão muitos pressupostos que são desnecessários para o mesmo resultado crítico. Mas você não se preocupa em justificar tais pressupostos, acha que não precisa, porque um desses pressupostos é de que ninguém mais quer buscar ou saber a verdade… Mas quem não se preocupa com a verdade não debate senão por poder. Então todo seu método darwinista seria uma grande alegação política, porque você está preocupado com as mentes da plateia, em não ficar fora do debate, e não em descobrir e defender a posição verdadeira. Ou seja, você diz que não está preocupado com verdade, mas apenas porque parte de pressupostos darwinistas sobre a verdade, os quais você toma como sendo verdadeiros. Aí fica fácil, mas é autorefutante.

Acho que novamente estão ocorrendo algumas confusões. A discussão sobre a “não-superioridade” do homem é uma discussão darwinista, somente. Mas o darwinismo não é parte de meu método, ele apenas pode servir como uma influência em ALGUMAS (não todas) aplicações do método, especialmente quando questionamos a alegação, tanto de um cristão como a de um humanista, de que o ser humano é “superior aos outros animais”. Obviamente durante o questionamento vamos definir os termos do debate, e se os termos são científicos, temos que optar entre as teorias científicas que explicam o que é o ser humano em relação aos demais animais. E é aí que utilizo o darwinismo.

Eu ainda não entendi o que Eduardo entendeu pelo “meu método”, mas é algo muito mais simples do que ele está pensando. Veja só:

  1. Há muitas alegações no debate público (especialmente o debate político) que normalmente não passam pelo questionamento devido
  2. Essas alegações, a que me refiro, são as alegações políticas, que são todas as alegações que, se aceitas, geram benefício para a parte que a propaga (seja a própria pessoa ou um grupo)
  3. Nós devemos dar prioridade ao questionamento dessas alegações, pois elas podem ser contrárias ao nosso interesse – e ainda assim geralmente esquecemos de questioná-las
  4. Por isso, defino um modelo de identificarmos prioritariamente as alegações políticas e questioná-las, de forma incisiva.
  5. Cuidado com as rotinas de frame, ou mesmo o jogo de rótulos, pois todos eles embutem alegações
  6. Questione-as também, inclusive utilizando um modelo de 4 níveis, que pode ser amplificado pelo uso da conscientização da platéia, caso você encontre repetidos truques desonestos pela outra parte

Meu modelo de ceticismo político é baseado nisso que está aí em cima, e nada mais. É claro que eu expando a explicação de forma detalhada, e posso citar como um dos fatores de conscientização, no item 6, o darwinismo. Como eu poderia usar a filosofia conservadora. Como Eduardo poderia utilizar uma outra explicação, que fosse sustentável logicamente. Mas em relação aos 6 itens acima, que constituem a parte central do meu método de ceticismo político, elas são independentes do darwinismo ser verdadeiro ou não. Se amanhã descobrirem que o darwinismo é uma fraude, isso não arranhará nem um pouco meu método.

Eduardo cita alguns pressupostos que seriam contraditórios com meu método, como:

  • a não-superioridade do homem
  • equanimidade entre instinto humano e instinto animal
  • uma tendência cada vez maior dos debates políticos não envolverem busca da verdade, mas o poder

Mas meu método é totalmente independente desses pressupostos. Portanto, esse tipo de afirmação não deve ser tratada como pressuposto do ceticismo político. No máximo, são afirmações a serem questionadas por alguém que não concorda com ESSA FORMA DE CONSCIENTIZAÇÃO a respeito da necessidade de usarmos a abordagem do ceticismo político.

Eduardo ainda conclui dizendo o seguinte: “Ou seja, você diz que não está preocupado com verdade, mas apenas porque parte de pressupostos darwinistas sobre a verdade, os quais você toma como sendo verdadeiros. Aí fica fácil, mas é autorefutante.”

Mas a minha resposta a isso já é previsível, para quem lê este blog. Não importa se alguém é definido como preocupado com a verdade ou não preocupado com a verdade, mas sim se a afirmação dele pode ser refutada ou não. Eu não tenho uma máquina para ler mentes e sair definindo pessoas como “preocupadas com a verdade” e graduá-las em pontuação como 1 a 10, sendo 10 uma vida igual a daquele personagem de Jim Carrey no filme “O Mentiroso”. Se eu não tenho essa tecnologia, para que ficar se preocupando com isso? Por outro lado, eu defino que devemos expor aqueles que proferem mentiras.

Agora, um detalhe: por que eu dou tão pouca importância ao “alegador de ser um buscador da verdade”? Simplesmente para eliminar a possibilidade de alguém ganhar o debate somente por fazer esta declaração, e aí gastar mais tempo fazendo auto-venda do que realmente debatendo. Portanto, se alguém em um debate diz “Eu sou um buscador da verdade”, o outro poderá dizer “Eu duvido, mas você pode começar a argumentar, e se disser uma mentira, eu vou apontar”. Com isso, já tiramos um (possível) apelo à autoridade. O que proponho é simplesmente ir, aos poucos, eliminando as chances de alguém ganhar o debate somente pelo “gogó”. Algum crítico poderia dizer: “Quer dizer que você não valoriza a verdade?”, no que eu respondo “Isso qualquer um poderia dizer, eu também não acredito que você valorize a verdade mais que qualquer um aqui. Que tal começar a argumentar?”.

Diante disso tudo, minha abordagem sugere que deixemos de lado (e até denunciemos) esse tipo de tentativa, rotulando o uso insistente de self-selling. Eu sugiro que o debate seja feito, e que cada parte esteja pronta a denunciar as mentiras do outro lado. Por fim, que a platéia observe o que vai acontecer.

Abaixo, Eduardo apresenta duas outras objeções, que tratarei detalhamente. Segundo ele, essas objeções colocariam em xeque meu paradigma de ceticismo político. A meu ver não colocam. Avaliemos:

1) Quando eu falo, por exemplo, da necessidade de provar algo para não haver contradição em seu discurso, ou do erro lógico de atacar um problema do interlocutor no qual, na realidade, ele não incorreu, você se defende usando dinâmica social. Ou seja, para você a dinâmica social não precisa respeitar a lógica…

Aqui há um outro equívoco de entendimento da minha proposta. A dinâmica social é uma ferramenta poderosíssima para conscientizar a platéia e os outros ao seu lado do problema de aceitarmos as premissas erradas do outro lado. Por exemplo, ao aceitarmos a idéia de que o outro lado é “racional” somente por que deu esta declaração, estaríamos permitindo que ele “desligue” o cérebro da platéia, e tudo o que você disser não terá mais efeito. O que eu estou fazendo aqui? Estou simplesmente apontando a TERRÍVEL CONSEQUÊNCIA de deixarmos algo sem questionamento. Esse é um processo de conscientização, que eu utilizarei cada vez mais pois esta é minha especialização. Em termos de Segurança da Informação, sou especialista em engenharia social. É natural que aqui eu tenha me apaixonado pelo paradigma da dinâmica social. Se você quiser utilizar um outro paradigma de conscientização, que use. Meu método continuará sendo válido se você utilizar o aristotelismo para conscientizar a platéia da mentira do seu oponente. Eu uso a dinâmica social.

Aliás, eu defino este blog hoje da seguinte forma: “Uma análise com ênfase no ceticismo político, em especial na sua variação que defino por conservadorismo cético, tomando como forma de conscientização a dinâmica social, e sendo focada especialmente na guerra política”. Simples assim. Portanto, eu não preciso deixar de usar uma influência importantíssima em minha base de conhecimento (a dinâmica social), apenas por que ela não é “inerente” ao meu modelo de ceticismo político.

Outro problema é apontar um “erro lógico de atacar um problema do interlocutor no qual, na realidade, ele não incorreu”, o que seria o mesmo que apontar o erro lógico de um policial ao questionar pela identidade de alguém quando esta pessoa ainda não provou ser culpada de dirigir com a habilitação vencida. Na verdade, erro lógico é confundir o lançamento de uma suspeita com a investigação em si.  Esta última surge A PARTIR de uma suspeita. Se temos um histórico de humanistas que basicamente fizeram o uso da rotina Dono da Razão por séculos, mas jamais demonstraram de fato utilizar a razão, nada mais justo que suspeitarmos se vermos um Sam Harris no debate tentando ganhar pelo uso desta rotina. E, ao lançarmos o desafio para ele provar que “está do lado da razão”, damos um gostinho especial ao debate.

E se eu “supostamente não estou preocupado com a verdade” (o que parece ser a preocupação Eduardo), basta pegar todo o meu framework (eu já passei os 6 passos) e usá-lo contra mim. Mas se eu não estiver usando mentiras, o outro lado pode se dar mal também.

Nessa trilha, como se dá a auto refutação? É por meio de critérios epistemológicos que você desautoriza discursos políticos. Note que, embora você tenha dito que a verdade não seja objeto dos debates ideológicos, você se vale de critérios epistemológicos para a desconstrução de uma tentativa esquerdista de capitalização de poder. Por exemplo, toma uma alegação política tal como “sou mais racional” e pergunta ao seu interlocutor “como se pode conhecer isso”? Expedientes epistemológicos necessariamente estão preocupados com a verdade. E essa pergunta é desse tipo que busca pela verdade, no sentido mais comum de perceber se há adequação ou inadequação entre aquilo que o interlocutor diz e a coisa a qual se refere seu discurso. Se você o avalia assim, isso implica que, caso seu interlocutor humanista (e, por que não, um religioso tradicional?) dê uma boa resposta a você para as posições dele, você está obrigado a aceitar sua posição.

Peço desculpas para citar a ingenuidade de Eduardo neste ponto. Quando usei o termo ceticismo prático era a isso que me referia. Em como as coisas são na prática, não em idealizações a respeito de como o ser humano deveria agir. Antes de tudo, quando se ouve a expressão “sou mais racional” e se pergunta em retorno “como se pode conhecer isso?” você simplesmente está iniciando um debate complexo que A MAIORIA DA PLATÉIA NÃO VAI OUVIR. Ou seja, perdeu o debate político por antecipação. O ideal é manter a coisa da forma mais simples o possível, e, se quiser levar o debate para os termos complexos, deixe isso para o seu oponente, não você. Isso já é o paradigma da guerra política, que também é independente ao ceticismo político.

E precisamente aí começa o ponto: você parte do pressuposto de que eles (os esquerdistas) sempre são desonestos (porque acredita injustificadamente, com base no darwinismo, que ninguém está preocupado em dizer a verdade, mas apenas em capitalizar poder). Então, se você tem compromisso com a verdade nessas investigações, não pode fazer uso de um expediente epistemológico pensando previamente que que já ganhou a questão porque o outro é de partida desonesto, pois isso constitui uma falácia de Bulverismo (isto é, debater partindo do pressuposto de que o interlocutor está errado sem que isso tenha sido comprovado pelo debate). Se, no entanto, não tem compromisso com a verdade (e não parece ter porque disse que debates ideológicos não tem esse foco), então sua fala também está voltada para a capitalização de poder, você disputa com o esquerdista as mentes da plateia…

Não é por que C. S. Lewis tenha identificado a falácia do Bulverismo que ela seja válida. Na verdade, pode-se defender racionalmente como é lícito lançarmos uma suspeita sobre alguém antes de prová-lo como culpado. Na verdade, se aceitássemos a idéia de que a suspeita sobre alguém depende de sua culpa, inviabilizalíamos até a atividade policial.

Outro ponto é dizer que “se o debate é focado para a capitalização de poder” então não está comprometido com a verdade, o que é uma falácia do falso dilema. O fato é que debates focados em capitalização de poder tem muitas chances de jogarem a verdade para debaixo do tapete (o que é um argumento a favor do uso do meu método, não contra), mas também não garante que, se o debate é político, então não teremos verdades proferidas.

Ora, eu posso assumir o meu oponente como desonesto, e caso ele não seja ele pode me desmascarar perante à platéia. Isto é o que torna o meu modelo robusto. Eu posso ter um “compromisso com a verdade” (que rufem os tambores) e usar o meu modelo à risca.

Ou seja, você argumenta não para convencer alguém do verdadeiro em oposição ao falso, mas acusa o outro de falsidade? Isso é desonestidade intelectual. Afinal, muito embora possa ser verdadeiro que o esquerdista não tenha compromisso com a verdade, você precisaria ter compromisso com a verdade para não ser igual a ele. Se você diz que o darwinismo social não se preocupa com verdade, e que os debates ideológicos tem em vista capitalização de poder, então você não seria desonesto tal como o esquerdista, pois usa do expediente epistemológico para refutar o interlocutor (exigindo que ele prove suas posições) quando, de sua parte, você não se importa com questões epistemológicas nem em provar a sua.

Mas, como mostrei anteriormente, usar o meu modelo (rever os 6 passos) à risca não implica em ter ou não ter “compromisso com  a verdade”. Simplesmente, eu descarto quem faça alegações de ter “compromisso com a verdade” através do próprio ceticismo político, e deixo que a pessoa prove isso no decorrer de seu discurso e ou avaliação da sua vida pública, e não na declaração antecipada (ou seja, o self-selling).

Não entendi a citação do darwinismo social, pois não defendo esse paradigma. Eu uso a dinâmica social para explicar vários eventos que existem na interação humana, e que são manipulados no curso de debates políticos. Se alguém quiser saber por que perdeu um debate, mesmo tendo a verdade em mãos, eu posso explicar claramente através da dinâmica social o que ocorreu. Não faz sentido associar essa abordagem com “não estar comprometido com a verdade”.

Percebe? Qual é sua causa? Desmascarar humanistas. Mas, por que? Se não for porque acha que eles estão errados e que por trás de seus discursos ideológicos há uma verdade sobre o homem, não és mais que um catalizador de poder.

Mas se eu for só um catalizador de poder e não existir verdade em minhas afirmações, aí é só usar o ceticismo político contra mim. Essa é a essência do meu modelo. Ele foi criado justamente para trucidar alegações políticas. Se alguém disser: “O Luciano não está comprometido com a verdade”, eu direi que estou e cabe ao outro mostrar que não estou. A platéia que acompanhe. Esta é a lógica inerente ao meu método, que continua válido mesmo se for usado por: (1) alguém comprometido com a verdade, (2) alguém não comprometido com a verdade, (3) por um cyborg como aquele do filme Prometheus.

O mundo corporativo busca resultados, e o ceticismo corporativo funciona bem lá. Traze-lo para o campo ideológico tem algumas aplicações úteis, mas tem grandes problemas: se você não se pautar pela verdade, não pode atacar de falsa a outra posição, porque ela está em seu direito de mentir… Percebe o enrosco? No fim das contas, não dá pra ser darwinista e debater acusando o humanista de fraudulento. Seu pressuposto admite que ele pode, deve ser fraudulento e vai ser fraudulento. Então, se faz sentido desmascarar alguém, é porque há uma verdade, e ele está fora dela. Se não está em busca da verdade, é intelectualmente desonesto ao desmascarar o mentiroso. E aí?

Vamos resolver a questão de uma vez por todas. A afirmação “estou do lado da verdade” logo de imediato está sendo colocada sob suspeita em um duelo cético. Portanto, não faz diferença alguma alguém dizer “estou do lado da verdade” ou “não estou nem aí para verdade”. A primeira talvez dê vantagem no debate político, mas quando usamos o ceticismo político entendemos que a primeira frase é uma alegação política, que, como tal, já entra na disputa. Ora, se a priori todas as alegações políticas estão sob disputa, quando usamos este paradigma, não há diferença entre alguém que diz “estou do lado da verdade” para alguém que diz “deixemos a platéia decidir, e não vou dizer nada enquanto sobre isso”.

Constatar isso não impede de demonstrarmos ao público que o outro está mentindo, e isso ainda é potencializado quando o outro lado não consegue demonstrar suas mentiras. Portanto, não dizer mentiras aumenta a chance de alguém não ser “pego na mentira”. Em cima dessa análise, se aplicarmos o ceticismo político, o que faz a diferença não é se as pessoas declaram “estar do lado da verdade” ou não, mas sim se falam verdades ou não, se falam mentiras ou não. Claro que isso depende da capacidade da outra parte em identificar essas mentiras.

Se o outro lado está “em seu direito de mentir”, da mesma forma eu estou no meu direito de expor ao público essa mentira, e exercerei este direito através do ceticismo político. E, sim, eu posso demonstrar à platéia que a proposição da outra parte é falsa se ela for comprovadamente falsa. Ele que responda.

E, se há uma verdade fora da mentira do outro, eu deixarei que a platéia julgue isso. E é por isso que escrevi o texto “Quando a verdade é mais importante do que afirmar buscar a verdade”.

2) Quanto à não superioridade humana em relação aos animais: É em si mesmo contraditório dar argumentos numa defesa discursiva (como Gray o faz) de que a humanidade não é uma espécie superior e diferenciada das demais pela racionalidade e autoconsciência… Quando usamos da razão para defender um argumento, isso pressupõe que acreditamos no seu poder de separar a verdade do erro sobre aquilo de que falamos. Ou seja, a pretensão é de provar que uma coisa é ou não é aquilo que está sendo dito sobre ela. Então, argumentar é algo que pressupõe confiança no poder da razão humana de provar algo. Ora, usar da razão argumentativamente com a intenção de demonstrar que o homem não é superior aos animais é, então, algo contraditório logo de saída, não somente porque seria mais um fino uso da razão (e, assim, que novamente comprovaria a superioridade do ser racional e de saber que se é racional), como também porque, obviamente, seria um humano oferecendo provas… A tentativa de reduzir o humano ao animal biológico que ele é, assim, de saída, uma tentativa condenada ao fracasso. Como você responde a isso?

Há um equívoco aí. Quando se diz que o ser humano “não é nada mais que um animal, como os outros” ou “não é superior aos outros animais”, estamos falando de quesitos como

  • luta pela sobrevivência
  • foco na replicação
  • territorialismo
  • busca de poder

Nesses quesitos, o ser humano funciona exatamente como qualquer outra espécie.

Mas aí Eduardo constata que temos a “razão para defender um argumento”, e isso é verdade. Essa é uma capacidade de racionalização do ser humano, junto com a aptidão para colecionar conhecimento, que seria o que nos diferencia dos outros animais, certo? Errado, pois assim como temos essas aptidões, outros animais possuem outras, e cada espécie usa suas aptidões para manter os quesitos citados.  Em outras palavras: se somos racionais, significa que temos uma aptidão que os outros animais não tem, ao passo que os demais animais possuem algumas aptidões que nós não temos. Caso a espécie humana um dia seja extinta, e outras espécies perdurarem, a nossa aptidão mais destacada (a racionalidade) não terá valido muito em termos evolutivos na comparação com a espécie que ficou.

Isso significa reduzir o ser humano ao animal biológico que ele é, pois o uso da razão não serve para nos distinguir dos outros animais nos quesitos que apresentei. São elementos presentes em todas as espécies mais complexas.

Por fim, um terceiro ponto, que já não é uma objeção:

3) Permita-me, ainda, uma pergunta: Não tenho intenção de torná-lo católico, mas eu estaria mentindo se dissesse que não tenho a intenção de mostrar que o darwinismo carece de fundamento naquilo que ele poderia destruir a religião tradicional. Sendo assim, se você convencido de que o antropocentrismo é algo indefensável, e pensa isso mediante darwinismo, você estaria disposto a dar os argumentos pelos quais a teoria darwinista mostra que o homem não é superior aos animais? Vamos testar seus argumentos acerca disso.

Eu não penso que o darwinismo possa destruir a religião tradicional. Na verdade, sob algumas metáforas, algumas religiões tradicionais, como o cristianismo, podem ser elogiadas pelo seu realismo, ao passo que as religiões políticas como neo ateísmo, marxismo e humanismo podem ser ridicularizadas pelo seu idealismo.

Aliás, a própria religião cristã reconhece o homem como um animal falível, cheio de vícios, que deve ficar a vida toda lutando sem saber que vai mudar essa sua contingência. Mas mesmo assim, essa contingência não será resolvida. E portanto só se deve esperar um paraíso após a morte. A diferença é que o darwinismo dá uma explicação científica para o fato de que o ser humano não pode fugir de suas contingências: é que biologicamente ele é apenas um animal gregário, que luta por sobrevivência e replicação.

Em breve, esse tipo de objeção será tratada com uma consistente séries de textos nos quais analisarei profundamente o livro “Darwinian Conservartism”, de Larry Arnhart, uma análise poderosíssima e secular dos motivos pelos quais o conservadorismo é muito mais consistente com o Darwinismo do que qualquer filosofia da esquerda o é.  Com essa série, ficará difícil manter uma objeção dizendo que o Darwinismo é um “mal” para o conservadorismo. Se bem analisado, ele traz uma verdade crudelíssima que esmaga definitivamente o pensamento de esquerda. Mas, se as metáforas bíblicas foram assimiladas como metáforas com um sentido mais profundo, o cristianismo não tem o mesmo motivo para temer o Darwinismo tanto quando os esquerdistas tem.

Aguardem os próximos capítulos, que o estudo PROFUNDO do pensamento de esquerda sob a ótica do Darwinismo trará tons ainda mais detalhados e devastadores para qualquer discípulo de Che Guevara que você encontrar pela frente.

E tudo isso sendo o Darwinismo apenas um “plus”, que nem sequer é parte do meu paradigma de ceticismo político.

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1 COMMENT

  1. Nossa, eu leio algumas vezes o blog desse Larry Arnhart (darwinianconservatism.blogspot.com) juro que antes desse post eu iria perguntar se você conhecia o homem, já que achei seu conservadorismo darwinista parecido com o dele.

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