Demonstrando que Dawkins não é um argumentador, mas sim um jogador político. Que joguem contra ele também.

5
59

Em um post no Paulopes, mais uma vez os neo ateus se deleitaram com as respostas de efeito de Richard Dawkins, quando na verdade ele apenas nos mostrou que o neo ateísmo nada mais é que uma coleção de truques. Em uma forma resumida, basta compilar todos os truques mais sujos e desprezíveis (indignos de qualquer pessoa decente, diga-se) que sejam contra a religião tradicional, e empacotá-los. A isso é dado o nome de neo ateísmo.

Dawkins se diz “revoltado” pelo Papa ter culpado os ateus “pelas atrocidades de Hitler e outras do século 20”. Eu até concordaria com Dawkins em críticas dirigidas à alegação do Papa. O ateísmo de fato não é culpado pelas atrocidades de Hitler, Mao e Pol Pot. Mas o humanismo, inimigo da religião tradicional, é culpado. Dawkins é um humanista, muito antes de ser um ateísta. Eu sou um ateísta, não um humanista. Por isso, não tenho co-responsabilidade pelas mortes do nazismo e o marxismo, mas Dawkins sim.

Portanto, se Dawkins tivesse apenas criticado a falácia do Papa (a associação errada de ateus com o nazismo), tudo bem. O problema é que para emplacar sua campanha humanista, como sempre mentirosa do início ao fim, ele se sujou de lama. Aí fica divertido para um conservador cético.

A cereja do bolo vem quando ele dá um argumento para Hitler ser católico. Veja a miséria: “Adolf Hitler foi um católico romano. Foi batizado e nunca renunciou ao batismo.” Quer dizer, agora para Dawkins se a pessoa não renuncia formalmente ao batismo, continua sendo católico. Mas como, se Hitler oficialmente disse que o cristianismo era um dos maiores males da humanidade (junto com o bolchevismo), e só fez uma manifestação de apoio ao cristianismo em uma versão “do avesso”, chamada cristianismo positivo? Obviamente, Dawkins mente e nem fica corado. Tal qual um psicopata. O curioso é que raros ateus fazem o desligamento formal do batismo. Eu mesmo sou ateu e nunca rejeitei formalmente o batismo, até por que isso seria uma “mania” boba. Ora, se o batismo nada significa para mim, para que eu precisaria fazer uma rejeição “formal” dele? É a mesma coisa que se alguém lhe desse um presente que não significa nada para você. É preciso fazer uma rejeição “formal” deste presente? Enfim, a escrotidão dele não tem limites.

Dawkins prossegue citando o Mein Kampf, onde Hitler teria afirmado o seguinte:

“Meu sentimento como cristão aponta-me para o meu Senhor e Salvador como um lutador. Aponta-me para o homem que, uma vez na solidão, cercado por poucos seguidores, reconheceu esses judeus por quem eles eram e clamou para que se lutasse contra eles e que – verdade de Deus – foi maior não como sofredor, mas como lutador. No meu amor sem limites como cristão e como homem, eu leio a passagem que nos conta como o Senhor finalmente se levantou em seu poder e tomou do chicote para expulsar do Templo a raça de víboras e vendilhões. Como foi maravilhosa a sua luta contra o veneno judeu. Hoje, depois de dois mil anos, com a mais profunda emoção, eu reconheço mais do que nunca o fato de que foi por isso que Ele teve de derramar o seu sangue na cruz.”

Entretanto, a visão de Jesus como um “lutador” é obviamente o uso bizarro de uma crença, que não tem nada a ver com sua crença original. Aliás, está bem claro que este é o tal do cristianismo positivo, assim como a teologia da libertação faz um reviralho da crença cristã para tentar vender a idéia marxista. O uso destas vertentes (cristianismo positivo, teologia da libertação) não são “culpas” do cristianismo, mas do jogo político. No jogo político, os esquerdistas adaptam as crenças da maioria da população e, usando técnicas desconstrucionistas, criam uma nova crença para confundir a parcela mais ingênua do povo. Enfim, uma tática essencialmente humanista, portanto novamente podemos acusar Hitler de esquerdismo, e não de “cristianismo”.

Quando Dawkins afirma que “não há nenhum caminho lógico do ateísmo para a maldade”, ele está correto, mas o fato é que há um caminho lógico do humanismo para as piores atrocidades. A fórmula é simples. Ao crer na “salvação” do homem, e permitir que lhe seja inserida na própria mente a idéia de que se é um “lutador pela salvação”, o sujeito começa a ver culpas só nos outros (“do mundo ruim”), jamais nele. Isso o torna não só neurótico, como alguém incapaz de assumir responsabilidades pelos seus atos. A partir daí, em nome “da causa”, todo ato se torna justificável a priori. Mesmo mentir o tempo todo contra os adversários, como faz Dawkins. Mesmo colocando-os na câmara de gás ou nos gulags, como fizeram Hitler e Stalin.

É por tal crença no homem que Dawkins, insistentemente, termina o seu discurso revoltadíssimo com uma das alegações mais lúcidas do cristianismo, a de que o ser humano é falível por natureza (através da metáfora do pecado original). Veja como Dawkins perde o controle ao se referir a esta denúncia: “Pecado original significa que nascemos maus, corruptos, condenados, a menos que acreditemos no deus deles ou a menos que caíamos no conto do castigo do inferno.”

Ué, qual o problema de acreditar que “nascemos maus e corruptos”? Se eu não creio no sobrenatural, a crença no inferno não me afeta. Mas o importante é que Dawkins se afetou. Para isto há uma explicação: Ratzinger e os cristãos dizem uma verdade extremamente inconveniente, a de que o ser humano é um animal imperfeito, tal qual os outros animais, e portanto não há esperanças de “paraíso na Terra”. Se Dawkins e seus amigos (beneficiários ou funcionais) querem obter o poder totalitário, assim como Stalin e Hitler conseguiram, através da “crença no homem”, antes de tudo eles tem que passar pela lucidez desta constatação do cristianismo em relação à falibilidade humana. É esta constatação que destrói seus projetos totalitários. É por isso que Dawkins é um inimigo natural de Ratzinger. Enquanto Dawkins quer ver o governo global totalitário e genocida, Ratzinger proclama uma mensagem para eliminar tais ilusões de “crença no governo global”.

É por isso que Dawkins insistentemente tenta controlar o frame dizendo que “Joseph Ratzinger é um inimigo da humanidade” e que a idéia da falibilidade humana é uma “teoria vil, depravada e desumana para ter como base a vida”. Mas na verdade, são as idéias de Dawkins que carregam, por sua inominável crença no homem, as mesmas culpas que os regimes de Stalin e Hitler tiveram. Na verdade, sem a crença no homem, jamais teriam havido as mínimas esperanças para a crença nos regimes totalitários propostos. A crença em Deus ou ausência de crença em Deus não sustentam o totalitarismo, mas a crença no homem leva inevitavelmente a ele. Por saber que a “crença no homem” deve vencer o ceticismo quanto a ele, Dawkins empreende seus esforços contra os religiosos tradicionais.

Outra pérola dawkinista é quando ele diz que “fica evidente que a igreja se preocupa menos em salvar os corpos das crianças e salvar a alma dos padres estupradores do inferno”. Ele também diz que o Papa teria acusado os ateus pelo genocídio hitlerista para distrair a mídia “da sodomia com os garotos”. O grande problema é que Dawkins, pelo contrário, é aquele que tenta distrair a mídia da “sodomia com os garotos” praticadas pelas outras profissões, inclusive os professores. Aliás, até hoje nunca vi um neo ateu denunciar os estupros de crianças cometidas por soldados representando a ONU. Uma frase de efeito para rebater Dawkins poderia ser: “Católicos, islâmicos, judeus e ateus se preocupam com todos os casos de pedofilia. Neo ateus, ao contrário, só denunciam a pedofilia se for na Igreja. Neo ateus: ignorando os direitos humanos das crianças”. Esta é uma sugestão de banner para a guerra política.

Dawkins conclui fazendo o jogo político de forma mais explícita (embora ele tenha feito isso em toda sua vida), aplicando o jogo de rótulos, implementando-os de forma política ao Papa:

  • inimigo dos homossexuais. O que é uma sandice, pois o Papa somente considera o homossexualismo “errado” ou “um pecado”. Ora, segundo isso, Dawkins seria um “inimigo dos religiosos” por considerar a religião errada? Mas não é ele que diz que discorda das idéias e não das pessoas, portanto não poderia ser um “inimigo dos religiosos”?
  • inimigo das mulheres. Motivo: por que ele as “barraria ao sacerdócio”. Mas se a religião é algo ruim, segundo Dawkins, o Papa não estaria poupando as mulheres? Aliás, se a vida no sacerdócio exige o celibato, misturar homens e mulheres não seria um empecilho?
  • inimigo da verdade (por causa de uma suposta “mentira sobre preservativos que não protegeriam da AIDS”).
  • inimigo dos pobres (por que condenou eles a “ter famílias numerosas”). Segundo Dawkins, isso contrastaria com a “obscena riqueza do Vaticano”, esquecendo-se da “obscena riqueza” da Royal Society, da qual ele faz parte.
  • inimigo da ciência, por causa da oposição à pesquisa com células tronco, como se a ciência se resumisse a pesquisas com células tronco.
  • inimigo da educação, mas ele não disse o motivo. Só lançou o rótulo e deixou-o no ar.

Essa sequência final de declarações, enfim, comprova tudo o que este blog tem afirmado sobre o neo ateísmo. Não é uma ideologia séria, mas uma simulação de ideologia que serve para o jogo político mais sujo, dentro de um contexto que defino como “luta na lama” (farei um verbete para isso no glossário do Ceticismo Político e a Dinâmica Social da Guerra Política). A idéia dele é baixar o nível e implementar um show de mentiras, fazer o jogo de rótulos e capitalizar, e, com a descida de nível tão grande, esperar que o adversário de cale diante de tamanha torpeza, pensando “não vou me rebaixar a este nível”. Que alguns ainda não tenham se apercebido de que o neo ateísmo se resume a isso e nada mais, é algo que me surpreende.

A dica é: percam todo o respeito por Richard Dawkins. Tratem ele e a qualquer um de seus leitores como pessoas que não merecem ser respeitadas. Ao invés de debater com eles, façam o jogo de rótulos contra eles. Esta é a regra do jogo, definida por Dawkins. O menor debate respeitoso é sinônimo de fracasso, pois as regras são completamente diferentes para ele. A sequência de seis tentativas seguidas de implementações de rótulos negativos, totalmente desavergonhadas, nos habilita moralmente a jogar contra ele e sua turma. Ele não está aí para debater, mas para jogar. Ora, joguem com ele também.

Anúncios

5 COMMENTS

  1. Sinceramente e, sem ofensas nobre Luciano, por suas atitudes e palavras, você está mais “próximo” de Deus do que muitos autointitulados cristãos.A Falibilidade humana é um fato material, eu busco a “do outro lado”, afinal de contas, na simbologia cristã, A NOVA JERUSALÉM DESCE DO CÉU, NÃO EMERGE DA TERRA.

  2. Não precisa publicar este comentário, Luciano.

    Você já viu este video do militante ateu Yuri Grecco?

    http://www.youtube.com/watch?v=SaF-eIZlKPA&list=UUJytc3hCsSZly-49PsXvDTw&index=1&feature=plcp

    O sujeito faz uma SALADA de conceitos e demonstra de vez sua face totalitária, marca irretoquível de todo neo ateu.

    Preste atenção quando ele afirma ser intolerante, não com a religião em si, mas com as “práticas religiosas”, e logo em seguida afirma que 99,9% das religiões possuem atitudes que justificam sua intolerancia para com a religião (uma contradição).

    Na verdade ele usou algum fundo de verdade e ética em seu discurso com o intuito de dar vazão à sua intolerancia com os religiosos.

    No final do vídeo, já justificado de sua intolerancia religiosa em sua militancia ateistica, ele promete com isso remodelar a sociedade arvorando para si autoridade moral suficiente para fazer valer suas atitudes.

    Em suma, um discurso revolucionário.

    Tudo isso confirma o que você escreve em seu blog.

  3. Peraí… O Papa nunca cometeria a idiotice de igualar ateus a nazistas.

    O discurso está aqui: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2010/september/documents/hf_ben-xvi_spe_20100916_incontro-autorita_po.html

    O trecho da suposta associação é esse aqui:

    “Também na nossa época podemos recordar como a Grã-Bretanha e os seus chefes se opuseram a uma tirania nazista que tinha no ânimo desenraizar Deus da sociedade e negava a muitos a nossa comum humanidade, sobretudo aos judeus, que eram considerados como não dignos de viver. Além disso, desejo recordar a atitude do regime em relação aos pastores cristãos e aos religiosos que proclamaram a verdade no amor; opuseram-se aos nazistas e pagaram com a própria vida a sua oposição. Enquanto reflectimos sobre os motes do extremismo ateu do século XX, jamais podemos esquecer como a exclusão de Deus, da religião e da virtude da vida pública conduz em última análise a uma visão incompleta do homem e da sociedade, e portanto a «uma visão redutiva da pessoa e do seu destino» (Caritas in veritate, 29).”

    O Papa apenas afirmou que a ideologia nazista tinha uma forte tendência ateísta, e que o ateísmo reduz a importância da vida humana.

    Daí se conclui logicamente: se algo perde importância, sua eliminação torna-se muito mais aceitável moralmente.

    Não consigo como enxergar esse discurso como uma “falácia do Papa”.

    • Bem lembrado. Realmente, eu falhei em não ter checado a alegação original. Como sempre, os neo ateus praticaram mais uma mentira. Abs, LH.

Deixe uma resposta