O epicentro da crença esquerdista

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Eu sempre suspeitava disso. Mas tinha minhas dúvidas. Alguns esquerdistas me diziam que os frankfurtianos estiveram aí para me contradizer, mas vejo que isso nem de longe ocorreu. O fato é que agora tenho certeza absoluta de que a crença no homem é o epicentro de toda a crença esquerdista, não importando sua manifestação.

Algum tempo atrás  tive a oportunidade de participar de uma (respeitosa, creiam) conversa de bar com três amigos, sendo 1 deles de direita, outro humanista e o último deles um marxista. Este marxista era um exímio especialista em toda a obra de Karl Marx. O objetivo do papo era discutir filosofia e política.

Quando ele apresentou os porquês de Marx, e do por que a humanidade talvez ainda demorasse para superar o capital (incluindo propriedade privada), resolvemos discutir sobre a natureza humana, um tema que normalmente deixa alguns marxistas indignados. O colega da direita já pensou em interpelá-lo mais ferozmente, e, ao contrário, eu fui solícito e educado – afinal, conversas com marxistas são muito úteis para entender como o marxismo é, e como ele influencia seus adeptos. Para mim, deixar um marxista falar o máximo que ele pudesse era útil naquele momento. (Além do mais, ele era um amigo, e não um oponente de redes sociais)

Certo momento, o debate foi exclusivamente sobre o Darwinismo, que, como de costume, tem algo de muito incômodo a dizer tanto aos marxistas como humanistas em geral. Para ambos estes dois, o ser humano vai continuamente absorvendo cultura, conhecimento e razão para, aos poucos, ir criando consciência e registrando no inconsciente coletivo uma evolução que levará, inevitalmente, o homem a se tornar “livre” das amarras de qualquer tipo de opressão. Nessa era, aliás, não haverá opressão pois com a nova consciência, os oprimidos não mais serão oprimidos, já que não há quem os oprima mais.

Entretanto, afirmei que em termos de hardware, o ser humano é exatamente igual ao que vivia no tempo das cavernas. Temos hoje muito mais conforto e até os mendigos vivem em situação muito melhor do que os desfavorecidos de milhares de anos atrás. Entretanto, o hardware humano não mudou. Segundo o marxista, essa idéia de um hardware humano é absurda.

Ainda sobre esse assunto questionei a respeito da Segunda Guerra Mundial, pois, se o homem está em contínua evolução, ele deveria ter aprendido com a Primeira Guerra Mundial e não dado a chance para a parte 2 ocorrer. Da mesma forma a Revolução Francesa, com todos os seus massacres, deveria ter sido um aprendizado para que o Genocídio Russo não ocorresse, assim como o Genocídio Russo poderia ter ensinado aos chineses e cambodjanos que eles não deviam sair matando pessoas aos montões. Que feio, gente, não aprenderam? Humpf!

A pergunta era: “diante desses fatos, onde está a evidência de que o ser humano evolui a ponto de não mais ser territorialista, ávido por poder e gregário, sendo modificado em termos genéticos para não fazer mais isso?”. Esse é o tipo de questionamento para o qual nenhum esquerdista consegue uma resposta que preste se lhe forem apresentados os fatos de que o ser humano é exatamente o mesmo desde os tempos das cavernas. Mais ainda, o animal humano não passa de um dos animais mais predadores da face da Terra, tanto que é um perigo para a sua própria espécie.

Mas a resposta foi algo do tipo: “Se aceitarmos isso, teremos que aceitar que entre o seu colega de profissão e um cachorro na rua não há diferenças. Se aceitarmos isso, temos que admitir que nossos familiares não são mais que um agrupado de genes.”. No que eu complementei: “E qual o problema em aceitarmos isso?”. Segundo ele, não podíamos aceitar, sob hipótese alguma.

Outra questão que lancei foi a seguinte: “Esqueça então as consequências. Você não concorda que cientificamente  é irrelevante olharmos para as consequências de uma teoria científica? Se a teoria nos demonstra essa ligação com os outros animais, e conseguimos demonstrar funcionalidades para todas as nossas aptidões evolutivas (tal qual fazemos para todos os outros animais), não devemos aceitar essa constatação ao invés de nos focarmos nas consequências de aceitar as conclusões?”. Ele ficou ainda mais irredutível, me lembrando do apego de alguém a uma crença sobrenatural que acabou de ser questionada, sem uma resposta adequada. Algo como alguém que vê sua crença na existência da vida após morte ser ferrenhamente questionada, e, sem respostas adequadas, lança algo do tipo: “Se aceitarmos que não há nada após a morte, então significa que tudo que fizermos aqui em vida não irá gerar consequências? Não há um céu ou inferno para irmos? Ou um purgatório onde seremos julgados?”. O apelo à consequência, feito pelo meu amigo marxista, não fugiu muito desse exemplo relacionado ao paranormal.

Foi quando definitivamente cheguei à conclusão de que tudo, absolutamente tudo, para qualquer religioso político depende da crença no homem, tanto quanto para os principais grupos da religião tradicional existe a dependência da crença em Deus.

Por exemplo, um cristão dificilmente acreditará na Bíblia se não acreditar que Deus exista. Isso é mais que óbvio, pois como poderia haver uma intervenção divina se não há um Deus. Sem crença em Deus, todos os cânones da religião cristã (assim como das religiões judaicas e islâmicas) caem por terra. Se há para os cristãos Jesus, o filho de Deus, todos os pilares do cristianismo ficam nulos pois, sem um Deus, ele não teria mais o que representar.

Da mesma forma, sem a crença no homem não há sentido para a crença marxista, nem a crença humanista. Se não  há esperança de que o ser humano possa mudar sua natureza (a ponto de “remodelar o mundo conforme os projetos da esquerda”), não há sentido em toda essa luta. Se nos apercebermos do óbvio, não daríamos a mínima chance para a fé hercúlea de que a criação de uma ditadura do proletariado será apenas a transição para um mundo sem classes.

A crença no homem, se abalada, elimina toda e qualquer esperança esquerdista. O ceticismo estruturado em relação à crença no homem (que deve ser similar ao que os neo ateus fazem em relação à crença em Deus) é o maior inimigo que a esquerda pode encontrar. Toda e qualquer teorização central dos maiores autores da esquerda depende dessa crença que, ao ser demolida, faz desabar aquele montão de páginas de “O Capital”, de Marx.

Por fim, uma questão: “não seria então a crença no homem o hipocentro da crença esquerdista?”. Não, é o epicentro. Em relação ao hipocentro, poderíamos defini-lo como a tendência do homem em confiar nos machos alfa da tribo.

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11 COMMENTS

  1. Hummm…

    1) CONSERVA de bar com três amigos ??? 😀

    2) perdoe minha possível ignorância, mas ¿existe? um sentido “figurado” para as expressões epicentro e hipocentro? Até agora “não percebi” 😉 a ligação entre o sentido “bem-conhecido” desses termos (sentido esse aliás enfatizado pela imagem-de-cabeçalho) e os alegados 2 “pontos centrais” da mentalidade esquerdista. Apenas um palpite/sugestão — teria sido melhor uma analogia com os dois eixos de uma elipse, ou com os vários centros de um triângulo ( ¿OU NÃO ? )

    3) infelizmente e mais uma vez constato que você e os nossos “inimigos comuns” compartilham várias crendices infundadas e pseudo-científicas, como por exemplo a existência de um mítico período em que TODOS os humanos moravam em cavernas e se vestiam com peles de animais, já que TODOS eles eram necessariamente muito desprovidos de inteligência e/ou demasiado preguiçosos 😛

  2. “sem a crença no homem não há sentido para a crença marxista, nem a crença humanista. Se não há esperança de que o ser humano possa mudar sua natureza […] não há sentido em toda essa luta.”

    “A crença no homem, se abalada, elimina toda e qualquer esperança esquerdista.”

    SHERLOK HOLMES!!

    Leitor cristão: Acredite, amigo, este blog torna o seu cristianismo mais profundo.

    Jeremias Terrível.

  3. “One does see the same stones in the foundations of an eroded humanism and of any type of socialism: boundless materialism; freedom from religion and religious responsibility (which under Communist regimes attains the stage of antireligious dictatorship); concentration on social structures with an allegedly scientific approach. (This last is typical of both the Age of Enlightenment and of Marxism.) It is no accident that all of communism’s rhetorical vows resolve around Man (with a capital M) and his earthly happiness.”

    Pequeno trecho do discurso de Aleksandr Solzhenitsyn, de 1978, em Harvard.

  4. “diante desses fatos, onde está a evidência de que o ser humano evolui a ponto de não mais ser territorialista, ávido por poder e gregário, sendo modificado em termos genéticos para não fazer mais isso?”

    Quero fontes de que o “homem das cavernas” era mesmo territorialista e ávido por poder. E não pode ser só isso, tem que mostrar que isso foi e é central para o desenvolvimento da humanidade (não vai citar a Superinteressante, hein), senão seu argumento já um lixo. Quer dizer, ele já é um lixo, mas tenta provar que não, vai que cola.

  5. Sobre evolução humana e aprendizado com o passado.

    Ao longo da história, nós dizimamos povos, exterminamos culturas, banimos espécies animais da face da terra e aprendemos com isso e com a primeira e segunda guerra, os perigos em permitir que uma nação tenha o poder bélico de exterminar nações, as dores e marcas e resquícios que ficam de um ataque nuclear e os perigos de permitir q um povo persiga um outro com base em supremacia e normativa, nivelando o mundo por um ideal de pureza … exemplo o nazismo e os seus campos de concentração.

    Em função disso, buscamos depois desses episódios, criar leis que promovam a inibição de tais ações, montamos conselhos mundiais para tentar evitar esses excessos, pq de fato, ser territorial, ávido por poder e gregário é característica humana, assim como colaborar visando um objetivo comum e desenvolver empatia, se colocando em muitos momentos no lugar de um igual. A colaboração para a sobrevivência é fator fundamental do nosso sucesso.

    Nossa evolução social é evidente, no fato de não mais eliminar os descendentes com deficiências ou anomalias.
    O nosso modo de vida atual, nos permite incluir diferentes indivíduos, buscando extrair deles o melhor resultado e capacidades que contribua com o meio.

    Se todo deficiente físico ou mental fosse atirado no rio ou deixado para ser comido por animais nas florestas e todo homossexual ou descrente fosse queimado em fogueiras, impediríamos que esses indivíduos convivessem conosco e agregassem as nossas vidas, contribuindo com a nossa sociedade e com as nossas vidas.

    Então, realmente o que não procede é dizer que a humanidade não evolui e se modifica.

    Nos nossos termos sociais atuais, não é benéfico subjugar um outro povo ou tomá-los como escravos, nem dizimar esse povo sem repressão de outros povos…etc, pq entende-se que permitir tais praticas é um risco, e se eu permito q isso seja feito a um outro, um dia poderá ser feito comigo também e ninguém quer isso.

    Então, pode-se supor com essas evidencias que a organização social e valores sociais mudem sim.

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