Ceticismo político, dinâmica social e guerra política: uma resposta ao colega Leonardo Bruno trazendo exemplos do paradigma deste blog

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Há uma semana, escrevi o texto “Um erro e um acerto estratégico de Leonardo Bruno no vídeo ‘Estudos Científicos Revelam’”, no qual fiz críticas em relação a um vídeo de Leonardo Bruno onde ele criticava o cientificismo do neo ateu Daniel Fraga quando este tentou provar que os ateus eram mais inteligentes que os religiosos, através de uma suposta pesquisa científica. Leonardo (que assim como eu, ocasionalmente escreve para o Mídia Sem Máscara), escreveu dois posts: “Resposta a Luciano Ayan” e “Outras Observações a Luciano Ayan: o Perigo das Armadilhas Retóricas”. Ambos textos muito interessantes e lúcidos, que merecem uma resposta.

Essa minha resposta não é uma refutação, mas uma complementação ao que ele escreveu, além de alguns ajustes, pois vejo que minhas percepções e a dele estão um tanto diferentes em um aspecto: o da alegação política.

O fato é que minha crítica não foi feita em cima do paradigma do debate filosófico, mas do debate político. Em termos de debate filosófico, quando Leonardo diz que a ciência não pode assumir o papel de definidora de toda a realidade, concordo com ele. Isso seria cientificismo, método facilmente ridicularizável. Entretanto, a forma como ele vê os neo ateus é totalmente diferente da que vejo. Por exemplo, enquanto Leonardo diz que os neo ateus acreditam na ciência como aquela que tem o monopólio da verdade, eu digo algo muito diferente, depois de minhas investigações sobre eles: neo ateus apenas ALEGAM que acreditam na ciência como a detentora de toda a busca de conhecimento (inclusive sobre como devemos agir moralmente), mas isso apenas é um truque, no máximo uma simulação comportamental, para obter perante a plateia o benefício psicológico que essa alegação possa causar, e, enfim, ganhar o jogo político.

É justamente aí que entra em campo meu paradigma mudando totalmente o foco da análise. Leonardo critica os neo ateus por acreditarem na ciência como um Deus, enquanto eu nem de longe acredito que os neo ateus façam isso. Eu avalio os neo ateus como jogadores (inteligentes) de um jogo político na qual a repetição da expressão “representante da ciência” irá causar um benefício político através do efeito psicológico (incontornável, se avaliarmos pela ótica da dinâmica social) que essa expressão causará.

Sei que o paradigma defendido aqui é inovador, e ainda não vi a mistura de dinâmica social com debate político em outros autores. É uma contribuição ousada ao debate político, e ainda está sob estruturação. E, além de tudo, temos o paradigma do ceticismo político junto. Se eu fosse definir minha abordagem neste blog, desde meu retorno no fim de 2011 até agora, seria: “Um blog sobre a dinâmica social dos debates políticos, com foco na guerra política da esquerda contra direita, embasado pelo uso do ceticismo político contra a esquerda, ou seja, a religião política”. Quer dizer, mesmo eu sendo um conservador, tenho um modelo de ação, que sem falsa modéstia reconheço como inovador (e defendo piamente que ele dê resultados), sendo bastante diferente da crítica tradicional à esquerda feita pelos conservadores. Ainda que sejam críticas muito interessantes, como as do próprio Leonardo Bruno em diversos casos.

No modelo de ceticismo político, defino como alegação política toda alegação que, se aceita, irá gerar benefício para aquele que a propaga. Isso vale para indivíduos ou grupos. Como exemplo, poderíamos ter um gerente que queira se promover dizendo nos corredores que é “a favor de resultados”. Suponha que ele repita a rotina 200 a 300 vezes por semana, com pessoas diferentes. Na abordagem padrão, alguém o questionaria dizendo: “ser a favor de resultados de forma tão incisiva como ele é a forma certa de agir?”. Na abordagem do ceticismo político, o questionamento é totalmente diferente: “Como será que ele de fato prova que é adepto dos resultados tal como alega? Quais os resultados efetivos dele?”. Note que na primeira, eu aceitaria a alegação do gerente como verdadeira. Mas, como o ceticismo político diz que toda alegação que automaticamente beneficia seu propagador é política (e como tal devemos priorizar este questionamento), eu questiono a alegação.

E onde entra a dinâmica social? Ela entra para explicar as relações humanas, em seu aspecto mais profundo, inclusive sobre como funciona nosso hardware. E por que o cérebro da maioria absoluta da população irá reagir de forma positiva (e instintiva) a quem diz estar “do lado dos resultados”. Com a dinâmica social, sabemos de forma mais prioritária o que não pode passar ileso ao questionamento.

Em cima deste paradigma, comento alguns pontos interessantes de Leonardo, que me permitirão detalhar ainda mais o modelo de ceticismo (aliado à dinâmica social) defendido aqui.

Embora os neo-ateus ajam com as armas da calúnia, da difamação e da injúria e usem das mesmas ações de propaganda terrorista que vemos no século XX, há elementos igualmente graves que acompanham o pensamento ateu, como a renovação ideológica do cientificismo e do ódio secularista anti-religioso, elevados a dogmas modeladores da realidade. Essas duas hipóteses alimentam a sedução demiúrgica de alguns se posicionarem como deuses, com a enganosa crença totalitária de que podem controlar a realidade. A ciência, na mentalidade destes indivíduos, tem autoridade absoluta sobre o mundo. Contudo, a ciência, como um método de conhecimento que apenas descreve um fragmento da realidade e um tipo determinado de objeto, não tem o poder de explicar a totalidade do mundo. É neste sentido que critico o mau uso do método científico e mesmo a própria autoridade científica. Ataco a forma esotérica com que muitos indivíduos a invocam para justificar questões, idéias ou paixões que estão completamente desvirtuadas de seu foco.

No texto “O epicentro da crença esquerdista”,  eu mostro exatamente o oposto, embora à primeira vista possamos realmente tender a aceitar que os neo ateus aparentemente usam a ciência para “explicar a totalidade do mundo”. Nesse texto, tive um exemplo de como a mais robusta teoria científica sobre a biodiversidade (o Darwinismo) é solenemente ignorada por um marxista quando esta teoria nega seus principais cânones. O detalhe é que antes disso o marxista dizia que era “adepto da ciência”.

Por que ele fazia isso? Por que ele se disse um adepto da ciência em um momento mas renegou-a assim que a mesma ciência destruiu a base de sua crença? A resposta, pela ótica da dinâmica social da guerra política, é de fato óbvia. O fato é que ele afirmava ser “do lado da ciência”, não por sê-lo de verdade, mas por ter um costume de usar esse rótulo e obter o benefício político unicamente pelo seu uso.

Por isso onde Leonardo Bruno vê alguém que outorga a ciência o poder de todo o conhecimento, eu vejo alguém que apenas simula o discurso de “representante da ciência” para obter o benefício psicológico (perante a plateia) que esta auto-venda pode prover. É com essa perspectiva que escrevi meu texto criticando seu vídeo. Se eu acreditasse na verbalização de Daniel Fraga de que ele “está com estudos científicos em mãos”, com certeza abordaria a coisa de maneira totalmente diferente. Depois dos textos sobre o jogo de rótulos, o controle de frame e o self-selling, além dos vários exemplos que tenho fornecido mostrando que a esquerda sempre faz auto-rotulagem em cima de rótulos que não correspondem à realidade, não dá para aceitar, portanto, a auto-venda deles.

Sob este novo paradigma, comentarei algumas observações de Leonardo, com todo o respeito.

Preliminarmente, eu não dei o rótulo de “representante da ciência” a Daniel Fraga. Se houve algum tipo de epíteto neste sentido, a minha intenção foi no mínimo irônica. Em outros vídeos já denunciei o quanto essa chamada “militância ateísta” não consegue ter o menor domínio filosófico ou epistemológico do que seja método científico. Que dirá então de Daniel Fraga, que abusa de conceitos e preconceitos quando usa a palavra “ciência” para seus gostos e caprichos? No debate ateu X cristão, publicado no youtube, o máximo que Daniel Fraga consegue entender a respeito de ciência é uma repetição de lugares-comuns inspirados em revistas que lê, como Superinteressante ou algo do mesmo nível. Na prática, ao exemplificar até que ponto o discurso da ciência pode ser utilizado, eu denunciei, basicamente, a fraude implícita da ladainha dos arautos da autoridade científica.

Entendido. E não tenho nada a contestar aqui. Só que eu preciso complementar ainda mais o que Leonardo afirma: Daniel Fraga é um animal de teta. Ele costuma dizer que defende a “razão, contra a superstição”, mas de racional o discurso dele não tem nada. Como já mostrei anteriormente aqui neste blog, esta é a rotina “Dono da razão”. Daniel também costuma dizer que “representa a ciência”, mas, sem exageros, tanto eu como Leonardo representamos MUITO MAIS a ciência do que ele. Mas isso não é um elogio. Representar mais a ciência do que Daniel Fraga não significa absolutamente nada. É como quando o filme “Hulk”, de Ang Lee, foi lançado em 2003. Li em uma crítica que o filme era melhor que o “Batman”, de Tim Burton. Mas a mesma crítica dizia que ser melhor que o “Batman” de Burton não significa absolutamente nada, pois não dava para ser pior que aquele filme. E exatamente da mesma forma digo que eu e Leonardo representamos muito mais a ciência que Daniel Fraga. Simplesmente por que é IMPOSSÍVEL representar menos a ciência do que ele.

Um exemplo da irracionalidade da crença de Daniel é que ele é anarco-capitalista. Quanto ao capitalismo, nada contra, mas o aspecto “anarco” é facilmente ridicularizável. Daniel chega a acreditar que não precisamos de uma polícia oriunda do estado. Para crer nisso, ele precisa renegar tudo que a ciência nos diz a respeito da natureza humana, e do perigo que seria voltar à era tribal (exatamente em uma época em que temos muito mais tecnologia de morte do que naquela época). Daniel não só foge do que a ciência nos diz sobre a espécie humana (é por isso que digo que ele quer ser de direita, mas tem um “frame” de mente que o posiciona como idiota útil do esquerdismo na maioria do tempo), mas até do que o bom senso nos diz. Por isso, representar a ciência (muito) mais do que Daniel Fraga, repito novamente, não significa absolutamente nada. É bom que eu deixe isso bem claro, antes de comentar os próximos pontos.

É bem verdade que a ciência tem algo de positivo para o ser humano. Eu não nego os benefícios que ela nos deu, como aliás, deixo bastante claro isso. O que nego é o dogmatismo positivista que faz do discurso científico um instrumento para defender superstições ideológicas e preconceitos pessoais. Na realidade, Luciano Ayan acaba por cair no perigoso engodo de Daniel Fraga, ao dar a ciência uma importância maior do que ela de fato possui. Afirmo que Daniel Fraga e outros neo-ateus são verdadeiras nulidades nestes assuntos. Contudo, rejeito essa glamourização do pensamento e do método científico. Na verdade, considero uma verdadeira superstição da modernidade, uma idolatria vulgar, que deve ser combatida, pela salvação do conhecimento.

Em sequência ao que afirmei anteriormente, Daniel Fraga não dá à ciência importância alguma. Ele a renega, e ignora tudo que a ciência tem a dizer a respeito da espécie humana. Mas repete (em ritmo bate-estaca) que está “do lado da ciência”, pois espertamente ele sabe que obtém o ganho político de usar esta afirmação. Portanto, o que estou combatendo não é a “glamourização da ciência”, mas uma simulação de pessoas que fogem de tudo que a ciência tem a nos dizer, mas ao mesmo tempo simulam que estão “do lado da ciência” apenas para obter o benefício psicológico que esta afirmação pode prover.

Esse é o engodo de Daniel Fraga. Fingir algo que ele não é (ele diz ser alguém que está de acordo com o que a ciência nos diz). O próprio dogmatismo positivista nunca foi científico. Mas, pior ainda, nunca foi uma declaração sobre a verdade do pensamento positivista. Sempre foi apenas um discurso de marketing para obter o mesmo benefício psicológico que Daniel Fraga está buscando.

Enquanto eu digo que “glamourização da ciência” seria uma estupidez (no que concordo absolutamente com Leonardo), eu diria que nenhum dos neo ateus faz isso. Jamais fizeram. Mas, ao contrário, eles usam o discurso de “tudo pela ciência” apenas para a capitalização política.

A ciência jamais foi uma superstição da modernidade. Acreditar na simulação de que humanistas e seus asseclas “cultuam a ciência” é que é uma superstição. Notem que essa é a grande mudança de paradigma defendida aqui, que é plenamente sustentada pela dinâmica social do debate político.

E como é fácil chegar à esta conclusão? Basta estudar o que os humanistas supostos adeptos do “tudo pela ciência” sempre fizeram, renegando tudo o que a ciência tem a nos dizer a respeito da espécie humana para continuarem vendendo suas utopias. Não há uma teoria científica decente que sustente a crença no homem. Sendo assim, é óbvio que a declaração de “todo o conhecimento deve ser ditado pela ciência” não passa de uma trucagem para ganhar as mentes da platéia.

Por isso, digo claramente que represento a ciência muito mais do que Daniel Fraga, Richard Dawkins, Carl Sagan… E isso não é nenhum elogio. É por que não é possível representar MENOS a ciência do que eles.

Eric Voegelin, em seu livro “A Nova Ciência de Política”, já dizia que o positivismo, ao absolutizar o pensamento científico, acaba por destruir o próprio conhecimento. Ao cultuar o pensamento científico acima de outros métodos de análise, se está cometendo um erro epistemológico, e no final das contas, destruindo o conhecimento como um todo, como também o pensamento científico em particular.

Esse é o erro que vejo na análise de Voegelin. Já tratei essa questão no texto “Por que a educação dada pelos nossos pais pode ter criado uma geração de pessoas sem preparo para a guerra política”. Quer dizer, basta alguém dizer que é “dos resultados, resultados, resultados” que já sairemos dizendo que ela é uma “pessoa orientada a resultados”? O que estou questionando aqui é exatamente o ato de aceitar esse tipo de alegação política. O pensamento científico JAMAIS foi usado de forma absoluta ou “adorado” por humanistas e esquerdistas em geral. O que defendo aqui (e sustento, com quantos exemplos forem necessários) é que os esquerdistas apenas repetiram o discurso de marketing de “estar do lado da ciência”.

Eu não estou disputando nenhum sentido de autoridade científica maior do que os ateus, até porque as discussões relacionadas ao conhecimento vão muito além do método científico (se entendermos a “ciência” como “ciência natural”). Já expliquei, em artigos e vídeos, por que os usos e abusos da autoridade científica são, na prática, uma espécie de elevação do cientista a uma figura clerical e da ciência a uma caricatura da revelação religiosa. Não é a autoridade científica que importa, mas a verdade.

Não é a autoridade científica que importa, é fato, pois pelo meu paradigma de ceticismo político apelos à autoridade não valem nada. Mas estudos científicos que tenham boa sustentação sempre são melhores do que nada.  O fato é que, se discutirmos itens que fazem parte do escopo da ciência, estar amparado por ela é sempre muito bom. Já o “abuso da autoridade científica” é uma fuga ao método científico (o qual é restrito, de forma coerente), para fazer a capitalização política necessária para obter o efeito psicológico de ser reconhecido pela  platéia como “representante da ciência”.

Até aqui noto que a maior divergência entre eu e Leonardo é que ele aparentemente crê que alguém “adora a ciência” quando diz que “todo o conhecimento deve ser dado pela ciência”. E eu não acredito, e tenho motivos para questionar a alegação de que esta pessoa é “mais apegada à ciência do que eu”. Essa é a diferença (que faz toda a diferença) nesta análise.

Por exemplo, Leonardo diz que “não é a autoridade científica que importa, mas a verdade”. Mas se a verdade importa, e se é um fato que o oponente neo ateu foge da ciência (mesmo quando diz “adorá-la”), devo dizer a verdade à platéia e desmascarar o fraudador, e não atribuir um valor de verdade à declaração puramente política dele.

Luciano Ayan comete o erro de se importar mais com o método ou sua nomenclatura do que com o objeto de estudo. O método, em si mesmo, só é válido quando há eficácia na busca do objeto. Eu não posso avaliar a política, a ética, a metafísica, a filosofia ou o direito através do método da ciência natural. Chega a ser bizarro alguns ateus tentarem explicar a moral por argumentos científicos, até porque a ciência natural, como um método de investigação eminentemente descritivo, isenta-se de juízos de valor. Quando alguém tenta explicar “cientificamente” a ética ou a moral, na prática, nem sabe do que está falando. Que dirá então da política e dos assuntos humanos? Ademais, muitas questões relacionadas à mente, ao espírito, à personalidade, não pertencem ao jugo científico. Até porque não há instrumentos palpáveis da ciência em estudar aquilo que vai muito além de seu alcance, já que não está se falando de algo físico, mas algo que pertence ao mundo da abstração.

Alguns (neo) ateus tentam explicar a moral por argumentos SIMULADAMENTE científicos, o que é bem diferente de explicá-la por argumentos científicos. De novo, a diferença que faz toda a diferença. Entretanto, discordo de que a ciência não pode explicar elementos da personalidade, assim como dar algumas explicações (bem básicas, é verdade) para o desenvolvimento da moral na espécie humana.

Mas, de novo. O neo ateu tenta explicar a moral por “argumentos científicos”, não por que “adore a ciência”, mas por que conquistará a mente da platéia ao dizer isso. Mas duvido muito que qualquer neo ateu seja mais “apegado” à ciência do que Leonardo Bruno. Isso por que a declaração “sou apegado à ciência” é uma alegação política, que não passa em meu crivo cético. Se um neo ateu escrever um livro com 1.500 páginas, contendo apenas a repetição da frase “Eu amo a ciência”, no mínimo 50 vezes por página, isso não o fará um “adorador da ciência”. Eu vou TESTAR se ele realmente adora a ciência.

O que noto é que a alegação política do neo ateu (“creio na ciência mais que tudo nesta vida”) não foi questionada por Leonardo, mas aceita, e daí críticada. Se eu tomasse a afirmação do neo ateu como verdadeira, concordaria com toda a essência da crítica de Leonardo. Mas quando um neo ateu diz “Amo a ciência, e só ouço o que ciência me sussurra no ouvido”, eu lhe diria em retorno: “Ama a ciência bosta nenhuma. Teu discurso nada tem de científico. Não tente me enrolar”.

Os cientificistas acusam os religiosos de usarem Deus para cobrir as lacunas do universo. Entretanto, os ateus militantes e demais ideólogos da pretensa ciência cometem o mesmo erro, ao atribuir a ciência plena validade absoluta, pelo fato de certos fenômenos não serem alcançados por ela. É um sofisma repetido à exaustão por eles. A ineficácia da ciência não seria produto de suas limitações metodológicas, mas sim por conta de seu parco desenvolvimento. Na prática, as falhas da ciência são justificadas para tapar as próprias lacunas das ideologias materialistas, positivistas e atéias.

Leonardo conclui corretamente que a ciência é ineficaz para determinadas abordagens por suas limitações metodológicas, mas creio que se equivoca ao achar que os “neo ateus cometem o erro” de usar a ciência para cobrir as lacunas do conhecimento. Na verdade, eles estão em um jogo político no qual, SE REPETIREM ESSE MANTRA, ganharão o debate. A constatação de que o discurso cientificista é repetido à exaustão é inegável, mas ele só é repetido por que FUNCIONA. Pior, eles repetem o discurso e, ao invés de mostrarmos ao público que eles são mentirosos praticando o controle de frame, dizemos que eles estão errados ao “adorar a ciência”. Daí é o mesmo que sair questionando o gerente picareta “pelo fato dele ser mais apegado a resultados”.

De uma forma mais prática. Observe as seguintes afirmações abaixo:

  • Eu creio na ciência mais que tudo. (Eu duvido que ele creia de fato)
  • Creio que a ciência tem o domínio do conhecimento.  (Eu duvido que ele ache isso)

Ao acreditar que as afirmações abaixo são manifestações de um sentimento verdadeiro, aí sim toda a crítica de Leonardo ao cientificismo estaria válida. O cientificismo seria uma estupidez, certo? Mas pela dinâmica social do debate politico, os neo ateus estão agindo de forma esperta politicamente, pois mesmo que as afirmações sejam falsas, a repetição delas causa um efeito psicológico positivo na platéia. É esse efeito que eles estão buscando. Minha crítica é pelo fato de, ao invés de apontarmos que eles dizem uma mentira, estamos tomando a mentira como verdade, e aí lançando uma crítica na qual só os ajudamos.

No exemplo corporativo, se alguém criticar o malandro dizendo que ele “está errado por ser tão focado em resultados”, só o estará ajudando a propagar a mentira que ele criou. A ação correta seria questionar se ele é a favor dos resultados ou não.

Relembrando: “uma alegação é política quando, se aceita, traz benefícios a quem a propaga”. Qual o benefício que um neo ateu quer ao dizer que “adora a ciência”? Ganhar psicologicamente a mente da platéia, e esse é um efeito inevitável. Ele adora a ciência de fato? Não mais que eu ou o Leonardo. Mas ao não questionarmos essa alegação dele, damos AUTOMATICAMENTE o benefício que ele buscou ao aplicar uma mentira.

Talvez não tenha especificado nada naquele vídeo, onde só me limitei a criticar a mística do cientista, pois não somente comete erros de pesquisa e de método, como é idolatrado no plano de um novo clero da nossa época. Inclusive, essa idolatria da autoridade científica é menos produto de uma inteligência superior do que do controle que determinados grupos ideológicos possuem nos ambientes considerados “culturais” na sociedade.

Vou deixar meu ponto mais claro ainda. Não existe idolatria da autoridade científica, mas sim um discurso de simulação de idolatria que jamais deveria ser aceito pelos conservadores. Enquanto o oponente diz que “idolatra a ciência”, deveria ser rebatido com “idolatra fugir da ciência, isso sim”. E é verdade afirmar isso.

De fato o truque de SIMULAR idolatria da autoridade científica (enquanto ao invés de questionarmos essa idolatria, deveríamos questionar a alegação política de que eles “idolatram a ciência”) serve para controlar o frame na discussão. E ganhar o debate por antecipação. E é exatamente por isso que devíamos questioná-los.

Eu aconselharia ao meu amigo Luciano Ayan a ler com detalhes alguns artigos e vídeos, pelos quais demonstro, através de alguns fatos, que a civilização que conhecemos é produto da Cristandade e que uma boa parte da história contada em universidades e escolas é pura propaganda ideológica.

Eu já li alguns, e gostei do que li. Respeito o cristianismo por sua influência cultural, embora eu não seja cristão. Entretanto, essa influência toda tem sido demolida (o que é uma pena) por que os neo ateus estão controlando o frame da discussão, usando a  mentira de “representação da ciência”, além de outras mentiras.

Eu não preciso de estatísticas ou de pressupostos de autoridade para provar o óbvio: basta apelar à filosofia, à história e à civilização em geral, para perceber que a contribuição dos ateus para a cultura é visivelmente inferior a de qualquer cultura religiosa.

Aqui vou discordar, pois é natural que muitos teístas tenham feito muitas contribuições, pois eles sempre existiram em MAIOR QUANTIDADE. Eu sou ateu e não vejo uma explicação científica ou racional para um fato de um ateu ser menos capaz para produzir arte e conhecimento do que um teísta. Por exemplo, David Cronenberg, um dos melhores cineastas da atualidade, é ateu. Um dos maiores demolidores do humanismo hoje em dia é John Gray, também ateu. Portanto, esse discurso de que “ateu é inferior intelectualmente, cientificamente ou artisticamente” é algo que não comentarei mais.

Na verdade, ela [a ideologia neo ateísta] é pura transmutação de uma das faces das ideologias revolucionárias que assolaram o século XX, que já dominou uma boa parte das academias e do universo cultural das universidades e a própria sociedade.

É exatamente por isso que sugiro que passemos a controlar o frame das discussões, demolindo as alegações políticas MAIS QUERIDAS para eles. E uma das principais afirmações políticas que proferem é a de que “representam a ciência”, o que é uma mentira. Se eles dominaram as academias e o universo cultural, estão fazendo isso por usarem os rótulos a favor deles há muito tempo, mesmo mentindo. Por que não desmascarar essas mentiras ao invés de tomarmos a mentira como verdade?

Quando os ateus militantes exigem “provas científicas” da existência de Deus ou elevam a ciência como uma explicação totalizante da realidade, eles, na prática, preparam uma falaciosa armadilha retórica. Pois qualquer discussão filosófica ou metafísica acerca de Deus vai muito além do método científico. Se alguém aceitar previamente os postulados dos ateus, obviamente as premissas viciadas vão comprometer qualquer justificativa acerca da existência de Deus, uma vez que a ciência, limitada que é, não abarca uma discussão que vai muito além dos seus fins. Ou seja, os ateus exigem que usemos os instrumentos inadequados para simplesmente não buscarmos o fim. Deus não pode ser mensurado num tubo de ensaio ou pela ciência, para comprovar sua existência. Mas o raciocínio desonesto dos ateus acaba por negar previamente qualquer forma de conhecimento que fuja dos postulados cientificistas. Em outras palavras, os ateus militantes limitam ao máximo o alcance e a análise do conhecimento, para justamente negar Deus.

Se fazem isso, não é dizendo que eles “adoram a ciência” que vamos derrubá-los, mas dizendo à platéia que eles “fogem da ciência” quando mentem sobre o método científico. Ao ampliar o escopo do método científico, os neo ateus são inimigos da ciência por banalizá-la e transformá-la em instrumento de debate político. Esse é o tipo de denúncia que deve ser feita, ao contrário de aceitar a fraude de que “eles querem usar a ciência para todo o conhecimento”. Deve ser dito que “não, eles não querem a ciência, mas usam uma ‘versão pirata’ da ciência para fingirem representá-la”. Também pode ser dito: “Como pode um grupo ser tão abjeto a ponto de ignorar de forma tão torpe o que realmente é a ciência?”. De novo, essa é a diferença que faz toda a diferença. No meu caso, estou rebatendo todas as alegações políticas, mas Leonardo ao não questionar mesmas afirmações políticas, não conseguirá desarmar as armadilhas do adversário. Isso porque a própria crítica ao cientificismo não faz nada para demolir a alegação política do outro lado.

Lembremos: a alegação “a ciência pode representar todo o conhecimento” pode até ser uma alegação política, mas a afirmação “eu represento a ciência” com certeza é política. Sob o paradigma proposto aqui, deve-se priorizar o questionamento desta última, portanto.

É ainda paradoxal que a ciência, supostamente totalizante, seja um princípio que esterilize ao máximo a extensão do conhecimento. Não são os ateus e materialistas que afirmam que tudo que não abarque o pensamento científico necessariamente não existe? Ao determinarem o absolutismo da ciência, na prática, cerceiam e destroem o conhecimento. Dentre todos os dogmatismos, talvez o dogmatismo científico seja um dos mais perversos. Ele idiotiza, empobrece, estupidifica. É neste sentido que critico o chamado “culto da ciência”, uma vergonhosa idolatria, que consegue mais imbecilizar do que esclarecer, justificando e dando ares sérios a quaisquer tipos de superstições.

Eu já trataria de forma diferente. Sobre a “simulação de culto a ciência”, não dá para dizer que é algo que idiotiza ou empobrece qualquer coisa, mas uma arma política que é utilizada para tirar o outro lado do debate público. Ao assistirmos alguém usando esse discurso e ao mesmo tempo ganhando as mentes da platéia, aprendemos muito sobre a natureza humana.  Entretanto, se eles usam uma arma política, é possível utilizar uma contra-medida, e este é o ceticismo político. Aliado à dinâmica social, ele se torna poderoso.

Em suma, jamais devemos acatar as premissas do inimigo, quando elas são falsas. No caso em particular, a solução para isso é quebrar as premissas ateístas na raiz e demonstrar seu sofisma intrínseco. Foi isso que de fato fiz, quando provoquei este “culto à ciência”. Ademais, ao denunciar a superstição ideológica da ciência, não estou dando ares de autoridade científica aos ateus. Pelo contrário, estou demonstrando, com argumentos, que são uns notórios charlatães.

A “simulação de representante da ciência” não é um truque ateísta, mas humanista/iluminista. Como já disse aqui, nem todo ateu é humanista. Eu sou ateu e não sou humanista. Mas a meu ver o erro de Leonardo está na “denúncia a superstição ideológica da ciência”, enquanto, como já deixei claro aqui, eu denuncio o truque de fingir “adoração à ciência”. Ora, se não devemos jamais acatar as premissas do inimigo quando elas são falsas, há premissa mais falsa do que aceitar que um neo ateu de fato “ame a ciência mais que tudo”?

Ser mais “científico” do que os ateus, da forma como eles entendem, seria o mesmo que dizer que sou mais esquerdista do que os esquerdistas ou mais ateu do que os ateus. Afirmar-se com as armadilhas do inimigo é dar munição a ele. A solução mais lógica é quebrar o conceito de “ciência” no imaginário cultural, abarcado de ideologia positivista.

Novamente, eu trato dos neo ateus, e não dos ateus. Se um neo ateu diz que é “científico”, eu digo que sou “mais científico” que ele, e ainda digo que ISSO NÃO SIGNIFICA ABSOLUTAMENTE NADA, pois nada é mais anti-científico que o neo ateísmo.

Um exemplo? Vejamos quando Dawkins diz que o fim da religião pode ajudar na redução de conflitos, pois sem esse rótulo as pessoas não se dividiriam. Qual a base científica para ele dizer que o gregarismo (presente em todas as espécies) reduziria somente por isso? Nenhuma. Se eu quebro isso em um debate científico, obviamente que ao menos nesta questão estou mais do lado da ciência que ele.

Ora, esse é o tom a ser adotado, e não dar o rótulo de “representante da ciência” de bandeja a alguém que foge do verdadeiro debate científico. Não há motivos para quebrar o conceito de ciência no imaginário cultural, pois, como já disse, o ser humano já reage instintivamente bem ao rótulo ciência. Há que se desmascarar os humanistas quando eles tentarem usurpar esse rótulo para eles.

Se o argumentador destruir a premissa falaciosa dos ateus em buscar respostas cientificistas para tudo, sobrará a eles caírem na nossa linha de argumentação, filosófica, teológica e metafísica, já que a própria ciência para se respaldar precisa destes ramos especulativos de conhecimento. Não é por acaso que no debate em que participei sobre ateísmo e cristianismo, eles foram virtualmente massacrados no campo das idéias. Restou a eles se apegarem a fragmentações retóricas e pseudo-científicas, que na prática, confundiam, mas não explicavam nada.

Pelo que conheço de Leonardo, não duvido do massacre, pelo qual já o parabenizo. Ainda assim, acrescento que não há momento melhor que este para expor à platéia que eles apanham de alguém no DEBATE CIENTÍFICO, pois não representam a ciência. Pode-se dizer, em um debate assim, que os neo ateus só prejudicam a ciência por desvirtuá-la. Isso não é “adorar a ciência”, mas fazer politicagem fingindo uma adoração que eles jamais possuíram. Se a ciência precisa de defensores, deve buscá-los nos oponentes dos humanistas. Esta é a mensagem que defendo. E ela é dificilmente refutável.

Enfim, gosto muito do trabalho de Leonardo Bruno, somente preciso apontar que noto a abordagem dele especialmente filosófica (e respeitável), ao passo que temos uma diferença de percepção do inimigo em alguns pontos. O aceite do rótulo auto-imposto pelos neo ateus neles próprios faz com que Leonardo ataque uma idolatria que eu duvido que exista, assim como eu duvido que o hipotético “gerente que só pensa em resultados” realmente pense nisso mesmo. Mais uma vez, esta é a diferença que faz toda a diferença.

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13 COMMENTS

  1. Luciano, digamos que haja um debate entre um esquerdista/neo-ateu e um adversário qualquer da esquerda, e o esquerdista aplique o “sou o cara da ciência”.
    Quais seriam boas abordagens pra anular esse marketing?
    Se anunciar também como alguém da ciência?
    Pois acredito que mesmo que o esquerdista seja refutado em TODOS os seus argumentos, o “cara da ciência” tem um peso absurdo no debate (praticamente quem proferir isso já ganhou, aos olhos do público leigo).

    • Dalton, eu sugiro duas abordagens, a serem escolhidas no momento. Uma é atacar o esquerdista mostrando que, por ser esquerdista, ele já renega o que a ciência tem a dizer (por ignorar a questão da natureza humana).

      A segunda abordagem é afirmar-se como alguém que está do lado da ciência MAIS que ele. Mas outro approach também pode ser dizer que “estar mais da ciência que você também nem chega a ser um mérito, pois você foge de tudo que é científico”.

      Aí a sugestão mesmo é reverter totalmente o frame, no qual ele entra como “o cara da ciência” mas deve ser conhecido como o cara que crê em mitos (como o da perfectibilidade humana).

      Isso é o que tenho feito nos raros debates da web e o sujeito fica sem ação rapidinho, pois eu passo a batata quente para a mão dele, já que, enquanto ele não prova CIENTIFICAMENTE que o mito da falibilidade humana é válido, ele vai ter que aturar ser tachado como o supersticioso da questão, enquanto eu sou o “caçador de mitos em nome da ciência”.

      Durante o debate, também aproveito para fazer puxões de orelha como “que feio, sua atuação ofende a ciência” ou “para ajudar na divulgação da ciência, precisamos de pessoas que não atrapalhem com distorções de teorias científicas. você só atrapalha”. E daí por diante.

      Espero ter ajudado.

  2. Luciano, brilhante blog.
    Vc já viu o Frei Rojão? Sem este mesmo arcabouço teórico que vc dá, já li algumas coisas que vc fala sendo aplicadas por lá.

  3. Luciano deixe-me fazer uma pergunta: sob essa ótica que você utiliza, alguns padrões ideológicos da direita, tal como, o libertarianismo também seriam consideradas “religiões politicas”?

    • Sim, com certeza. A diferença é que os libertários podem ser usados como idiotas úteis tanto da esquerda como da direita. Por exemplo, quando lutam contra a religião, são idiotas úteis da esquerda. Mas quando lutam contra o estado inchado, são idiotas úteis da direita. Portanto, tenho simpatia pelos libertários, DESDE QUE usemos eles adequadamente.

  4. Parece-me que, a rigor, tanto você quanto o Leonardo convergem naquilo que há de substancial. Suas contribuições não são excludentes, mas sim complementares. A diferença entre vocês reside basicamente numa questão de abordagem: o Leonardo atenta-se à dimensão mais filosófica da discussão, ao passo que você parece estar mais preocupado com a abordagem política, ou melhor dizendo, com as repercussões políticas de uma determinada abordagem.

    A título de exemplo, eis o que acontece: fulano diz “Eu acredito piamente em X”. (X = ciência ou postulado científico).

    1) Você diz: “Não é verdade que você realmente acredita em X, está fazendo isso para se promover”. Ou seja, sua abordagem se dá no sentido de negar a honestidade da declaração de fulano (ele diz que acredita em X, quando na verdade acredita em outra coisa).

    2) Por outro lado, o Leonardo diz: “A própria crença em X acompanhada pela pretensiosa expansão da capacidade explicativa de X para os âmbitos que não lhe competem é uma tolice”. Isto é, pouco importa se fulano acredita efetivamente ou não em X, o fato é que, se essa crença existe, ela continua sendo em si mesma uma bela idiotice, quando se arroga possibilidades explicativas que transcendam infinitamente o seu alcance epistemológico.

    Nesse sentido, malgrado sua abordagem possa ter um efeito político mais imediato de “desmascaramento do adversário”, trazendo a lume a perfídia deste; a crítica do Leonardo – pelo fato de permitir, ainda que para fins argumentativos, a pressuposição de honestidade do interlocutor – vai um pouco além da sua, atingindo a raiz do problema, tendo, por isso, maior robustez filosófica.

    Nesse particular, o ideal talvez fosse adotar uma linha argumentativa que reúna tanto a sua crítica quanto a do Leonardo. Ficaria algo mais ou menos assim:

    Situação hipotética: um neo ateu, crendo-se verdadeiro representante do saber científico, diz: “Eu acredito apenas em X”.
    Refutação: Não é verdade que você acredita em X. Todavia, “ad argumentandum tantum”, ainda que se admitisse a honestidade de sua crença em X, as conclusões que você tenta extrair de X (postulado científico que pode até ser verdadeiro) extrapolam a real dimensão à qual ele se restringe.

    Ademais, parabéns pelo seu ótimo trabalho.

  5. Caro Luciano, quando você diz que os neo ateus não idolatram a ciência, você se refere a quais tipos de neo ateus? Os militantes? Ou os cabeças da corrente?
    Convivo em meu curso(Ciências Sociais) com uma esmagadora maioria de esquerdistas,que, adoram o neo ateísmo. Inclusive a maioria dos professores doutores. Entretanto, o discurso deles não soa como um discurso político, mas sim com um discurso “científico”, ou seja, falam como cientistas(sei que são ideologias) e, você deve saber que para a maioria dos alunos, o que predomina é o “lado científico”.O ESTRAGO É ENORME. Portanto, mesmo que a intenção seja política, o efeito recai sobre a ciência, isto é, A IDEOLOGIA POLÍTICA É VISTA COMO CIÊNCIA.
    O marxismo(uma teoria essencialmente ateísta) é vista como a mais pura ciência, não obstante Popper, Voegelin, entre outros, terem demonstrado que não é.O problema é que Popper, Voegelin e todos os “direitistas” do mesmo naipe, não constam na ementa do curso.
    Sem hipocrisia, não tenho condições intelectuais para refutar o seu ateísmo “neutro”, mas, questiono alguns pontos:
    Todas ideologias modernas, não são frutos do Materialismo, que por sua vez, não é ateísta?
    Em se tratando de ciência séria, qual a intenção de se tentar provar a existência de tudo que existe a partir do nada? O que move, realmente, a mente de um cientista ateu? Empiricamente falando, existe microevolução, não a macro, então porque continuar gastando bilhões para tentar provar algo que não se verifica empiricamente?Você mesmo já utilizou o argumento de Popper de que, empiricamente não dá para provar que algo não existe, portanto , mesmo que a ciência viesse a ter algumas respostas concretas sobre o surgimento da vida orgânica, isso não provaria a não existência de Deus.Mesmo assim, o discurso(e a prática) da comunidade acadêmica continua a descartar Deus a priori de qualquer estudo sério.
    Se Deus não existe, por que ficar debatendo questões morais, se, no final das contas, morreu, acabou?
    A simbologia do pecado original, é a imperfeição humana, algo ignorado por ideólogos a esquerda e a direita. Simbologia essa em concordância com a ciência empírica. A PERGUNTA DEVIA SER: POR QUE O SER HUMANO BUSCA A PERFEIÇÃO, SE, A REALIDADE DEMONSTRA QUE ELE É IMPERFEITO?Com o tipo de ser humano que temos, mesmo no melhor dos mundos, haveria sempre alguém provocando anomalia social, pessoas continuariam morrendo, poderia haver ciclos de bons e maus momentos numa economia realmente de livre mercado, enfim, não teríamos um mundo perfeito. Mesmo assim, todos buscam perfeição. Uns, no plano imanente, outros, no transcendente. VOCÊ ACREDITA MESMO QUE A VIDA SE RESUME AO AQUI E AGORA?
    A fuga da tensão existencial de que fala Voegelin, não é o que move o “coração” ateu? RECONHEÇO QUE AS IMPERFEIÇÕES EXPERIMENTADAS NO PLANO MATERIAL SÃO REVOLTANTES, mas, daí se fechar numa revolta egofanica, não piora a tensão? Por favor, estou perguntando, não se sinta ofendido, até porque, perto de você, sou um grãozinho de areia, sem hipocrisia. Leio seus artigos no MSM.
    Para terminar, deixo uma reflexão:
    UM CRISTÃO, AO MORRER, E “DESCOBRIR” QUE DEUS NÃO EXISTE, NÃO TERÁ PERDIDO NADA, AFINAL DE CONTAS, NÃO HÁ ALGO DO “OUTRO LADO”. AGORA,UM ATEU, AO MORRER E “DESCOBRIR” QUE DEUS EXISTE, PODERÁ TER PERDIDO TODA UMA VIDA.DIGO PODERÁ, POIS, HONESTAMENTE, MESMO EU CRENDO COM TODAS AS FORÇAS DO MEU SER NA EXISTÊNCIA DE UM CRIADOR, TENHO MINHAS DÚVIDAS QUANTO AOS QUE REALMENTE IRÃO SER SALVOS, TEOLOGICAMENTE FALANDO.

    • Olá Conservatore

      Caro Luciano, quando você diz que os neo ateus não idolatram a ciência, você se refere a quais tipos de neo ateus? Os militantes? Ou os cabeças da corrente? Convivo em meu curso(Ciências Sociais) com uma esmagadora maioria de esquerdistas,que, adoram o neo ateísmo. Inclusive a maioria dos professores doutores. Entretanto, o discurso deles não soa como um discurso político, mas sim com um discurso “científico”, ou seja, falam como cientistas(sei que são ideologias) e, você deve saber que para a maioria dos alunos, o que predomina é o “lado científico”.O ESTRAGO É ENORME. Portanto, mesmo que a intenção seja política, o efeito recai sobre a ciência, isto é, A IDEOLOGIA POLÍTICA É VISTA COMO CIÊNCIA.

      No texto O Epicentro da Crença Esquerdista e já tratei essa questão. Ao simular um discurso “científico”, e até convencerem os outros de que representam a ciência, não é que o discurso é científico, mas político. A diferença é que é um discurso político no qual o objetivo foi atingido (que é implementar a eles um rótulo positivo, de tal forma a ficar enraizado na mente da patuléia).

      É fato que mesmo que a intenção seja política, o efeito recai sobre a ciência, e, se isso ocorrer, é sinal de que os esquerdistas estão caprichando no trabalho político.

      O marxismo(uma teoria essencialmente ateísta) é vista como a mais pura ciência, não obstante Popper, Voegelin, entre outros, terem demonstrado que não é.O problema é que Popper, Voegelin e todos os “direitistas” do mesmo naipe, não constam na ementa do curso.

      Pois é, e naquele texto eu mostrei como um marxista, mesmo alegando ser estritamente “científico”, foge da discussão científica quando ela o incomoda.

      Sem hipocrisia, não tenho condições intelectuais para refutar o seu ateísmo “neutro”, mas, questiono alguns pontos:
      Todas ideologias modernas, não são frutos do Materialismo, que por sua vez, não é ateísta?

      Eu discordo. Não é que todas as ideologias modernas sejam frutos do materialismo, mas sim que todas essas ideologias são frutos do humanismo. É possível ser ateu e conservador.

      Em se tratando de ciência séria, qual a intenção de se tentar provar a existência de tudo que existe a partir do nada? O que move, realmente, a mente de um cientista ateu? Empiricamente falando, existe microevolução, não a macro, então porque continuar gastando bilhões para tentar provar algo que não se verifica empiricamente?Você mesmo já utilizou o argumento de Popper de que, empiricamente não dá para provar que algo não existe, portanto , mesmo que a ciência viesse a ter algumas respostas concretas sobre o surgimento da vida orgânica, isso não provaria a não existência de Deus.Mesmo assim, o discurso(e a prática) da comunidade acadêmica continua a descartar Deus a priori de qualquer estudo sério.
      Se Deus não existe, por que ficar debatendo questões morais, se, no final das contas, morreu, acabou?

      Eu vou tratar a expressão “cientista ateu” por “cientista neo ateu”, ok? Neste caso, o truque de simular que Deus é uma questão científica é simplesmente para dizer que ele pode ser negado pela ciência, e portanto “não existe”. O truque é basicamente este. Outro truque deles é simular que eles estariam “do lado da ciência”, o que é o truque do “representante da ciência”. Então, está aí a resposta para o fato dos neo ateus agirem assim: capitalização política.

      Mas, se Deus não existe, debater questões morais também pode trazer ganhos políticos, e por isso os neo ateus fazem isso bastante. O negócio é duelar com eles.

      A simbologia do pecado original, é a imperfeição humana, algo ignorado por ideólogos a esquerda e a direita. Simbologia essa em concordância com a ciência empírica. A PERGUNTA DEVIA SER: POR QUE O SER HUMANO BUSCA A PERFEIÇÃO, SE, A REALIDADE DEMONSTRA QUE ELE É IMPERFEITO?Com o tipo de ser humano que temos, mesmo no melhor dos mundos, haveria sempre alguém provocando anomalia social, pessoas continuariam morrendo, poderia haver ciclos de bons e maus momentos numa economia realmente de livre mercado, enfim, não teríamos um mundo perfeito. Mesmo assim, todos buscam perfeição. Uns, no plano imanente, outros, no transcendente. VOCÊ ACREDITA MESMO QUE A VIDA SE RESUME AO AQUI E AGORA?

      Sim, eu acredito que a vida se resume ao aqui e agora. Entretanto, a questão da “busca da perfeição” (sendo que a simbologia do pecado original é a imperfeição humana) é simplesmente uma “alegação de suporte”.
      É o seguinte. Imagine que um sujeito queira comer uma garota e convencê-la de que ele é um vampiro. Ela não vai dar para ele, pois não acredita em vampiros. Então alguns amigos dele podem tentar convencê-la, por estimulação psicológica, que vampiros existem. A partir do momento em que ela crê que vampiros existem, ela poderá cair no truque de que ele é um vampiro. Este seria um truque de sedução.
      “Vampiros existem” é uma alegação para dar suporte à alegação “eu sou um vampiro”.
      Da mesma forma, “o homem pode alcançar a perfeição” é uma alegação de suporte à alegação “nós, humanistas, iremos criar o mundo com o ser humano ‘corrigido’, com paz e prosperidade para todos”.
      Enfim, agora você já sabe porque o truque da “busca pela perfeição” existe. Ele existe por que FUNCIONA, e neste aspecto tem que ser desmascarado.

      • Em relação a imperfeição humana, talvez eu não tenha me expressado direito:
        No plano imanente, humanamente falando, concordo com você. As ideologias modernas utilizam a “alegação de suporte”, não porque acreditam realmente numa perfeição,mas, para se manterem no poder. Minha questão é de ordem filosófica(embora eu nem de longe seja um filósofo) POR QUE BUSCAMOS A PERFEIÇÃO? Em todas as culturas estudadas há noções de certo e errado, de bem e mal, etc…E, em todas elas, as pessoas se baseiam nestes valores para direcionarem suas ações, buscando agir de acordo com o mais “correto” ou o mais “perfeito” modelo de conduta, sendo reprovado socialmente quem age de forma anômica.(lembrando que, na maioria destas culturas não tiveram contato com a civilização ocidental)
        Não é a mesma coisa, no exemplo do vampiro, pois este é um personagem mitológico, não um padrão a ser alcançado. Respeitando seu ateísmo, digo o seguinte: Se buscamos a perfeição, embora a realidade demonstre a impossibilidade de alcançá-la no plano material, não seria porque em algum momento da história humana, vimos algo que mostrasse a possibilidade da perfeição? A simbologia do Pentateuco aponta para essa direção, em consonância com a teologia paulina.
        Racionalmente falando, quem não ia querer viver num mundo, tal como descrito na Nova Jerusalém? bastando para tanto, aceitar a realidade da imperfeição presente, dominar suas ações, buscar fazer o bem ao próximo(parábola do bom samaritano), levar uma vida reta, enfim, ter a humildade de entender e procurar viver a essência do cristianismo?
        Os ideólogos se aproveitaram desta busca, mas, não a criaram, até porque, eles não podem entregar o que prometem.

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