Explorando a auto-validação simulada da alegação adversária na guerra política

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Quero lhes falar de um método que surgiu após um questionamento que fiz esta semana a um internauta neo ateu. O método é tão eficiente que optei por dar-lhe um nome, até certo ponto complexo: auto-validação simulada da alegação adversária.

De antemão, ressaldo que o método não irá funcionar em campanhas abertas, como a criação de um videoblog ou um banner. Sua funcionalidade limita-se aos debates “fechados”, ou seja, aqueles nos quais você está interagindo com uma outra parte, adversária, seja em uma comunidade do Orkut ou em um palco.

Esta técnica deve ser utilizada imediatamente após o seu adversário tentar se auto-rotular como “cético, questionador das próprias idéias”. Com este rótulo, ele tentará cravar na mente da patuléia a idéia de que ele já se auto-questiona, e portanto assim convencer o público de que as idéias dele são mais válidas que as da outra parte.

Pois bem. Imediatamente após o seu adversário tentar se auto-rotular como “questionador de si próprio”, mapeie a ideologia que o outro possui, e “pesque” algum erro ou fraude intelectual grave de algum autor do lado dele. Em seguida, transcreva a declaração desta parte e pergunte ao adversário: “onde está o erro?”

Em resumo, ao mesmo tempo em que ouve a alegação do adversário de que ele “se auto-questiona”, você pede, então, que ele faça uma análise de uma declaração falha e/ou fraudulenta de um autor que estaria do mesmo lado político que ele.

Em termos práticos, um exemplo que posso lhes narrar foi quando eu questionei a um neo ateu empolgado: “Richard Dawkins disse que Hitler é católico, pois ele nasceu católico, e jamais negou formalmente o batismo. Qual o erro?”. A resposta dele: “Eu não vejo erro algum”.

Entretanto a fraude pode ser facilmente mapeada em uma análise do silogismo:

  • (p1) Católicos são aqueles que são batizados no catolicismo
  • (p2) Para deixar de ser católico, é preciso renegar formalmente o batismo
  • (p3) Hitler nasceu como católico, foi batizado, e jamais renegou o batismo
  • (c) Logo, Hitler era católico

Note que (p1) é uma premisa dúbia, ao passo que (p2) é uma fraude completa, pois há vários casos de alguém que se torna um ateu sem negar formalmente seu batismo. Aliás, negar formalmente o batismo só pode ser importante para um neo ateu, mas é algo totalmente inútil para um ateu tradicional. Assim, a premissa (p2) é falsa, o que não dá sustentação ao argumento de Dawkins, o qual pode ser denunciado como uma fraude completa.

Sim, eu sei que Dawkins é fraudulento, e este blog sempre apontou isso. O problema é que nesta técnica aqui apresentada eu estou “forçando” o adversário a identificar o erro de Dawkins. E, se ele não fizer, terá que aguentar o fato de que de “cético imparcial” (geralmente ele tentará essa alegação) ele não possui nada.

Enfim, por que a técnica se chama “auto-validação simulada da parte adversária”?

Isso ocorre por que na guerra política o outro lado não vai reconhecer estar errado, muito menos quando este erro vem de um de seus líderes. Essa suspeita justifica o uso da técnica por si só. Como eu suspeito que ele não vai achar o erro contido na afirmação de alguém ao seu lado, eu o questionarei simulando um suposto interesse pela resposta – que na maioria dos casos eu já saberei de antemão qual é. Quando o outro lado não encontra um erro que lá está, é o momento em que ele caiu na armadilha, e enfim terá que aceitar o fato de que ele “não é cético em relação aos seus”.

O efeito desta técnica é causar um impacto moral na outra parte. Particularmente, eu achei muito divertido usá-la. A diversão, naturalmente, vai ocorrer em maior quantidade se o adversário estiver muito apegado ao rótulo “cético, que se auto-questiona”.

Um cuidado adicional fica pelo fato de que às vezes (é um caso raro, diga-se) a outra parte poderá identificar o erro, e a partir daí não há mais o que você fazer. Neste caso, você pode realizar novos testes, conforme sua conveniência ou interesse.

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2 COMMENTS

    • Seja bem vindo Luís, mas eu não vejo um caráter político e religioso no ateísmo, somente no neo ateísmo (humanismo extremo).

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