Briga de lama Pt. 1: Como tratar esta questão vital para a guerra política?

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Há um termo que uso para definir um contexto da guerra política que muitas vezes alguns acham de difícil mapeamento e contenção dentro da guerra assimétrica, mas que, com uma boa dose de estratégia, pode se tornar algo gerenciável. O termo é briga de lama.

Antes, vamos ao que significa briga de lama: imagine a seguinte situação onde dois debatedores estejam disputando um argumento em um palanque, ambos elegantemente vestidos, lutando para parecerem senhores de respeito perante o público. Entretanto, o debatedor 2 resolve humilhar de forma totalmente torpe o debatedor 1, e para isso contrata uma pessoa para entrar no recinto e jogar uma porção de lama sobre o debatedor 1. Este fica envergonhado, e todos passam a rir dele. Como o debatedor 2 está limpo, sem direta associação com o agressor, ele fica ileso, ao passo que o debatedor 1 está sujo e envergonhado. Enquanto o debatedor 1 sai do recinto, cheio de vergonha, o debatedor 2 pode se considerar vitorioso.

Uma forma de se reverter este ataque seria demonstrar que o debatedor 2 patrocinou a baixaria, mas em muitos casos isso leva tempo. E a platéia dificilmente irá escutá-lo. Uma reversão adequada, no entanto, seria um revide, no qual o debatedor 1 tivesse alguém contratado à espreita, e, ao menor sinal de ataque contra ele, que o seu aliado também jogasse uma porção de lama no debatedor 2 também. Se ele fosse acusado de “revide”, bastaria dizer que há um costume, até condenável, de pessoas jogarem lama em debatedores na região.

O conceito de briga de lama resolve um problema teórico da guerra política, no qual a parte beneficiária no debate não pode se sujar, mas seus grupos de suporte sim. Se no texto “A Arte da Guerra Política”, David Horowitz nos ensina que o líder de frente não pode se encarregar do trabalho sujo, algumas pessoas podem fazer o trabalho sujo por ele. Sendo assim, o trabalho sujo passa a ser parte da guerra política. Basta estruturá-lo.

Quando vemos gayzistas e neo ateus, sabemos que esses dois grupos são funcionais para a ação da esquerda, mas dificilmente eles se definem como “agentes da esquerda”. Quando eles fazem isso (e Jean Wyllys comete este equívoco político vez por outra), estão associando todas as baixarias de seu grupo aos beneficiários. O melhor, para quem atua com briga de lama, é não estar associado oficialmente ao grupo que será beneficiado.
É exatamente por isso que muitos gayzistas hoje estão arrumando ate pastores “fake”, para evitarem uma associação direta com a esquerda, assim como muitos neo ateus dizem que “não são de esquerda, nem de direita” (como se isso fosse possível), para facilitar a “desassociação” em relação aos seus beneficiários. Eles estão apenas executando uma estratégia, que até agora tem funcionado muito bem.

A forma de se revidar é estabelecer grupos que façam brigas de lama também. Dessa forma, grupos de revide ao neo ateísmo deveriam evitar associações diretas com a direita, ao menos de maneira formal. O partidarismo deve ser evitado como se foge do diabo da cruz. Com isso, os ataques podem ser feitos à outra parte através de uma artilharia de debate político pesada e furiosa, sem o impacto direto aos políticos da direita (que hoje, no Brasil, praticamente inexistem). Se o outro lado clamar por associação, basta dizer que são “teóricos da conspiração”.

O potencial de desmoralização obtido pelos adeptos da briga de lama é enorme, pois o lado agredido tende a sofrer humilhações fortíssimas que dificilmente os beneficiários diretos da ação conseguiriam fazer sem se sujar. Quando Dawkins age como os nazistas que propagavam ódio aos judeus (enquanto ele amplia isso para todos os religiosos tradicionais), ele não vai querer que esta campanha de ódio esteja associada ao Barack Obama, por exemplo. Entretanto, Obama vai ganhar politicamente se os religiosos estiverem desmoralizados e humilhados, e é aí que Richard Dawkins gera frutos para a esquerda com sua briga de lama.

A única forma de revidar o ataque é atacá-los no mesmo nível, impondo ao grupo rival o mesmo grau de humilhação que eles tentam implantar aos seus adversários. Mas, seguindo a lógica do combate político, os líderes da direita não podem estar associados a este ataque.

Em resumo, os pontos para se adentrar ao território da briga na lama são:

  • Definir um grupo coeso, com uma forma unificada de ataque ao adversário
  • Especialize-se nesta forma de ataque, criando um arsenal de ataques, banners, vídeos, frases de impacto e acusações – escolha um adversário específico, e não vários
  • Não realizar associação direta ao grupo partidário (direita ou esquerda) que se está apoiando, e negar a associação, caso seja acusado dela
  • Ridicularizar e atacar ao máximo o lado adversário, sem dó nem piedade, e nem limites – lembre-se, você não está associado oficialmente a um grupo político
  • Quanto mais humilhado e envergonhado ficar o lado adversário, melhor

O sucesso desta empreitada poderá ser observado na perda de credibilidade do lado adversário, sem associação direta e nem imputação de culpa ao lado partidário da discussão (e, se existir qualquer acusação de associação feita pelo outro lado, ela pode ser facilmente negada, com o acusador sendo chamado de “paranóico”).

Muitos poderiam pensar que este blog faz briga de lama, mas isso não acontece. Há uma certa metodologia apresentada aqui, e algumas acusações são fortemente embasadas. Também não faço vídeos com xingamentos, sátiras humilhantes dos adversários e nem saio brigando por aí.

Entretanto, o método apresentado aqui é uma opção para ataques ao lado adversário, de uma forma extremamente eficiente e que dá resultados. Se você duvida, basta observar as capitalizações que a esquerda tem recebido a partir dos ataques feitos pelos neo ateus, mesmo que estes jamais tenham declarado sua associação oficial com os esquerdistas, e, pelo contrário, esta associação é negada.

É por isso que concordo com David Horowitz. Política é uma arte, não uma ciência.

(Na próxima parte darei as dicas centrais, detalhadas, de como estabelecer os grupos para praticar a briga na lama, incluindo técnicas para evitar associações diretas)

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10 COMMENTS

  1. Luciano, quais são, na sua opinião, as principais subdivisões ideológicas da esquerda hoje (por exemplo, neo-ateísmo, feminismo, gayzismo, etc.) e quais as principais fontes online (incluindo desde já, obviamente, o seu site como fonte) para quem quer refutar cada um dos truques praticados pelos esquerdistas nessas áreas?

  2. LH, OFF-TOPIC:

    http://obrasileouniverso.blogspot.com.br/2012/07/voce-sabe-matar-um-branquelo-hein-o.html

    É um texto fundamental, necessário, para assinar embaixo e aplaudir de pé. Acho que você vai gostar.

    Interessante notar que as coisas que você vem escrevendo aqui encontram ressonância em outros autores, o que é normal; porém, você vem sistematizando as ideias, dando-as corpo, forma, nomenclatura, classificação. Não sei se você percebeu: você vem “aristotelizando”, em certo sentido, a massa crítica teorética à disposição do conservadorismo, e acrescentando conteúdo novo, trazido de leituras pouco usuais. Já pensou em dar acabamento final a isso tudo e transformar em livro?

    Abraço!

    • O problema do Diagrama de Nolan (que pode até ser divertido na hora de preencher) é que ele não faz as perguntas corretas. Outro problema é que ignora que em alguns dilemas não há caminho do meio. A metodologia pelo qual é até possível chegar a uma posição de “meio” no Diagrama é falha por ignorar estes dilemas.

      Exemplo: não há alguém ateu e teísta ao mesmo tempo, ou alguém que não é nem ateu e nem teísta. Alguns poderiam dizer “há o agnostico”, mas ainda assim a pessoa pode ser agnóstico ateu ou agnóstico teísta.

      Da mesma forma é a crença no homem, ou alguém crê no homem ou não crê, e não há uma resposta no meio do caminho.

      Ao acreditar em um estado inexistente (ao invés de enxuto), o libertário tem a mesma crença no homem que o esquerdista, mas acaba adotando alguns posicionamentos de direita no meio, o que o tornaria um esquerdista moderado, pois na pergunta essencial ele dá a resposta que o posiciona à “esquerda”.

      • Sinceramente, não entendo por que você diz que o libertário crê no homem, e o direitista não. Alguém que crê que o estado – “a grande ficção através da qual todo mundo se esforça para viver às custas de todo mundo”, como definiu Bastiat, e que é constituído por seres humanos – possa fazer mais bem que mau, pode ser considerado descrente no homem?

      • Arnaldo, é por isso que um conservador acredita no estado MÍNIMO, jamais no estado inchado e excessivamente interventor. O estado tem que ser MÍNIMO, pois sem estado o ser humano voltaria à era tribal. Por isso, a utopia daqueles que pregam a eliminação do estado (ao invés de sua redução) depende de que ACREDITEMOS que a espécie humana se auto-organizará para a manutenção de uma vida em sociedade.

      • Pegando carona na resposta do Luciano: o Estado seria um “mal necessário”, então é melhor que ele tenha o menor tamanho possível.

        A anarquia (ou melhor, algo muito próximo disso) só funcionou no romance “A República 3000”, do escritor brasileiro Menotti del Picchia. Detalhe crucial: os cidadãos dessa “República” não eram humanos, eram *cyborgs* 😉

      • Concordo que a anarquia seja utópica – já que nunca existiu e está longe de acontecer -, mas não podemos esquecer que ideias como a internet, a viagem ao espaço e até o fim da escravidão já foram consideradas utopias. Diferentemente do anarquismo, o estado mínimo já foi “testado”, mostrando ser um sistema de maciça criação de riqueza, porém sempre caminha a se tornar um estado inchado e totalitário, como é o caso dos EUA hoje. Ao meu ver, esse crescimento do estado está associado a ganância do ser humano – nesse caso daqueles que constituem o governo – diante de uma sociedade cada vez mais próspera e, portanto, acreditar em um estado mínimo é também acreditar no homem – que compõe o estado.

        Esse texto corrobora o meu comentário: “Por que um estado mínimo inevitavelmente leva a um estado máximo?” http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=291

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