Como se livrar do “vício” da crença no homem quando se abandona a crença em Deus

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Um leitor deste blog me questionou, via e-mail: “Certa vez você disse que quando alguém deixa de crer em Deus, a tendência é passar a crer no homem. Se você não crê no homem, isso ainda mostraria um lado teísta de sua parte?”.

Vamos então aos fatos: eu não possuo crença em Deus, mas ao mesmo tempo não possuo crença no homem, e sei que a ausência de crença em Deus aumenta bastante a probabilidade de alguém nutrir crença no homem. Sendo assim, segundo o leitor eu poderia estar me aproximando de um retorno à crença em Deus à medida que eu me distancio da crença no homem.

Sim e não. Sim, se eu não tivesse ciente de como funciona o processo de assimilação de crenças. E não, pois estou plenamente ciente desde processo, especialmente de acordo com os parâmetros da dinâmica social.

Basicamente, tente imaginar a situação de um sujeito que resolve parar de fumar, mas descobre (através de vários estudos e testemunhos com pessoas que já passaram pela mesma transição) que ao parar de fumar vai aumentar a vontade de tomar café, com grandes chances dele se tornar um viciado em café, ao invés do cigarro. Entretanto, ele já começa a se preparar para se defender do vício em café, mesmo antes de se ver livre do vício do cigarro.

O que permitirá a ele conseguir se livrar da consequência esperada é exatamente a conscientização de como funciona o processo. No caso, entender o que faz alguém se viciar tanto em cigarro como em café. E entender também por que o vício em café aumenta após o abandono do vício em cigarro. Isso seria um exemplo de conscientização.

Ora, da mesma forma podemos aplicar esta conscientização para a questão do risco do aumento da crença no homem após o abandono da crença em Deus. E vice-versa. Ei, atenção, eu não estou propondo que ninguém abandone sua crença em Deus. O que estou dizendo é que caso você seja um crente em Deus e perca essa crença, é possível que através da concientização você não seja vítima da crença no homem.

Pela conscientização a respeito de como funciona a aceitação dos religiosos políticos (funcionais) da crença no homem, dificilmente essa crença me afetará. E, desta forma, consigo dar um “bypass” no risco de abandonar a crença em Deus e assim aumentar as chances de aceitar a crença no homem.

Independentemente da minha descrença em Deus, sei que a crença no homem é muito mais ingênua e perigosa, e oriunda de um processo primitivo que tem a ver com a busca do macho alfa da tribo. Tal consciência desta fragilidade (na verdade, um subproduto evolutivo) me leva a tomar as questões da crença em Deus e a crença no homem como independentes.

É o momento em que o meu ateísmo é completamente desprendido de qualquer possibilidade de aderência à crença no homem. E gosto que a coisa siga deste jeito.

Isso me lembra uma citação do personagem John Trent no filme “In the Mouth of Madness” (de John Carpenter). Um sujeito lhe questiona: “Não é amargo viver assim? Sempre buscando fraudes. Sem ter no que acreditar”. No que Trent responde: “Talvez. Mas também não há muitas chances de eu me desapontar.”

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21 COMMENTS

  1. É, LH, o caminho que você escolheu – ou, antes, aquele que acabou se tornando para você inexorável – é para poucos.

    Mas me diga: se você não “busca o macho alfa” em nenhum ente externo, seja Deus ou Homem, busca-o então em si mesmo? Ou sente-se livre, também, da busca em si? É você próprio o macho alfa de sua tribo, ou concluiu que não há alfas, mas apenas betas mais ou menos competentes na arte de se projetar como alfa?

    • KKKKK, excelente questionamento 😀

      O Luciano que me desculpe, mas até que me provem o contrário, explicar a crença em deuses ou nos “homens bonzinhos” como um derivado da “busca pelo macho alfa” não passa de B.S. 😉

    • Por “busca do macho alfa” entendendo como “busca da autoridade moral no macho alfa”, neste caso eu confio só em mim, mais que nos outros. Mas de fato existem alfas, em vários níveis e escalas. A diferença minha é que não busco autoridade moral neles, a priori.

      • Espero que você não tenha interpretado mal o tom dos meus questionamentos, não perguntei de maneira jocosa, absolutamente. Acho que é uma reflexão bastante profunda, até. Eu entendi perfeitamente o sentido da expressão “busca pelo macho alfa”, e acho que faz todo o sentido, dentro da lógica do darwinismo, entender essa busca como um subproduto da evolução da psique humana como um elemento de sua aptidão para sobreviver.

        Só acho – e não sei se nesse ponto eu discordo de você ou se entendi errado – que limitar a “procura do alfa” ao aspecto da autoridade moral não é o mais correto. A depender do contexto (e há uma enormidade de variáveis aí), busca-se um alfa porque ele significa não apenas um modelo de moralidade, mas um garantidor da sobrevivência, de ganhos materiais/financeiros, um ponto de reconforto emocional, um facilitador de algo que se queira ou que se precise.

        Ex: conheço pessoalmente o Mysthery e, ato-contínuo, “colo na dele”, a ponto de seguir todos os pequenos conselhos que ele me der antes de ir a uma boate, inclusive o vestuário extravagante (coisa que, normalmente, eu abominaria). Não acho que ele tenha qualquer autoridade moral mas, se quero ir pra night e “pegar geral”, ele é meu capitão e eu sou seu tenente. Entendeu o ponto? Não sei se fui claro.

        Então, na sua resposta à minha pergunta, entendi que você é seu próprio macho alfa, ou seja, você é o alfa. A pessoa que você conhece que mais aumenta seu valor de sobrevivência (latu sensu) é você mesmo. Confere? E isso funciona assim no quesito autoridade moral. Só nesse ou em outros?

        Minhas perguntas são sinceras, sem o intuito de criar qualquer tipo de saia justa.

        Abraços!

      • Thiago,

        Eu entendo seu questionamento, e mesmo que fosse um questionamento para “criar saia justa”, eu respeitaria, pois isso ajudaria a que eu tratasse uma objeção, o que tornaria meu método cada vez mais robusto. Portanto, não fiquei chateado, de forma alguma.

        Olha.. confesso que nunca tinha pensado na perspectiva do macho alfa de forma tão abrangente, mas a sua abordagem é bem interessante.

        O macho alfa poderia ser visto em vários aspectos, pelo que entendi, inclusive no quesito argumentativo, filosófico, certo? Logo, alguém em que eu confie para solidificar minhas idéias seria um alfa. Aí, Dawkins seria um alfa para a maioria dos leitores da ATEA, pois estes seguem o que o líder diz, ao invés de criar novos argumentos. Nesse caso, sendo um processo natural, aí sim eu deixaria de buscar o alfa nos outros, por ser meu próprio macho alfa, tanto que criei métodos para resolver problemas, mesmo que eu tenha utilizado inspirações de outros autores do passado e presente (ex. Amhart, Hume, Kirk, Olavo, Gray, Schopenhauer, etc.).

        Portanto, confere. Obrigado pelo bom questionamento.

        Abs,

        LH

  2. É possível alguém manter a crença em deus e também no homem, não é?
    Como no caso da Teologia da Libertação, por exemplo… que junta Cristianismo com Humanismo/Marxismo…

  3. Bastante interessante sua posição, mas considero a “religião tradicional” tão tóxica e nociva quanto à “crença no homem”. Veja como os religiosos no Ocidente conseguiram apoio histérico das populações à essas guerras no Oriente Médio com a criação de alguns chavões do tipo chiclete ( temos que proteger a civilização Judaico-Cristã dos terroristas, etc ) depois de executar um show em 11 de setembro de 2001 e várias campanhas de propaganda ao longo do tempo. É tudo um circo. O fato é que se você não consegue confiar em si mesmo, será sempre um idiota útil, seja de sacerdotes ou de revolucionários “heróis do povo”.

    Diga-se de passagem, a administração Obama já declarou o fim da “War on Terror” ( Guerra ao terror ). Então que diabos o Ocidente está fazendo na Síria, armando os “rebeldes” Al-Qaeda ( AL-CIAda ) que ontem eram o inimigo e o Demônio ? Será que com o Iraque, o Afeganistão e a Síria bombardeados de volta à Idade da Pedra os nossos delicados Judaico-Cristãos aqui finalmente se sentirão mais seguros e protegidinhos ?

    Sim, facilmente dispensável “Teoria da Conspiração”.

    • Henrique, seu argumento sobre a religião tradicional ser tão tóxica quanto a “crença no homem” não se sustenta. Vou dar um exemplo. Suponha que você revele suas senhas de banco para um Deus inexistente. Agora suponha que você revele suas senhas para uma outra pessoa. Qual é a situação mais perigosa? Sacou por que não é possível que a religião tradicional seja tão perigosa quanto a “crença no homem”?

      Sua tentativa se baseia em “igualar” tudo para que a crença no homem não pareça tão perigosa, mas não há ideologia mais nociva que a religião política.

      • Mas, e se minha crença na religião tradicional porventura me leva a revelar minhas senhas de banco não para um deus, mas pra um líder ou uma instituição religiosa, sendo eu levado a considerá-los “representantes de deus”, “totalmente dignos de confiança” e “acima dos seres humanos comuns” por tal crença? XD

        Será que eu posso dizer que muitas crenças consideradas tradicionais (como o tele-evangelismo “deposite-nesta-conta” neopentecostal), na verdade são pregações humanistas travestidas de religiosidade tradicional, pra ludibriar pessoas desesperadas ou com pouca formação?

      • Na verdade não defendo nada além de individualismo e criticismo perante ideologias pré-fabricadas que são forçadas goela abaixo da população como as únicas possíveis, sempre enlatadas como dialética ( isto contra aquilo ). De fato as atrocidades de Esquerda e seus heróis-tiranos num passado recente ( Hitler incluso ) foram colossais, porém deixa-se de considerar o que foi realizado por sacerdotes durante milênios – no México Asteca sacrificava-se uma criança por dia para que o sol brilhasse no dia seguinte, rituais similares foram praticados em várias áreas do mundo antigo, dentre muitos outros – mas como é distante, esquecemos. Mesmo o Cristianismo, religião de cunho universalista e face dócil, gerou ( ou inspirou ) eventos como Inquisições, caça às bruxas, mercantilização de indulgências e similares. Não questiono o MÉRITO dos valores que religiões pregam, pois são belos e edificantes ( se não fosem não haveria fiéis ); mas sim o fato de que frequentemente se esquece que uma Igreja ou seita é administrada por homens, mantida com dinheiro ( seja doado diretamente ou angariado de formas mais sutis ) e precisa de uma face secular consideravelmente reconhecível.
        Enfim, homens com poder, você vê, e dinheiro. SInto um pouco de desonestidade intelectual em eruditos que não se desvencilham do apelo religioso, e essa nova moda ( novo enlatado ) de berrar “Judaico-Cristão” diante de qualquer argumento contrário, por exemplo, me dá náuseas. É isso.

      • porém deixa-se de considerar o que foi realizado por sacerdotes durante milênios – no México Asteca sacrificava-se uma criança por dia para que o sol brilhasse no dia seguinte, rituais similares foram praticados em várias áreas do mundo antigo, dentre muitos outros – mas como é distante, esquecemos. Mesmo o Cristianismo, religião de cunho universalista e face dócil, gerou ( ou inspirou ) eventos como Inquisições, caça às bruxas, mercantilização de indulgências e similares. Não questiono o MÉRITO dos valores que religiões pregam, pois são belos e edificantes ( se não fosem não haveria fiéis ); mas sim o fato de que frequentemente se esquece que uma Igreja ou seita é administrada por homens, mantida com dinheiro ( seja doado diretamente ou angariado de formas mais sutis ) e precisa de uma face secular consideravelmente reconhecível. Enfim, homens com poder, você vê, e dinheiro. SInto um pouco de desonestidade intelectual em eruditos que não se desvencilham do apelo religioso, e essa nova moda ( novo enlatado ) de berrar “Judaico-Cristão” diante de qualquer argumento contrário, por exemplo, me dá náuseas. É isso.

        Henrique, o que acontece é que assim como existem esquerdistas que se especializaram em criticar a religião, alguns da direita se especializaram em criticar a esquerda. As denúncias de crimes cometidos na época da Inquisição já tem o seu nicho de mercado e são feitas pelos inimigos da religião. Havia um “nicho” faltando, que eram os críticos da esquerda, e estes agora denunciam os crimes da esquerda. Isto é guerra política.

        Aliás, eu não sou religioso tradicional, e não nego que atrocidades possam ser feitas em nome da religião, a questão é que para fazê-lo, alguém precisa ADAPTAR a religião para funcionar a seu favor. Já no esquerdismo, o discurso JÁ É FEITO para gerar o poder totalitário, por isso não requer adaptação alguma. É neste ponto que reconheço o esquerdismo como muito mais perigoso que o pensamento de direita, assim como a crença no homem muito mais perigosa que a crença em Deus.

        É possível, de fato, citar as atrocidades cometidas por líderes da religião tradicional no passado, mas estas atrocidades poderão ser facilmente apontadas como modestas perto das atrocidades dos líderes da religião política.

    • Como assim você coloca isso na conta dos religiosos? Quem faz isso é o Governo. São decisões políticas! Prove a correlação, ou será só apenas mais uma fraude pra colocar na lista do LH…

  4. Certo,temos a tendência de buscar o macho alfa da tribo.E pelo que entendi essa busca é biológica,certo?
    Mas e quem já é o alfa,como fica? Se alguém já é o alfa da tribo,então essa busca nessa pessoa desaparece?

  5. Caro Luciano, para um ateu como você, qual o problema de aceitar a hipótese da existência de Deus?Falo do ponto de vista filosófico, intelectual e moral.Porquê me expresso assim? Tentarei explicar:

    A Modernidade “matou” Deus. Nietzsche enxergou isso com clareza.O Niilismo é uma impossibilidade lógica, o Niilismo incompleto, não. Nietzsche também enxergou isso. O FATO QUE FICA É QUE O SER HUMANO É CARENTE DE SENTIDO.TIRA-SE DEUS, COLOCA-SE QUALQUER OUTRA COISA NO LUGAR.
    Voltando a minha 1ª pergunta, você, pelo que escreve, me parece um ser humano ordenado. Você, melhor do que eu, sabe que, a imensa maioria dos mortais não possuem freios morais, fora da religião. Pergunto: O QUE IMPEDE UM SER HUMANO DE PRATICAR QUALQUER BARBARIDADE,se no fim das contas, não há uma Ética Absoluta? Um Referente Absoluto? Em que se apoiar, caso se descarte a priori, a existência de Deus?

    • Esse seu questionamento resvala numa questão que surgiu no debate entre William L. Craig e Christopher Hitchens. Craig afirmou e demonstrou logicamente – para o quê Hitchens não teve resposta convincente – que, sem “Deus” (em sentido latíssimo), não haveria sentido objetivo para a vida.

      http://www.youtube.com/watch?v=z7LU-jPvNnw

      Independentemente do que se possa concluir, e respeitando a liberdade de consciência de cada um, é uma boa reflexão.

      • Aí é que está, o Hitchens tem a opinião dele. Para mim, o sentido da vida é sobrevivência. E, em segunda instância, replicação.

      • Não tinha visto o vídeo, mas, é mesmo parecido, guardada as devidas proporções(Não lia nada sobre William L. Craig , passarei a ler).
        A questão nobre Luciano, não é só de “sobrevivência”, pois se fosse, não haveria Civilização.A IDEOLOGIA POLÍTICA QUE VOCÊ COMBATE, SÓ PENSA NA SOBREVIVÊNCIA DOS CAMARADAS.PORQUE, AFINAL DE CONTAS, MORTO, NINGUÉM DESFRUTA DAS BENESSES DO PODER.
        PS. Por favor, me responda: QUAL O PROBLEMA DE ACEITAR A POSSIBILIDADE DA EXISTÊNCIA DE DEUS?

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