Da arrogância do bom mocismo: o que Lars Von Trier e sua obra-prima “Dogville” tem a nos dizer?

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Foi um lapso imperdoável. Somente agora fui assistir a “Dogville”, de Lars Von Trier, 9 anos após o seu lançamento. Pelo menos, esse lapso agora está corrigido. (Atenção: após o terceiro parágrafo ocorrerão “spoilers”, enquanto que nos primeiros apenas falarei de uma sinopse que pode ser vista em qualquer site)

O filme não possui um cenário no estilo tradicional. As casas, por exemplo, são representadas por riscos no chão. Em certos momentos, “Dogville” lembra uma longa peça teatral filmada (são 171 minutos, ao todo). O elenco primoroso (que também inclui Paul Bettany, Lauren Bacall, James Caan, Philip Baker Hall, Chloe Sevigny, Stellan Skarsgård e Ben Gazzara) tem como “lead” Nicole Kidman, interpretando o papel de Grace, uma fugitiva (e, no início não sabemos do que ela está fugindo) que aparece em uma pequena cidade do Colorado chamada Dogville, praticamente um vilarejo com algumas dezenas de habitantes.

Tom (Bettany) é um sujeito que, entre outras atividades, faz o papel de “filósofo” do local, sempre tentando elaborar teses sobre o comportamento humano e a moral. Ele se torna o protetor de Grace e apresenta-a numa reunião de moradores. Estes aceitam um acordo no qual terão duas semanas para aprovar a permanência de Grace na cidade, e em troca disso ela terá que realizar alguns serviços para a população. Se o pessoal gostar dos serviços, ela fica.

Tudo começa a ir muito bem, não fosse o fato de que semanas depois a polícia aparece atrás da moça, e então o “poder de barganha” do pessoal da cidade aumenta. Os simples serviços de Clare passam a não ser mais suficientes, e ela passa a ser obrigada a trabalhar dobrado e receber menos. Ou é isso ou então surgem as ameaças de que, se ela se negar, a polícia será chamada. É quando a cruel natureza humana se revela e, enquanto Clare se mostra compassiva e crente em que os habitantes da cidade lhe tratarão de forma justa, o que acontece é exatamente o oposto, e de forma previsível as pessoas de Dogville passam a se aproveitar dela das maneiras mais sórdidas possíveis. Por exemplo, Clare adquire um apreço absurdo por suas bonecas de cerâmica, e é obrigada a vê-las sendo todas quebradas à sua frente somente por denunciar o marido de uma moradora, o qual transou com ela de forma não consensual. Novamente, a lógica é clara: se ele é o habitante local, e Clare a visitante fugitiva, não é muito difícil fazer Clare ser percebida como culpada mesmo que ela fosse vítima de praticamente um estupro.

A vileza contra Clare segue aumentando a cada minuto, especialmente após a primeira hora de projeção. A catarse virá ao final, e ela terá a chance de se confrontar com algo que, a meu ver, é o ponto alto da abordagem de Lars Von Trier. Em uma conversa com o pai (um gângster), ela é chamada de arrogante, pois, ao sempre ver uma pureza nos outros (onde esta pureza não existe) e ser capaz de perdoar qualquer torpeza (independente do que seja), ela acabou sendo alguém “de salto alto”, achando-se melhor que os demais humanos, esquecendo-se de sua própria humanidade, e, com isso, demonstrando aos outros que a mensagem era “por favor, façam mais”. Ao menos, Clare tem seu despertar, e, mesmo que alguns possam até considerar sua reação final extremamente violenta e extremada, pode-se notar que o filme conclui com ela basicamente reconhecendo sua humanidade.

O ponto em comum visto em todos os filmes de Von Trier é a noção de que o ser humano é torpe por natureza, e capaz das maiores baixezas possíveis quando surgem oportunidades para isso – não é diferente de uma visão realista do mundo, como pode ser vista em autores como Arthur Schopenhauer e John Gray. A certo momento, o cachorro do vilarejo aparece como aquele a “ser poupado”, o que faria a alegria de um Schopenhauer, que sempre considerou o homem em uma escala inferior aos cães.  Em “Dogville”, por sua vez, o diretor dá um passo além, e denuncia algo que defino como “arrogância do bom mocismo”. Se Olavo de Carvalho definiu um comportamento como sendo o do maquiador do crime, aqui eu defino algo que expande esse modus operandi: o patrocinador do crime. Se o maquiador do crime, é alguém omisso, que nada faz perante às vilezas, o patrocinador do crime, por sua arrogância de tentar convencer a si próprio de que ele é um “bom moço” praticamente “pede” que o crime seja ampliado a níveis estratosféricos.

Quando escrevi o texto “O esmagamento mental como arma para a conscientização conservadora”, muitos podem ter achado que eu passei dos limites. Entretanto, olhando para a conivência ao crime como se fosse a arrogância do bom mocismo, noto que esse puxão de orelha (o esmagamento mental) não é demasiado.

Em resumo, a arrogância do bom mocismo pode ser definida como uma espécie de neurose no qual a pessoa se acha superior aos demais seres humanos, e portanto tenta convencer a si própria de que é capaz de perdoar absolutamente tudo que os outros fizerem, independente do quão indignas sejam essas atitudes. Ao mesmo tempo, a pessoa começa a propagar em público a noção de como é “superior” aos outros ao fazer isso – é aí que visualizamos a arrogância com mais força. Este comportamento, naturalmente, transmite uma mensagem, de forma sub-comunicada, aos agressores: “Por favor façam mais”. Essa mensagem é compreendida, assimilada e internalizada, e os ataques começam a aumentar, algo como se fosse um teste de resistência. Essa é a forma pela qual a arrogância do bom mocismo pode se tornar um fator importante para a incitação ao aumento dos crimes, motivo que me faz defini-la como uma das formas pela qual alguém pode se tornar um patrocinador do crime.

Muitas vezes, alguém infectado pela arrogância do bom mocismo tende a achar que os outros é que são arrogantes, ao se defenderem. Entretanto se defender é uma atitude naturalmente humana, ao passo que se colocar num pedestal (que na verdade não passa de uma mera fantasia) onde se está em uma posição capaz de redimir os pecados de todos por uma “compreensão superior” é o que poderíamos definir como a real arrogância. É uma arrogância perigosa e que deve ser combatida.

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4 COMMENTS

      • Imagino que possa gostar, já que o filme tem ótimos momentos com ênfase na dialética.
        E se puderes fazer algumas resenhas e até aplicações de alguns trechos seria ótimo, já que você faz isso de forma clara e concisa.

        Um abraço e parabéns pelo blog.

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